Danos Colaterais
A porta de aço do bunker rangeu ao fechar atrás deles, trancando com um chiado e uma finalidade que espelhava o peso no peito da Alina. Ao emergirem na noite fria, o frio bateu na sua pele como uma bofetada – afiado, real, aterrador. Mas nada podia arrefecer o fogo a arder dentro dela.
Ela olhou para o Damon. A mandíbula dele estava cerrada, os ombros rígidos, os olhos fixos em frente como se não pudesse dar-se ao luxo de olhar para trás – ainda não. Ele não falou, não respirou uma palavra sobre o Adrian. E talvez fosse isso que a assustava mais.
O Tobias estava junto ao SUV, arma abaixada, sobrancelhas franzidas em confusão. 'Ele passou por mim. Desapareceu nas árvores. Aquele bastardo move-se como uma sombra, caraças.'
O Damon apenas acenou. 'Deixem-no correr.'
A Alina entrou na viatura sem dizer nada, coração a martelar, as palavras do Adrian a ecoarem na sua mente. Vais perdê-la, Damon. Tal como me perdeste a mim.
Ela não queria acreditar nisso.
Mas a fenda que tinha começado entre eles? Estava a alargar-se.
—
De volta à penthouse, a feed da Vale já estava a bombar com capturas de vigilância, assinaturas de calor e tentativas de correspondência facial do Adrian. Mas tudo estava confuso. Desfocado. Ele sabia como se esconder. Sempre soube.
A Alina sentou-se na beira do sofá, a olhar para o disco rígido encriptado na sua mão.
'Vale,' ela disse, com a voz firme, 'usamos isto agora. Sem mais esperar. Sem mais perseguir sombras.'
'Já estou nisso,' respondeu a Vale. 'Mas este nível de corrupção leva tempo. Ele enterrou a verdade sob camadas de dados falsos, servidores fantasma, desvio de atenção.'
O Damon passou por eles, em silêncio. Direto para o whisky.
Ele serviu-se de um copo e não ofereceu a mais ninguém.
A Alina virou-se para ele lentamente. 'Devias tê-lo matado.'
Ele olhou para cima. 'Acham que eu não sei disso?'
'Então porque não o fizeste?'
'Porque,' disse o Damon, com a voz baixa, 'eu precisava dele para confirmar o que eu não conseguia provar. Porque se o expusermos agora, com tudo o que temos – Langston, Arclight, Adrian – incendiamos toda a rede.'
Ela levantou-se. 'E se ele vier atrás de ti primeiro?'
O Damon não se mexeu. 'Então estarei pronto.'
'Mas eu não estarei,' ela disse em voz baixa.
Ele olhou para ela então. Realmente olhou. E pela primeira vez em muito tempo, ela viu as rachaduras por trás da sua máscara. A culpa. O peso de cada segredo que ele carregara sozinho.
'Eu fiz tudo o que pude para te proteger,' ele disse.
'Eu não pedi isso,' ela respondeu. 'Eu pedi honestidade.'
Silêncio esticado.
Finalmente, o Damon disse: 'Queres honestidade? Ok. Eu ajudei a construir a Arclight. Não apenas no lado técnico – mas com sangue. Com ameaças. Com acordos que nunca posso desfazer.'
Ele pousou o copo com força.
'Eu entrei no mundo do Langston a pensar que o podia enganar. Mas tornei-me parte dele. E o Adrian… ele sempre foi o espelho. O homem em que eu podia ter me tornado se me perdesse completamente.'
A respiração da Alina falhou.
'Então o que te impediu?' ela sussurrou.
Ele deu um passo mais perto. 'Tu.'
Terias sido romântico, se não parecesse tão trágico.
—
Na manhã seguinte, as consequências começaram.
A rede da Vale sinalizou um golpe – uma das contas offshore escondidas do Langston tinha sido esvaziada durante a noite. Milhões desapareceram. E era apenas o começo.
'Ele está a mover dinheiro,' disse a Vale, a teclar rapidamente. 'O Adrian está a desencadear o colapso mais cedo. Ele sabe que estamos a aproximar-nos.'
'O que acontece se ele chegar primeiro?' perguntou o Tobias.
