Capítulo 46. Um Entendimento Muito Singular
A galera da caçada tava a mil, e não era só pra pegar raposa, não. Uns caras, com rifle na mão, tavam lá pra derrubar os passarinhos, mirando pro céu com uma facilidade que só vendo. Faisões e galinhas-selvagens, que saíram dos pântanos, deram um baita dum esporte. As matas por perto, cheias de passarinhos se preparando pra dormir à noite, foram a oportunidade perfeita pra caçar – aqueles machos com a cauda comprida, que visão quando voavam, só pra cair com um tiro bem mirado.
Todo mundo voltou felizão, porque a alegria da temporada de caça era essa, uns poucos meses pra aproveitar ao máximo. A Alicia, claro, tinha se destacado, ganhando o apelido de "Diana", uma verdadeira caçadora com arco e flecha. Ela olhava pra pilha de caça dela com aquela cara de despreocupada, deixando pra empregada a parte de tirar a pele. O William Cavendish tava de olho nela, com a sobrancelha levantada daquele jeito que ele tinha, achando a animação dela sempre engraçada – e, pra ser sincero, até com uma pontinha de admiração.
Parecia que a vida de casados deles tinha mudado quase nada, pelo menos no espírito. Ela continuava livre e tranquila como sempre. Ele enchia ela de elogios, cada um mais elaborado que o outro. Ela só dava uma olhadinha pra ele, com um brilho de graça nos olhos. Ele sacou na hora, achou um cantinho isolado e fez uma reverência de brincadeira, como quem se rende. Ela recompensou ele com um beijo rapidinho, daqueles de tirar o fôlego.
O William Cavendish, no entanto, tava com um sorriso de pura felicidade no rosto. Ninguém, ninguém mesmo, conseguia entender a fundo a alegria dele. Ela tinha começado a chamar ele de "meu marido" nas cartas, uma mudança sutil no jeito de tratar, que não tinha passado batida. Eles tavam lado a lado, ouvindo a conversa dos outros convidados, trocando umas gentilezas. A Alicia passou o braço pelo dele, entrelaçando os dedos. Ele tava, por completo, ligado na vida dela.
Os faisões, no fim das contas, tavam uma delícia. Os corvos, pra surpresa geral, deram uma torta incrivelmente saborosa. A fartura do dia ajudou no banquete da noite. A Lady Salisbury, sempre uma anfitriã gente boa, se levantou pra fazer um brinde, batendo a taça com um tilintar delicado, desejando as bênçãos ao casal recém-casado. Pra falar a verdade, a festa toda de caça tinha sido organizada em homenagem a eles.
A farra, pelo que se ouvia falar, tava longe de acabar, ia durar uns dias. As festas de caça da Lady Salisbury eram famosas pela qualidade impecável, cada atividade era feita com uma certa elegância. Por isso, era um convite muito disputado entre a nobreza.
Até o Príncipe Regente, apesar de gostar cada vez mais de vinho e daquela barriga que ele tinha, que tava dificultando andar a cavalo, tava lá, sentado na carruagem com a amante dele, a Marquesa de Hertford. Ele tava caidinho por ela, diziam, tinha corrido atrás dela uns vinte anos antes, só pra levar um fora. Agora, o destino, com as suas maluquices, tinha juntado eles.
A Lady Hertford, uma mulher de cinquenta e tantos anos, tinha uma certa forma, mesmo que na juventude fosse considerada uma beleza de tirar o fôlego. Toria de carteirinha, ela mandava muito no Príncipe Regente.
A Alicia, por causa das conexões da família dela, não era estranha no meio da realeza. O avô e o pai dela tinham sido Lorde Chamberlain, mesmo que o velho Duque tivesse largado o cargo sem cerimônia nenhuma depois de uma discussão com o Rei George III. (O Rei, saca, tinha se aliado aos Tories pra acabar com os Whigs, principalmente depois que surgiu aquele metido a besta, o William Pitt, o Jovem. O Duque de Devonshire, que se dizia o "Príncipe dos Whigs", sempre tinha sido uma figura importante nisso tudo.)
