Dominós e Adagas
A fumaça ainda estava se dissipando quando o Damon invadiu a lanchonete, com a arma na mão, os olhos ardendo de pânico.
Ele encontrou a Alina agachada atrás de uma mesa, tossindo, com o rosto pálido, mas feroz.
"Onde ela está?" ele perguntou.
"Foi-se", a Alina respondeu roucamente. "Saiu pelos fundos. O Tobias pegou ela."
Os olhos do Damon percorreram o espaço arruinado – as cadeiras viradas, o vidro estilhaçado, a marca de queimado da granada de luz. Ele guardou a arma, soltando um suspiro forte.
"Isso foi rápido demais", a Alina murmurou. "Eles não hesitaram. Foram direto atrás dela."
"Eles não estavam improvisando", disse o Damon sombriamente. "Eles estavam rastreando ela. Provavelmente desde o segundo que a Vale a moveu."
"Então eles vão voltar."
"Eles sempre voltam."
Lá fora, o Tobias já tinha encostado o carro, com o motor funcionando em marcha lenta, como uma batida de coração. A Alina entrou no banco de trás, com a pasta agarrada ao peito. O Damon juntou-se a ela, os olhos voltando para o espelho retrovisor.
"Ela está segura?" ele perguntou.
O Tobias assentiu. "A Vale a mudou para uma casa segura diferente. Fora do sistema."
A Alina exalou. "Bom. Porque o que ela nos deu… é o suficiente para explodir tudo isso."
O Damon se inclinou para frente. "Deixa eu ver."
Ela hesitou apenas por um segundo, depois entregou a pasta.
Dentro estavam os recibos da ruína: subornos pagos em criptomoeda codificada, ordens de assassinato assinadas, documentos públicos falsificados e projetos de software que poderiam manipular algoritmos financeiros em todo o mundo.
Era condenatório.
E perigoso.
"O Langston nunca quis controlar apenas um setor", disse o Damon lentamente, folheando as páginas. "Ele queria ser dono do futuro."
A voz da Alina era baixa. "E agora temos o suficiente para detê-lo?"
O Damon não respondeu imediatamente. Quando ele olhou para cima, sua expressão estava mais dura que aço.
"Não. Ainda não. Mas estamos perto."
—
De volta à cobertura, a Vale apareceu em um feed seguro, seu rosto tenso, mas calmo.
"Eu tenho a Maren. Ela está abalada, mas segura. Vocês precisam se mover rápido agora – o Langston vai saber que ela escapou por entre os dedos dele."
O Damon virou-se para a tela. "Nós temos a pasta. É o suficiente para enterrá-lo."
A Vale levantou uma sobrancelha. "No tribunal? Com certeza. Mas o Langston não tem medo de tribunais. Ele é dono de muitos juízes e enterra muitos casos."
"Então, qual é o plano?" a Alina perguntou.
"Nós levamos isso para o povo", disse a Vale. "Vazamos para o jornalista certo. Queimamos todas as plataformas com a verdade. Mas precisamos autenticá-lo primeiro – e, para isso, precisamos da chave de criptografia. Aquela que o chefe de segurança do Langston carrega."
A Alina franziu a testa. "Aquele que desapareceu há um ano?"
"Ele não desapareceu", disse o Damon sombriamente. "Ele foi para a clandestinidade. O Adrian pode saber onde."
A Vale sorriu. "Então, é hora de fazer outra visita ao seu velho amigo."
—
A Alina não dormiu naquela noite.
Ela sentou-se no canto do seu quarto, com o laptop aberto, os arquivos criptografados da pasta sendo decifrados lentamente pelo sistema da Vale. Cada linha de código, cada documento que se revelava diante dela, contava uma história.
De ganância. De controle. De como o Langston ascendeu de um investidor esperto a um manipulador de sombras.
Mas quanto mais ela cavava, mais ela via o nome do Damon aparecer.
Assinaturas antigas.
Fundos transferidos.
Comunicações criptografadas.
Não era recente. Os registros eram antigos. De uma época antes de o Damon ter entrado na escuridão. Antes de ele supostamente ter se voltado contra o Langston.
Mesmo assim, eles estavam lá.
Ela não queria perguntar a ele sobre isso.
Mas ela sabia que precisava.
Ela o encontrou na varanda novamente, olhando para a cidade como se ela pudesse oferecer respostas.
"Você fez parte disso", ela disse, estendendo uma folha impressa.
Ele não se assustou. Ele não mentiu.
"Eu fiz."
A respiração da Alina ficou presa.
"Eu o ajudei a construir isso", disse o Damon. "No começo, eu acreditava que poderia tornar o mundo melhor. Estabilizar economias. Impedir guerras antes que elas começassem. Então, eu vi o que o Langston realmente queria."
"E você foi embora."
"Não. Eu fiquei tempo demais. Eu vi pessoas inocentes sofrerem. Eu vi até onde isso tinha chegado. Quando finalmente me voltei contra ele, já era tarde demais. O Adrian e eu tentamos derrubá-lo por dentro."
