19 O Primogênito
A família Agrippa não tinha grana nem coisas de valor. Talvez umas moedas de bronze perdidas pela casa. A mobília era pouca e velhaça. A terra deles, se é que dava pra chamar assim, ficava meio que nos pântanos. Não servia pra plantar, e as ervas daninhas tinham tomado conta. A única coisa que valia era a casa, uma cabana de madeira nos arredores de Fugi. Se andassem cinco milhas pro sul, as muralhas da Ascendência iam aparecer, maiores que as árvores mais altas.
Ruben e Lysa Agrippa nunca tinham saído da terra deles depois de casados. Os vizinhos mais próximos moravam a uma milha de distância e preferiam não fazer visitas. Tinham medo de ter suas carroças e cavalos engolidos pela lama.
O casal tinha dois filhos: Elias, um garoto esperto de dezesseis anos, e Rhode, uma garota tímida de dezenove anos.
A casa deles tinha uma horta improvisada, feita com barro e areia trazidos da cidade mais próxima. Algumas plantas de ruibarbo, cenoura e ervilha prosperavam. Ruben ia pra floresta todo dia buscar lenha. De vez em quando, Elias ia com o pai caçar. A carne era fácil de conseguir, com um monte de gansos e faisões na floresta. Um coelho ou lebre de vez em quando era um luxo. Por isso, a família Agrippa dificilmente ia passar fome. Pai e filho iam na cidade de vez em quando vender a caça pra comprar grãos, remédios e um pouco de bebida pro Ruben tomar à noite.
Rhode fazia a comida, costurava e lavava, entre outras tarefas. A mãe, Lysa, tinha desenvolvido gota nos pés e joelhos uns anos atrás, e depois piorou. Não conseguia ficar em pé nem andar sozinha e sempre precisava de alguém pra cuidar dela. A coitada ficava na cama ou sentada numa cadeira o dia todo. Rhode tinha assumido todo o trabalho da casa desde que a mãe ficou doente. Mas a maior preocupação de Lysa era casar a filha logo, já que ela tinha feito idade dois anos atrás.
Rhode tinha um cabelo preto como a noite, tão comprido que ia até os joelhos quando não estava preso num coque. Era magra e tinha traços fortes que alguns homens achavam atraentes. Seus olhos grandes e pretos ficavam bem separados sob uma testa larga. Sempre vestida com roupas usadas da mãe, não tinha a aparência de uma noiva. Várias famílias tinham vindo procurar casamento no ano passado, mas a maioria a achava muito séria e silenciosa pra gostar.
Rhode raramente falava quando falavam com ela, e seu rosto estava sempre meio coberto de cabelo. Quem visse de longe podia confundir com uma viúva de luto.
No entanto, tinha um pretendente estranho que continuava a cortejá-la há vários meses. Um rapaz de vinte anos chamado Jirel, filho de um fazendeiro rico da cidade. O rapaz vinha na cabana dos Agrippa toda semana, trazendo presentes pra Rhode.
"Anda logo, Rho. Jirel tá te esperando lá fora", cutucou Lysa a filha. Era sábado de manhã e, como um relógio, o filho do fazendeiro tinha chegado na frente da casa deles. Dessa vez, ele trouxe uma cesta de ameixas como oferta. Os presentes dele pareciam mesadas.
"Mas primeiro, tenho que preparar o remédio pra você, mãe", murmurou Rhode, amassando algumas raízes que Elias tinha comprado na cidade na noite anterior.
"Toma, me dá aqui", disse Lysa. "Eu consigo fazer sozinha. Se arruma, querida."
Rhode entregou o pilão e o almofariz pra mãe e procurou um vestido decente pra substituir suas roupas de trabalho cheias de traças.
"Use o branco bordado", sugeriu a mãe.
A garota não tinha muita escolha, já que o vestido branco que pertencia à juventude de Lysa era a única roupa que não a fazia parecer uma mendiga.
Rhode colocou um balde ao lado da cama, um jarro de água e um pouco de pão ao alcance. Tanto Ruben quanto Elias estavam caçando o dia todo, e por isso Lysa ficaria sozinha.
"Já volto", afirmou a filha obediente.
"Não se preocupe, querida, vou ficar bem sozinha. Dê atenção pro seu homem. Ele te ama, você sabe", aconselhou ela Rhode antes que ela saísse.
Jirel era um homem alto, de ombros largos e cabelo castanho claro. Era meio gordinho e falava muito. Mas essas características eram bem típicas dos moradores da cidade, que não precisavam trabalhar muito pra viver, Ruben tinha explicado uma vez.
"Ave, Rhode", disse o pretendente nervoso, entregando uma coroa feita de flores de hera.
"Ave, Jirel", ela respondeu, sem saber o que fazer com a coroa.
"Toma", ele disse, colocando na cabeça dela. "Fica bom em você."
