Capítulo 52. De Reuniões e Carruagens Bastante Desconfortáveis
O reencontro foi… demais. Tipo, sem palavras. Afinal, eles tinham exatamente a idade certa pra esses reencontros apaixonados, mas o destino (e um Napoleão meio chato) tinha conspirado pra manter os dois separados por seis meses inteiros. Cartas, por mais bem escritas que fossem, não chegavam nem perto da realidade de ter a pessoa amada por perto.
William Cavendish, Duque de Devonshire – apesar de estar fingindo ser soldado no momento – acordou na carruagem balançando e viu a esposa olhando pra ele com uma cara de diversão calma. O cabelo dourado dela tava, bem moderno, preso num lenço tipo francês (que ela tinha pegado, contou ele depois com um gesto de “tanto faz”, numa estalagem. Tem que manter as aparências, mesmo no meio da guerra que tava chegando). Aqueles olhos azuis claros, com cílios quase exagerados de tão longos, estavam meio fechados, observando ele com uma tranquilidade que acalmava e, pra falar a verdade, deixava ele ouriçado. Ele, afinal, tinha usado ela como travesseiro por um bom tempo.
"Meia hora ainda, acho", Alicia murmurou, esticando a mão pra alisar o cabelo escuro dele, que tava, infelizmente, com uma camada de poeira nada legal. Ela deu um tapinha nele com um gesto delicado, mas firme.
Cavendish sorriu, aquele sorriso lento e de predador, e na hora jogou ela embaixo dele, curtindo um beijo que só podia ser descrito como… completo. A respiração dele falhou, pesada, quando ele sentiu ela, sentiu mesmo a presença dela depois de tanto tempo.
Alicia, sempre prática, no começo fez uma resistênciazinha de leve, com os dedos parados no botão do casaco dele. Mas aí, com um suspiro que dizia tudo, ela pegou o rosto dele com as mãos, o toque dela surpreendentemente firme, e retribuiu o beijo com uma vontade que deixou ele sem fôlego.
"Senti sua falta", ele conseguiu dizer, um gemido sincero contra os lábios dela. "Demais."
"Eu também", ela respondeu, a voz dela num sussurro rouco que fez um arrepio subir pela espinha dele. (Não dá pra ter um reencontro de verdade sem uns arrepios, né?)
Depois de um beijo que, sei lá, quase derreteu o vidro da carruagem, Cavendish se contentou em fazer um cafuné na bochecha dela. Alicia, por sua vez, fez uma careta delicada. "Amor, você precisa fazer alguma coisa com essa… essa barba no seu queixo. Tá horrível."
Ele riu, puxando ela pra perto, enterrando o rosto dele (e a barba que tava incomodando) na nuvem perfumada do cabelo dela. "Você me adora, sabia? Tá bem na cara, com essa sua correria louca pelo Continente." A ansiedade que tava roendo ele, uma companhia constante nesses últimos meses, começou a diminuir. Ele tinha ficado preocupado, sem parar, com alguma desgraça acontecendo com ela na viagem. O que seria dela? Ele guardava uma miniatura dela, bem protegida, e consultava ela com a frequência de um cara religioso consultando o livro de orações, passando a ponta do dedo pelas linhas delicadas do rosto dela.
O retrato, encomendado nos últimos momentos de paz deles em Londres, mostrava ela como a mulher que ela tinha se tornado: cabelo preso num coque elegante, um vestido de seda safira que combinava com o azul chocante dos olhos dela. Era, claro, só um retrato até a cintura – a decência exigia isso. Ele tinha observado o processo inteiro, meio chato, que durou dois dias longos e dolorosos. Ela brilhava com diamantes, uma constelação trazida pra terra, com a luz das velas dançando nas pedras.
Ele tava do lado dela naquele momento, eternizado numa tela que celebrava quase dois anos de (quase sempre) felicidade no casamento.
Ele se lembrou, com uma pontada de saudade, das caminhadas deles pelas praças de Londres, a mão dela segura na dele, os dois jogando migalhas pros pombos, aquelas criaturas ousadas voando pra comer das mãos deles. Alicia, com aquele distanciamento característico que ao mesmo tempo fascinava e irritava ele, tinha comentado: "Pombo assado pro jantar, acho."
