Para o Fogo
A mensagem tava na tela, tipo uma arma carregada.
OLÁ, ALINA.
Alina ficou encarando, com o coração batendo forte nos ouvidos. As letras não piscavam. Não se mexiam. Mas vibravam com poder, com história, com tudo que não devia existir mais.
"Ele mordeu a isca", Vale murmurou do outro lado da sala. Se inclinou pra frente, com as mãos voando no teclado enquanto tentava rastrear. "Mas ele é bom. Nenhum ping de origem. Tá quicando em um monte de servidores fantasmas."
"Consegue rastrear alguma coisa?" Damon perguntou, tenso, já andando de um lado pro outro. A tensão nele tava quase explodindo.
"A não ser que ele queira, né?" ela murmurou. "Mas se ele falar, se mandar mais…"
Uma segunda mensagem apareceu.
Você tá ocupada, hein?
Alina engoliu em seco. "Ele tá tirando sarro da gente."
"Correção", Vale falou, fechando os olhos. "Ele tá tirando sarro de você."
Alina esticou a mão, com os dedos pairando no teclado. Hesitou.
"Fala alguma coisa", Damon disse.
"E se ele rastrear a gente pela resposta?"
"Ele já sabe onde estamos", Vale respondeu, séria. "Só tá deixando a gente fingir que tá seguro."
Alina encostou os dedos nas teclas, respirando fundo. Então digitou:
Me diz o que você quer.
A resposta veio quase na hora.
Encerramento.
O coração dela deu uma parada.
"Ele tá jogando um jogo", Damon rosnou. "Um jogo psicológico. Tá montando um palco. Ele quer que você vá até ele."
"Então vamos", Alina disse, antes que pudesse pensar melhor.
Damon se virou pra ela, com a mandíbula travada. "Você não entra numa armadilha só porque alguém te convida."
"Não é só sobre mim", ela rebateu. "É sobre as pessoas que ele machucou. As mentiras que ele contou pro mundo. A gente tem uma chance nisso, Damon. Uma chance de acabar com isso. Se ele tá dando uma abertura, eu preciso aproveitar."
Damon ficou em silêncio por um tempão. Aí ele assentiu devagar.
"Mas não sozinha."
—
Na manhã seguinte, eles já tavam no ar.
O jato era frio e elegante, silencioso acima das nuvens. Damon tava sentado do lado da Alina, com os dedos entrelaçados nos dela, embora nenhum dos dois falasse muito. Tobias tava revisando os planos táticos no fundo da cabine, enquanto Vale vasculhava as últimas migalhas digitais do Adrian no laptop dela.
Ele tinha mandado as coordenadas. Um ponto de encontro. Remoto. Abandonado.
Um antigo bunker da OTAN, no meio das Montanhas Cárpatas, na Romênia.
Alina ficou encarando a tela quando a localização apareceu. O frio entrou nos ossos dela.
"Isso não é só uma armadilha", ela disse. "É um cemitério."
"Exatamente", Damon respondeu. "Adrian quer a gente isolados."
"Bom", Vale adicionou. "Porque quando a gente virar o jogo, não vai ter ninguém pra limpar o corpo dele."
—
A neve crocante sob as botas da Alina.
O ar da montanha tava ralo, congelando, mas ela quase não notou. Ela andava pelas árvores de pinho em silêncio, Damon só uns passos atrás, com cada músculo do corpo em alerta. Tobias fazia a cobertura na esquerda dela. Vale ficou atrás pra monitorar de uma distância segura, mas a voz dela tava nos comunicadores deles.
"Tô vendo as assinaturas de calor dentro do bunker", Vale falou baixinho nos ouvidos deles. "Três no total. Um tá andando de um lado pro outro. Esse provavelmente é ele. Os outros dois estão sentados - armados, mas parados. Guardas."
"Copiado", Damon disse. "A gente se move no meu 'já'."
