Para o Fogo
A noite engoliu eles inteiros.
Alina não lembrava quanto tempo eles correram. O tempo virou movimento—botas batendo no pavimento, sombras derretendo em volta deles, a picada fria da adrenalina e do medo lambendo sua coluna como gelo.
Ela seguiu Damon por um labirinto de becos e túneis embaixo da cidade. Quanto mais longe eles se moviam da sala de guerra, mais real tudo parecia. O sangue nas mãos dela. O peso da pistola enfiada na cintura. O eco do tiro ainda tocando nos ouvidos dela.
Quando finalmente pararam, foi dentro de um túnel de manutenção sujo, iluminado apenas por luzes de utilidade tremeluzentes.
Damon checou a escotilha de saída, então se virou para ela. "Estamos livres por enquanto."
Alina encostou na parede úmida, tentando recuperar o fôlego. Seus pulmões queimavam. Suas pernas doíam. Mas não era a dor física que a abalava. Era a imagem do homem que ela atirou—o rosto dele, a forma como o corpo dele caiu, a finalidade disso.
"Eu matei alguém," ela sussurrou.
Damon não falou imediatamente. Ele se abaixou ao lado dela, seus olhos fixos.
"Você se defendeu," ele disse. "Se não tivesse feito, não estaríamos tendo essa conversa."
"Eu não achava que eu tinha isso em mim."
"Você teve," ele disse. "Você tem. Você é mais forte do que pensa."
Ela olhou para ele, procurando por algo—culpa, medo, suavidade. Qualquer coisa. Mas seus olhos eram como ferro. Não frios, exatamente. Só... endurecidos.
"Eu não quero me tornar assim," ela disse. "Eu não quero parar de sentir as coisas só para poder sobreviver."
"Você não vai," ele prometeu. "É por isso que estou aqui. Para carregar a escuridão para que você não precise."
Uma risada amarga escapou por sua garganta. "Não funciona mais assim, Damon. Você me trouxe para este mundo. Não há como sair limpa."
A mandíbula dele se contraiu, mas ele não argumentou.
Em vez disso, ele enfiou a mão no casaco e tirou um celular descartável, discando um número de memória.
"Sou eu," ele disse quando alguém atendeu. "Mudança de planos. O esconderijo está comprometido. Estamos indo para o plano B."
Uma pausa.
"Eu não me importo quanto tempo leva. Limpe a rota e certifique-se de que não estamos sendo seguidos."
Ele desligou e se virou para ela. "Não podemos voltar para a cobertura. Adrian sabe demais. Não é seguro."
Alina assentiu, ainda recuperando o fôlego. "Para onde estamos indo?"
"Para alguém em quem eu confio."
Ela levantou uma sobrancelha. "Você não confia em muitas pessoas."
"É por isso que essa pessoa ainda está viva."
Duas horas depois, depois de percorrer túneis subterrâneos, trocar de carro duas vezes e trocar de roupa em um posto de gasolina abandonado, eles chegaram a uma casa discreta, escondida entre duas galerias de arte no Brooklyn. Era o último lugar que alguém procuraria—uma relíquia de outra época, com hera subindo por suas paredes de tijolos e cortinas blecaute fechadas nas janelas.
Uma mulher mais velha atendeu a porta, de olhos penetrantes e cabelos grisalhos, segurando uma espingarda como se fizesse parte do seu guarda-roupa.
Ela olhou Damon de cima a baixo, então estreitou os olhos. "Você parece o inferno."
"Bom te ver também, Ruth."
Ela olhou para Alina, seu olhar cortante e curioso. "É ela a razão pela qual você ainda está respirando?"
"Em parte," ele respondeu.
"Então ela pode ficar. Você—vá tomar um banho antes de sangrar em todos os meus tapetes."
Damon deu um sorriso fraco e desapareceu escada acima.
Alina ficou parada sem jeito no saguão, suas roupas ainda úmidas do ar da noite, sangue seco sob as unhas.
Ruth se virou para ela, com olhos afiados como navalhas. "Vamos. Você não está segura até estar limpa."
Ela levou Alina para uma sala lateral—pequena, mas aconchegante. Uma toalha limpa, roupas e uma xícara fumegante de chá esperavam perto da cama.