O Príncipe Regente, quando ainda era Príncipe de Gales, tinha feito amizade com os Whigs pra peitar o pai dele. Mas, quando assumiu o poder com a Lei da Regência no ano anterior, ele meio que traiu as promessas de reforma e de colocar os Whigs nos cargos, mudando pra galera dos Tories pra conseguir poder político.
O ex-Primeiro Ministro, o Perceval, depois de uma briga feia pelo poder, tinha consolidado a posição dos Tories, se recusando a dar o poder pro Príncipe Regente. Infelizmente, ele foi assassinado em maio, e depois de mais um monte de manobras políticas, os Tories continuaram no poder, com o Lorde Liverpool, que era mais moderado, no comando.
O Príncipe Regente, nesse cenário turbulento, tava tentando recuperar a autoridade real que tinha sido corroída aos poucos por décadas. Era nesse jogo complicado de poder que a chance da Alicia virar nobre tinha surgido tão de repente.
Os Whigs, depois da traição que eles sentiram no ano anterior, tinham mudado o apoio pra atual herdeira, a Princesa Charlotte de Gales. Mas a Princesa tinha só dezesseis anos, e o relacionamento dos pais dela era famosamente ruim. O Príncipe Regente e a esposa, que tavam separados, só tinham vivido juntos por um tempo depois do casamento, e não tiveram mais herdeiros.
O avô dela, o querido George III, que tinha pirado de vez, a pobre da Princesa Charlotte se viu sob os olhos atentos do pai, quase uma prisioneira. A Alicia, desde nova, conhecia ela, foi colocada como companhia pelos pais dela. Um ano mais velha, a Alicia era conhecida por ter uma cabeça esperta e uma calma fora do normal, qualidades que a Princesa admirava muito.
A Princesa Charlotte, isolada no palácio, tinha recebido um baita apoio da família Cavendish. Ela era a única e indiscutível herdeira, e principalmente com a saúde do Príncipe Regente piorando e o comportamento dele cada vez mais maluco, o que tinha prejudicado muito a imagem da realeza, ela era adorada pelo povo britânico.
Brigas políticas, claro, sempre exigiam um olho esperto pra fazer alianças e manter a influência no seu partido, conseguir apoio e seguidores. Até agora, uma geração atrás da outra tinha se saído bem. Se não fosse isso, o Conde de Devonshire durante a Revolução Gloriosa não teria assinado com tanta coragem a carta que convidava o William de Orange, ganhando um ducado e um poder considerável.
O Príncipe Regente não tava nem um pouco feliz com os antigos aliados Whigs dele apoiando a filha dele. Mas, vendo as vantagens que podia ter, ele teve que mandar o Lorde Chanceler e os bispos apoiarem a parada na Câmara dos Lordes. Afinal, ele precisava do equilíbrio entre os dois partidos, e dos Whigs na Câmara pra que propusessem medidas favoráveis a ele – como grana pra reformar a Regent Street. Qualquer coisa que tivesse a ver com prazer, ele apoiava com tudo.
Aí, o acordo foi feito, meio que no silêncio. O Parlamento não tava oficialmente marcado pra se reunir até fevereiro, mas em dezembro, a galera já tava voltando pra Londres pra discutir as propostas.
O William Cavendish, com um brilho de brincadeira nos olhos, começou a chamar ela de "Lady Clifford".
"O que eu vou fazer, Alicia? Você vai ter um título, e eu, nada", ele zoava, piscando os cílios. Ah, um homem não podia herdar um título pela esposa.
A conversa da noite, inevitavelmente, teve muita bebida. O William exalava um cheiro forte de Bordeaux. Ele olhou pra ela de lado, tentando encostar a cabeça no ombro dela, de um jeito meio bêbado.
Essas festas com bebida e jogo eram conhecidas por durar até altas horas da madrugada. Ele, no entanto, deu no pé mais cedo. Depois das obrigações sociais, a Alicia trocou uns beijinhos no rosto com a Lady Salisbury e se preparou pra cama.
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Enquanto o relógio do corredor batia meia-noite, o Cavendish tapou os ouvidos dela. "Lembra do Ano Novo? Depois do nosso noivado?" Os sinos tocaram, e eles dividiram um beijo educado. Ele lembrava direitinho da pressão dos lábios dela nos dele.
