Capítulo 28: Os últimos dois dias
“Como assim?” A Martina claramente não entendeu. Ela sentiu que as palavras do cara eram profundas demais, tipo, tava difícil de entender por um tempo.
Mas o Benjamin tinha uma visão totalmente diferente. Ele achava que a Martina tava de sacanagem com ele.
“Então, você realmente quer nunca mais me ver na vida?” Ele perguntou, mó sério. “Acha que é possível? Acha que eu ia te dar essa chance?”
A raiva nos olhos do Benjamin foi aumentando aos poucos. Ele já tinha aguentado por um tempão, tipo, já tava no limite.
“Benjamin, acho que já deixei bem claro o que a gente tem. Independente de você achar que é possível ou não, vai acontecer. Acabou pra gente.” A Martina respondeu. Ela queria explicar as coisas pro Benjamin da forma mais direta possível.
Então, igual quando ela chegou, ela ia sair de fininho, sem levar nada e sem afetar ninguém.
Mas agora parecia que não era tão simples assim, porque o Benjamin nunca teve a intenção de deixar ela ir embora tão fácil.
Será que, na visão do Benjamin, a Martina realmente tinha virado um mero acessório pra carregar por aí? Tipo, a ponto de uma pequena desobediência já deixá-lo ofendido?
A Martina sentia cada vez mais que seus esforços e persistência no passado não passaram de uma palhaçada.
O amor verdadeiro dela parecia, pros outros, só um instrumento pra satisfazer as necessidades básicas.
Realmente, ela era motivo de chacota, uma grande palhaça.
Enquanto a Martina ainda tava pensando em tentar conversar com o Benjamin, ele falou de novo: “Te dei um tempo pra se acalmar, pra pensar direitinho em quando você vai voltar. O que você quiser, eu te dou. Mas não é pra ficar alimentando seu mau humor, nem pra falar umas coisas dessas, tipo nunca mais se ver, na minha frente.”
A Martina abriu a boca, sem saber o que dizer. De repente, ela se sentiu falando com uma parede.
“Martina, escuta bem,” o Benjamin falou, com a raiva subindo, “do momento em que você entrou na minha vida, não tem como escapar do meu controle, nem na morte.”
Agora, ele podia matar a Martina fácil, tipo, como esmagar uma formiga.
A expressão e a aura dele estavam dizendo pra Martina que era melhor não desejar a morte nem provocá-lo.
Talvez por causa da raiva, as palavras do Benjamin foram meio radicais, mas quanto mais ele falava, mais nojo a Martina sentia no coração.
Por que ela tinha que pedir a aprovação do Benjamin pra tudo que ela queria fazer? Por que ela precisava da permissão dele pra terminar?
Por que, mesmo sendo vítima nesse lance, ele podia cortar o mal pela raiz, mas ela não podia?
A Martina soltou uma risada fria e amarga, percebendo que o cara que ela tinha passado tantos anos junto tinha virado um estranho em um instante.
Ela perguntou: “Benjamin, acha que ainda consegue me controlar?
“Já te falei antes que quero terminar, e não foi no impulso. Pensei nisso de verdade por um tempão.
“Não quero nenhuma grana sua, nem promessas. Só quero me separar.
“Se você não ouviu direito, posso repetir. Eu–”
Antes que a Martina terminasse a frase, o Benjamin perdeu a paciência e a prensou com força.
Os lábios dele, frios, cobriram os dela, mordendo como um bicho bravo.
Os lábios dela, que tinham acabado de sarar, incharam de novo, e ela até sentiu um gosto de metal e doce.
A Martina tentou afastar o Benjamin com dor, mas percebeu que a força dele era demais. Por causa da diferença absurda de força física entre eles, a Martina falhou.
Ela, de repente, desistiu de qualquer resistência e ficou lá, sem ter como fazer nada. Não importava o que o Benjamin fizesse com ela, ela tava indiferente.
Mas lágrimas quentes, sem aviso, caíram na mão do Benjamin.
Ele se assustou todo, só então percebendo o que tinha feito. A última coisa que ele queria era ver as lágrimas dela.
O Benjamin soltou a Martina devagar, segurando a vontade de machucar, e com a voz rouca, falou: “Vou te dar, no máximo, dois dias pra voltar. Se você voltar, finjo que nada aconteceu antes. Posso te dar o que você quiser, e se tiver alguma mágoa, pode me falar.”
A Martina enxugou as lágrimas com teimosia e falou as mesmas palavras: “Não quero voltar. Aquele lugar não é minha casa.”
As pontas dos dedos do Benjamin se curvaram um pouco, querendo enxugar as lágrimas do canto dos olhos da Martina, mas ele se segurou no final.
Ele deu a ordem final, firme: “Martina, não estou discutindo isso com você.”
A implicação era que, independente de a Martina concordar ou não, o resultado final seria o mesmo.
Assim que essa decisão fosse tomada, daria certo, e ninguém poderia ir contra as intenções dele.
Era isso que mais preocupava a Martina, por isso ela nunca fugiu disso de propósito desde o começo.
Porque ela sabia que só se separando de verdade do Benjamin ela conseguiria se libertar por completo.
Mas agora a Martina percebeu que todos os seus esforços anteriores pareciam ter sido em vão.
Assim como as palavras do Benjamin agora, ela tinha que voltar, senão o Benjamin tinha vários jeitos de forçá-la a voltar.
Mas por que isso tava acontecendo?
O Benjamin virou o rosto de propósito, sem mais olhar pra cara sofrida da Martina, e disse: “Vou te dar dois dias pra pensar. Decide se quer que alguém vá te buscar ou se volta sozinha. O que você quiser, posso te dar.
“Se não tiver satisfeita com ninguém, pode me falar, que eu realizo seus desejos.
“Posso te dar um momento de liberdade que você quer antes de voltar, mas é só isso.”
A Martina entendeu tudo direitinho. Seja no presente ou no passado, o lance dela com o Benjamin era desigual por natureza.
Ela era tipo uma ferramenta que os outros usavam, chamada de volta quando precisava.
Não importa onde ela estivesse, tinha que voltar. As opiniões dela não importavam.
Até o Benjamin via ela desse jeito, tratando ela como um instrumento de companhia.
Ele agradava ela quando tava feliz e jogava fora quando não tava, sem tratar ela como uma pessoa normal, sem nem a sensação mais básica de igualdade.
Nessa hora, o que mais ela podia dizer? Não importava o quanto ela falasse, era como falar com uma parede.
A Martina até se sentiu um pouco sortuda por o Benjamin ter dado dois dias pra ela. Dois dias davam pra ela fazer várias coisas.