Capítulo 11: O Contra-ataque
William Cavendish devia, por direito, estar de coração partido.
A esposa dele tolerava ele. Tolerava, hein, com talvez uma pitada de frieza. Não importa a alegria instantânea dos encontros físicos deles, o depois continuava igual. Ela ficava na dela, com essa ideia absurda de sete vezes por mês. Ele tinha só três sobrando. E três semanas inteiras no mês!
Uma vez por semana? Podia muito bem entrar pra um convento, de tão bom que ia ser.
Depois do lance rápido deles, ele tinha ido embora exatamente à meia-noite, nem um minuto a mais. Alicia, ainda dormindo, teve, numa demonstração de afeto noturno super estranha, jogado o braço no pescoço dele. Ele se soltou com cuidado, se levantando pra cobrir ela com as cobertas. Ela era toda cheia de costume, amava as regras. Se ela descobrisse o joguinho dele, podia muito bem cancelar os privilégios dele de vez.
...
William Cavendish, deitado sozinho no quarto dele, de repente sentiu uma solidão profunda, na lata. Casamento era uma parada curiosa, que já te dava um membro inseparável na família. Apesar dela estar do outro lado do corredor, ele tava com saudade. Ele se levantou e começou a escrever no diário dele.
Ele não tinha o costume de ter um diário. Ele tava só curioso pra saber como o primo dele conseguiu escrever um por uma década, sem falhar.
Cavendish escreveu: "Eu confirmei. Alicia só gosta de mim. Ela não me ama. Será que tô pedindo demais?"
"Devia, talvez, usar uma estratégia de indiferença calculada, pra fazer ela sentir o que ela sente... Mas eu não consigo. Não consigo machucar ela, fazer esses joguinhos."
Talvez já bastasse? Muitos maridos e esposas viviam numa boa, de boa educação. Pelo menos ela não desgostava dele e aceitava a intimidade física deles, mesmo com uma redução chata na frequência. Ele ganhou três horas a mais com ela.
William Cavendish era um cara fácil de satisfazer, e ainda mais fácil de querer mais depois de provar. Ele se convenceu, rapidinho, dessa nova realidade.
...
Alicia abriu os olhos pra um espaço vazio do lado dela. Da última vez, o primo dela tinha ficado, dando pra ela um beijo demorado quando acordou. Um beijo com um toque refrescante de menta – ele gostava muito de uma marca de pasta de dente. Ela esticou a mão, e a mão dela encontrou o vazio da cama.
Ele apareceu de trás das cortinas da cama, com um brilho de travessura no olhar, e beijou ela. "Passou das sete. Espero que não tenha acordado você essa manhã?" Ele se exibiu, com um sorriso nos lábios.
Alicia, numa crise de raiva brincalhona, jogou um travesseiro nele.
William Cavendish era um cara de contradições – indulgente, mas dono de si. Ele adorava prazer, mas detestava qualquer coisa que cheirasse a vulgaridade. Ele tinha um sorriso lindo, jogava cartas com moderação, e evitava atividades consideradas muito perigosas. Um cara que existia naquele espaço liminar de só o suficiente. Elegante, charmoso, cativante, mas capaz de dar uma sensação de segurança.
Ele era, sem dúvida, o mais excepcional de todos os cavalheiros de Londres.
Os destinos dos filhos mais velhos e dos filhos do meio da aristocracia, geralmente, eram bem diferentes. O mais velho herdava as terras, enquanto o segundo devia criar uma carreira. Cavendish, nascido com todas as vantagens, não era um vagabundo à toa. A vida dele era cheia, planejada até os detalhes. De uma vida de soldado a viagens para fora, de secretário de embaixador a advogado, e, por fim, Membro do Parlamento. A juventude dele foi arrasadora, atraindo uma galera de admiradores. Quando ficou adulto, ele foi eleito pra Casa dos Comuns por Derbyshire com uma maioria esmagadora, uma estrela em ascensão no partido Whig, aqueles defensores da reforma.
Os jornais da época descreviam ele assim: "Ele tem uma aparência incrivelmente chamativa e uma inteligência afiada, sua única falha é uma certa arrogância, um desprezo por tudo que ele considera abaixo dele. Mas, até isso virou um ponto de fascínio para os seguidores dele."
Alicia tinha escolhido ele não pela ignorância, mas pela maturidade. Talvez ele não fosse o mais constante, com um toque de frivolidade, mas ele era, sem dúvida, mundano e ambicioso. Ela tinha imaginado a vida de casada deles como uma coisa de boa educação, cada um ocupado com as próprias coisas. Ela não tinha esperado essa... estranheza.