"E os Jardins Vauxhall", ele continuou, com a voz grossa de saudade. Os jardins de diversão na margem sul do Tâmisa, iluminados por milhares de lâmpadas, com orquestras, bailes ao ar livre, fogos de artifício, shows aquáticos e carruagens desfilando. "Quando você usou aquela máscara. Eu roubei um beijo, mesmo por cima do tecido. Aquela com as penas de pavão."
Ele falava sem parar, as palavras dele eram um turbilhão de lembranças carinhosas. Ele tinha adorado zoar ela naquela época, sentir aquele prazer estranho em fazer exatamente o que a Alicia não queria que ele fizesse, um costume que ele adquiriu depois de tantos anos de convivência. Ele deu uma risadinha baixa, com o hálito quente encostando na bochecha dela. Ele tinha catalogado com cuidado cada toque, cada momento de contato, revivendo tudo na cabeça como se fosse uma coleção de coisas preciosas.
A Alicia segurou o rosto dele, pensando. Aí, se levantando na ponta dos pés, ela abraçou o pescoço dele e pegou os lábios dele pra beijar.
Ele ficou parado, sem reação, por um instante, antes de abraçar ela com força, e os dois foram cambaleando pras sombras do corredor, pra explorar o assunto de um jeito mais completo.
A Lady Salisbury, é preciso dizer, tinha um bom entendimento das necessidades dos recém-casados. Ela tinha colocado eles num quarto de hóspedes isolado, separado por um corredor longo, garantindo privacidade e sossego.
Eles, no entanto, não foram dormir na hora. Em vez disso, de mãos dadas, dançaram no corredor escuro, uma valsa sussurrada e cheia de risadinhas, indo de um lado pro outro, um de frente pro outro, rodopiando em círculos graciosos.
O Cavendish cantarolou uma valsa que tinha ouvido durante as viagens dele no Continente, marcando o ritmo com uma batidinha leve no pé. A saia dela roçava nas botas dele enquanto eles riam, as vozes deles eram um contraponto melodioso ao canto dele.
Eles ficaram um tempinho no corredor, trocando palavras baixas e um último beijo de boa noite.
Depois de se lavar, ele foi pro quarto dela.
"Você deve ter pensado em mim", a Alicia falou, deixando o livro de lado. O rosto dela tava iluminado pelo brilho suave da lâmpada do criado-mudo.
O Cavendish chegou perto, encostando o rosto na bochecha dela. Os rostos deles tavam próximos, e ele sempre notava os pelinhos finos e macios na pele dela, prova da juventude dela. Ela abraçou o pescoço dele, estudando ele com atenção, depois se mexeu pra dar espaço pra ele na cama. Ele sorriu e foi.
O William Cavendish finalmente tinha conseguido realizar o desejo de se enfiar na cama dela. Ela sempre tinha reservado um lugar pra ele, pelo menos no coração dela, ele sacou. Ele era, às vezes, insaciável, e em outros momentos, fácil de satisfazer.
Eles não fizeram nada além de se abraçar, dormindo num abraço confortável. A festa de caça, talvez, tinha trazido um monte de lembranças compartilhadas.
A Alicia se aconchegou nele, e ele ficou brincando com o cabelo dela, enquanto os dedos dela seguiam as dobras da camisa dele. Eles se olharam, com sorrisos curvando os lábios.
"Vou escapar antes do amanhecer", ele sussurrou, beijando a testa dela. "Boa noite."
Era, afinal, ainda um pouco inconveniente ser descoberto numa situação dessas, mesmo pra um casal oficialmente casado, estando na casa dos outros.
A Alicia concordou com a cabeça, os olhos pesados de sono. Ele conseguia sentir o carinho crescendo por ele. Assim como na caçada, ela tinha diminuído a velocidade do cavalo de propósito, virando pra esperar ele alcançar ela, só pra dar um pique com o cavalo de novo quando ele chegava perto, uma brincadeira que os dois pareciam gostar.
No dia seguinte, continuou a caçada, mas focando mais nas galinhas-selvagens, indo mais pra cima dos pântanos. Os dois desmontaram, com as armas na mão, seguindo a presa deles. A carne de galinha-selvagem era considerada uma iguaria especial, e tinha um plano de fogueira pra noite, um acampamento rústico.