Ela tinha essa… coisa nela, uma barreira sutil, mas impenetrável, que separava ela das realidades chatas do mundo. Ele era, aparentemente, o único que podia entrar no santuário dela. Eles eram, pra todos os efeitos, grudados: comendo, dormindo, respirando o mesmo ar, dividindo os mesmos pensamentos (ou, pelo menos, os pensamentos dele, que ela às vezes se dignava a reconhecer).
A ideia de décadas pela frente, cheias dessa companhia maravilhosa, era… inebriante.
Ele adorava provocar ela, se declarando o "seu mais amado". Alicia, com a mente dela irritantemente lógica, sempre respondia que esses sentimentos não podiam ser medidos, que o uso dele de superlativos era, pra dizer o mínimo, impreciso. Ela amava muita gente: o pai dela, a mãe dela, a avó dela, que já tinha ido, (que com certeza tava entre os anjos), um monte de tias e uma galera de amigos surpreendentemente diversa.
Mas agora, ali naquela carruagem apertada, no meio das rodas rangendo e do cheiro de poeira e da desgraça que tava chegando, ela não fez esse argumento. Em vez disso, ela só pegou a mão dele, a que tava encostada no ombro dela, e segurou firme.
Dois anos e meio de casamento, com uma separação de seis meses que pareceu uma eternidade, e ainda assim… parecia novo. O calor da mão dela na dele, a pressão suave do corpo dela contra o dele, a ousadia de ela estar ali, naquele canto da Europa em guerra, no coração de março… era um ato de desafio da primavera, um florescer de esperança diante da incerteza. Ele tava, simplesmente, caidinho por ela, talvez tanto quanto ela estivesse por ele.
Cavendish abaixou a cabeça, confessando, num turbilhão de palavras sussurradas, as ansiedades dele: os pesadelos que atormentavam o sono dele, as cartas frenéticas escritas e enviadas, a espera agonizante por uma resposta, os planos malucos que ele inventou pra mandar mensagens pra Inglaterra. Ele precisava contar pra ela, pra tranquilizar ela, que ele tava vivo, que ele voltaria pra ela.
"Mas eu tô aqui", Alicia disse, a voz dela calma, decidida. Uma declaração de fato, não uma pergunta. Ele não tinha encontrado uma solução; ela tinha. Era… incrivelmente a Alicia. Ela sentia, com uma convicção inabalável, que todos os obstáculos tinham sido removidos. Apesar da viagem perigosa, apesar da ameaça que rondava, ela sabia, com uma certeza que beirava o divino, que tinha feito a coisa certa.
E por quê?
Alicia inclinou a cabeça, o olhar dela encontrando o dele. Ele tinha mudado, sutilmente, mas de um jeito inegável. Tinha novas linhas nos cantos dos olhos dele, um jeito mais forte no maxilar que não tava ali antes. E ainda assim… ele continuava sendo ele: as mesmas feições esculpidas perfeitamente, os cílios ridiculamente longos, os olhos, um azul profundo, sem fundo, que pareciam guardar as profundezas do oceano, a boca, perfeita, nem muito cheia, nem muito fina, e agora curvada num sorriso leve e interrogativo.
Mas alguma coisa tinha mudado, pra sempre.
Ela amava ele. A constatação, que não era mais uma hipótese provisória, mas um teorema comprovado, atingiu ela com a força de uma revelação.
Alicia levantou a mão, a palma dela encontrando a bochecha dele, uma comunhão silenciosa. Ele olhou pra ela, os olhos dele procurando os dela, e ela soube, com absoluta certeza, que ele sentia isso também.
E assim, enquanto o crepúsculo se aprofundava na noite, e a lua lançava seu brilho pálido e etéreo pelas janelas da carruagem, eles se agarraram um ao outro, um refúgio de calor e amor no meio da tempestade que tava chegando.
"Deus", ele respirou, os lábios dele roçando o cabelo dela, uma oração fervorosa sussurrada na escuridão, "que seja sempre assim. Que a gente esteja sempre junto."
Alicia ouviu o ritmo do coração dele, uma batida frenética que aos poucos diminuiu, se acalmou, imitando o dela.
"Sim", ela concordou, uma afirmação suave e firme. Era, afinal, inevitável.
