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TOB 60
POV de ROSE AMARA
Eu esfrego meus olhos, convencida de que estou vendo coisas. Deve ser um truque da minha mente, uma lembrança de um sonho que se recusa a desaparecer.
Mas quando nossos olhos se encontram na penumbra do quarto, a realidade cai sobre mim com força brutal. Uma onda de reconhecimento me atravessa, nítida e inegável.
É ele. Ethan.
O mesmo Ethan que eu deixei para trás naquele depósito, sua presença dominando o espaço, apesar das sombras obscurecendo seus traços.
A mão dele cobre minha boca antes que eu possa reagir, sufocando qualquer protesto que pudesse ter escapado de meus lábios. As palavras se dissolvem em minha garganta; medo e confusão se misturam em um turbilhão tumultuado. É como uma experiência fora do corpo, distante, mas dolorosamente presente.
Na escassa luz que filtra pela varanda, eu distingo as contusões casando-se em seu rosto, um corte gravado em seu lábio, vestígios de sangue borrados nas dobras de sua pele.
Apesar dos ferimentos, os contornos de seu rosto são dolorosamente familiares - a mandíbula afiada, os olhos tempestuosos que antes me irritavam e cativavam.
Eu nunca esperei esquecer seu rosto tão cedo. Mesmo nos meus momentos mais sombrios ou na névoa do sono, seus traços permanecem assustadoramente claros.
Sua voz, um sussurro na noite, carrega peso. "Eu não vou embora."
Protestos abafados escapam como resmungos contra sua palma. Eu tento empurrá-lo, mas sua pegada se aperta, prendendo meus pulsos acima da minha cabeça com uma firmeza que me deixa sem fôlego. Suas coxas pressionam as minhas, uma contenção familiar que desperta emoções conflitantes dentro de mim - medo, saudade, raiva.
o que ele quer dizer com não ir embora? Meu coração, já estilhaçado uma vez por causa dele, não pode suportar outra fratura. Precisa acabar, pelo bem de todos.
Eu luto contra sua pressão, uma tentativa fútil de me libertar. "Me solta", eu consigo dizer contra a mão dele.
Ele se aproxima, sua voz cortando a escuridão com intensidade silenciosa. "Você sabe que quanto mais você luta, mais implacável eu me torno. Pare."
Eu pressiono minha perna contra ele, a rebeldia alimentando meus movimentos, mas sua pressão permanece inflexível. Seus dedos se cravam em meu pulso, um lembrete doloroso de sua força.
"Pare de lutar", ele comanda, seu tom inabalável.
"Mmmm", eu respondo, um pedido para me soltar.
"Rose, faça o que você deve. Morda, bata, me empurre - isso não vai mudar nada." Sua voz baixa, um sussurro contra meus lábios. "Fizemos votos. Até que a morte nos separe?"
Não.
Por que ele não consegue ver? Isso não é apenas sobre mim; é sobre a irmandade, sua traiçãao perigosa. Se o Tio Raven ou os outros descobrirem seus planos, eles garantirão que ele encontre um destino reservado para traidores. Eu dei a ele uma escapatória, uma chance de deixar a irmandade vivo, mas ele está aqui, desafiando a lógica.
Eu ataco, batendo em seu peito ferido, e ele se encolhe, mas permanece firme. Empurrando-o para baixo, eu subo em cima, as lençóis enroladas em meus pés. Minhas mãos agarram sua camisa, as unhas se cravando em sua pele, procurando alguma âncora nesse caos. As mãos de Ethan permanecem em seus lados, um ato deliberado de contenção que ao mesmo tempo me enfurece e me acalma.
Talvez seja para o melhor. Estou à beira da combustão, emoções fervilhando sob a superfície.
"Vá embora", eu exijo, minha voz tremendo com energia reprimida. "Finja que faz sete anos e vá embora."
"Eu não posso", ele responde calmamente, sua vulnerabilidade vazando através de suas palavras.
"Você disse que eu não sou nada", eu acuso, as lágrimas surgindo apesar da minha determinação. "Você estava pronto para ir embora."
"Essas foram mentiras", ele responde bruscamente, "para proteger minha cobertura."
"Você espera que eu acredite nisso?"
"Você acha que eu arriscaria tudo se você não significasse nada para mim?"
"Por que você não vai embora?" Lágrimas embaçam minha visão, frustração e saudade se torcendo dentro de mim. "Eu já te deixei ir."
"Mas eu não fui", ele insiste, sua voz inabalável.
Ele precisa parar de dizer essas coisas; elas me desfazem, expondo as emoções cruas que eu lutei para conter.
"Se você ficar, eles vão te matar", eu sussurro, minha voz rachando de medo.
"Eles?"
"A elite da irmandade."
A pressão em meus quadris se aperta, um toque familiar que me ancora momentaneamente. "Você não?"
"Eu sou parte da irmandade, Ethan."
Ele aperta sua mão, seu toque, que é reconfortante e agonizante. "Essa não foi minha pergunta. Você vai?"
"Por que você não vai embora?" O desespero colore minha voz, lágrimas fluindo livremente agora.
"Você tem que ir para sobreviver."
"Você sabe o porquê", ele responde calmamente, resolvendo endurecer suas feições.
Minha mão se aperta em sua camisa, uma lágrima solitária traçando minha bochecha. Minha promessa para a Mãe, nunca mostrar fraqueza, desmorona neste momento.
Eu não consigo parar as lágrimas. Hoje foi implacável, cada momento me empurrando para a beira.
Estou cansada, uma parte de mim admitindo alívio.
Mas mesmo que ele esteja aqui, ele não pode ficar para sobreviver.