'Então o mundo vê a pior crise económica desde a Grande Depressão,' disse a Vale sombriamente. 'E o Langston sai livre enquanto o sistema queima.'
'Não,' disse a Alina, levantando-se. 'Nós tornamos isto público.'
'Ainda não,' avisou o Damon. 'Não até termos o testemunho da Maren Cole carregado. Não até termos todas as escutas telefónicas, cada transação rastreável ligada ao Langston.'
O Tobias praguejou baixinho. 'E até lá? Nós apenas sentamos e esperamos que o Adrian exploda a cena?'
'Não,' disse a Alina. 'Jogamos o nosso próprio jogo.'
Ela tirou uma pen da jaqueta. 'O Adrian deu-me isto também. Disse que era um seguro.'
Os olhos da Vale iluminaram-se. 'Dá-me dez minutos.'
A Alina entregou-a, sabendo muito bem que esta podia ser outra armadilha – mas que escolha tinham eles?
Quando a Vale finalmente voltou a falar, a sua voz tremia.
'Santa merda… esta é a lista de mortes do Langston.'
A sala caiu em silêncio.
'Políticos. Jornalistas. Denunciantes. Cada pessoa que alguma vez se colocou no seu caminho.'
A Alina engoliu em seco. 'O meu nome está nela?'
A Vale hesitou.
'Sim,' ela disse suavemente. 'O do Damon também. E o meu.'
Ela virou-se para o Damon, com os olhos a arder. 'Ele quer que nos apaguem.'
'Então damos-lhe uma razão para falhar,' disse o Damon.
Ele olhou para a Alina – não como um protetor, não como um homem a tentar protegê-la, mas como um igual.
'Isto termina connosco,' ele disse. 'Juntos.'
E pela primeira vez em dias, ela acreditou nele.
Porque tinha que ser.
Porque se não fosse, não restaria nada para salvar.
A cidade pulsava com vida por baixo das janelas da penthouse, mas dentro da sala, tudo parecia suspenso. Congelado entre verdades contadas a meio e escolhas ainda por fazer. A Alina estava em frente à parede de vidro, o seu reflexo fraco na escuridão, sobreposto ao caos lá fora.
O Damon juntou-se a ela, a sua presença pesada mas silenciosa. Por um momento, nenhum deles falou. Apenas o zumbido distante da cidade. A buzina ocasional de um carro. O peso de tudo entre eles.
'Ainda me lembro da primeira vez que me olhaste como se eu não fosse uma estranha,' ela disse calmamente, com os olhos sempre fixos no horizonte. 'Fizeste-me sentir vista. Como se eu não fosse apenas uma rapariga tola a perseguir uma história grande demais para ela.'
O Damon não respondeu imediatamente.
'Eu vi-te desde o momento em que entraste naquele auditório,' ele disse eventualmente. 'Não porque eras bonita. Eras – mas era mais do que isso. Fizeste perguntas que mais ninguém ousava fazer. Eras implacável. E eu sabia… eu sabia que ias meter-te em sarilhos.'
A Alina virou a cabeça para ele, com os olhos a brilhar mas duros. 'E deixaste-me.'
'Não,' ele disse, com a voz a quebrar ligeiramente. 'Eu segui-te. Observei-te. Tentei guiar-te sem tocar na chama. Mas eu já estava muito perto. Sempre estive.'
Ela cruzou os braços. 'Então porque mentiste sobre o Adrian?'
'Porque a verdade era pior do que a mentira,' ele disse. 'Porque eu não queria que visses quem eu costumava ser através dele.'
Pausa.
'Tu querias que eu visse apenas o homem que és agora,' ela disse.
Ele acenou uma vez.
A Alina olhou para as suas mãos. 'Mas se eu não posso ver o passado… como posso confiar no presente?'
A sua respiração falhou.
Antes que ele pudesse responder, a voz da Vale cortou a tensão dos monitores da sala de estar.
'Temos um novo problema.'
Ambos se viraram.
A Vale estava pálida, o seu fogo habitual subjugado pela expressão sombria no seu rosto. 'Acabei de receber conversa nas dark feeds. Alguém colocou uma recompensa pela cabeça da Maren Cole. Dois milhões – morta ou viva.'
O coração da Alina parou. 'Como é que…?'