O Duque e a Duquesa de Devonshire observavam, com satisfação, a harmonia que tinha se desenvolvido entre os dois. O Cavendish, franzindo a testa de leve, pegou uma galinha-selvagem caída, tirando com cuidado uns pedacinhos de grama e penas perdidas, e a Alicia, olhando pra ele, abriu um sorriso radiante.
Pelo menos, eles pareciam felizes, acabando com qualquer dúvida que ainda pudesse existir. Nos dois meses depois do casamento, os recém-casados tinham se adaptado bem à companhia um do outro.
O William Cavendish foi na frente, pegando na mão da esposa dele, com a passada dele longa e confiante. Ele colocou ela no cavalo, ficando perto sem vergonha, esperando ela pular nos braços dele. A ligação deles era muito íntima, principalmente pros padrões dos casamentos da aristocracia. Sorte que nenhum dos dois parecia muito preocupado com a opinião dos outros.
A caçada continuou durante o dia, terminando com uma fogueira animada onde os convidados assaram as galinhas-selvagens preparadas na hora, junto com outras aves e coelhos, e até peixes pegos num riacho por perto.
O filho do Marquês, Lorde Cranborne, e um grupo de amigos dele, conseguiram pegar um javali selvagem, que, depois de ser pincelado com mel e salpicado com especiarias, assou até ficar perfeito e apetitoso.
O William Cavendish, que geralmente era um bon vivant famoso, não contribuiu em nada pra caçada, a atenção dele tava toda na esposa dele. Ele ficou girando um graveto fino, sem prestar atenção, cutucando as ervas daninhas que tavam por perto.
A Alicia, com a saia levantada por causa da praticidade, tava procurando ninhos de corvo. Tendo achado um, ela, como sempre, mandou ele buscar o que tinha dentro.
Ele insistiu em receber uns elogios, mesmo que só uma palavra bastasse, antes de subir na árvore sem fazer força. Ele voltou, todo vitorioso, com uma colheita farta. Ela não perguntava mais se ele não tinha "nada melhor pra fazer".
Porque a Alicia tava percebendo aos poucos que ela era, na verdade, o "algo pra fazer" dele. Mesmo que a ideia parecesse meio improvável pra ela, ela tava gostando muito das interações deles. Ela sentia como se eles tivessem continuando a lua de mel de um mês, estendendo ela, como muitos recém-casados faziam, pra três meses completos.
Tudo tava indo de um jeito inacreditável, sem uma briga séria sequer. Talvez a década anterior tivesse esgotado a capacidade deles de brigar.
Ele cortou a carne pra ela, segurando a travessa, a faca e o garfo na mão. A Alicia apontou que ela tinha mãos perfeitamente capazes, mesmo que aceitasse gentilmente um pedaço que ele ofereceu, se inclinando pra receber.
"Por favor, Alicia, deixe eu ter esse prazer", ele falou, com aquele jeito todo dele, cuidar dela tinha virado algo natural. O Cavendish se deliciava com cada chance de ser feliz.
Garrafas de vinho bom foram abertas, e com a animação crescendo, um Duque, tocado pela atmosfera festiva, começou a dançar uma dança escocesa. Os músicos que tavam lá, logo entraram no ritmo com as gaitas de fole, e quem tava sentado perto da fogueira batia palmas no ritmo.
Uns nobres escoceses entraram na dança. A Alicia, com as bochechas coradas, encostou o queixo na mão, observando com graça. Aí, se levantando, começou a chutar e rodopiar, fazendo os passos com uma elegância que só vendo. O Cavendish entrou na dança com ela, e eles se pegaram pelas mãos, rodando em círculos.
As danças do campo muitas vezes incluíam elementos escoceses, e mesmo que ele não fosse escocês, a época que ele passou em Edimburgo tinha exposto ele às comemorações tradicionais. Ele aprendia rápido, mesmo que às vezes fosse um pouco desajeitado, enquanto eles se enfrentavam, de mãos dadas, os olhos grudados enquanto giravam.