"E então o Adrian desapareceu."
A mandíbula do Damon se contraiu. "E eu me tornei o traidor. Aquele que o Langston marcou para a morte. Aquele a quem o Adrian culpou."
A voz da Alina era quase um sussurro. "Então, quando o Adrian disse que há mais na sua história…"
"Há", disse o Damon. "Mas não é apenas minha história, agora. É nossa."
Ele deu um passo à frente, estendendo a mão para ela. Ela deixou ele pegar.
"Eu não preciso que você me perdoe, Alina. Eu só preciso que você acredite que tudo o que estou fazendo agora – é para redenção. É para você."
E, embora seu coração ainda fosse um campo de batalha, uma parte dela… acreditava nele.
Porque o homem na frente dela não era apenas um monstro das sombras.
Ele era algo muito mais perigoso.
Um homem sem nada a perder.
A Alina não afastou a mão.
E o Damon não apressou o momento.
Por um longo e silencioso tempo, eles apenas ficaram ali na varanda, o zumbido da cidade como uma batida de coração distante abaixo deles. O vento bagunçou o cabelo da Alina, levando com ele o tipo de tensão que se enrolava em seus ossos e se recusava a ir embora.
"Você ainda acha que eu mereço ser defendido?" o Damon perguntou baixinho, sua voz crua.
Ela olhou para ele então – não como o homem que tinha mentido, não como o fantasma do passado do Langston – mas como o homem que estava com ela, machucado e exposto, despojado de toda ilusão. E talvez fosse imprudente. Talvez fosse tolo.
Mas ela assentiu.
"Eu acho."
Ele soltou um suspiro como se não tivesse percebido que estava segurando.
Então o momento se estilhaçou – o Tobias entrou pela porta com a voz da Vale ecoando do tablet em sua mão.
"Temos um problema."
Claro que sim.
—
Lá embaixo, o feed de segurança estava tremeluzindo. Um dos programas da Vale estava rastreando tráfego digital incomum – pings criptografados saltando de satélites, seguindo de perto suas últimas localizações conhecidas. Não era apenas vigilância.
Era uma caçada.
"Eles nos triangularam", disse a Vale, sua voz cortada. "Não o prédio, não exatamente. Mas a assinatura digital. Meus sistemas estão segurando, mas é uma questão de tempo até que rastreiem a Maren de novo."
A Alina se aproximou. "Você disse que ela estava segura."
"Ela está", respondeu a Vale. "Mas os cães do Langston são implacáveis. Eu posso desacelerá-los, mas se não conseguirmos aquela chave de criptografia, tudo isso é apenas ruído. As evidências, o testemunho – não são nada se não pudermos descriptografar os dados restantes."
A mandíbula do Damon se contraiu. "Então vamos atrás da chave."
A Vale assentiu. "O Adrian é nossa melhor aposta. Ele ainda está se movendo sob o radar, mas eu rastreei algumas migalhas financeiras. Contas offshore, IPs escondidos. Ele está na cidade. Provavelmente te observando."
A Alina estremeceu. "Por que ele simplesmente não sai das sombras?"
"Porque o Adrian não sai. Ele espera até que o tabuleiro esteja pronto. Então, ele derruba todas as peças de uma vez."
"Então, nós batemos primeiro", disse o Damon, sua voz como aço.
—
Eles o encontraram naquela noite.
Não em um bunker, ou em um beco, ou em algum complexo guardado.
Mas em uma antiga galeria de arte em Tribeca, fechada há anos, as janelas cobertas de poeira e segredo. Dentro, as paredes estavam nuas – exceto por uma única pintura no centro da sala.
Um autorretrato. Rasgado ao meio.
E de pé na frente dela – Adrian Knight.
Ele não se virou quando eles entraram. Ele não se assustou quando o Damon deu um passo à frente, com a arma na mão, apontada diretamente para suas costas.
"É assim que dizemos olá agora?" o Adrian murmurou.
"Você está nos observando."
"Claro. É o que eu faço."
A Alina deu um passo à frente. "Precisamos da criptografia."
O Adrian finalmente se virou para encará-la.
"Você acha que é tão simples assim?" ele perguntou, com os olhos escuros e indecifráveis. "Não há chave sem a mão que a forjou. E essa mão… pertence a outra pessoa."
"Quem?" o Damon perguntou.
O Adrian sorriu, lento e amargo. "A filha do Langston."
A sala parou.
"O quê?" disse a Alina, piscando.
"Ela está escondida há anos", disse o Adrian. "Protegida. Preparada. Mas ela é a única que pode desbloquear o que sobrou."
"Onde ela está?" o Damon perguntou.
"Eu não sei", respondeu o Adrian. "Mas eu sei quem sabe."
Ele se aproximou, baixando a voz.
"E para encontrá-lo… você terá que entrar na toca do leão."
O coração da Alina disparou.
Porque o jogo tinha acabado de mudar novamente.
O Langston não era o único monstro no escuro.
E agora, os jogadores finais estavam entrando na luz.