Jirel tentou sorrir, mas não conseguiu. Ela gostava mais de dálias.
"Ah, sim, tenho uma surpresa pra você", brincou o rapaz. "Vamos dar uma volta?"
Rhode não fez nenhuma objeção. Era pra ela passar um tempo com o pretendente, e uma caminhada era com certeza melhor do que ficar sentada com ele, sem graça. Jirel não era o cara mais esperto, e o senso de humor dele não a divertia.
Tinha uma trilha que os lenhadores e coletores usavam pra entrar na floresta. Passava por álamos, ciprestes e carvalhos. O caminho era pedregoso e desconfortável. Rhode pegou um punhado de pinhas de cipreste e mirou nos troncos das árvores enquanto caminhavam.
"Como vai a Lysa? Ela tá melhor?", perguntou Jirel.
Rhode balançou a cabeça.
"E o Elias? Ele gostaria de vir trabalhar pro meu pai na cidade?"
Rhode deu de ombros.
Jirel já conhecia a atitude da garota.
"Bom, sobre a surpresa. Eu encontrei uma coisa da última vez que estive aqui pra caçar."
Ele pegou na mão dela e a puxou pra fora da estrada, pra dentro da floresta.
"Vem comigo."
Rhode se sentiu um pouco invadida pelo toque espontâneo, mas decidiu ir com ele. Seus pais não iam gostar se ela chateasse o futuro marido.
A floresta ressoava com o canto dos pássaros e o zumbido dos insetos. Podia-se ouvir um riacho correndo não muito longe dali. Esquilos e esquilos listrados corriam na folhagem acima, avaliando os convidados.
Depois de alguns minutos de caminhada, eles apareceram em outro caminho. Era bem diferente do resto da floresta. Uma trilha fina ia direto pro norte. O chão era coberto de grama verde aveludada, e buganvílias brotavam dos dois lados. Os arbustos tinham florescido profusamente, fazendo o caminho parecer um bulevar rosa. Borboletas de várias cores voavam de um lado pro outro.
Pela primeira vez, Rhode levantou o rosto e afastou o cabelo pra ver o mundo melhor. Encontrou um ninho de andorinhas com filhotes a caminho. Jirel desviou de um beija-flor voando pelos arbustos.
Talvez ela pudesse se casar com Jirel e ser feliz, pensou a garota. Lysa dizia que uma mulher tinha que encontrar seu lugar na vida por meio de um marido. Sozinha, ela não valia nada.
Eles caminharam por um tempo. Rhode correu na frente e dançou na grama.
Parando perto de um arbusto de mirtilos, eles colheram algumas frutas.
"Isso é lindo", disse ela, segurando as mãos de Jirel. "Sou grata por você me trazer a este lugar maravilhoso."
"Não, VOCÊ é linda, meu amor", sussurrou Jirel.
E ele se aproximou e a beijou.
Rhode o beijou de volta. Foi o primeiro dela, e ela percebeu que não era tão ruim quanto a fizeram acreditar. Jirel não tinha mau hálito, como Elias tinha avisado, zombando dela.
O pretendente a puxou pra perto e passou o braço em volta dela, apalpando-a por trás.
Rhode se afastou dele. "Ainda não."
"Só dessa vez", insistiu Jirel, segurando-a.
"Não!"
Ele não a soltava pelo pulso. Em vez disso, puxou-a pra perto de novo e tentou colocar a mão por baixo da túnica dela.
"Me solta!"
Rhode se afastou e deu um tapa na cara dele.
"Desculpa", disse ela, percebendo que tinha ido longe demais.
Jirel ficou furioso.
"Você vai morrer sozinha, sua vadia do pântano!" Ele gritou com ela antes de sair correndo, abandonando-a no meio da floresta.
Rhode começou a soluçar. Seus pais iam ficar de coração partido. Ela tinha decepcionado eles de novo.
Levou um tempo pra ela se recompor e encontrar o caminho de casa.
Nuvens tinham se reunido no horizonte. A garota voltou sozinha, assombrada por seus pensamentos. Os sons da floresta não eram mais agradáveis pra ela.
Quando voltou pra cabana, Ruben e Elias já estavam de volta. Estavam do lado de fora. Até Lysa tinha sido levada em sua cadeira de rodas de madeira. Algo estava errado.
"O que aconteceu?", perguntou Rhode a Elias.
"Não sei. Pergunta pro pai."
Ruben era um homem forte, com barriga, no final dos quarenta anos. Estava agachado no chão, observando a casa.
"Pai, tem alguma coisa errada?"
"Vem cá, querida. Olha."
Rhode se abaixou ao lado dele e tentou ver o que ele estava apontando.
Era o tronco da fundação da casa. Estava meio enterrado no chão.
A garota correu pra varanda e mediu a parede externa. A cabana. Tinha afundado no chão uns trinta centímetros.