Bruxelas, aquele ponto de encontro agitado de expectativa ansiosa, no momento tava transbordando de uma galera de gente falando várias línguas, todos tramando e planejando, todos se preparando pra briga inevitável.
Alicia, sempre pragmática, tinha mandado a equipe de confiança dela na frente pra garantir acomodações boas. Afinal, não dá pra fazer guerra de barriga vazia, nem sem uma xícara de chá decente.
A notícia, como sempre fazia, se espalhou com a velocidade e a ferocidade de um incêndio florestal. A aristocracia residente de Bruxelas – uma mistura meio estranha, pra falar a verdade – tava toda agitada com a notícia que a Baronesa Clifford, ou melhor, Alicia, a única filha do ilustre (e imensamente rico) Duque de Devonshire, tinha chegado, acompanhada do marido (no momento militar).
William Cavendish, todo mundo sabia, era uma pessoa importante nos círculos diplomáticos de Viena, e tinha sido ligado à embaixada em Paris, com boatos que ele ia ser embaixador no futuro. A presença dele em Bruxelas, por isso, não era nada surpreendente. Mas a dela… isso era outra história.
A ameaça da guerra tinha levado alguns dos membros da nobreza mais… sensatos a pensar em uma retirada apressada pra (relativa) segurança de Londres, com as famílias e (o mais importante) os bens. Outros, no entanto, ficaram, agarrados teimosamente à existência continental. Embora a memória dos… feitos… passados de Napoleão fizesse um arrepio subir pelas espinhas deles, o encanto de um estilo de vida mais… relaxado era tentador demais pra resistir. O clima europeu era, inegavelmente, melhor que o da Inglaterra, as regras sociais eram bem menos rígidas, o custo de vida era maravilhosamente baixo e, o mais importante, eles tinham passado a maior parte de um ano transformando suas residências alugadas em palácios em miniatura. Abandoná-los agora, a menos que estivessem diante da aniquilação iminente, era simplesmente impensável.
O Duque de Richmond e sua família (meio extravagante) estavam entre esse último grupo. O duque anterior, você vê, o tio materno de Cavendish, em um acesso de… excentricidade… tinha deixado a maior parte de sua fortuna para sua filha ilegítima (com uma amante francesa, nada menos!), enquanto o ducado e as propriedades herdadas tinham passado, meio a contragosto, para seu sobrinho.
O duque e a duquesa atuais eram um par de… indivíduos animados, famosos por seus gastos extravagantes, sua prole prodigiosa e suas dívidas em rápido acúmulo. A Inglaterra, com seus credores chatos e suas restrições sociais ainda mais chatas, não tinha muito apelo. Bruxelas, por outro lado, oferecia um refúgio de anonimato (relativo) e extravagância contínua, um estilo de vida adequado ao seu senso de auto-importância (um pouco inflado).
Cavendish, através de uma linha de parentesco meio fraca, era (mesmo que remotamente) parente dessa família ilustre.
E assim, até que uma residência mais adequada (e permanente) pudesse ser garantida, Alicia e William se tornaram os convidados (um pouco relutantes) do Duque e da Duquesa de Richmond.
Sim, apesar das tensões em escalada, a sensação palpável de pavor que pairava no ar, eles tinham escolhido ficar em Bruxelas.
Cavendish, é preciso dizer, nunca tinha questionado a… coragem de Alicia. A decisão dela, embora talvez surpreendente pra alguns, não foi nenhum choque pra ele.
Napoleão, aquela espinha persistente no lado da Europa, tinha, com sua falta de consideração característica, reunido seu exército. Os britânicos e seus aliados, em uma enxurrada de atividades frenéticas, estavam reunindo suas forças nas proximidades de Bruxelas.
O Duque de Wellington, aquele exemplo de brilhantismo militar, tinha sido (um tanto sem cerimônia) retirado das disputas diplomáticas em Viena e enviado pra esse… local volátil… pra assumir o comando das forças combinadas. Seus veteranos experientes, os heróis da Guerra Peninsular, estavam, infelizmente, envolvidos em um conflito meio inconveniente do outro lado do Atlântico, naquele assunto chato com os americanos.
Consequentemente, as fileiras estavam cheias de… recrutas entusiastas… mas inegavelmente novos, recém-chegados da Inglaterra.
