17 Assassino da Vizinhança
O Damon pulou a parede do complexo da prisão, que tinha uns seis metros de altura. Ele tinha treinado pra escalar obstáculos bem maiores – paliçadas, cercas, barricadas e até represas. As missões dele normalmente envolviam se infiltrar nas casas fortificadas de cidadãos ricos ou influentes.
Não tinha guardas no pátio interno. Talvez os Vigias achassem que ninguém em sã consciência tentaria invadir uma prisão. O Damon foi andando na pontinha dos pés em volta do prédio principal e não achou nenhum jeito de entrar. Não tinha janelas, e as aberturas das claraboias eram muito estreitas pra ele passar.
Ele subiu correndo pelo prédio, usando a tubulação, e chegou na beirada do terraço. Tinha dois guardas de vigia, olhando pra cerca da Ágora, de costas pra ele. O Damon pulou a mureta do terraço e tirou duas agulhas finas do cinto. O terraço tinha uns quinze metros de largura, e ele precisava correr em direção aos guardas sem ser visto. Os guardas perceberam que alguém tava chegando perto deles. Mas já era tarde demais pra reagir. As agulhas do Damon encontraram a nuca deles.
A arte mortal da Estilostixis usa objetos pontudos pra furar certos meridianos do corpo e conseguir o efeito desejado. Podia paralisar ou rejuvenescer. Ressuscitar ou matar. O Damon tinha aprendido essa arte com um mercenário das terras distantes.
Os dois guardas caíram como um saco de batatas. O Damon ajudou eles a encontrar o chão sem fazer bagunça. Ele pegou as chaves deles e olhou em volta do terraço pra ver se achava uma entrada pra prisão.
Uma das chaves era pra uma portinhola trancada que dava pra uma escada que levava pro andar de cima.
O prédio da prisão tinha três andares. O terceiro andar abrigava os escritórios dos Vigias mais importantes, incluindo os Triplicários. O Damon descobriu que o segundo andar era usado pra guardar coisas essenciais, evidências e também funcionava como armaria.
O primeiro andar tinha a entrada, e a maioria dos Vigias ficava lá. Era sem graça e mal iluminado. Os braseiros e tochas raramente eram oleados, precisavam de manutenção. Uma atmosfera deprimente dominava a prisão. Das sombras da escada, o Damon conseguiu contar mais de uma dúzia de Vigias no primeiro andar. Ele desceu as escadas sorrateiramente e descobriu que o prédio tinha uma masmorra, que funcionava como o espaço das celas. Ele esperou os olhos se acostumarem com a falta de luz, mas tava escuro demais pra ele conseguir ver as próprias mãos. O Damon fechou os dedos, e uma tocha em chamas apareceu na mão dele.
Um corredor comprido serpenteava na frente dele, com grades de prisão dos dois lados. O Damon manifestou um uniforme de Vigia nele mesmo, com um capacete acolchoado pra esconder o rosto. Ele andou pelo corredor, espiando em cada cela.
O nome do garoto que ele tava procurando era Galen. E ele bateu em cada cela, gritando o nome. Os prisioneiros se encolheram com a luz da tocha, mas ainda não tinha ninguém que respondeu a ele.
Um dos condenados tava dormindo, mas falando dormindo. Parecia que ele tava tendo um pesadelo. Os outros mandaram ele fazer silêncio e jogaram pedregulhos nele.
"É um Vigia", alguém disse. "Acorda ele, senão ele vai pra casa da dor."
O que é a casa da dor, o Damon se perguntou.
Ele tava quase no fim do corredor quando teve uma resposta pro nome Galen.
"Eu sou o Galen", o garoto disse desesperado, tentando sacudir as grades de ferro. "Por favor, me deixa ir. Eu não fiz nada de errado."
O garoto tinha uns doze anos, as roupas dele de patricio agora estavam sujas e esfarrapadas. A voz era doce e efeminada. Garoto patricio mimado, o Damon julgou.
"Eu tô aqui pra te resgatar, garoto. Seu pai me mandou."
O Galen se afastou das grades.
"Eu não quero voltar pro meu pai."
"A gente fala sobre isso depois. Primeiro, vamos sair daqui." Ele se perguntou por que alguma criança sã ia querer ficar na prisão em vez de voltar pros pais. Mas não tinha tempo pra esse tipo de conversa. Qualquer Vigia podia aparecer na masmorra e pegar ele em flagrante. E ele precisava bolar um plano agora pra tirar o garoto do prédio da prisão.
O Damon usou as chaves que ele tinha roubado dos guardas paralisados e libertou o Galen. O garoto mal conseguia andar. Os Vigias tinham deixado ele sem comer nos últimos dois dias pra quebrar o espírito dele.
Enquanto ele levava o jovem condenado pelo corredor, alguns dos prisioneiros encostaram os rostos nas grades. Eles eram de idades diferentes, de crianças gaguejando a homens e mulheres velhos e rabugentos. Os rostos pareciam machucados; os olhos tinham perdido o brilho. O Damon tinha ouvido falar que alguns prisioneiros eram mantidos lá por décadas pra apodrecer. Muitas vezes, eles eram esquecidos, mesmo depois que as sentenças deles expiravam. Se não tivesse ninguém pra te buscar do lado de fora, era provável que você não fosse libertado. O magistrado focava mais em aumentar o tesouro dele do que no bem-estar dos encarcerados.