No meio dos gritos e risadas, ele puxou a Alicia pra perto, rodopiando ela pra lá e pra cá, trocando de lugar com outros dançarinos, só pra voltar e pegar ela nos braços dele de novo. Ele sentiu, naquele momento, que era o cara mais sortudo do mundo inteiro.
A noite foi passada em tendas, uma brisa suave balançando as lonas. Ele entrou, abraçando ela por trás. A Alicia cobriu a mão dele com a dela, com o queixo dele encostado no topo da cabeça dela.
A farra continuou lá fora, mas a noite de novembro tava fria demais pra ficar lá fora por muito tempo. Eles, inevitavelmente, iam ter que voltar pra casa. Mas, por enquanto, eles tinham o próprio santuário deles.
O hálito dele tava quente no pescoço dela, o abraço dele também. A Alicia se virou, enterrando o rosto no peito dele. Eles não precisavam mais de intimidade física pra provar nada, mas se deliciavam com a sensação de pele com pele.
O Cavendish fez carinho na mão dela, com a outra mão brincando no cabelo dela, com os dedos seguindo a linha lisa da testa dela. Ele sempre tava fazendo alguma coisa pequena e carinhosa.
A Alicia ficou em silêncio, com os olhos baixos.
"Não sei o que dizer, Alicia, mas tava pensando hoje como sou incrivelmente sortudo." Os lábios dele encostaram no pescoço dela, sentindo a pulsação ali.
A Alicia olhou pra ele. Ele às vezes mostrava um lado vulnerável e melancólico pra ela, e ela sempre conseguia ouvir o coração dele bater, muito mais forte e vibrante do que antes do casamento deles. Ele não era mais só um bon vivant mulherengo e despreocupado, mesmo que ele ainda ficasse pensando em várias coisas, ele trazia sensações novas e profundas pra ela.
Como uma abundância transbordante de amor. Ela ficava pensando de onde vinha tudo aquilo. Era a linhagem que eles tinham em comum, ou os dez anos de amizade? Tudo, na verdade, era inexplicável.
"Eu tava muito feliz hoje", a Alicia respondeu. Ele dava corda pra ela, com paciência, orbitando ao redor dela, como sempre fez. Só que agora, a carranca impaciente da juventude dele tinha sido substituída por um sorriso quase imperceptível.
"Você mudou muito", ela observou. O Cavendish corou de leve. O comportamento dele como um primo, antes, tinha sido, na opinião da maioria, impecável, mas ele ainda achava que tinha tratado ela meio mal às vezes.
Quando ele tava quase perguntando o que ela achava dele agora, ela fechou os olhos e dormiu nos braços dele. Ela tava, com toda a razão, exausta das atividades do dia. Ele ficou olhando pra ela com o rosto tranquilo, com um sorriso sem jeito nos lábios.
Na volta de carruagem, ela acordou do sono, se encostando nele, com a capuz cobrindo metade do rosto dela. Ele acompanhou ela, e a Alicia, conseguindo voltar a ficar um pouco esperta, se arrumou. Eles tinham dormido juntos de novo, mais uma noite. Ela instintivamente pegou no braço dele.
Outro dia amanheceu. As atividades que eles já tinham vivido antes tiveram outra dimensão depois do casamento.
Além da caçada, outras brincadeiras se intercalavam. Uns convidados continuaram com a caça, enquanto eles, que já tinham andado de cavalo o suficiente, entraram num grupo de jovens no gramado pra jogar críquete. Eles fizeram dupla, recuperando o tempo que ele tinha perdido quando se atrasou pro encontro de críquete deles.
"Eu não esqueci, só me atrasei dez minutos!" ele protestou, seguido por um monte de brincadeiras.
A partida chegou num ponto crucial, um momento decisivo. O Cavendish, com um golpe forte, mandou a bola que foi jogada voando. Os oponentes correram pra pegar.
A Alicia correu entre as estacas, esticando a mão pra tocar nelas.
"Corre, corre, corre!"
"Ganhamos!" Ignorando os olhares dos colegas de equipe, ele pegou ela num abraço de alegria.
A Alicia riu, aninhada nos braços dele.
"Você tá feliz."
"Sim, tô muito feliz."
