Capítulo 89
Muhsin passou pelos quartos e foi pro escritório do primo dele. Ele bateu na porta antes de entrar. Yusuf levantou a cabeça pra olhar pro Muhsin. Ele não sorriu. "Senta aí, a gente precisa conversar." Yusuf apontou pra cadeira pra ele sentar. Muhsin suspirou e sentou na frente do Yusuf. A cara que o Yusuf fez pra ele o deixou aterrorizado. Ele ficou olhando, esperando o pior. Ele sabia que a esposa dele tinha tido um aborto espontâneo, mas depois disso, o que aconteceu?
"Você sabe que a Dalia tomou pílulas abortivas, né?"
A cara do Muhsin caiu mais rápido que um defunto de bota de cimento. Naquele instante, a pele dele ficou pálida, a boca dele ficou meio aberta e os olhos arregalados o máximo que podiam. "Quê?" Ele murmurou, boquiaberto pro Yusuf.
Yusuf olhou pra ele espantado. "Então, você não sabe que ela tomou pílulas abortivas?" Ele perguntou. Muhsin olhou pro lado e ficou encarando o vazio. O Yusuf deve ter entendido tudo errado. "Não, não, eu sei que minha esposa nunca faria isso. Ela é inocente demais pra fazer isso. Você deve ter entendido errado. Minha esposa teve um aborto espontâneo, ela não abortou nosso bebê." Muhsin gritou enquanto continuava dizendo pro coração dele que não era verdade. Yusuf suspirou antes de empurrar o papel pra ele. "Ela tomou RU 486, o que levou ao aborto espontâneo que você mencionou."
A mão dele tremia de medo e raiva. "Que que é isso? RU o quê? Que que você tá falando?" A respiração dele ficou superficial. Tudo o que ele precisava era ver o Yusuf rindo e dizendo que era uma piada, mas nada disso aconteceu. "Mifepristona, também conhecida como RU 486, é usado pra causar aborto no início da gravidez. É usado até a décima semana..."
Muhsin não podia dizer que já tinha se sentido tão magoado e traído na vida dele como naquele momento. Ele bateu na mesa do escritório, furioso, antes de se levantar e sair correndo antes que o Yusuf pudesse terminar a frase.
Devagar e relutante, ela abriu os olhos pesados. Ela piscou, fechou os olhos e piscou de novo. Olhando pro quarto, os olhos dela foram parar nele, em pé, olhando pra ela. No começo, ela achou que a visão dela não tava mostrando o que ela tinha visto. Os olhos dele estavam estreitos, rígidos, frios, duros. Naquele momento, ela soube que algo não tava certo.
Quando ela tentou falar, ele a interrompeu. Ele tirou as mãos do bolso e cruzou os braços no peito. Dalia nunca tinha visto ele daquele jeito, os olhos dele tinham uma frieza, uma quietude. O homem que sorria sempre, o que quase nunca deixava ela ver o lado infeliz dele.
"Você não tava brincando quando disse que não queria esse bebê..." Ele mencionou, mas depois fez uma pausa. Ele suspirou, esfregando os olhos cansados com o polegar e o indicador. Ela ficou olhando pra ele o tempo todo, esperando ouvir o que ele tinha pra dizer.
"O que eu fiz pra você merecer isso? Você devia ter me esfaqueado no peito com uma faca em vez de abortar o bebê, porque eu acho que teria sido muito mais fácil pra nós dois. Você era minha amada esposa! Agora você não passa de uma mera lasca de inutilidade. Eu confiei em você! Eu me importava com você! Eu orei a Allah pra que você ficasse saudável, feliz e forte. Mas é assim que você me retribui? Isso! Abortando meu bebê, depois de todo o esforço que eu fiz pra tornar isso menos difícil pra você. Você me traiu e agora você não é mais nada pra mim. Você perdeu toda a minha confiança, enfraqueceu seu status. Você está morta pra mim!"
Ela se sentiu morta por dentro. A língua dela parecia seca. A garganta dela parecia que alguém tinha enfiado um punhado de pó de coceira lá dentro. Os olhos dela estavam brilhantes e, a qualquer momento, as lágrimas iam cair. "Do que você está falando? Você continua mencionando aborto, sendo que não sabe de nada. O que eu fiz pra você? Por que você está dizendo todas essas palavras cruéis pra mim?"
A raiva ferveu fundo no sistema dele, quente como lava. Ela borbulhava por dentro, faminta por destruição, e ele sabia que era demais pra ele lidar. Fogos de fúria e ódio estavam queimando nos olhos pequenos e estreitos dele. "Você me atingiu com traição. Eu vou revidar com minha vingança." E com isso, ele saiu correndo do quarto.
Dalia ficou lá por cerca de uma hora, derramando lágrimas por algo que ela não sabia de nada. Pelo que ele tinha dito, ela tinha perdido o bebê? Como? Por que ele acharia que ela abortou o bebê deles? As lágrimas desoladas voltaram a cair quando ela recapitulou as palavras cruéis dele pra ela. Ele a odiava agora e ela não era nada pra ele. O que ele quis dizer com isso? Ele tá indo embora?
O que ela tinha medo a vida toda, um casamento fracassado e agora ela tinha caído em um. Ela se enrolou em uma bola e soluçou incontrolavelmente nos joelhos. Só Deus sabe a verdade sobre o que aconteceu, mas ela sabia que não tinha nada a ver com essa coisa que ele acusou ela de fazer.
Ela ouviu uma batida suave na porta antes da intrusa entrar. Dalia levantou a cabeça pra ver a sogra dela. "Dalia, subahanallahi. Vem, levanta. Muhsin me disse que você teve um aborto espontâneo. Eu sei exatamente como você se sente. Eu sei que dói pra caramba perder seu filho. Mas não é o fim do mundo. Certamente Allah sabe o que é melhor e você deve ter em mente que isso já estava escrito e não podemos fazer nada sobre isso. Isso faz parte do seu Qadr."