Sussurros em Limassol
O sol mediterrâneo nasceu sobre Chipre com uma serenidade enganosa, lançando tons dourados sobre a cidade portuária de Limassol. As ondas batiam suavemente contra as docas, os pescadores içavam a pesca da manhã, e o ar zumbia com a promessa de um novo dia. Mas por baixo da calma de postal, uma tempestade se formava.
Victor Knight estava aqui.
Alina ajustou os óculos de sol quando entrou no terraço da casa segura que eles alugaram nos arredores da cidade. Era uma villa modesta, escondida entre olivais, discreta por fora - mas por dentro, estava equipada com cada pedaço de tecnologia de vigilância que Roman conseguia colocar as mãos.
Ela tomou um gole de café amargo e examinou a rua abaixo. Os moradores locais se movimentavam entre mercados e cafés, alheios ao fato de que um predador havia se infiltrado no meio deles.
"Você não dormiu", disse Damon atrás dela.
Ela olhou por cima do ombro. Ele estava sem camisa, com uma toalha pendurada no pescoço, cabelo úmido do banho. Havia algo chocante em vê-lo assim - tão normal - quando ela sabia o que ele faria se Victor aparecesse hoje. O que eles fariam.
"Eu não consegui", Alina admitiu. "Minha mente continuava revendo a noite passada. O que perdemos. O quão perto estivemos."
Damon se aproximou dela, envolvendo o braço em sua cintura, puxando-a para o calor de seu corpo. "Você fez tudo certo."
"Então por que parece que ainda estamos perdendo?"
Ele não respondeu imediatamente. Eles ficaram em silêncio, ouvindo o canto dos pássaros e a conversa distante. Finalmente, ele disse: "Porque ainda não o derrubamos. Mas vamos."
Uma batida na porta os interrompeu.
Lucia estava na porta, com uma expressão sombria. "Ele está aqui."
Eles a seguiram para a sala de estar, onde Roman estava sentado à mesa, com os olhos grudados no laptop. Na tela, havia uma transmissão ao vivo granulada de um drone circulando acima de uma villa de luxo nas colinas de Limassol. A mansão pertencia a um financista russo recluso com ligações com tráfico de armas e trocas ilegais de criptomoedas.
E agora, Victor Knight.
"Ele chegou há quinze minutos", disse Roman, com a voz cortada. "Entrou pela parte de trás. Sem guardas visíveis, mas isso não significa muito. Esse cara opera como um fantasma."
Lucia cruzou os braços. "Se esperarmos muito, ele desaparece de novo. Se agirmos rápido demais, corremos o risco de cair em outra armadilha."
O olhar de Damon nunca deixou a tela. "Então vamos agir rápido. Silenciosamente. Sem tempo para uma equipe completa. Só nós."
Alina deu um passo à frente. "Eu vou."
Roman abriu a boca para protestar, mas Damon nem piscou. "Eu sei."
Lucia deu a ela um aceno firme. "Preparem-se. Partimos em dez."
—
Mais tarde – Colinas de Limassol
Eles caminharam a última parte a pé, serpenteando pela mata densa que flanqueava o perímetro da villa. O sol estava mais alto agora, assando a terra, fazendo tudo cheirar a poeira e alecrim.
Lucia sinalizou para que parassem.
Eles se agacharam na mata rasteira, com os olhos fixos na imponente mansão branca à distância. Alina conseguiu distinguir o terraço do telhado, onde um homem estava relaxando em um terno de linho, tomando algo frio. Mesmo de longe, ela reconheceu a silhueta.
Victor.
"Dois guardas no lado sul", murmurou Lucia. "Possivelmente mais dentro."
Damon olhou para Alina. "Você está pronta?"
Ela assentiu, com a mandíbula tensa. "Vamos acabar com isso."
Eles se separaram – Lucia flanqueando à esquerda, Roman cobrindo a retaguarda, enquanto Damon e Alina se dirigiam para a abordagem principal. O calor era opressor, o suor escorrendo pelas costas enquanto eles se moviam como sombras pelo terreno.
Eles chegaram ao pátio traseiro sem serem detectados. Damon derrubou um guarda com um golpe rápido e silencioso. O outro se virou, mas Alina foi mais rápida – seu cotovelo atingiu sua mandíbula, e ele desabou como peso morto.
Ela nem piscou.
Eles entraram.
O interior era todo mármore e vidro, elegante e frio. Estava muito quieto. As botas de Alina não faziam barulho no chão polido enquanto eles subiam as escadas em direção ao terraço.