William Cavendish, em um momento de patriotismo (talvez mal orientado), tinha recebido uma posição de responsabilidade considerável: ajudante de campo do próprio grande Wellington.
Ele, claro, tinha uma certa experiência militar. Passava os dias (e uma parte considerável das noites) imerso nos negócios caóticos de treinar tropas, transmitir ordens (frequentemente contraditórias) e participar de reuniões de estratégia intermináveis (e frequentemente infrutíferas).
A Duquesa de Richmond, uma mulher de métodos… não convencionais… e uma conhecida próxima (alguns diriam muito próxima) do Duque de Wellington, tinha assumido a tarefa de… reforçar… o moral, hospedando uma série aparentemente interminável de banquetes luxuosos. Esses eventos, embora proporcionassem uma distração bem-vinda da desgraça iminente, pouco faziam pra aliviar a tensão subjacente e serviam principalmente pra esgotar o suprimento de champanhe já em declínio da cidade.
A logística, como sempre, era um pesadelo. A requisição de comida, o transporte de munição, a obtenção de cavalos (muitos dos quais pareciam estar nas últimas) – era uma tarefa hercúlea, mal administrada em meio ao caos e à confusão da guerra iminente.
Os ventos da guerra, literalmente, uivavam por Bruxelas. A interrupção na comunicação, um desenvolvimento meio inconveniente que tinha persistido desde o final de março, foi finalmente, abençoadamente, resolvida no início de abril.
As notícias da Inglaterra, em meio à turbulência internacional, foram dominadas por uma única questão polêmica: as Leis do Milho. Esse pedaço de legislação, debatido com a ferocidade de um bando de lobos famintos, finalmente passou pelo Parlamento em 15 de março, poucos dias depois da partida de Alicia. Seu propósito, aparentemente, era proteger os preços internos dos grãos e, o mais importante, as altas rendas fundiárias desfrutadas pela nobreza e pela fidalguia, impondo altas tarifas sobre grãos importados mais baratos.
Os Tories, aqueles defensores ferrenhos da aristocracia rural (e de seus próprios bolsos, bem consideráveis), saíram vitoriosos. Os pequenos agricultores também tiveram motivos pra comemorar, embora se suspeitasse que sua alegria fosse um pouco mais… contida.
Alicia, em sua correspondência com seus pais (uma enxurrada de cartas enviadas pelo Canal), abordou a questão com sua mistura habitual de observação astuta e humor seco. Ela primeiro, claro, garantiu a eles seu bem-estar contínuo, declarando sua intenção de ficar em Bruxelas até que a paisagem política (e militar) se tornasse… menos… turbulenta. Ela não podia, admitiu, prever o futuro com qualquer grau de precisão, mas prometeu, com um toque de melodrama que até ela achava engraçado, voltar no Natal, acompanhada do marido (cada vez mais indispensável).
Seu pai, o Duque, respondeu com uma carta transbordando de preocupação paterna, pedindo que ela aceitasse a proteção de seus fiéis criados, que, naturalmente, ficariam encantados em escoltá-la de volta à segurança da Inglaterra, caso o… desconforto… aumentasse. Sua mãe, a Duquesa, sempre defensora da experiência, respondeu com uma carta cheia de incentivo. Ela aprovou totalmente o espírito aventureiro de sua filha, declarando que testemunhar uma guerra, com todo o seu caos e agitação, seria uma experiência muito educativa.
As Leis do Milho, como era de se esperar, acenderam uma tempestade de controvérsia, tanto em casa quanto no exterior. Os jornais, assim que chegaram, ficaram cheios de debates apaixonados, e os salões e clubes de Bruxelas (aqueles que permaneceram abertos, pelo menos) ecoaram com os argumentos acalorados dos numerosos expatriados britânicos.
Os Whigs, como era de se esperar, ficaram indignados. William Cavendish, um homem com simpatias decididamente Whig, declarou a legislação uma "regressão monstruosa".
"Se eu estivesse na Inglaterra", ele declarou, com um floreio dramático que Alicia achou ao mesmo tempo adorável e um pouco ridículo, "eu teria votado contra isso, com todo o fervor de um… um… bem, um Whig muito fervoroso. Embora, eu confesso, provavelmente não teria feito muita diferença".
