Capítulo 38
Dessa vez foi o meu Pai. Ele tava tentando parecer de boas, mas dava pra ver que tava curioso pra saber o que eu ia responder. Tentei não ficar tensa quando ele falou o nome dele, mas a minha mão na faca e no garfo apertou. Tentei disfarçar cortando a carne no meu prato.
"Ele tá legal." Respondi seca, tentando mudar de assunto e esquecer isso. Não queria lembrar do que rolou, não me fazia bem e eu não queria perder a compostura na frente de todo mundo; especialmente dos meus pais.
Mas a minha Mãe, ou não tava ligando pra isso, ou ignorou completamente os sinais que eu tava dando.
"E a memória dele voltou?" Ela perguntou com a sobrancelha levantada. Me controlei pra não dar um sorriso forçado e sair correndo do restaurante. Fiz o meu melhor pra manter a linguagem corporal agradável, só balançando a cabeça e mantendo um pouco de contato visual.
"Ele não se lembra de mim, Mãe," Pelo menos não como namorada.
Uma pequena carranca se formou no rosto dela, as sobrancelhas franzindo, expressando a decepção.
"Não entendo por que você não fala logo com o rapaz. Eu sei que você ama ele, Case." Tentei não explodir.
Enquanto isso, o meu Pai permaneceu em silêncio, com os olhos fixos em mim, como se estivesse fazendo as mesmas perguntas em silêncio. Não podia contar pros meus pais que a razão pela qual eu não queria que o Adam se lembrasse de mim era porque eu era um perigo pra todo mundo ao meu redor. Eles não faziam ideia do lance do Bryant com a gangue e das brigas de rua.
Não queria estragar a imagem do filho deles com essas informações. A memória deles do Bryant devia continuar intacta, porque é tudo o que ele merece. Ele merece ser lembrado como uma pessoa perfeita, porque ele sempre foi o filho e irmão perfeito.
"Não posso, Mãe." Forcei e deixei de propósito um pouco do meu desespero vazar na minha fachada, pra eles darem um tempo. Infelizmente, com a minha mãe, era como se ela vivesse na própria bolha.
"Sinto muito, querida. Não queria te chatear. Deve ser difícil pra você, mas sabe que estamos aqui pra você. É só que eu não quero que você demore pra perceber que algo bom pode estar escapando pelos seus dedos agora. Se aquele rapaz consegue fazer o seu pai gostar dele, ele é único." A minha Mãe continuou falando e precisou de um aperto deliberado na mão do meu Pai pra finalmente calar a boca dela.
Graças a Deus que pelo menos um dos meus pais tem a decência de saber quando parar com as coisas.
"Só estamos preocupados com você, mas ficamos felizes que você esteja se adaptando bem na faculdade." Concordei com um pequeno sorriso, agradecendo silenciosamente ao meu Pai antes de continuar comendo. O resto do jantar foi em silêncio depois disso e, quando conversamos, meus pais evitaram falar sobre o Adam a todo custo.
Eu agradeci, porque por mais agradáveis que fossem as memórias com o Adam, a ideia de tudo ser só memórias realmente trazia uma pontada de dor. E tem aquela lembrança dele me acusando de assassinar a Carla. Só de pensar, meus olhos já começaram a arder de lágrimas.
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Quando o jantar acabou, fomos pra casa e eu decidi abrir alguns dos meus livros pra começar a estudar as lições que ia ter nesse semestre. Abri minhas anotações e tava pronta pra passar as próximas horas estudando, quando de repente lembrei da tabela de lutas que peguei mais cedo. Abri a minha bolsa e tirei o papel.
A minha próxima luta era em dois dias. Já tava me sentindo nervosa. Não sabia por que tava nervosa, mas sabia que não ia me fazer bem sentir isso. Respirei fundo algumas vezes e lembrei a mim mesma que dei o meu melhor no treino e que ia ficar tudo bem. Eu tenho que ficar bem. Ninguém vai se machucar por minha causa.
Ninguém, exceto o rapaz cujo irmão está atrás dos seus entes queridos porque você o machucou muito em uma das lutas.
A minha mente voou pro cara psicopata que tava me chantageando. Não vou mentir; tô com medo. Não porque me sinto ameaçada; por mais que eu não queira morrer, acredito que a morte é inevitável e vai acontecer quando tiver que acontecer. Aceitei isso pra mim; mas era completamente diferente quando se tratava dos meus entes queridos.
Não acho que vou conseguir lidar direito com a morte de alguém que amo. Não quando investi tantos sentimentos neles. Tinha medo porque a vida da minha família e amigos tava em jogo. Não era só a minha vida em risco agora, era de todo mundo ao meu redor também ― e eu não gostava das chances que tava enfrentando.