Capítulo 40
De repente, ouvi a madeira do banco rangendo com um peso a mais e na hora fiquei toda tensa. Olhei pros sapatos do lado dos meus e me xinguei por não ter prestado atenção nos sapatos que o Cole tava usando. Os sapatos do lado eram de futebol, mas não dava pra saber se eram do Cole ou não.
Me senti uma idiota por não ter ligado pros detalhes. Decidi não arriscar virando a cabeça pra olhar pra cara dele, então continuei com a cabeça baixa, sem querer me arriscar, e tava quase levantando pra ir embora quando o sujeito do meu lado começou a puxar assunto do nada.
'Eles crescem tão rápido, né?' A voz grave dele me deixou ainda mais tensa. A lembrança da voz do Cole quando ele falou comigo da última vez passou pela minha cabeça.
Só balancei a cabeça, sem conseguir falar. Ficamos ali naquele silêncio constrangedor enquanto eu tentava dar o fora de fininho. Mas no fim fiquei ansiosa demais pra continuar com essa minha tentativa meio idiota de escapar da situação. Levantei, tentando não parecer suspeita, fazendo isso devagar. Me virei e comecei a andar, mas o vento voltou e tirou meu moletom da minha cabeça.
Não fui burra de virar pra ver se o Cole tinha visto a revelação repentina do meu cabelo castanho. Continuei andando como se nada tivesse acontecido, puxando o moletom pra cobrir a cabeça de novo.
Meu coração tava batendo forte no peito enquanto eu tentava controlar meus passos pra parecer normal, como se eu não estivesse fugindo de alguém que quer me pegar. Rezei pra que o Cole estivesse muito entretido assistindo aquelas 3 crianças brincarem pra notar meu cabelo castanho.
Quer dizer, tecnicamente, mesmo se ele visse meu cabelo, é só a parte de trás da minha cabeça, então não devia importar tanto. Ele não devia ter memorizado a parte de trás da minha cabeça, então de verdade não devia me preocupar.
Mas, mesmo com esse pensamento, não adiantou muito pra acalmar meu coração batendo. Essa foi por pouco mais do que eu queria. Só que, quando lembro daquelas 3 crianças que se agarraram ao Cole como um salva-vidas no meio de uma tempestade no mar, bateu um sentimento pesado no meu coração. Não posso machucar aquelas 3 crianças mais do que eu já machuquei.
Como eu ia lutar contra o Cole quando tudo que eu conseguia pensar, quando via a cara dele, era como as mãos do menino mais novo se enrolavam na cabeça dele e na testa dele, como uma trepadeira? Como eu ia lutar contra o sujeito quando tudo que eu conseguia lembrar era o jeito que ele sorria, com carinho, pra alguma coisa que a garotinha nos braços dele falava? Como eu ia machucar o cara que parecia ter o mundo do garotinho que tava de mãos dadas com ele, com uma pegada forte, mais cedo?
Só que o mesmo cara me ameaçou de matar minha família se eu não continuasse na competição. O mesmo cara me chantageou usando a segurança das pessoas que eu amo. Mas machucar crianças não era algo que eu queria fazer, mesmo que eu não estivesse dando um golpe direto.
Naquele momento, visualizei a cara da Cali e do Pio. Os sorrisos deles passaram pela minha mente rapidinho e ficaram. Sacudi a ideia da cabeça.
O que eu tava fazendo? Pensei comigo. Não posso colocar a Cali e o Pio em perigo. Eles eram almas inocentes que tão se metendo em algo que não tem nada a ver com eles. Não posso deixar eles se machucarem. Por mais que eu não gostasse de machucar crianças, aquelas 3 crianças não estavam em perigo direto, enquanto a Cali e o Pio estavam. Não queria parecer insensível, mas eu tinha minhas prioridades, e a Cali e o Pio estavam no topo dessa lista.