Ele estava, pra dizer o mínimo, perturbado. As pressões do mês tinham aumentado, um acúmulo implacável de responsabilidades: as demandas da embaixada, as exigências dos militares, a intromissão incessante do Parlamento e do governo.
As sementes dessa… abominação… legislativa tinham sido plantadas no ano anterior. A interrupção da guerra nas importações de grãos tinha feito com que os preços internos disparassem, juntamente com as rendas fundiárias coletadas pelos poucos sortudos. Com a cessação (temporária) das hostilidades em 1814, os preços dos grãos caíram, mas as rendas, infelizmente, permaneceram teimosamente altas. Os agricultores, compreensivelmente, se viram em uma posição meio… precária…
A solução, naturalmente, era reduzir as rendas (uma noção que foi recebida com silêncio de pedra pela aristocracia rural) ou impor tarifas de proteção. Os nobres, com uma demonstração impressionante de egoísmo, optaram pela última.
As outras potências europeias, compreensivelmente, expressaram seu… desgosto… aumentando as tarifas sobre os produtos manufaturados britânicos. Mas, no esquema geral das coisas, derrotar Napoleão foi considerado uma questão de um pouco mais de urgência. O Imperador, em seu retorno dramático, tinha sido recebido com uma onda de entusiasmo (meio mal orientada) de seus ex-soldados e da população em geral, e rapidamente reuniu uma força formidável: 140.000 soldados regulares e 200.000 voluntários.
Luís XVIII, o monarca Bourbon restaurado apressadamente, tinha fugido de Paris com uma velocidade que teria impressionado até mesmo o maratonista mais experiente. A Sétima Coalizão, aquela aliança de nações em constante mudança, unida por sua antipatia compartilhada por Napoleão, estava rapidamente (ou, pelo menos, tão rapidamente quanto essas coisas poderiam ser gerenciadas) se reunindo.
Em 13 de março, um tratado foi assinado e, em 25 de março, cada uma das principais potências europeias prometeu contribuir com 150.000 homens para o conflito iminente.
A contagem final foi… impressionante, embora um pouco assustadora: a coalizão anti-francesa contava com mais de 700.000 soldados, enquanto Napoleão, com meros 280.000, enfrentava uma desvantagem numérica meio… significativa…
Apesar dessa disparidade esmagadora em mão de obra, um ar de profunda inquietação permeava as fileiras britânicas e aliadas. A perspectiva de enfrentar Napoleão, mesmo com uma força muito superior, não era algo a ser levado de ânimo leve.
E, pra aumentar a sensação geral de desconforto, as forças britânicas e prussianas ainda não tinham se juntado formalmente a seus homólogos alemães e austríacos.
A estratégia de Napoleão era, como sempre, brilhantemente audaciosa. Ele atacaria primeiro, dirigindo-se ao norte, para a Bélgica, com o objetivo de capturar Bruxelas e, ao fazê-lo, cortar as linhas de comunicação e suprimento britânicas.
Alicia e William, portanto, se viram morando em uma cidade que estava prestes a se tornar um ponto crucial na história, um tabuleiro de xadrez no qual o destino da Europa seria decidido.
Eles, claro, estavam totalmente cientes dos perigos inerentes à sua situação. No entanto, eles tinham escolhido ficar, ficar na beira da guerra.
A inteligência, ou melhor, a falta dela, era uma fonte constante de frustração. As potências aliadas precisaram de três meses inteiros pra mobilizar suas forças pra um ataque decisivo a Paris. As várias nações concordaram em lançar uma ofensiva coordenada entre 27 de junho e 1º de julho, convergindo na fronteira francesa de todas as direções.
Napoleão, com sua astúcia característica, pretendia explorar essa janela de oportunidade, lançando um ataque preventivo contra os exércitos britânico-holandês e prussiano. Essas forças combinadas, totalizando meros 200.000 homens, apresentavam um alvo muito mais… administrável…
Seu objetivo final, sua última aposta desesperada, era paralisar os britânicos e prussianos, atrasando (ou, talvez, até mesmo impedindo) o avanço dos maiores exércitos russo e austríaco.
Durante o final de abril e maio, enquanto Napoleão montava meticulosamente seus planos, Alicia e William se agarraram um ao outro, saboreando cada momento precioso de seu futuro (cada vez mais incerto).