Era difícil pra Alicia conciliar o cara na frente dela, o que tava agora beijando o dorso da mão dela e implorando por um beijo de bom dia, com o astro que fazia sucesso em eventos formais com a roupa impecável, sempre comportado, sempre frio, com a cara de quem não se importa com nada.
"Em que você tá pensando?" Ele beijou a bochecha dela, curtindo o rubor natural que aparecia na pele dela depois de dormir.
Alicia afastou ele um pouco. Ele fazia questão de tensionar os músculos dele nessas horas, criando uma firmeza super satisfatória debaixo do toque dela. Ele pegou o pulso dela, com os lábios passando pela pele dela de um jeito super impróprio.
Alicia pensou: "Isso não vai dar. Temos que voltar pra Londres na hora. Ele precisa se ocupar com alguma coisa produtiva." Senão, as coisas iam ficar cada vez mais estranhas.
...
Pra evitar se distrair, Alicia tinha, sem nenhuma instrução antes, dominado a arte de administrar o marido dela. Por exemplo, passar tarefas pra ele impedia que ele ficasse grudado nela o tempo todo.
Organizar os periódicos que chegavam, transcrever passagens que ela tinha marcado. Consultar ilustrações botânicas pra dar a nomenclatura binominal correta pros espécimes dela. Registrar os principais acontecimentos do mês dos jornais (ele lia aqueles de qualquer jeito), e comparar várias traduções dos poemas em latim que ela tava decifrando, exigindo que ele mergulhasse na coleção da biblioteca.
William Cavendish terminava essas tarefas com uma velocidade impressionante.
Alicia descobriu, pela primeira vez, que um marido podia ser útil desse jeito. Ela adorava delegar pra ele todas as tarefas que ela achava chatas.
Cavendish, por outro lado, adorava a confiança implícita da esposa dele. Ele tinha permissão pra organizar os portfólios dela, e o mundo da Alicia era super rico mesmo. Ela tinha recebido uma educação excepcional. Lógico, ela carregava esses materiais com ela pra onde ia; ela era sentimental assim. William Cavendish examinava cada esboço e aquarela com muito cuidado.
Um era um perfil do rosto dele mesmo. Em maio, Alicia tinha pedido pra ele sentar como modelo pra ela. As feições dele eram muito parecidas com as das estátuas gregas, totalmente perfeitas. Cavendish fez uma pausa, estudando o retrato por um tempão. Ele seguiu as linhas, lembrando do jeito que os olhos deles se encontraram quando ela desenhou ele, o jeito que ele tinha piscado, a compostura dele, que sempre foi normal, falhando por um momento. Ele tinha vontade de beijar ela naquela hora. William Cavendish, que sempre detestou a proximidade de outros, agora se pegava querendo isso o tempo todo com ela.
...
Ele foi gentil ontem à noite, sem se entregar de vez, ligado no estado físico da Alicia. Ela tava menos cansada hoje, até saiu pra dar uma volta à tarde. Foi só um passeio pelo lago, até a mansão do outro lado.
Wimbledon era a propriedade da mãe dele, herdada pela Lady Diana da bisavó dela. Os parentes deles, numa demonstração de consideração pelos recém-casados, não tinham se intrometido, deixando a casa principal desocupada. Toda vez que ela visitava, ela ficava num quarto específico na ala direita, decorado em dourado e azul, sempre pronto pra ela. Tinha a vista mais bonita, com vista pro lago e pras colinas distantes. Ele tinha plantado uma fileira de castanheiras há uma década. Elas tinham amadurecido numa linha legal, completando a paisagem.
Cavendish apoiou a cabeça no ombro dela enquanto eles admiravam a paisagem em silêncio. Ele mediu com a mão, lembrando da primeira visita dela a Wimbledon, com cinco aninhos. "Ela era desse tamanho, sabe." Aí ele pegou ela no colo, um costume que ele tinha de levantar ela pelas pernas e colocar ela nos ombros dele. Alicia tinha se assustado no começo, mas se acostumou. Ele ficou feliz quando ela, por instinto, passou os braços no pescoço dele.
"Posso te beijar?" ele perguntou.
"Como se minha recusa fosse te impedir", Alicia pensou, mas ela fez que sim com a cabeça.
Cavendish levou ela com vontade pro banco da janela, lembrando como a Alicia gostava de se enroscar ali com um livro. Uma vez, na biblioteca, ele e um amigo tavam numa conversa longa. Quando ele abriu as cortinas, ele se assustou.
"Quanto tempo você tá aí, Allie?" Ele desconfiou que ela tinha ouvido um monte de coisa.