"Você não precisa falar," Ruth disse, sua voz mais suave agora. "Mas você precisa descansar. Damon não vai parar até que a guerra acabe, mas se você se esgotar antes disso, ele vai desmoronar. Quer ele admita ou não."
Alina a encarou, surpresa com a percepção. "Você o conhece bem."
"Eu o criei," Ruth disse simplesmente. "Pelo menos, o que restou dele depois que sua família morreu."
Alina piscou. "Você foi quem o acolheu?"
Ruth assentiu, sua expressão indecifrável. "Eu tentei ensiná-lo o equilíbrio. Mas algumas feridas nunca cicatrizam. Alguns meninos se tornam lobos."
Ela tocou o ombro de Alina gentilmente. "Você? Você não é uma loba. Não deixe este mundo te transformar em uma."
Alina engoliu o nó na garganta. "Pode ser tarde demais."
Ruth balançou a cabeça. "Só se você parar de se importar."
Então ela a deixou sozinha no quarto.
Alina sentou na cama, olhando para o chá nas mãos. Pela primeira vez em uma eternidade, ela deixou as lágrimas virem. Não apenas pelo que ela fez. Mas por tudo—sua inocência perdida, as pessoas que eles perderam, a vida para a qual ela nunca poderia voltar.
Mas, por baixo de tudo, algo mais surgiu. Um lampejo de determinação. De poder.
Ela não estava apenas sobrevivendo mais.
Ela estava mudando.
Lá embaixo, Damon estava na janela, vestindo roupas limpas agora, os olhos percorrendo a rua tranquila do lado de fora. Ruth se juntou a ele sem dizer uma palavra.
"Ela é forte," Ruth disse.
"Ela não deveria precisar ser."
"Ela já é. Quer você goste ou não."
Damon assentiu lentamente. "Ele está ficando desesperado. Mandando homens atrás de mim tão abertamente? Ele está tentando me provocar."
"Então não deixe."
"Eu não posso mais esperar."
Ruth cruzou os braços. "Qual é o seu próximo passo?"
Os olhos de Damon escureceram. "Eu levo a guerra até ele."
Alina acordou com um susto.
Por um momento, ela não se lembrou onde estava. O quarto estava escuro, estranho, silencioso, exceto pelo tique-taque fraco de um velho relógio de parede e o rangido ocasional das tábuas do chão acima. Seu coração ainda estava acelerado com o sonho—não, a memória—de puxar o gatilho, do homem desabando como uma marionete com cordas cortadas.
Ela sentou na cama, o cobertor emaranhado em suas pernas, suor esfriando em sua pele. A caneca de chá que Ruth havia deixado estava fria agora, intocada.
Do lado de fora da janela, o amanhecer começava a pintar leves pinceladas de cinza e ouro no horizonte. A cidade nunca dormia de verdade, mas aqui—escondida no coração do Brooklyn—pelo menos fazia uma pausa para respirar.
Alina colocou as pernas para fora da cama, se ancorou com uma respiração profunda e entrou silenciosamente no corredor.
A casa cheirava a livros antigos, cedro e café. Ela seguiu o cheiro até a cozinha, onde Ruth já estava no fogão, virando algo em uma panela.
"Você acordou cedo," Ruth disse sem olhar para trás.
"Não dormi muito."
"Imaginei." Ruth olhou para ela então. "Tem ovos mexidos e torradas. Não muito, mas melhor que nada."
Alina assentiu, deslizando em uma cadeira na mesa da cozinha. Seu corpo doía, sua mente estava nebulosa com adrenalina e memórias, mas o calor da comida e a domesticidade comum de tudo isso a fez querer chorar.
"Como você faz isso?" ela perguntou suavemente.
"Fazer o quê?"
"Viver com isso. A violência. O medo. As coisas que você não pode desfazer."
Ruth colocou um prato na frente dela. "Não deixando isso me definir. Lembrando que eu ainda posso escolher quem eu sou—todos os dias. Mesmo quando é difícil. Especialmente então."
Alina empurrou os ovos em volta do prato. "Parece que eu cruzei uma linha invisível. Como se não houvesse volta."
"Não há," Ruth disse. "Mas há uma diferença entre cruzar uma linha e se perder. Um não precisa significar o outro."
