O Homem Que Não Deveria Existir
Alina não falou a viagem toda de volta.
Damon sentou-se ao lado dela no SUV, com a mandíbula travada, a mão perto da dela, mas sem nunca tocar. O silêncio era espesso, como uma tempestade a reunir-se na distância. Tobias conduzia, espreitando no espelho retrovisor, sentindo a mudança no ar, mesmo que não soubesse o que a causou.
Os dedos de Alina roçaram a borda do bolso. A fotografia que Adrian lhe tinha entregado parecia pesar uma tonelada. Ela não mostrou a Damon. Ainda não.
Não quando os seus pensamentos ainda eram um campo de batalha de dúvida e fúria.
Quantas mentiras ele lhe tinha contado?
Quanto do seu passado ele tinha enterrado?
"Conseguiu a pen?" Damon finalmente perguntou, com a voz baixa.
Ela acenou com a cabeça uma vez. "Sim. Mas não é só isso que tenho."
Ele virou-se ligeiramente para ela, os olhos estreitando. "O que queres dizer?"
Alina encontrou o seu olhar. "Adrian está vivo."
Damon congelou.
Tobias pisou os travões com um pouco de demasiada força num sinal vermelho. "Espera. Quê?"
"Adrian Knight," Alina repetiu, observando a reação de Damon como uma falcão. "Eu vi-o. Na arca. Ele sabia sobre a caixa. Sobre Vale. Sobre Langston. Ele não tentou impedir-me. Deu-me isto."
Ela enfiou a mão no bolso e entregou a Damon a foto.
Ele olhou para ela. Silencioso. Imóvel.
Tobias olhou para a foto no espelho retrovisor e praguejou baixinho. "Santa merda."
Damon não disse uma palavra. Ele apenas ficou a olhar, como se a foto o tivesse arrastado para uma memória que ele não queria revisitar. A sua expressão não mudou, mas algo nos seus olhos rachou.
"Disseste-me que ele estava morto," Alina disse. "Disseste-me que Langston o matou."
"Eu pensei que sim," Damon murmurou. "Todos nós pensámos. Houve um incêndio. O carro dele explodiu fora de uma casa segura em Praga. Não sobrou nada para identificar."
"Mas não houve um corpo," Alina insistiu. "Tu assumiste."
"Eu enterrei-o na minha mente, Alina," Damon disse calmamente. "Porque se ele não estivesse morto… então ele abandonou tudo. Eu. O plano. As pessoas que estávamos a tentar proteger."
A sua voz falhou. "Nós devíamos ter derrubado Langston juntos. Tínhamos tudo alinhado. Até que Adrian desapareceu e toda a operação queimou com ele."
Alina recostou-se no banco, olhando pela janela. "Ele disse que Langston não construiu este império sozinho. Ele disse que tu e Langston eram como irmãos."
Damon não negou.
"Éramos," ele disse. "Até que deixámos de ser."
—
De volta à cobertura, o feed encriptado de Vale já estava à espera. Tobias inseriu a pen em um sistema seguro, e o ecrã acendeu-se com camadas de ficheiros corrompidos, firewalls e logs escondidos.
Mas a voz de Vale cortou tudo como uma faca.
"Tens," ela disse. "Pinta-me impressionada."
"Encontrámos alguém," Alina respondeu. "Adrian Knight."
Uma pausa.
Depois uma gargalhada seca. "É claro que sim. Ele sempre teve um jeito para regressos dramáticos."
"Sabias?" Damon perguntou, com a voz de aço.
"Eu suspeitava," Vale respondeu. "Adrian é bom demais para desaparecer sem deixar rasto. Eu imaginei que ele estivesse a esconder-se… ou a construir algo novo."
"Ele está do nosso lado?" Alina perguntou.
Outra pausa.
"Adrian não está do lado de ninguém," Vale disse finalmente. "Ele é a faca na escuridão. Um dia ele corta o teu inimigo. No dia seguinte, ele corta-te a ti."
"Maravilha," Tobias murmurou.
Vale voltou a concentrar-se. "Essa pen contém plantas para a verdadeira fonte de poder de Langston—Projeto Arclight. Não se trata apenas de espionagem digital. Trata-se de manipulação global. Mudanças de moeda. Controlo de políticas. Colapsos de mercado. Tudo fabricado."