Alina parou na beira da clareira. A porta de aço do bunker aparecia na frente, meio enterrada no gelo e na ferrugem. Uma relíquia de outra guerra… agora reaproveitada pra um novo tipo de campo de batalha.
"Eu entro primeiro", ela lembrou Damon. "Ele não vai aparecer a não ser que eu esteja sozinha."
"Eu tô logo atrás de você", Damon disse. "Três minutos, e eu entro, não importa o que aconteça."
Ela se virou pra ele.
"Se acontecer alguma coisa—"
"Não." A voz dele falhou um pouco. "Não vai acontecer nada."
Alina deu um último olhar pra ele, então passou pela porta.
A parte de dentro do bunker era fria, as paredes cobertas de gelo e aço. Luzes fluorescentes zumbiam fracamente no alto. As botas dela ecoavam no chão de concreto.
Então ela viu ele.
Adrian Knight.
Ele parecia mais velho do que na última foto que a Vale tinha mostrado pra ela. Mais duro nos cantos. Mais alto, de alguma forma. O casaco escuro dele tava abotoado até o pescoço, e os olhos dele - aqueles olhos que o Damon um dia chamou de fraternos - estavam vazios, mas vivos com cálculo.
"Você veio", ele disse, sorrindo de leve.
Alina não sorriu de volta. "Eu sempre cumpro minha palavra."
Ele estudou ela com um tipo estranho de reverência. "Você me lembra ela. Da garota que eu conheci um dia… quando a verdade significava alguma coisa."
"Então por que você tá fugindo dela?" ela perguntou.
Adrian inclinou a cabeça. "Eu não tô fugindo, Alina. Eu tô reescrevendo."
Ela deu um passo mais perto, com a voz calma, mas firme. "O que aconteceu com você? Damon confiava em você. Ele ainda carrega o peso da sua traição."
O sorriso do Adrian sumiu. "Damon parou de confiar em qualquer um há muito tempo. Inclusive em mim."
\ atrás dela, os dedos da Alina pressionaram contra o transmissor no casaco dela.
"Talvez", ela disse, "mas ele ainda sabe a diferença entre o certo e o errado."
Os olhos do Adrian se estreitaram um pouco.
E então—tudo explodiu em
O eco da explosão não era feito de fogo ou fumaça - era o estrondo das botas de aço, o crepitar dos rádios, a eletricidade repentina que percorreu o ar quando Damon entrou pela porta, com a arma na mão.
"Alina!"
A voz dele ecoou pelas paredes do bunker, mas ela já tava mergulhando atrás de um dos caixotes de armazenamento virados, com a adrenalina pulsando nas veias. Adrian tinha sumido nas sombras como um fantasma, com os homens dele saindo dos cantos da sala, com as armas levantadas.
Tobias estava logo atrás do Damon, cobrindo as costas dele. A sequência aguda de tiros encheu o ar.
"Dois guardas no chão", Tobias gritou.
Damon não hesitou. Seus olhos se fixaram na porta no fundo do corredor - onde Adrian tinha se retirado.
"Eu vou atrás dele", Damon disse nos comunicadores.
"Não!" A voz da Vale explodiu no fone. "É uma armadilha—Adrian sabia que você ia seguir. Ele tá redirecionando as fechaduras internas do bunker."
Damon já tava correndo.
Alina correu atrás dele. "Ele não vai escapar de novo."
O corredor torcia e se estreitava, o aço rangendo a cada passo que eles davam. Luzes piscavam acima deles, iluminando breves flashes de velhas placas de aviso e paredes manchadas de ferrugem. Cheirava a óleo, poeira e decadência - como o passado que se recusava a ficar enterrado.
De repente, uma antepara bateu atrás deles, selando o Tobias do lado de fora.
"Droga!" a voz dele ecoou pelos comunicadores. "Eu tô cortado—Alina, Damon, vocês me ouvem?"
"Estamos bem", Damon rosnou, com os olhos examinando. "Ele quer a gente encurralados."