Alina ficou quieta por um momento. "Você disse que criou Damon. Como ele era antes de… tudo isso?"
Ruth deu um meio sorriso. "Teimoso. Inteligente. Bravo. Sempre tentando proteger as pessoas, mesmo quando isso o machucava. Especialmente então."
"Isso não mudou," Alina disse suavemente.
"Não," Ruth concordou. "Mas ele está mais frio agora. Mais cuidadoso com o coração. Você entrou na armadura dele, e isso o aterroriza."
"Eu o aterrorizo?" Alina perguntou, genuinamente surpresa.
"Você faz com que ele sinta coisas que ele achou que estavam mortas. Isso é mais assustador do que qualquer arma."
Passos ecoaram pelas escadas antes que Ruth pudesse responder. Damon entrou na sala, recém-saído do banho, cabelo ainda úmido, olhos escuros já aguçados e alertas.
"Alguma notícia do seu contato?" Ruth perguntou.
Ele assentiu. "Eles encontraram movimento perto de um dos depósitos de Adrian. Pode ser uma armadilha, mas se não for—pode ser a pausa que precisamos."
Alina se levantou. "Então devemos ir."
Os olhos de Damon se voltaram para ela, avaliando. "Você tem certeza?"
Ela encontrou seu olhar sem hesitar. "Eu não cheguei tão longe para ficar de fora."
Ruth levantou uma sobrancelha. "Parece que sua garota criou dentes."
Damon permitiu um breve sorriso. "Ela sempre os teve. Ela só está aprendendo a usá-los."
Duas horas depois, eles chegaram a um depósito dilapidado perto da orla—uma das muitas fachadas que Adrian usava para esconder seus carregamentos ilegais. Damon havia escolhido uma abordagem discreta, circulando a periferia duas vezes antes de estacionar a um quarteirão de distância e liderar Alina a pé.
Ela se moveu ao lado dele em silêncio, cada passo um testemunho da mulher que ela estava se tornando.
Dentro, o depósito estava escuro, ecoando e assustador. Eles se moveram como sombras, silenciosos e alertas. Damon assumiu a liderança, varrendo cada corredor com facilidade profissional, sua arma levantada.
No centro do depósito, sob uma claraboia empoeirada, eles encontraram.
Um caixote trancado. Marcado com uma insígnia que Damon reconheceu instantaneamente—a empresa offshore de Adrian. Uma empresa usada para contrabandear drogas e documentos.
Ele abriu a fechadura em segundos. Dentro, havia discos rígidos. Arquivos. Fotos.
Evidência.
Jackpot.
Mas assim que ele os alcançou—
Clique.
O som de um martelo puxado para trás ecoou como um trovão na quietude.
Três homens saíram das sombras. Armas levantadas. Rostos sombrios.
Damon se moveu instintivamente, empurrando Alina para trás dele e mirando para frente. "Saiam daqui."
Um dos homens riu. "Acha que só você tem um plano, Cross?"
Antes que outra palavra fosse dita, um tiro disparou—não de Damon, não dos homens.
Um deles caiu instantaneamente, uma bala no olho.
O caos explodiu.
Damon revidou, protegendo-se atrás de uma viga de suporte. Alina se abaixou, adrenalina voltando com força total. Outro homem caiu—mas Damon grunhiu, cambaleando para trás. Sangue floresceu em seu lado.
"Damon!" Alina gritou, arrastando-o para fora da linha de fogo.
"Eu estou bem," ele rosnou, mordendo a dor. "Só um arranhão."
Eles correram para trás de um contêiner enferrujado, balas pingando no metal como uma chuva de granizo. Então, tão de repente quanto começou—silêncio.
Quando Alina espiou, o último homem havia sumido.
Damon se levantou, agarrando seu lado. "Nós precisamos daqueles discos."
Ela não hesitou. Juntos, eles pegaram tudo o que puderam e fugiram, desaparecendo na cidade mais uma vez—ensanguentados, mas vivos.
Enquanto eles desapareciam na névoa da manhã, Alina olhou para o rosto manchado de sangue de Damon e percebeu algo aterrorizante:
Eles estavam muito a fundo agora.
E a guerra estava longe de terminar.