Essa é a minha luta, porque fui eu que comecei, e eles não deviam se machucar por causa disso. Não ia conseguir me perdoar se alguma coisa acontecesse com eles. Não ia conseguir olhar na cara do Jerry ou do Preston, ou do Adam; meu Adam. Quaisquer chances que eu tinha antes com o Adam iam sumir na hora que um arranhão encostasse na cabeça de qualquer uma das crianças.
Quando eu tava a poucos passos do parquinho, a voz de uma criança me chamou. 'Ei, moça! A senhora deixou cair alguma coisa!' Meus passos vacilaram até que pararam de vez e eu olhei pra trás, a contragosto. Continuei com a cabeça baixa e não pareceu suspeito, porque o garotinho mal chegava na minha cintura.
Dei um sorriso pra ele e peguei a carteira pequena nas mãos dele. Deve ter caído do meu bolso quando eu tava sentada. Que sorte a minha, era o menino que tava de mãos dadas com o Cole mais cedo. Agradeci o garotinho, sem esperar mais que um aceno ou um 'de nada' dele.
'Foi meu irmão que percebeu que a senhora esqueceu a carteira. Ele me mandou entregar pra senhora. Ele é o sujeito que tava sentado do seu lado mais cedo.' O menino disse com um sorrisão e eu tentei disfarçar o choque com um sorriso pequeno.
Percebi que era pra ir embora antes que o ‘irmão’ dele descobrisse quem eu era de verdade.
Dei outro sorriso pro menino antes de pedir pra passar meus agradecimentos pro irmão dele e fui embora.
Verifiquei dentro da minha carteira e, por sorte, tava tudo no lugar. Não tinha fotos recentes minhas nela, então nem senti a necessidade de entrar em pânico, mesmo que ele tivesse aberto minha carteira.
Tinha só uma foto minha e do Bryant, quando eu tinha 8 anos. O braço dele tava na minha frente enquanto ele tentava me fazer dar uma de cavalinho pra ele. Quase caí por causa do peso dele.
Tentei pensar no que o menino disse. O Cole era irmão dele. Isso faria do sujeito que eu machuquei irmão das crianças também. Eles são todos adotados, então? Mas o Cole não podia ser quem adotou eles. Se fosse, eles iam chamar ele de pai, em vez do nome dele de verdade, e se referir a ele como irmão.
Será que as crianças eram, por acaso, o motivo do Cole e o irmão dele estarem entrando no torneio, apesar da perna ruim do irmão dele? Era por causa do dinheiro? A ideia trouxe junto uma dor que fez meu peito contrair. A ideia de que eu podia ter transformado o Cole que eu vi quando ele tava com os irmãos dele no Cole que tava com sede de vingança por causa da mentalidade ferida do irmão dele me horrorizou.
Continuei andando, com lágrimas nos olhos. Não era justo que uma família tivesse que passar por aquilo.
Se eu vencesse o Cole no torneio, eu ia salvar as pessoas que eu amo de um psicopata que tava decidido a machucá-las, mas ia fazer o ferimento do irmão dele ser em vão. Ia destruir as esperanças daquela família se eu vencesse o Cole. Eles não iam ganhar o prêmio em dinheiro. Mas se eu não vencesse o Cole, eu podia estar sujeitando as pessoas que eu amo à possível morte.
Comecei a questionar a capacidade do Cole de machucar as pessoas que eu amo. Ver ele ser tão gentil com as três crianças que estavam com ele plantou sementes de dúvida em mim. Só que a lembrança do funeral da Carla, quando ele ameaçou machucar minha família e nocauteou o Preston, jogou as dúvidas que eu tinha pela janela. Ele provavelmente era mais do que capaz de machucar as pessoas, e eu não devia subestimar o coração frio dele se eu quisesse salvar minha família.
Embora eu tentasse manter tudo isso em mente pra continuar e pra não cair no lado de mim que tava com pena do Cole, tinha uma voz no fundo da minha cabeça dizendo que isso não tava certo; que ser tão sem coração e não mostrar um pouco de bondade pro Cole tava errado.