Damon franziu a testa. "Mas ainda não temos a ligação chave. A única pessoa que pode testemunhar."
"Na verdade," Vale disse, tocando em algo no seu lado, "tens."
O ecrã piscou.
Um feed de vídeo carregou.
Alina inclinou-se mais perto. O seu estômago caiu.
Era uma mulher. Meados dos trinta. Pálida. Nervosa. Sentada numa sala sem janelas. Os seus olhos estavam assombrados, mas ela parecia familiar.
"Essa é Maren Cole," Vale disse. "A antiga chefe de análise de Langston. Ela desapareceu há dois anos. Todos assumiram que ela estava morta."
"Onde está ela?" Damon exigiu.
"Escondida," Vale respondeu. "Sob a minha proteção. Ela tem provas. Rastos bancários. Áudio. Testemunhos. Mas ela não fala contigo. Ela só fala com Alina."
"Eu?" Alina piscou. "Porquê?"
"Porque ela leu o teu trabalho," Vale disse com um leve sorriso. "E porque ela já não confia em homens poderosos."
A mandíbula de Damon apertou-se, mas ele não discutiu.
"Marca a reunião," Alina disse.
Vale acenou com a cabeça. "Feito. Amanhã. Disfarces necessários. Tensão garantida."
—
Naquela noite, Alina estava na varanda da cobertura, com os braços à volta de si mesma enquanto a cidade zumbia por baixo. Damon juntou-se a ela, silencioso por um momento antes de falar.
"Eu devia ter-te contado mais sobre Adrian."
Ela olhou para ele. "Sim. Devias ter."
Ele exalou. "O homem que conheceste… ele nem sempre foi assim. Ele costumava ser brilhante. Imprudente. Mas a sua lealdade? Isso costumava significar alguma coisa. Até que não significou mais."
Alina virou-se para ele completamente. "Ele disse que há mais na tua história. Que a verdade sobre ti ia destruir tudo o que eu acho que sei."
Damon não se assustou. "Ele não está errado."
O seu coração contraiu-se. "Então talvez seja altura de me contares a verdade."
Damon aproximou-se. A distância entre eles diminuiu para nada.
"Vou contar," ele disse, com a voz rouca. "Mas depois de amanhã, nada voltará a ser o mesmo."
E ela acreditou nele.
Porque amanhã, a verdadeira guerra vai começar.
A varanda estava silenciosa, exceto pela pulsação suave da cidade em baixo, luzes de néon a piscar à distância como brasas. Alina ficou parada, de costas para Damon, deixando o vento pressionar o seu cabelo contra a sua bochecha. Os seus braços ainda estavam cruzados à sua volta, mas não era do frio.
Era do peso.
De tudo.
"Dizes que nada vai ser o mesmo," ela disse finalmente, sem se virar. "Mas e se não for só sobre a verdade? E se a verdade… me fizer ver-te de maneira diferente?"
Damon não se mexeu, não respirou por um momento.
"Eu prefiro que me odeies pelo que sou do que que me ames pelo que eu finjo ser," ele disse, as palavras lentas e deliberadas.
Alina deixou-as pairar ali, cortando o silêncio como vidro.
Finalmente, ela virou-se. "Eu não te odeio, Damon. Eu simplesmente já não sei quem tu és. Continuas a dar-me fragmentos, pedaços de um quebra-cabeças que eu nem sequer tenho a certeza que pertence à mesma imagem."
Ele aproximou-se, o espaço entre eles encolhendo até que restassem apenas centímetros. "Então deixa-me mostrar-te a imagem inteira. Não apenas a versão editada que te deixei ver."
"E se eu não estiver pronta para isso?" ela sussurrou.
Damon afastou uma mecha de cabelo da sua cara. "Então esperarei até que estejas. Mas não te vou mais mentir."
Ela procurou no seu rosto e, por um momento – apenas um momento – ela viu o homem por baixo das camadas. A culpa. O fardo. A solidão.
Talvez ele não estivesse a esconder coisas para se proteger. Talvez, de alguma forma distorcida, ele a estivesse a proteger.