'Ela foi comprometida,' murmurou o Damon. 'Ou pior – o Adrian divulgou a sua localização.'
A Vale acenou sombriamente. 'Podia ter sido intencional. Ou talvez ela fosse apenas a próxima peça lógica. De qualquer forma, temos que movê-la. Depressa.'
'Onde é que ela está?' perguntou a Alina.
A Vale hesitou. 'Quinta off-grid, no interior. Tenho olhos nela, mas eles estão a queimar rápido.'
'Eu vou,' disse o Damon imediatamente.
'Não,' respondeu a Alina. 'Nós vamos os dois.'
'De jeito nenhum,' ele rosnou.
Mas a Alina já estava a caminhar para o corredor. 'Tu não decides mais isso.'
O Damon seguiu, com a voz baixa mas furiosa. 'Alina…'
'Eu não sou uma peça para ser movida no teu tabuleiro de xadrez,' ela disse, virando-se para o enfrentar. 'Tu meteste-me nisto. Tu mostraste-me a verdade. Tu deixaste-me entrar no teu mundo – agora não podes fechar a porta só porque é inconveniente.'
Por um longo e tenso momento, ele olhou para ela. Então os seus ombros caíram, e ele deu o menor aceno.
'Vistam-se,' ele disse calmamente. 'Saímos em vinte.'
—
A quinta estava escondida num canto esquecido de terra rodeado por árvores densas e silêncio. O tipo de lugar onde os segredos iam esconder-se – e onde, por vezes, eram encontrados.
Quando o SUV parou na estrada de cascalho, a Maren apareceu na varanda, agarrada a uma pasta espessa contra o peito. Ela parecia mais magra do que no vídeo. Pálida. Os seus olhos percorriam-nos como um animal caçado.
A Alina saiu primeiro, com as mãos ligeiramente levantadas. 'Maren. Sou eu – Alina Carter.'
'Eu sei quem tu és,' disse a Maren roucamente. 'Tu escreveste a peça sobre o caso do denunciante da Vale. Chamaste ao sistema 'uma casa construída em fósforos''.'
A Alina conseguiu um pequeno sorriso cansado. 'Tu és a faísca, então.'
O Damon aproximou-se lentamente. 'Precisamos de te mudar. Estás comprometida.'
'Eu imaginei,' disse a Maren, com a voz a tremer. 'Ouvi os drones. Vi as luzes ontem à noite nas árvores. Tenho andado a fazer as malas.'
A Alina tirou-lhe a pasta e olhou para o conteúdo – documentos, e-mails, diagramas. Tudo isso condenatório.
'Tu és a ligação final,' ela disse. 'O Langston cai se tu falares.'
A Maren olhou para ela, depois para o Damon. 'Então é melhor irmos. Porque ele não vai cair sem tentar levar o resto de nós com ele.'
—
Enquanto conduziam de volta para a casa segura, os faróis cortaram a escuridão ao longe.
Os olhos do Damon afiaram-se. 'Aquilo não é o Tobias.'
A Alina virou-se. 'Perseguição?'
A voz da Vale zumbiu através das suas comunicações. 'Afirmativo. Dois SUVs pretos. Sem identificação. Sem matrículas. Manobras evasivas recomendadas – agora.'
Pneus chiarem quando o Damon puxou o volante e desviou para fora da estrada em direção às árvores. A Alina preparou-se, com o coração a bater forte, a Maren agarrada ao assento como se pudesse desaparecer debaixo dela.
As balas estalaram no ar um momento depois – perfurando a parte de trás do veículo, estilhaçando o vidro.
'Aguenta-te!' gritou o Damon.
Eles viraram para a esquerda com força, através da lama e da vegetação, a trepidar violentamente até que uma clareira se abriu e uma estrada secundária apareceu à frente. O Damon acelerou.
'O Tobias está a caminho,' disse a Vale. 'ETA quatro minutos. Apenas defendam-se.'
A Alina virou-se para a Maren, que estava a soluçar silenciosamente agora.
'Tu vais ficar bem,' sussurrou a Alina, agarrando a sua mão. 'Eu juro.'
Mas, no fundo, ela sabia que nada era certo, agora.
Só que isto era guerra.
E eles estavam a ficar sem tempo.