08 Um Encontro com o Destino~ Felicity
Felicidade andava toda delicada entre os dois rapazes. Nos sonhos dela, eles pareciam moleques, mas pessoalmente eram maduros pra idade. Um deles, com uma túnica branca de trabalhador, era quase um palmo mais alto que ela. O outro tinha mais ou menos a altura dela, com roupa escura.
O Sol já tava quase se pondo, pintando o céu com um tom avermelhado. Uma brisa suave soprava do leste.
O capuz da Felicidade tava abaixado, e o cabelo loiro dela dançava como fitas. Era uma visão que chamava a atenção. Os dois caras não paravam de dar umas olhadas de canto de olho. Mas a Felicidade não tava desconfortável. Ela queria isso há muito tempo – estar perto dos dois homens dos sonhos dela. Um sorriso fininho, tipo agulha, tava nos lábios dela.
A garota tinha uma mania de atrair a atenção dos homens. Não era só a beleza dela que encantava.
Desde o dia que ela sangrou pela primeira vez, os homens começaram a notar ela cada vez mais. Não era aquela consideração de coração bom que o povo de Fugi era conhecido por ter. Os homens chegavam na Felicidade com pensamentos safados. Queriam possuí-la. Tinha algo sinistro nisso. O negócio foi ficando cada vez pior com o tempo, com os homens confessando amor pra ela na rua.
Por isso, a Felicidade tinha que usar um capuz o tempo todo. Com tão pouca idade, ela tinha um peito cheio e quadris bonitos que iam dar inveja nas mulheres mais famosas de Pago. A mãe adotiva dela, Sheila, achava que ela tinha sido abençoada pelo titã Anaximandro, o mais charmoso dos deuses que viviam no Monte Radomir.
"Homens são bestas," ela dizia. "Eles só querem te tirar a inocência!"
Uma garota da fazenda uma vez contou pra Felicidade um conto das terras distantes. Era sobre a bruxa Hécate, que aceitou um sacrifício humano e, em troca, deu o dom de ser irresistível para os homens. Era mais uma maldição do que uma bênção.
Se ela tinha sido abençoada ou amaldiçoada, a Felicidade não tinha como saber o motivo da situação dela.
A família adotiva dela tinha perguntas sobre o passado dela. Mas ela não tinha nada pra contar, porque não tinha lembranças.
Cinco anos atrás, a Felicidade tinha acordado numa pilha de feno no meio de uma fazenda em Fugi, sem nenhuma memória. A família de camponeses dona da terra ficou chocada ao encontrar uma garotinha nua vagando pela fazenda deles. Eles a levaram, deram banho, vestiram e alimentaram. Como a garota não conseguia falar por meses, eles acharam que ela era uma refugiada muda das terras distantes – uma bárbara. O casal de camponeses, sendo gente boa, deixou ela viver como uma das crianças deles.
A Felicidade tinha três irmãs – Haiti, Twitch e Mello. A mãe delas, Sheila, não deixou a garota refugiada faltar nada.
A Felicidade cresceu no meio da natureza.
Ela passava horas nos prados e florestas. Os animais eram os amigos dela. As árvores davam pra ela graça e sabedoria. O vento e a chuva cantavam músicas pra ela se divertir. Quase ninguém notava ela. Ela viveu em paz por vários anos.
Aí, no dia que a Felicidade sangrou, o mundo mudou pra ela. A atenção indesejada. De garotos da fazenda e homens com o triplo da idade dela. No mesmo dia, as visões e pesadelos começaram. A garota dormia no meio do dia e tinha um sonho vívido, que se realizava nos dias seguintes. Podia ser sobre as éguas parindo potros ou uma praga de gafanhotos, ou a chegada das chuvas. A Felicidade conseguia ver várias semanas no futuro.
Às vezes, ela tinha pesadelos enigmáticos – sonhos terríveis de guerra e destruição. Inúmeras vidas perdidas. No meio de toda a carnificina, ela via eles. Tarso e Damon – os dois homens que estavam do lado dela naquele momento. Nas visões dela, ela tava envolvida intimamente com eles. Mas eles não precisavam saber disso ainda.
A Felicidade tinha contado pra eles várias mentiras convenientes. Ou melhor, eram meias verdades. Pra começar, ela tinha contado pra eles o que ela era.
"Deixa eu rever suas palavras," Damon começou. "Você é uma musa? Uma pessoa estranha que consegue ver o futuro? Além disso, você previu numa visão que nós três vamos virar deuses e viver no Monte Radomir?"
"Sim," ela respondeu solenemente.
Damon riu alto.
"E de onde você é, MUSA?"
"Eu morava numa fazenda em Fugi."
"Uma garota da fazenda de Fugi aparece do nada e me diz que eu vou virar um deus. E ainda por cima, eu tenho que largar meu trabalho e acompanhar ela numa jornada. Eu tô sem palavras!"
"A propósito," Damon se interrompeu. "Desculpa pelo que eu falei na taverna. Deu uma coisa em mim-"
"Eu entendo. É por isso que eu cubro o rosto," disse Felicidade.
"Esse efeito que você tem nos homens tem a ver com você ser uma musa?"
"Sim."
"Quais são suas outras habilidades?"
"Eu consigo controlar o elemento água, e tenho boa sorte."
"Elemento água é útil. Que boa sorte é essa que você fala? Você é boa em jogos?"
"Você vai descobrir com o tempo, Damon."