"Parabéns", disse uma voz suave à frente. "Vocês estão exatamente onde eu queria."
Adrian saiu das sombras como se nunca tivesse saído delas. Sem arma na mão. Sem medo no rosto. Só aquela calma irritante - como se ele ainda tivesse o roteiro e eles estivessem dançando conforme as palavras dele.
"Eu podia ter matado vocês dois no momento em que entraram nesse túmulo", ele disse.
"Então por que você não matou?" Alina disparou.
"Porque", Adrian disse, chegando mais perto, "isso não é sobre a morte, ainda não. É sobre a verdade. E a verdade exige uma audiência."
Damon levantou a arma, firme.
"Comece a falar."
Adrian não se mexeu.
"Projeto Arclight", ele disse, com a voz ficando fria. "Você acha que é só um programa, uma corda digital de fantoches para o controle do mercado. Mas é mais que isso. É uma doutrina. Um sistema de crenças que o Langston construiu - mas eu ajudei a projetar. Damon, você e eu colocamos sua base. Nós éramos os arquitetos."
A mão do Damon apertou a arma.
"Não", ele disse baixinho. "Nós estávamos tentando construir um firewall contra o caos. Você transformou isso em uma arma."
Adrian riu, mas não havia humor nisso. "Você ainda não entendeu. Não existe firewall. Não existe paz. Existe apenas controle - ou colapso."
"Conte isso para as pessoas que o Langston arruinou", Alina rebateu. "As que você deixou no seu rastro."
Adrian se virou pra ela.
"Eu não deixei elas", ele disse, quase suavemente. "Eu deixei ele. Porque eu percebi que o Damon não estava disposto a fazer o que era necessário."
"Você fingiu sua morte", Damon disse, com a voz crua. "Você me deixou pensar que você tinha ido."
"Você era muito emocional. Muito humano. Essa sempre foi sua falha", Adrian sussurrou. "Mas ela—"
Ele se virou pra Alina de novo, com os olhos brilhando.
"Ela é diferente. Calculista. Curiosa. Perigosa, se direcionada da maneira certa."
Damon se colocou entre eles. "Você não vai dizer o nome dela."
Mas Adrian apenas sorriu de novo. "Você vai perdê-la, Damon. Assim como você me perdeu."
A raiva nos olhos do Damon queimou mais forte do que o ar abafado do bunker. Mas antes que ele pudesse falar de novo, Adrian jogou alguma coisa aos pés deles - uma granada de flash.
A luz explodiu.
Alina foi jogada pra trás. Seus ouvidos zuniram. O mundo girou.
Quando a luz sumiu, Adrian tinha ido.
Damon puxou ela pra cima, agarrando os ombros dela. "Você se machucou?"
Ela piscou. "Não… mas ele foi de novo."
A voz da Vale cortou no meio da estática. "Tô vendo movimento. Túnel D. Ele tá fugindo pela rota de acesso inferior."
Tobias entrou. "Eu tô cobrindo a saída externa. Vou interceptar."
"Não", Damon disse, com a voz de aço. "Deixa ele ir."
Alina olhou pra ele, chocada. "O quê?"
"A gente conseguiu o que precisava", ele disse baixinho. "Ele acabou de nos dar a confirmação de tudo. E agora a gente garante que usa isso."
"Deixar ele ir é um risco—"
"Eu sei", Damon interrompeu. "Mas perseguir um fantasma no próprio labirinto dele não é a resposta. Expor ele é."
Alina hesitou… então assentiu.
Quando eles se viraram pra sair, ela olhou pra trás uma vez para o corredor vazio, agora ecoando com nada além de seus passos.
Adrian Knight estava vivo. Perigoso. Distorcido além do reconhecimento.
Mas agora ela entendeu.
Essa não era só a guerra do Damon mais.
Era dela também.
E ela estava pronta pra botar todo o império no chão—tijolo por tijolo manchado de sangue.