Os outros tinham sacado na hora: o relacionamento deles era tão forte que não tinha lugar pra mais ninguém.
Aproveitando um momento de sossego, eles deitaram na grama, tomando sol. A Alicia ficou pegando flores silvestres, fazendo uma coroa, que ele às vezes ajudava ela a fazer.
A criação pronta foi colocada na cabeça dele, enfeitando os olhos dele com cílios escuros. O Cavendish, apoiado num cotovelo, puxou ela de repente, derrubando ela pra um beijo apaixonado, demorando nos lábios e bochechas dela.
No meio da grama alta que protegia, os beijos continuaram, repetidos e intensos. A Alicia empurrou ele, só pra abraçar ele de novo, encostando mais perto, e ele pegou na cintura dela, aprofundando o beijo.
Resumindo, depois dessa temporada de caça, os sentimentos deles um pelo outro aumentaram muito.
As noites foram preenchidas com banquetes e bailes sem parar, que ocupavam uma boa parte do tempo deles. Eles dançaram várias vezes, sem ligar pros olhares que tavam em cima, porque não era a temporada social, feita pra juntar jovens solteiros.
Uma moça comentou, "A intimidade deles é meio inapropriada." Toda a cerimônia parecia ter sido abandonada.
A Duquesa, ouvindo isso, só levantou o queixo, mostrando um desprezo orgulhoso. O casamento dela era famoso por ser infeliz, o marido dela tinha várias amantes, mostrando elas na cara dela pra humilhá-la. O olhar dela, varrendo o ambiente, dizia tudo.
A moça que fez a besteira, devidamente repreendida, ficou em silêncio, pensando que a família Cavendish era muito arrogante.
A Duquesa, com um sorriso leve nos lábios, trocou um olhar de cumplicidade com a Lady Diana. Os dois pais, com um entendimento tácito, deram bastante espaço pro casal. As coisas tavam indo pro lado bom.
"Vamos dar no pé?" o Cavendish sugeriu.
Eles se pegaram nas mãos, saindo do salão de baile cheio. Colocando as capas, eles tiraram os cavalos dos estábulos em silêncio, colocando a sela e indo pra noite, indo em direção aos pântanos abertos.
"Desmonte", ela falou, a confiança dela nele era inabalável.
Ela pulou, e ele pegou ela com segurança, se recusando, por um instante, a soltar ela. Ele levou ela pra correr embaixo do céu estrelado. A olho nu, dava pra ver menos estrelas do que num telescópio, mas ela identificou várias constelações.
"Elas continuam as mesmas por décadas", observou a Alicia.
"A gente vai ser assim?" ele perguntou, parando e chamando ela com um gesto da mão quando ela foi andando, só pra correr e se juntar a ela de novo.
A Alicia pensou por um momento. "Sim, acredito que sim", ela respondeu, segurando o xaile de caxemira persa, com o olhar preso no chão.
"Sim. Vamos", ele afirmou, andando devagar do lado dela, com as pernas longas dele acompanhando o passo dela facilmente. Se fosse pra ter alguma mudança, só podia ser pra melhor.
Outro dia teve um jogo de polo, um esporte novo que veio do Império Otomano, trazido pelos jovens da moda. O Cavendish, tendo viajado pra lá com uma missão diplomática, tinha sido um dos primeiros a popularizar ele na Inglaterra. Ele era, inegavelmente, um atleta habilidoso, e o polo tinha ganhado fama rapidamente nos últimos cinco ou seis anos. Mas, muitas vezes era difícil jogar em campos menores.
A Alicia, com um guarda-sol, assistia da arquibancada, conversando com as outras moças e jovens. Na propriedade do Marquês de Salisbury, os convidados iam embora todo dia, só pra ser substituídos por gente nova, uma enxurrada constante de visitantes.
O relacionamento harmonioso do casal, junto com a posição deles como lançadores de tendências, coincidiu com a crescente influência dos valores da classe média, que davam importância às virtudes da família. Mesmo que a aristocracia seguisse em grande parte os costumes extravagantes e hedonistas do século anterior, a visão do carinho genuíno do casal, o sorriso radiante do homem e o comportamento tão diferente do habitual, tocou as pessoas por perto, sem querer. Num mundo de falsidade, emoção verdadeira era uma mercadoria rara e preciosa, despertando uma saudade discreta.
