Capítulo 46
"Meu gerente, ele deu produtos para uns Americanos que valiam uma grana sem eles pagarem. Agora eles sumiram.", os olhos do Yusuf arregalaram quando o coração dele deu um mortal. "Innalillahi Wa'inna ilaihir rajiun. Isso é ruim", ele murmurou. "Eu nem sei o que fazer, Yusuf. Como a gente vai começar a rastrear essas pessoas? Posso ir à falência por causa disso."
"Você contou pro seu pai sobre isso?" O Muhsin balançou a cabeça. "Baba não precisa ser sempre o cara que limpa a minha bagunça. Tenho que assumir as responsabilidades desta vez. E a maior parte da culpa é minha. Sou descuidado, senão isso não teria acontecido."
"Não, Muhsin. Ninguém está livre de erros e isso é só um teste que você tem que passar sendo paciente. Acalma a mente e vamos superar isso..." Então, de repente, tudo silenciou. Tudo em volta dele ficou borrado e mudo. Ele se sentiu morto por dentro. A língua dele parecia seca. A garganta dele parecia que alguém tinha enfiado um punhado de pó de coceira lá dentro. Seus olhos estavam embaçados. Ele olhou pro Yusuf falando, mas não fazia ideia do que ele estava falando.
"Muhsin... Muhsin..." Ele piscou e olhou pro primo de novo. "Vem, levanta, vou te levar pra casa." Ele ajudou ele a levantar da cadeira. Levou ele pro carro e dirigiu pra casa.
O Muhsin se viu entrando na casa. Nada estava certo com ele. Ele precisava de alguém pra conversar. Alguém que desse as respostas pras suas preocupações e dissesse palavras de conforto. Ele precisava de alguém em quem se apoiar. Os pais dele sempre foram os que limpavam a bagunça dele, mas eles tinham outras preocupações pra cuidar. Ele era um homem crescido e tinha que começar a limpar a própria bagunça.
Ele subiu as escadas pro quarto dela. Ela olhou da cama antes de sorrir. "Amor, você voltou. Vem cá, por favor." Ela fez sinal pra ele vir, abrindo os braços. Ele se juntou a ela na cama e se aconchegaram. Quando finalmente se abraçaram num abraço quente, lento e luxuoso, ele se sentiu um pouco aliviado. "Como foi o trabalho?" Ela perguntou, acariciando o cabelo macio dele. Ele olhou do peito dela. Ela não conseguia ler a depressão por toda a cara dele? "Eu tenho um problemão na empresa, Amira. Posso ter que fechar a empresa toda."
"O que aconteceu?"
"Usei quase todo o meu dinheiro pra importar coisas novas e meu gerente assinou um contrato com uns Americanos que no final eram ladrões. Levaram as mercadorias sem pagar, agora não sei o que fazer." Ela deu de ombros e segurou o rosto dele. "Isso não é motivo pra se preocupar, amor. Seu pai é muito rico. Você pode vender a empresa e começar outro negócio. Sei que seu pai vai te dar a quantia que você precisa."
Ele gentilmente afastou as mãos dela do cabelo e se afastou dela. Vender a empresa depois de ir tão longe? "Amira, o que você está dizendo? Não faz sentido. Quer dizer que tenho que sempre depender do meu pai? Você não ficaria envergonhada se seu marido tivesse que depender do pai dele sempre que tem um problema? Não, não posso ser tão egoísta. Preciso assumir essas responsabilidades e limpar minha bagunça."
Ele desceu da cama dela e começou a andar em direção à porta. "Vou pra mesquita agora pra rezar. Você também devia levantar e rezar antes de eu voltar." Ele saiu do quarto sem olhar pra trás. Ela chiou e deu de ombros. A ideia dela era brilhante, ela refletiu consigo mesma. Só que ele era burro demais pra ver. Era uma maneira simples e fácil de ele recuperar o dinheiro dele, mas escolheu um caminho difícil. Esse é o seu problema, ela murmurou.
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Quando ele colocou o celular de volta no bolso do peito, deu a volta e saiu do condomínio pra Universidade do Nilo. Já faziam três dias, mas nada tinha mudado. Ele estava indo em reuniões e mais reuniões pra ver como as coisas seriam resolvidas, mas ainda sem progresso. As coisas só pioraram pra ele.
Ele olhou pro telefone tocando, mas ignorou. A Amira estava ligando pra ele sem parar e ele sabia que se cometesse o erro de atender a ligação dela, ela ia acabar deixando ele mais magoado e deprimido do que ele já estava.
Ele estacionou no departamento deles, onde tinha certeza que ia encontrar ela e, por sorte, encontrou. Ela estava saindo do departamento com três amigas dela que pareciam familiares pra ele. Ele deu de ombros quando não conseguiu lembrar onde tinha conhecido elas, mas tinha certeza que foi na escola.
Ela o viu e sorriu um pouco antes de se despedir das amigas e caminhar em direção ao carro. "Boa noite", ela começou assim que entrou no carro. Por algum motivo, ele se sentiu um pouco aliviado. "Como você está? Como foram as aulas hoje?" Ela sorriu e assentiu: "Tudo bem, alhamdulillah." Ela observou o rosto dele e desviou o olhar. Ele deu a partida no carro e começou a sair da escola. "Papai está fora da cidade com o motorista, então ele pediu pra eu vir te buscar e me disse que seu telefone não estava funcionando." Ela assentiu lentamente, mas depois olhou pra ele de novo.
"Tem alguma coisa te incomodando? Você parece pálido, emagreceu, se posso dizer assim." Ela olhou pro rosto dele angustiado, pras mãos dele e de volta pro rosto. Ele teve que estacionar o carro na beira da estrada pra ter certeza de que tinha ouvido direito. "Quero dizer, é como se algo estivesse te incomodando." Ela explicou quando ele pediu pra ela repetir a pergunta. "Como você... como você percebeu que eu não estou bem?" Ele não conseguiu evitar perguntar. Deixou ele em choque que ela pudesse dizer que ele não estava bem. "Seu rosto diz que não está. As olheiras, especialmente. Você emagreceu também. O que houve?" Ele continuou olhando pra ela, incapaz de pensar em como ele se sentia exatamente. Como ela fez isso quando ele teve que dizer pra própria esposa que estava com problemas e ela não fez nada pra ajudar, mesmo depois de contar as preocupações dele?