A Alicia de quinze anos, que já tinha uma beleza chamativa, herdada dos pais, o cabelo dourado meio solto, respondeu: "Não muito. Só a tempo de ouvir..."
Ele fez um "shhh" rápido pra ela, puxando ela pra trás, escondendo ela da vista.
"O que foi, Cavendish?" O amigo dele tinha ido buscar um documento.
William Cavendish ficou ali, com a postura aparentemente casual, mas na real, protegendo ela com cuidado. Ela, numa demonstração de rebeldia juvenil, esticou uma perna de propósito.
...
As lembranças que ele tinha com a Alicia eram infinitas. E, então, ele beijou ela repetidamente, com os lábios indo pro pescoço dela. A mão dela, agarrada na dele, foi pra cintura dele. Alicia olhou pra pintura da paisagem do Poussin pendurada na parede. Pela primeira vez, ela tava totalmente presente, com a mente não vagando. Ela tava curiosa com a experiência do primo dela, por que ele parecia ficar mais animado a cada dia, nunca cansando. Ela explorou essa curiosidade, imitando a ação anterior dele, tocando no lóbulo da orelha dele.
Isso fez a pega dele apertar. Ele levantou a cabeça, olhando pra ela com um sorriso, e beijou ela mais fundo, cheio de uma saudade que parecia aumentar a cada dia.
...
Ele preferia o quarto dela, movido por um instinto possessivo. Era o domínio dela, um lugar tão sagrado quanto qualquer templo antigo, e cada beijo, cada invasão deliciosa no ser dela, era como uma bandeira de conquistador desfraldada, uma declaração descarada de que ela tinha, por vontade própria ou não, se tornado um prêmio dos afetos dele. William Cavendish queria levar a Alicia pro espaço dele, mas ela não demonstrava interesse. Ela preferia o próprio quarto, até insistindo que os encontros deles acontecessem no quarto ao lado.
Alicia tinha se acostumado com essas visitas noturnas regulares. Durante o jantar, ela usava um enfeite de testa de pérola delicado, os olhos de pedra preciosa dela brilhando. Enquanto ela tava se arrumando no vestiário, ele foi beijar ela.
"Hoje à noite?" ele perguntou.
"Sim", ela respondeu.
Esses acordos enchiam ele de uma sensação profunda de felicidade.
Alicia observou ele quando ele entrou, vestido impecavelmente como sempre. Cada roupa que o primo dela usava era feita com perfeição, o nó da gravata dele nunca amarrado do mesmo jeito duas vezes. Ele tinha ombros largos, cintura fina, pernas longas e mãos grandes, parecendo feitas pra tocar piano.
Cavendish percebeu o olhar dela. Ele esticou a mão, pálida e macia, mas com calos nas laterais dos dedos de tanto cavalgar e fazer esgrima. Ela pegou com cuidado, comparando as mãos deles.
Ele tava menos impulsivo hoje à noite, e eles começaram a conversar. Até que Alicia perguntou por que ele não tava beijando ela. Aí ele beijou o pulso dela, indo devagar pra palma da mão dela, sem tirar os olhos dela.
Alicia perguntou de novo por que ele não tinha trocado de roupa antes de entrar.
"Me ajuda a tirar a roupa. Quer?" Ele foi direto, com os olhos implorando. Ele não era como um filhote de cachorro; ele exigia muito mais. Cavendish era um cara muito problemático.
Ela tentou tirar a mão, mas ele segurou firme. "Você é mais rápida pra se despir do que eu", ela disse, franzindo a testa.
"Não é a mesma coisa." Ele colocou a mão dela no peito dele, o contraste entre o tecido escuro e a pele clara dela impressionante. A palma e as pontas dos dedos dela ficaram com um tom rosado. "O nó não é complicado. Só puxar um pouquinho já resolve." A voz dele era um sussurro sedoso, uma sedução persistente.
Alicia sentiu a respiração dele acelerar. Ela alcançou, puxando a gravata que tava dentro do colete dele, e deu um puxão. Não se mexeu. Ela se aproximou, estudando aquilo com uma carranca.
Ele hesitou, prestes a falar.
"Não fala nada." Ela sacou rapidinho o mecanismo. Ela nunca tinha desamarrado uma gravata pra ninguém antes. Ele foi o primeiro.
Cavendish levantou uma sobrancelha, com o deleite evidente, beirando a marra. Ele segurou a mão dela, virando a cabeça pra roçar os lábios na pele dela. Ele queria que ela desejasse ele com a mesma força que ele desejava ela.