Capítulo 29
O objetivo de hoje era por o treino em dia, que a gente adiou por causa da visita do Klovski. O Sr. Huang achou que ia ser uma distração e tanto pra mim, já que eu tava tão chateada e, cito, 'nada melhora o humor de alguém como jardinagem.'
Sei lá o que isso significava, mas eu tinha certeza que ia me ajudar a esquecer a realidade por um tempo. Jardinagem não parecia ser tão ruim.
O que me incomodou foi que logo percebi que ele não tinha um jardim. Mas não me dei ao trabalho de fazer perguntas, porque sabia que ele devia ter alguma coisa na manga. Então, fui atrás dele, mais pra dentro do monte de árvores que ficavam altas, com os galhos esticados pra criar uma copa alta sobre nossas cabeças.
Tinha árvores com frutas caídas embaixo, umas pareciam maduras e outras, podres. As raízes das árvores saíam de baixo, debaixo da terra da floresta. Faziam questão de mostrar sua presença, inchando o solo em alguns lugares, fazendo o chão ficar irregular e obrigando o Sr. Huang e eu a olhar onde pisávamos pra não tropeçar.
Não era muito longe, mas o tal 'jardim' ficava a uma boa distância da cabana. Me deu a impressão de que o Sr. Huang gostava de se meter em todas essas andanças desnecessárias dentro da floresta.
Quando finalmente chegamos na clareira, fomos direto ao trabalho. O Sr. Huang começou a fazer esboços de como queria que o jardim ficasse no chão arenoso com um graveto que ele pegou.
Comecei a trabalhar na hora, depois daquilo; reorganizando a posição dos vasos e onde cada um ficava.
A gente acha que reorganizar um jardim ia levar no máximo uma hora pra terminar, mas eu passei o resto do dia tentando acabar por causa de dois motivos principais.
1) O jardim era enorme pra caramba.
2) O Sr. Huang é muito indeciso.
Um minuto ele quer as rosas no centro do campo e no minuto seguinte, quer que elas fiquem do lado direito. Não demorou muito até o sol começar a se pôr e as estrelas aparecerem. Só então ele finalmente me deixou descansar e adivinha? O jardim, porcaria, tava como se nunca tivesse sido tocado.
Eu dei pro Sr. Huang um olhar de 'que porra é essa'. Minhas costas já estavam começando a doer de tanto trabalho que ele me fez fazer. Passei o dia inteiro pegando vasos e movendo eles de uma ponta a outra do campo, só pra devolvê-los ao lugar onde estavam antes de eu tocar em qualquer coisa do jardim.
Brilhante.
Finalmente decidi dar uma andada rápida e me peguei viajando, admirando a natureza ao meu redor. Eu odiava essas horas, quando meus pensamentos vagavam sozinhos porque eu começo a pensar em amigos e em quantos eu perdi. Começo a me perguntar se haveria um fim para a série de traições que eu tenho passado. Quando voltei a reorganizar os vasos de flores, ainda afogada nos meus próprios pensamentos, parei inconscientemente o que eu estava fazendo. Levei alguns segundos pra perceber que estava sentada no chão com os olhos cheios de lágrimas.
O Sr. Huang veio caminhando devagar na minha direção e tentou me fazer ficar de pé de novo.
'Vamos lá, Xiăo Fú. Você consegue.' Eu balancei a cabeça fracamente. Eu tava tão cansada; cansada demais. Estava mentalmente esgotada de todos os acontecimentos que aconteceram. A decepção se acumulou em mim e desenvolveu a psicologia reversa de que as pessoas que eu achava que eram amigas poderiam ser pessoas que tinham a missão de me fazer sofrer da pior forma possível. Senti o pânico se acumulando em mim; a ansiedade de não confiar em alguém de novo e o desconforto de pensar que eu não tinha ninguém em quem confiar. Meus pulmões entraram em colapso e comecei a hiperventilar, quando as lágrimas começaram a se acumular.
Ouvi alguém me dizer pra abrir os olhos e respirar. Mas eu não queria. Aqui na minha bolha de pânico,
senti uma estranha sensação de serenidade que eu nunca tinha sentido antes.
Entendi então o que eles queriam de mim. Eles queriam me quebrar da pior forma possível; implantando um novo conjunto de medos tão grande que eu nem queria abrir os olhos, com medo de ver outra pessoa que pudesse vir a me deixar um dia; com medo de me importar com a próxima pessoa só pra desabar de novo quando ela também me machucasse.
Se tudo o que eles queriam era me quebrar, eles conseguiram no dia em que levaram meu único irmão embora de mim. Meu Bryant. Meu escudo, minha rocha e meu mundo inteiro, e eles o levaram de mim. O arrancaram da minha vida com um passo rápido no pedal do acelerador e um aperto de aço no volante.
Eles o levaram de mim e não acharam que fosse suficiente. Ainda não estavam satisfeitos, então começaram a levar meus amigos embora e a me fazer questionar minha própria sanidade.
Decidi me encolher, aproveitando aquele pequeno período de tempo para mim, individualmente e não para mais ninguém. Deitei no chão, com as bochechas pressionadas contra a grama quente, os joelhos encolhidos contra o peito e os olhos ainda fechados.
O que deu origem a tamanha crueldade?
Ganância? Raiva? Devastação?
Eu ia acabar como eles se eu chegasse naquele ponto da minha vida em que ficasse desesperada o suficiente pra fazer toda essa dor sumir? Eu ia me tornar um deles se decidisse que não conseguiria lidar com esse medo de depositar minha confiança em alguém? Seria minha vez então de arruinar a vida de outra pessoa? Eu ia me tornar como eles assim que deixasse a amargura me consumir por completo? Seria isso o que eu ia me reduzir? Uma pessoa tão egoísta que queria que os outros sentissem a dor que ela sentia?
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Foi isso que motivou o Dom? A dor? Era nisso que ele estava pensando?
Eu acho que era nisso que o sujeito que me ameaçou a voltar pra competição estava pensando.
Eu quebrei a perna e a mentalidade do irmão dele. Levei embora a felicidade do irmão dele e, fazendo isso, provavelmente levei a dele também.
Aquela ameaça foi uma ação motivada por verdadeira dor e devastação. Eu fiz algo assim com o Dom? Algo tão doloroso que o fez sucumbir à dor e ser engolido por ela?
Se eu pudesse pedir desculpas por uma coisa pra ele, seria por essa dor. Porque isso não é algo que eu desejaria pra ninguém; nem mesmo para o assassino do Bryant.