Uma voz os interrompeu.
"Procurando por mim?"
A voz de Victor ecoou pelo corredor, suave e zombeteira.
Alina se virou bruscamente. Ele estava no final do corredor, com as mãos ligeiramente levantadas em falsa rendição, um sorriso presunçoso brincando em seus lábios.
"Você é persistente", ele disse, com os olhos dançando entre ela e Damon. "Vou dar-lhe isso."
"Chega de jogos", rosnou Damon. "Isso termina aqui."
Victor riu. "Termina? Porque se realmente terminasse aqui, você já teria apertado o gatilho."
"Não me tente", disse Alina, dando um passo à frente.
O olhar de Victor se estreitou. "Você mudou, garota. Há fogo em você agora. É isso que te torna perigosa."
"E você ficou sem lugares para se esconder", ela rosnou. "O mundo está assistindo agora. Seu império está desmoronando. Vocês estão em menor número."
Victor sorriu. "Oh, Alina… você ainda acha que isso é sobre impérios?"
Ele enfiou a mão lentamente no bolso do casaco, tirando um pendrive.
"Isso não é uma moeda de troca", ele disse. "É uma bomba. Todo segredo sujo. Todo nome. Cada negócio. Tudo isso, com backup e programado para ser liberado se eu desaparecer."
Damon se contorceu. "Você queimaria o mundo inteiro só para se salvar?"
Victor encolheu os ombros. "Por que não? Eu construí isso. Eu posso derrubá-lo."
Por um longo tempo, ninguém se moveu.
Então Alina deu um passo à frente, lentamente. "Você acha que isso nos assusta? Que deixaríamos você andar livre só porque você está segurando o fósforo?"
Victor levantou uma sobrancelha. "Você não é tão insensível."
Ela encontrou seus olhos, com a voz firme. "Não. Mas aprendi a fazer sacrifícios."
Então Lucia apareceu atrás dele, com uma arma pressionada na parte de trás de sua cabeça. "Jogo encerrado, Knight."
Victor se assustou.
"Sem guardas. Sem túneis de fuga. Só você", acrescentou Lucia.
Victor riu baixinho. "Vocês não são assassinos."
"Não precisamos ser", disse Damon. "A justiça terminará o que começamos."
Alina deu um passo à frente, tirando o pendrive da mão dele. "Você acabou de fugir."
O sorriso de Victor desapareceu.
Pela primeira vez, o medo real atravessou seu rosto.
E Alina Carter — outrora estudante, outrora peão — permaneceu alta, inflexível.
Enquanto o algemavam e o conduziam pelas escadas, o sol brilhava acima deles, forte e dourado.
Era um novo dia.
E o começo do fim.
A prisão de Victor deveria ter parecido uma vitória.
O pátio da villa estava lotado agora – agentes da Interpol em trajes civis haviam invadido minutos após a apreensão, coordenados por Roman e um contato de confiança que eles plantaram semanas atrás. Tinha sido um longo jogo, construído sobre paciência, vigilância e decisões arriscadas. Mas funcionou.
Victor Knight, o marionetista bilionário da corrupção global, estava sob custódia.
E, no entanto, Alina ficou na beira da entrada de cascalho, observando-os levá-lo embora como um animal selvagem finalmente encurralado, e sentiu-se… vazia.
Não porque se arrependeu. Não porque duvidou. Mas porque, depois de tudo, ela esperava que houvesse algo mais. Alguma satisfação. Alguma liberação.
Em vez disso, tudo o que ela sentia era frio.
"Ei", disse Damon suavemente, aproximando-se por trás. Ele estava machucado e coberto de sujeira, com um corte logo acima da testa de um confronto com um dos últimos guardas de Victor, mas seus olhos nunca a deixaram. "Você está bem?"
Ela assentiu distraidamente. "Sim. Eu só… não consigo acreditar que realmente acabou."
Ele ficou ao lado dela, perto o suficiente para que seus braços se tocassem. "Ele não vai escapar disso. Os arquivos naquela unidade que você pegou são uma sentença de morte em todos os sistemas judiciais do país."
"Eu sei. Não é isso que eu quero dizer."
Damon se virou para ela completamente, franzindo a testa. "Então o que é?"
Alina suspirou. "Eu pensei que pareceria uma parada completa. Um fim limpo. Mas não é. Ainda estou pensando nas pessoas que ele machucou. As vidas que ele arruinou. Algumas delas nunca tiveram esse momento. Algumas delas nunca tiveram um desfecho."