Eles compartilhavam uma sensação de… premonição, uma consciência sutil, mas persistente, de que os próximos dias seriam diferentes de qualquer outro que eles já tinham conhecido.
Nas noites tranquilas, enrolados nos braços um do outro, eles discutiam o conflito iminente, analisando meticulosamente as prováveis estratégias de Napoleão, debatendo os possíveis caminhos de ataque.
E então, houve os momentos da vida… comum…, os pequenos detalhes aparentemente insignificantes que assumiram um significado maior na sombra da guerra. O medo que tomou conta de Bruxelas, a ansiedade compartilhada que permeou cada conversa, cada interação.
A Inglaterra, também, foi dominada por uma sensação semelhante de prenúncio. Lady Diana, a mãe de William, enviou uma carta expressando sua profunda desaprovação pela… imprudência… do filho. Ela não podia, declarou, tolerar sua decisão de permanecer na Europa, muito menos sua aceitação de uma posição na equipe de Wellington.
"Meu caríssimo Will", ela escreveu, sua letra (geralmente tão elegante) traindo uma pitada de agitação, "com certeza você deve perceber que os interesses da família superam quaisquer considerações de glória pessoal. O nome Cavendish não requer mais embelezamento; é, em si, um testemunho suficiente de… bem, de tudo. Essa… aventura… é totalmente desnecessária e, francamente, meio tola".
William e Alicia leram a carta juntos, trocando um olhar de diversão e exasperação misturadas.
Havia, ela teve que admitir, uma certa… lógica… no argumento de sua mãe.
Cavendish pigarreou, sua expressão mudando de diversão pra uma seriedade repentina e perturbadora. "Alicia", ele começou, a voz dele incomumente grave, "ela tem um ponto. Minha presença aqui, na iminência da batalha, é… irresponsável. Totalmente irresponsável".
Eles não tinham filhos. As ramificações legais de sua morte, particularmente no que diz respeito à herança de seu título e propriedades, eram… complexas, pra dizer o mínimo. O direito comum oferecia pouca proteção às viúvas, e a autoridade do direito de equidade, embora considerável, não era absoluta. O título e a grande maioria das propriedades Cavendish passariam para seu tio e, subsequentemente, para os próprios descendentes (meio numerosos) de seu tio.
A posição de Alicia, em tal cenário, seria… precária. E se… e se algo pior acontecesse?
Naquele instante, Cavendish viu, com clareza horripilante, toda a extensão de sua loucura. Ele tinha que fazer os preparativos. Ele tinha que garantir que Alicia fosse provida, que ela estivesse segura.
Ela deveria se casar de novo, claro. Mas ela poderia… ela… encontraria outro homem que… Ele não suportava a ideia.
"Eu devo ficar ao seu lado", ele declarou, a voz dele firme, resoluta. Era seu dever, sua responsabilidade. E, no entanto, uma parte dele, uma voz pequena e rebelde, sussurrava sobre um caminho diferente, sobre uma vida vivida não à sombra do dever, mas na busca de… algo mais. Todo homem apto a trabalhar deveria lutar.
Ele carregava o peso de dois fardos: honra e responsabilidade.
"Não, Will", disse Alicia, a voz dela surpreendentemente forte, os olhos dela brilhando com uma convicção inabalável que ao mesmo tempo o humilhava e o inspirava. "Você deve fazer o que nasceu pra fazer. O que você está destinado a fazer".
Ela, com aquelas palavras simples, tinha dado a ele permissão pra fazer o que ele tanto tinha desejado por quase três décadas: viver, viver de verdade, por si mesmo.
Ele tinha desejado, quando jovem, lutar, provar a si mesmo, ganhar seu lugar nos anais da história. Mas seu destino, como futuro Duque de Devonshire, tinha ditado o contrário. Ele tinha sido confinado, preso a uma vida de privilégio e responsabilidade, seu futuro ligado de forma inextricável ao de seu primo.
Ele era, claro, feliz. Ele era, na verdade, feliz. Mas sempre tinha havido… outro caminho, uma estrada não percorrida.
E agora, Alicia tinha, com sua ousadia característica, oferecido a ele essa escolha.
William Cavendish olhou pra ela, o coração dele inchando com uma mistura de amor, gratidão e uma profunda sensação de… admiração. Ele estendeu a mão pra ela, os dedos dele se entrelaçando com os dela, um voto silencioso passando entre eles.