Mas os segredos tinham uma forma de apodrecer por dentro.
E ambos estavam a ficar sem tempo.
—
Na manhã seguinte, chegou muito depressa.
Alina mal dormiu. Quando dormiu, foi fracionado – imagens de Adrian nas sombras, de Langston a sorrir como um abutre, de uma fotografia que parecia um fantasma.
Ela estava em frente ao espelho, a fechar um hoodie preto indistinto e a meter o cabelo num boné de baseball. O seu rosto parecia pálido por baixo da aba, olhos cansados, mas resolutos.
Lá em baixo, Tobias estava à espera com um sedan preto. Damon já estava lá dentro, vestido de forma semelhante, mas mais quieto do que o habitual. Sem gravata. Sem arrogância polida. Apenas um homem a preparar-se para a guerra.
Tobias entregou-lhe um telemóvel descartável. "Se alguma coisa parecer estranha, liga-me. Estarei a vigiar a um quarteirão de distância."
Alina acenou com a cabeça, os dedos apertando o plástico barato. "Entendido."
A reunião foi marcada num restaurante discreto nos arredores da cidade – um daqueles lugares esquecidos onde o tempo parecia parar, e ninguém olhava muito para nada.
O contacto de Vale tinha o lugar limpo, exceto uma mulher sentada numa cabine no fundo, com as mãos à volta de uma caneca fumegante de chá.
Alina aproximou-se cautelosamente.
A mulher—Maren Cole—olhou para cima lentamente. Os seus olhos estavam vítreos, o olhar de alguém que tinha visto demais e sido acreditada de menos.
"Vieste," Maren disse calmamente.
Alina deslizou para a cabine em frente dela. "Eu vim porque quero ajudar. Mas preciso da verdade."
Maren acenou com a cabeça, tirando uma pasta de couro gasto de debaixo da mesa. Ela deslizou-a em direção a Alina. "Tudo o que está lá dentro liga Langston ao Projeto Arclight. A manipulação dos preços do petróleo. Manipulação das eleições. Derrubar pequenas economias e comprar os restos. É tudo real. E eu ajudei a construí-lo."
Os dedos de Alina tremeram quando ela abriu a pasta. Lá dentro estavam registos bancários, listagens de contas offshore, faturas de operações secretas – evidências suficientes para queimar o império de Langston até ao chão.
"Guardaste tudo isto?" Alina perguntou.
A voz de Maren rachou. "Eu fugi. Eu não podia ficar. Eu sabia que eles viriam atrás de mim eventualmente. Mas eu não podia destruí-lo. Eu precisava de alguém como tu para fazê-lo importar."
A garganta de Alina apertou-se. "Porquê eu?"
"Porque não és dona," Maren sussurrou. "Não fazes parte da máquina deles. E ainda acreditas em algo."
Antes que Alina pudesse responder, a porta da frente do restaurante rangeu.
Os seus olhos dispararam para cima.
Um homem entrou.
Alto. Careca. Auricular. Não era um cliente.
O rosto de Maren ficou pálido. "Eles encontraram-me."
Alina já estava a mover-se, agarrando a pasta com força enquanto se levantava. "Sai pela retaguarda," ela disse. "Tobias está à espera. Ele vai levar-te a Vale."
"Mas e tu—"
"Eu vou distraí-los."
Maren hesitou, depois correu para a cozinha.
O homem da frente registou o movimento e começou a caminhar na direção deles. Alina entrou no seu caminho, cabeça baixa, corpo angulado.
"Perdido?" ela perguntou friamente.
Ele não respondeu. Ele esticou-se para o cinto—
E as luzes do restaurante apagaram-se.
Uma granada ensurdecedora rolou pelo chão.
Alina caiu no chão, cobrindo a cabeça.
Disparos irromperam na retaguarda. Gritos. Caos.
Mas quando a fumaça se dissipou, Maren tinha desaparecido.
Assim como a pasta.
E Alina…
Ela ficou de pé nas ruínas, com o coração a bater, adrenalina em chamas nas suas veias.
Isto já não era apenas um jogo.
Isto era guerra.
E Adrian Knight tinha acabado de empurrar o primeiro dominó.