A mão dele encontrou a dela. "Algumas tiveram. Por sua causa."
Ela olhou para ele. "Por nossa causa."
Eles ficaram quietos por um momento, ouvindo o zumbido baixo dos helicópteros acima e as vozes dos agentes gritando enquanto ensacavam evidências. O sol batia neles, brilhante e quase cruel em sua indiferença ao caos do sofrimento humano.
Lucia se aproximou com Roman atrás. Ela parecia exausta, mas satisfeita, enxugando o suor da testa com a manga do casaco.
"Ele será extraditado esta noite", ela disse. "Eles o estão levando diretamente para Haia sob segurança máxima. Ele não verá o ar livre novamente."
Roman entregou a Alina uma sacola selada – dentro estava o pendrive. "Isso vai para custódia criptografada, mas fizemos um backup. Um que você pode acessar. Você merece isso."
Alina pegou, com os dedos apertando o plástico. Ela não precisava mais dos arquivos. Ela sabia o que havia neles. Mas segurá-lo parecia segurar a própria verdade. E a verdade sempre foi poder.
Lucia deu a ela um aceno firme. "Você fez um bom trabalho, Carter. Eu falo sério."
Alina conseguiu um sorriso. "Você também. Todos vocês."
Damon olhou em volta para a villa, agora rastejando com agentes e zumbindo com barulho. "Vamos sair daqui. Já tive mansões com segredos suficientes por uma vida."
—
Mais tarde – Estrada Costeira Fora de Limassol
Eles dirigiram com as janelas abaixadas. O sol mergulhou mais baixo no céu, lançando longas sombras douradas sobre as falésias. O vento bagunçou o cabelo de Alina enquanto ela estava no banco do passageiro do Jeep emprestado, a mão de Damon pousada no câmbio ao lado da dela.
Lucia e Roman seguiram em um veículo separado atrás deles, dando-lhes espaço.
Pela primeira vez em meses, Alina não se sentiu perseguida. Ela não sentiu que precisasse olhar por cima do ombro.
"Então", disse Damon, olhando para ela. "O que acontece agora?"
Ela virou o rosto para o mar. O horizonte se estendia infinitamente, a luz do sol dançando nas ondas. "Eu não sei. Eu poderia terminar a escola, eu acho. Publicar aquele artigo que comecei a escrever antes de tudo isso se transformar em uma zona de guerra."
"Você estaria escrevendo um best-seller", ele disse com um pequeno sorriso. "Ou causar um colapso internacional."
"Talvez ambos." Ela sorriu fracamente, então se virou para olhar para ele. "E você? O que acontece com Damon Cross quando não há mais inimigos para perseguir?"
Ele não respondeu imediatamente. Suas mãos apertaram ligeiramente o volante, os olhos distantes.
"Eu passei a vida inteira nas sombras, Alina. Movendo peças atrás da cortina. Consertando o que não podia ser consertado legalmente. Eu não sei quem sou sem essa luta."
"Você poderia descobrir", ela disse gentilmente. "Nós dois poderíamos."
Seus olhos se encontraram, e algo terno passou entre eles. Não o fogo do desespero que alimentou tantos de seus momentos, mas algo mais constante.
Esperança.
Ele se esticou e pegou a mão dela. "Com você… eu poderia tentar."
—
Aquela noite – Porto de Limassol
Eles sentaram juntos nas rochas com vista para a marina tranquila. Barcos balançavam na água abaixo, lanternas balançando na brisa.
Alina encostou-se no lado de Damon, com a cabeça apoiada em seu ombro.
"Eu costumava pensar que o desfecho era uma porta batendo", ela murmurou. "Mas talvez seja apenas… aprender a viver de novo. Com as cicatrizes. Com as memórias."
Damon beijou o topo da cabeça dela. "E talvez seja sobre com quem você escolhe vivê-la."
Ela olhou para ele, sorrindo. "Você está ficando poético."
"Levei um tiro várias vezes. Torna um homem mole."
Ela riu, o som leve e real.
Quando as estrelas surgiram sobre a água, Alina se permitiu respirar pela primeira vez em muito tempo. Não porque tudo estava perfeito. Não porque todos os erros foram corrigidos.
Mas porque, depois de tudo, ela ainda estava de pé.
Ainda lutando.
E pela primeira vez… sonhando.