"Vamos enfrentar isso juntos", ele disse, a voz dele rouca de emoção. "O que vier".
"Sim", ela respondeu, o olhar dela firme. "Juntos. Sempre".
Em maio, as intenções de Napoleão ficaram assustadoramente claras. Relatórios de inteligência, embora frequentemente conflitantes e pouco confiáveis, apontavam pra um avanço planejado por Mons, um movimento estratégico projetado pra cortar as linhas de comunicação e suprimento britânicas e impedir a chegada de reforços.
A comunicação entre as nações aliadas permaneceu… problemática, pra dizer o mínimo. Todo o exército estava nervoso, uma mola enrolada esperando pra ser liberada.
Eles dormiam juntos, não no sentido íntimo, mas simplesmente… juntos. O calor compartilhado, a presença reconfortante um do outro, servia pra acalmar seus nervos desgastados, pra proporcionar um breve descanso da ansiedade constante e crescente.
Alicia, normalmente tão distante, tão aparentemente indiferente à turbulência ao seu redor, estava… mudada. Ela observou, com uma intensidade calma, as intermináveis procissões de soldados marchando pelas ruas: os casacos escarlates dos britânicos, o azul dos prussianos, um caleidoscópio de uniformes, um rio de homens fluindo em direção a um destino incerto. Ela viu seus rostos, gravados com fadiga, apreensão, com uma determinação sombria.
Ela viu, também, as seguidoras do acampamento, as mulheres e crianças que seguiam o exército, suas vidas destruídas, seus futuros incertos. A guerra tinha terminado, tão brevemente, só pra reacender com nova ferocidade.
E então, ela viu: o uniforme. O uniforme novo e impecável que tinha sido entregue pra William, junto com o sabre brilhante, as pistolas polidas, o magnífico cavalo de guerra que o esperava.
Uma onda de emoção, crua e desconhecida, tomou conta dela.
Ele usaria aquele maldito chapéu bicorne, aquele símbolo de autoridade militar, e ela, Alicia Cavendish, Baronesa Clifford, pessoalmente mandaria ele pra batalha.
"É apenas uma posição de ajudante de campo", disse William, tentando injetar uma nota de leveza na conversa, uma tentativa fraca de mascarar o medo subjacente que roía os dois.
Mas Alicia sabia, assim como ele, que o papel de ajudante de campo era tudo menos seguro. Eles eram os mensageiros, os olhos e ouvidos do comandante, encarregados de galopar pelo campo de batalha, entregar ordens, transmitir informações, navegar por uma paisagem de caos e carnificina. Balas e balas de canhão, como todos sabiam, eram notoriamente indiscriminadas em sua escolha de alvos.
A morte era, claro, o horror supremo. Mas havia… outras possibilidades, igualmente aterrorizantes. Uma lesão incapacitante, uma amputação, cegueira… a lista de horrores em potencial era interminável. E mesmo aqueles que escapavam de danos físicos frequentemente carregavam as cicatrizes invisíveis da guerra: os tremores, as dores de cabeça, os pesadelos que assombravam seu sono.
O que seria deles se… se ele fosse… mutilado? Ele não suportaria a ideia. Ele não conseguiria se tolerar e se recusava a sobrecarregar ela com sua… ruína.
Ele acabaria com isso, de forma rápida e limpa, assim como ele tinha acabado com o sofrimento de um cavalo de guerra ferido, um único tiro proporcionando o esquecimento. Tinha sido uma misericórdia, um ato necessário de crueldade.
Mas isso… isso era diferente. Isso era Alicia. Ele tinha prometido passar a vida com ela.
Alicia, como se estivesse lendo seus pensamentos, gentilmente virou o rosto dele pra ela, o olhar dela firme, a voz dela firme.
"Aconteça o que acontecer, Will", ela disse, suas palavras uma promessa solene, "você deve voltar pra mim. Vivo".
Ele não ofereceu sua réplica brincalhona habitual, a provocação "E se eu não voltar?" que tinha se tornado um refrão familiar em suas brincadeiras.
Em vez disso, ele encontrou o olhar dela, seus cílios tremendo ligeiramente, e assentiu. "Eu vou", ele sussurrou, a voz dele grossa de emoção. "Eu prometo".
"Eu prometo".