Capítulo 59
Depois de sentar na sala, eu respirei fundo pra acalmar meus nervos. Adam estava sentado do meu lado e a gente tinha essa distância estranha, tipo, sem se encostar. Tentei relaxar no sofá e me preparar pra reviver as memórias que ele ia me mandar.
'Ok, me conta o que você tem lembrado,' eu falei pra ele baixinho, mexendo na linha solta da barra da minha camisa. Adam assentiu, parecendo estar pensando muito.
'A primeira coisa que eu lembrei foi de gritar com você numa cozinha, eu tava tentando te impedir de fazer alguma coisa. Lembrei de sentir raiva, medo, mas também senti uma espécie de espanto estranho, como se eu mal pudesse acreditar que alguém como você existia. Você tava gritando de volta, falando que era sua vida e sua escolha. Daí, Pio entrou e você foi embora com ele antes da gente continuar gritando um com o outro.' Senti umas lágrimas se juntando nos meus olhos. Parecia que eu ia desmoronar. Me deu vontade de ir pra perto dele, pedir um pouco de conforto e apoio pra poder reviver isso sem me sentir tão sozinha nesse mundo. Mas eu sabia que não podia fazer isso.
Lembra da Kiara, Case. Ele não é mais seu.
Fechei os olhos com força com a dor aguda da perda repentina. Limpei a garganta e tentei suavizar minha expressão pra que a gente pudesse continuar com isso. Tenho que ajudar ele.
'Aquele foi o dia que eu te contei que decidi entrar na competição pra te ajudar a pagar as contas do hospital da sua Mãe. Você não concordou com a minha decisão e tentou me impedir, mas -' um sorriso surgiu no meu rosto com a lembrança, '- mas, claro, eu era teimosa demais. Falei pra mim mesma que não tava pedindo sua permissão, então entrei na competição mesmo assim e coloquei o dinheiro que ganhei das lutas no quarto do hospital da sua mãe; Foi assim que Dom conseguiu aquelas fotos minhas pra te manipular.'
Adam não fez nenhuma pergunta. Ele assentiu e passou pra próxima memória que tinha da gente, parecendo ansioso pra conseguir as explicações de todas elas.
'Lembro de estar deitada num campo aberto de grama e colinas com você,' foi tudo que ele me contou e eu sorri com essa lembrança. Parecia simples e bonito.
'Você me levou pra lá quando eu acordei no meio da noite de um pesadelo que tive sobre a noite que Bryant morreu. Te contei minha história, sobre como Bryant salvou minha vida dando a dele. Eu tava sentindo o que você chamaria de culpa do sobrevivente. De alguma forma, você conseguiu tirar essa culpa por um segundo. Você me falou que ele morreu como um herói; que ele não morreu à toa. Tudo o que eu conseguia sentir depois disso era amor pelo meu irmão. Você também me contou sobre a condição da sua mãe e os problemas financeiros da sua família na época.' Tive que enxugar umas lágrimas enquanto falava sobre Bryant, mas acabei sorrindo quando lembrei de como Adam me confortou.
Jesus, tô tão instável; deve ser aquela época do mês já.
'Teve aquela vez que você me acusou de tentar te matar por colocar cakwe no seu mingau. Acho que virou sua comida favorita?' Adam parecia divertido enquanto erguia uma sobrancelha pra mim. De repente, fiquei vermelha, vermelhaça com a menção daquele dia que eu reagi exageradamente ao cakwe no meu mingau. De repente, lembrei que ele não tinha certeza de que tudo era uma memória. Talvez eu possa usar isso a meu favor.
'Não, isso nunca aconteceu. Cakwe sempre foi minha comida favorita!' Eu neguei na lata, forçando meu rubor a sumir rápido pra não me entregar. Infelizmente, nunca fui boa em mentir. Por isso que tentei ficar na minha no ensino médio e fiquei quieta quando alguém me zoava, em vez de revidar. Ia ter que mentir se me perguntassem. Adam me viu por dentro das minhas mentiras e franziu a testa.
Suspirei em derrota, sabendo que tinha que assumir aquele momento constrangedor da minha vida em que eu não fazia ideia da existência de cakwe.
'Ok, então eu tava me sentindo uma merda total naquele dia. Fomos emboscados por uns caras que, eu acho, me 'avisaram' que estavam de olho em cada passo meu uns dias antes e eu não consegui dormir pelas noites seguintes. Você fez mingau pra mim e me apresentou ao cakwe, que eu amei de paixão. Tive que explicar por que fomos emboscados por aqueles caras depois que comi aquele mingau e então fomos pro hospital visitar sua mãe.' Dei de ombros como se não fosse grande coisa, embora eu lembrasse claramente da ansiedade e do medo que senti naquele dia. O medo de que algo acontecesse com Adam por minha causa.
'Então, por que fomos emboscados por aqueles caras?' Adam perguntou, curioso demais pro meu gosto. Tentei fazer a desentendida e simplesmente dei de ombros, mas ele não engoliu minhas desculpas hoje e me pressionou por respostas.
'Fomos emboscados por dois caras naquela noite. Um era um cara com uma carranca permanente na cara, eu chamo ele de cara-carranca na minha cabeça.' Ganhei uma risadinha de Adam quando ele ouviu o apelido que inventei.
'O quê?' Olhei pra ele, desafiando, ousando ele questionar minhas escolhas de apelidos. Ele sabiamente optou por balançar a cabeça enquanto fazia o possível pra segurar o riso. A palavra-chave é tentando, gente. Umas risadinhas escaparam, me fazendo encarar ele de brincadeira.
'Enfim,' disparei um olhar fulminante pra ele. Ele me deu um sorriso sem graça, fazendo um sinal pra eu continuar.
'O outro cara que tava com o cara-carranca, eu chamo ele de careca,' isso rendeu outra risada que eu optei por ignorar.
'Então, a primeira vez que vi o cara-carranca foi numa luta. Conheci o careca quando fui numa festa com Penelope; ela é uma amiga do nosso ensino médio. Estávamos andando na rua pra pegar um táxi quando o careca tentou nos parar. Descobriu-se que o careca era parceiro do cara-carranca e o cara-carranca era o motorista bêbado que dirigia o veículo que bateu no nosso carro naquela noite, matando Bryant.
Dom aparentemente queria eliminar todas as testemunhas e tentou matar. Isso não agradou muito ele, então ele quis se vingar de Dom me machucando. Ele estava contando com a paixão de Dom por mim.'
Adam parecia estar tentando me levar a sério, mas não conseguia, provavelmente por causa dos apelidos. Os apelidos eram fáceis de lembrar, me processem.
'Ok, acho que essa foi a última memória que consegui lembrar até agora.' Respirei fundo, pronta pra acabar com isso. Por mais que essa viagem pela memória fosse boa, eu não aguentava mais quando sabia que não ia conseguir fazer mais. Ele tinha seguido em frente sem mim.
'Ok, manda ver.' Tentei parecer indiferente em relação a isso. Mas quando ele começou a falar sobre a última memória que ele tinha da gente, eu congelei na minha cadeira e pude sentir minha garganta começar a entupir.
'Eu tava fazendo uma fornada de biscoitos e você e uma rapariga estavam na sala com alguém, assistindo Harry Potter.' Tentei limpar a garganta e esconder minhas lágrimas.