Ao chegar no patamar da escada, o Damon conseguiu ver que a masmorra ia mais fundo no chão. Vozes fracas vinham do nível inferior. Eram gemidos de dor e sofrimento.
"Os prisioneiros chamam de casa da dor. Os Vigias te levam pra lá se você não se comportar. Acho que tem instrumentos pra açoitar, ferver e esmagar. De vez em quando, eles trazem um sujeito peculiar que tem poderes especiais adequados pra tortura."
O Damon tentou clarear a cabeça. Ele tinha que se preocupar com a própria pele.
Ao chegar no primeiro andar, o Damon encheu o peito e instruiu o Galen a fingir. O grupo de Vigias olhou pra dupla com suspeita, e o líder deles pulou em pé.
"Parados! Pra onde vocês estão levando ele?"
"O magistrado pediu por ele urgente."
"Nós não recebemos nenhuma ordem do escritório do magistrado-"
"-Aparentemente", o Damon interrompeu, "o pai patricio dele concordou em pagar dez mil de ouro pela volta dele."
"Dez mil?" os outros murmuraram. Era uma quantia significativa de ouro em comparação com os salários de um Vigia.
"Sendo assim, mas eu não vi vocês entrarem. De qual unidade vocês são?"
Os outros concordaram e expressaram sua concordância. Eles não tinham interceptado nenhum outro guarda entrando na masmorra nas últimas duas horas.
O Damon olhou pras garrafas de vinho na mesa perto dos lounges dos Vigias. "Há quanto tempo vocês, guardas, estão bebendo?" ele perguntou, apontando pras taças e cálices. "Vocês querem que eu conte pro magistrado por que eu demorei pra trazer o prisioneiro precioso dele pra ele? Eu sou um duplicar da guarda pessoal dele, e ele me escuta de vez em quando."
O líder dos Vigias perdeu a compostura. Eles estavam claramente embriagados e estavam planejando beber mais durante a noite. Uma visita do magistrado não seria ideal pro futuro imediato ou distante deles.
"Desculpas pela nossa falta de visão. Vocês podem levar o prisioneiro."
O Damon agarrou o Galen pela gola, levando ele pra fora com brutalidade. Os guardas da entrada foram dispensados por um Vigia do escritório pra deixar a dupla sair.
Enquanto eles caminhavam em direção ao escritório do magistrado, o Damon levou o Galen pra uma multidão de cidadãos. Na confusão, ele fez mágica e colocou roupas novas e do dia a dia nos dois. Ao sair da multidão, eles pareciam pai e filho, voltando pra casa depois de um passeio agradável à noite.
Eles saíram do quadrilátero da Ágora, e ninguém prestou atenção.
Do lado de fora, o Galen agradeceu profusamente ao salvador dele.
"Mas eu não quero voltar pro Modo", ele reclamou. "Meu pai é um homem mau. Ele engana e mata pra aumentar a riqueza dele. Bem parecido com os influentes desta cidade."
"Então, pra onde você vai? Você é só um garoto verde."
"Eu não sou um garoto", ele respondeu com irritação.
"Eu tenho certeza que você vai crescer e virar homem um dia. Mas agora, olha pra você. Você é um garoto."
"Não, eu não sou um garoto. Eu sou uma garota!" a criança explodiu.
O Damon não esperava por isso. O cabelo da criança tava raspado perto do couro cabeludo. Ele tinha traços delicados, e o Damon tinha pensado que talvez o garoto fosse só bonito de se ver.
"Eu fico feliz que você me contou a verdade. É muito mais perigoso pra você se virar sozinho no mundo. Qualquer bandido que colocar a mão em você vai te vender como escravo ou, pior, pros bordéis. Acredite em mim quando eu digo que você vai estar seguro com seu pai, não importa o quão mau ele seja."
"Me leva com você", a garota declarou.
"Não seja ridícula."
"Eu vou pra qualquer lugar que você for. Eu vou cozinhar suas refeições e lavar suas roupas e carregar sua bagagem. Eu não tenho mais nada pra oferecer como garota. Mas quando eu crescer, você pode me ter como amante."
O Damon riu alto e continuou rindo, descansando sobre os calcanhares. A garotinha tava mesmo desesperada.
"Muito bem", ele disse, mudando de ideia. "Eu vou te levar comigo. Mas eu tenho mais dois companheiros. E nós vamos começar uma jornada perigosa pro Monte Radomir. Você acha que consegue sobreviver?"
"Essa é uma notícia boa. Eu sempre quis fazer uma jornada de herói."
"Pode parecer, mas você não pode esperar que eu arrisque minha vida toda vez que você se meter em problemas."
"Eu vou te servir, e você pode me ensinar a lutar."
"Isso pode ser combinado. Agora vamos te arranjar comida. Sua barriga tá roncando como uma fera."