Mesmo que esses atos fossem considerados inadequados, violando o entendimento tácito de que o casamento era só um contrato familiar, e noções irracionais como amor não tinham lugar ali, pra quem tinha status e influência suficientes, essas mudanças eram permitidas. Pelo menos, eles se respeitavam, até se amavam.
Umas moças perguntaram pra Alicia como ela tinha conseguido "domar" o marido, vista a fama dele de ser teimoso e arrogante.
A Alicia pensou na pergunta a sério. No fim, ela respondeu, "Não sei".
Era a verdade. Ela lembrava da expressão sempre carrancuda do primo dela depois do noivado, com o olhar fixo nela, só pra desviar quando ela olhava de volta. Agora, ele ia encarar ela, sem desviar, mesmo depois que ela virasse, uma disputa silenciosa e sutil entre eles, até que ele inevitavelmente explodisse em gargalhadas.
Ele não precisava de técnicas ou estratégias, ele simplesmente, por vontade própria, se transformou.
O William Cavendish, manobrando com facilidade no campo de polo, sempre parecia dominar tudo com facilidade, mas antes da Alicia, ele deixava de lado todo o controle, colocando ele nas mãos dela.
Na hora do intervalo, ele sorriu pra ela de cima do cavalo. A paquera dele era sem vergonha. A Alicia, por fora calma, sentiu as orelhas dela corarem.
Enquanto estava na casa dos outros, certas ações eram restritas, mas ele ainda conseguia fazer carinho e beijar o corpo dela, e ela correspondia da mesma forma. Eles queriam contato físico, se atraíam de forma irresistível. A Alicia foi contagiada por isso, assim como o Cavendish tinha sido no começo, ela se sentia atraída pelo toque e pelo calor dele.
Ele reclamou, "Quando a gente volta pra casa?" A respiração dele ficou mais pesada, e a Alicia, no meio de uma pilha de roupas, levantou a cabeça pra beijar ele, abafando qualquer barulho.
No meio da competição e das partidas emocionantes, o William Cavendish se movia com agilidade e habilidade, manobrando a bola com perfeição. No fim, ele garantiu a vitória.
Com uma flor, ele colocou a coroa de louros da vitória na cabeça da Alicia. A beleza loira, coroada com as folhas da vitória, olhando pra baixo da plataforma, era uma visão radiante.
A multidão que estava lá aplaudiu, incluindo os moradores e arrendatários da propriedade de Salisbury que foram assistir. O Príncipe Regente propôs ela, e todo mundo concordou em coroá-la "Rainha da Beleza".
Essa forma de polo, em Hertfordshire, virou um campeonato, e esse título e honra foram formalizados, pra ser dado a cada poucos anos pras moças que visitavam. A Alicia, como uma mulher inegavelmente bonita, teve o título por vários períodos seguidos. O Cavendish, de rapaz novo a homem mais velho, sentava na plateia assistindo, mas tudo isso era coisa do futuro.
Quando eles estavam sozinhos, ele pegou na cintura dela, beijando ela. O Cavendish murmurou carinhosamente, usando um apelido que só eles conheciam. Ela era a "Diana" dele, a mais sagrada e inviolável, uma deusa pra ser venerada, mesmo que ele estivesse sempre procurando fazer alguma coisa.
A temporada de caça de seis dias finalmente acabou, um sucesso estrondoso. Todo mundo tinha dado pra eles a impressão indelével de um casal muito apaixonado, sem nenhuma briga ou infelicidade.
Desacordos casuais ainda apareciam, como as idas e vindas escondidas dele, que atrapalhavam o sono dela.
A Alicia, agarrando um cobertor, comentou, "Acho que a Lady Salisbury sabe".
O William Cavendish, sem graça por um instante, viu o calor dela espantar a vergonha dele rapidinho. "Mas ela aprova", até propositalmente dando mais espaço pra eles.
A Alicia riu baixinho, dirigindo ele com uma facilidade natural, gostando muito da atenção dele.
