Capítulo 37
O lugar tava vazio, já que ainda era meio-dia. Era um contraste e tanto com o que você vê no pôr do sol. A galera vinha de tudo que é canto da área, cercando o lugar e fazendo um inferno pra quem tem claustrofobia. Tudo tava trancado, mais ou menos, exceto a porta dos fundos. Tive que dar uma volta no lugar pra checar cada entrada antes de achar uma que não tinha corrente. Bati nela, aí alguém abriu aquela fresta retangular na porta. Enfiei meu ID lá dentro. Uns segundos depois, me devolveram e a porta abriu.
Tinha um guarda careca e bombado lá, segurando a porta pra mim. Entrei sem olhar pra trás. Em condições normais, isso seria falta de educação, mas esse era o mundo ilegal. Ficar encarando ou secando as pessoas é falta de educação. Elas podem achar que você tá tentando memorizar a cara delas pra passar pra polícia, o que não ia acabar bem pra você.
Ah, espera, acabei de perceber que encarar é falta de educação mesmo quando não tem legalidade nem polícia envolvida.
Meus olhos rodearam o lugar, procurando alguma programação. Você pode estar se perguntando por que eu não perguntei pro cara da porta onde arranjar, mas nesse ambiente específico, a galera espera que você tenha um ego enorme. Um ego grande demais pra você deixar de lado e pedir informação ou ajuda. Uma merda, mas é assim que você se mistura. Ou pelo menos é assim que eu tento me misturar. Não sou muito observadora, sabe, mas pelo menos eu tento. O esforço que conta, né? Não? Ok.
Continuei andando pelo lugar, sem saber pra onde ir. Devia estar parecendo uma doida, vagando por aí e me perdendo sozinha. De repente, alguém do corredor por onde eu tinha acabado de passar pigarreou. Me virei num pulo e arregalei os olhos. O corredor tava mal iluminado e eu mal conseguia distinguir os traços da pessoa. Era, com certeza, uma ela. Dava pra ver as curvas dela claramente, por causa do que ela tava vestindo. Fui em direção à figura com cuidado, parando a uma distância segura. Eu não ia ser um daqueles babacas machistas e subestimar a mulher só porque ela é mulher; especialmente se essa mulher estivesse vagando por esse tipo de lugar.
"Tá procurando alguma coisa?" Ela perguntou e eu reconheci que era a mulher que me guiou por esses corredores numa das minhas lutas aqui. As mangas tatuadas ajudaram a identificar ela. O cabelo ainda tava em fios rebeldes que deixavam ela com uma cara de brava.
"Estou procurando a programação das lutas." Falei pra ela com a expressão mais estoica que consegui fazer. Emoções nunca deveriam ser mostradas nesse lugar. Pra mim, aqui era o ninho dos inimigos e era fundamental ficar alerta o tempo todo.
A mulher fez um sinal pra eu seguir ela. Ela foi em direção ao caminho que eu tinha vindo depois de passar pela porta e, onde eu virei à esquerda, ela virou à direita. Ela me levou a uma sala e mandou eu esperar do lado de fora. Ela destrancou a sala e abriu as portas. O cheiro forte de tinta fresca bateu no meu nariz e eu tentei não franzir o nariz com o fedor pungente. Ela entrou na sala e voltou uns segundos depois com um pedaço de papel, me entregando.
Olhei pra ela e cheguei que era a programação certa, olhando pras datas. Levantei o olhar pra mulher e balancei a cabeça em agradecimento. Me virei em direção à porta, enquanto silenciosamente desejava não me perder tentando achar a saída. Isso ia ser uma furada completa.
Felizmente, saí do lugar sem me perder e voltei pra casa bem na hora do jantar. Meus pais estavam em casa, mas como nenhum deles sabe cozinhar, fomos a um dos restaurantes tailandeses favoritos deles. Alguns preferem comida caseira a comida de restaurante ou chique, mas não era o meu caso. Você não sente falta do que nunca teve, sabe.
Bem, isso exclui as vezes que a Vovó visitava e não tava com preguiça de fazer umas bistecas pra jantar.
Essas são, sem dúvida, as melhores refeições que alguém pode ter.
Nada supera a carne de porco da Vovó.
O restaurante não era tão chique quanto a galera imaginava. A porção era satisfatória e o preço não fez meus olhos chorarem lágrimas de sangue, então valeu a pena. O lugar não tava lotado e a conversa era suportável.
Meus pais e eu escolhemos uma mesa perto da janela, onde podíamos ver a árvore que estava coberta de luzinhas como decoração. Estaria mentindo se dissesse que não era bonito; por mais clichê que fosse. Admirei as luzes douradas quentes que se acendiam em padrões, deixando a mente longe da conversa ao meu redor.
"E os seus estudos? Já fez amigos?" Minha Mãe me tirou da minha viagem. Dei um sorriso pra ela, dizendo que a escola tava ótima; e, por uma vez, eu não estava mentindo. Apesar de ser chato, estudar era melhor do que ter que lutar pela vida. Por mais que eu adorasse lutar, morrer não tava na lista das minhas prioridades. Eu amava a emoção, mas não era muito fã de ter que fazer isso quando minha vida estava praticamente em jogo.
"Você visitou Jerry recentemente?" Minha Mãe perguntou de novo. A voz dela era baixa, como se estivesse hesitante em tocar no assunto. Balancei a cabeça distraidamente. Não era segredo que eu guardava deles, só poupei os detalhes sobre o que aconteceu da última vez que estive lá.
"E como está Adam?"