Capítulo 62
No dia seguinte, eu saí do meu quarto sorrateiramente, pra não fazer barulho e acordar ninguém de madrugada. Não tava esperando trombar com ninguém a essa hora, mas, aparentemente, o destino tava querendo me forçar a ter outra conversa adorável com meu ex mais querido.
Ele tava com a roupa de correr dele, eu acho, colocando os tênis quando eu abri a porta da varanda. Tava com uma camiseta cinza e calças de moletom, com fones de ouvido plugados nas orelhas. Acho que não tava tocando nenhuma música alta neles, porque ele se virou pra olhar pra porta quando ela rangeu ao abrir.
"Achei que você já tinha ido embora ontem", ele disse. Ele tava me olhando com os olhos arregalados, como se não acreditasse que eu tava na frente dele. Ele tirou os fones e eu dei de ombros em resposta.
"Encontrei seu pai e a gente colocou o papo em dia. Já tava bem tarde quando terminamos de conversar. Ele me disse pra ficar no quarto de hóspedes, então eu passei a noite", respondi com facilidade. Murmurei um "com licença" enquanto passava ao lado dele, que tava sentado, pra descer a varanda.
"Você já vai embora tão cedo?" Adam gritou, com os fones balançando entre os dedos. Eu assenti, pronta pra me despedir. Não tava planejando encontrá-lo de novo tão cedo. Tudo provavelmente ia ser como antigamente, onde eu ia evitá-lo, porque, sejamos honestos, fingir que nada tinha acontecido entre a gente era doloroso demais pra mim.
Eu tava quase acenando pra ele e entrando no meu carro, mas uma mão agarrou meu pulso. O ato me levou de volta àquele dia em que ele me chantageou pra ir naquela festa, logo depois que a gente se conheceu. Eu ia sair de perto dele, quando ele pegou meu pulso e me forçou a ficar.
Uma faísca de esperança reacendeu em mim, eu pensei que talvez, dessa vez, fosse igual. Talvez ele me impedisse de ir embora, como antigamente. Meus olhos voaram pro rosto dele, da mão que agarrava meu pulso, procurando qualquer emoção que seus olhos pudessem me oferecer. Eu tava esperançosa como uma adolescente desesperada. Era completamente e totalmente patético, mas eu não conseguia evitar.
No entanto, eu esmaguei a esperança antes que ela pudesse se espalhar como fogo pelo meu sistema. Eu não posso ficar por aí esperando como uma garotinha. Eu precisava ser forte. Eu precisava ser independente e precisava aceitar o fato de que eu o perdi. Principalmente, eu precisava seguir em frente — como ele fez.
A boca dele tava se abrindo e fechando, como um peixe fora d'água, procurando algo pra dizer, antes de parecer reunir a compostura e decidir o que queria me dizer. A pressão no meu pulso continuou e eu senti a pele sob o aperto dele esquentando a cada segundo que passava.
"Sobre ontem, me desculpa por não ter contado pra Kiara sobre o acidente e ter você lá pra testemunhar toda aquela gritaria". Ele finalmente soltou meu pulso e eu o envolvi com a outra mão, querendo manter o lugar que tava na sua mão aquecido. Adam alcançou e coçou a nuca, parecendo um pouco envergonhado. Eu levantei uma sobrancelha pra ele.
"Era só isso que você queria dizer?" Eu tava pronta pra receber um aceno e ir embora. A porta do meu carro já tava aberta e agia como uma barreira entre Adam e eu.
Mas, em vez disso, Adam me surpreendeu com uma sacudida de cabeça negativa. Senti meus olhos arregalarem um pouco e minhas mãos começarem a ficar um pouco suadas de antecipação.
"Me desculpa por te culpar pela morte da minha mãe e eu sei que é ilógico, mas me desculpa por ter perdido minhas memórias. Sinto que algo, o que a gente tinha, foi tirado de você de repente e me ver com a Kiara provavelmente te abalou". Eu queria rir disso. Abalada era um eufemismo. Parecia que algo afiado me perfurou e me deixou sem fôlego e sangrando.
"Obrigada", sussurrei. Por quê? Eu não fazia ideia, mas eu não sabia o que mais dizer. Ele não merecia que eu gritasse com ele, porque ele tinha tanto controle sobre o que aconteceu quanto eu, que era quase nenhum. Desviei o olhar dele porque tudo que eu via nos olhos dele era pena e eu odiava isso. Eu não precisava da pena dele, eu causei isso a mim mesma, sozinha.
"Eu te desejo só felicidade, Adam", com ou sem mim.
Entrei no carro e fui embora. Evitei que meus olhos fossem pro espelho retrovisor, não querendo que minhas emoções me dominassem. Desliguei meus pensamentos e deixei o som do rádio abafar minha festa de pena auto-infligida.