A visita chegou ao fim, e com despedidas relutantes, eles partiram na viagem noroeste, pra mansão principal da família Cavendish, a Chatsworth House, em Derbyshire, considerada a casa mais grandiosa de toda a Inglaterra.
Mesmo que eles dividissem a casa com o Duque e a Duquesa de Devonshire, eles podiam tranquilamente ocupar uma ala inteira, e, se quisessem, evitar encontrá-los por um ano inteiro.
Essa viagem foi compartilhada com os dois pais. A Lady Diana e o Lorde Cavendish iam ficar um pouco em Chatsworth antes de seguir pro norte pro Lake District pra passar as férias.
A paisagem de outono passando, uma tapeçaria de folhas vermelhas e amarelas, se desenrolava como um pergaminho magnífico. Atravessando a ponte de pedra que cruzava o rio, a casa ancestral centenária, a maior residência particular de toda a Grã-Bretanha, apareceu.
A manutenção e conservação anuais, por volta de dez mil libras, chegavam à renda anual de um nobre menor.
Voltar pro ambiente conhecido da infância dela sempre trazia pra Alicia uma sensação de contentamento profundo. Alguma coisa tinha mudado sutilmente. Mas, enquanto eles seguravam as mãos, descendo da carruagem e olhando pros degraus que levavam ao prédio principal e à entrada de pedra com arcos de estilo paladiano, reformada repetidamente, uma onda de emoção tomou conta deles.
Muita coisa da vida deles tinha sido gasta nessas paredes.
O avô do Cavendish, o velho Conde de Burlington, tinha herdado a propriedade do tio, também situado nas vastas terras do Duque de Devonshire.
Eles se conheciam muito bem, entendendo cada preferência e inclinação. O Cavendish considerava essencial, no começo por dever, depois por costume, e agora, com todo o coração. Ele amava ela, desejando possuí-la pra sempre.
Ele abraçou ela com vontade. Eles riram e correram pra dentro, pelo corredor dourado, pelo chão preto e branco, pela escadaria, se perseguindo, despreocupados, como se tivessem voltado à infância.
A mente do Cavendish imaginou outra cena: eles tinham a mesma idade, namorados de infância, ele nunca tinha perdido um momento da vida dela, brincando juntos, se escondendo e se procurando no jardim labirinto sinuoso. Crescendo, roubando beijos atrás das árvores. Eles se amavam, amor familiar, amor romântico, todas as emoções entrelaçadas, as vidas deles entrelaçadas pelo tempo que eles viveram.
Que felicidade, uma progressão natural. Mas ele também tava contente com o resultado atual. Um sorriso se espalhou pelo rosto dele.
Cada janela oferecia uma vista de tirar o fôlego da paisagem cuidadosamente planejada – as árvores, as colinas, o rio. Gerações de refinamento estético tinham culminado nesse parque extenso.
Quando a família tava fora, Chatsworth House era aberta ao público, desde que os visitantes fossem da classe dos cavalheiros e avisassem o mordomo da chegada deles. Andando por ali, admirando e comentando, os reflexos deles eram espelhados nas janelas.
A Alicia, em casa, era ainda mais animada. Os empregados tinham preparado a casa com cuidado, tirando as capas de poeira. Ela correu pelos corredores grandiosos, a luz entrando pelas janelas compridas, iluminando os flocos de poeira que rodopiavam.
Ela se virou pra olhar pra ele.
"No que você tá pensando?" A voz dela ecoou pelo corredor.
"Tô pensando em você!" O Cavendish respondeu, com a cabeça erguida, com a voz alta.
Talvez a seriedade dele fosse engraçada, porque a Alicia explodiu em gargalhadas. Ela ficou com as mãos atrás das costas, recuando passo a passo, emoldurada pela lareira e pelas estátuas, e pela pintura barroca de anjos e deuses, em tamanho real.
Os olhos dela brilhavam. As costas dela estavam sempre retas, a figura dela esguia e elegante, o pescoço comprido e gracioso. Nas aulas de dança exigidas pra boa educação, posturas de balé eram muitas vezes incorporadas, o professor francês dava ênfase especial a isso.
Ela se levantou nas pontas dos pés, executando de repente uma série de passos de dança leves, chegando perto dele e beijando ele nos lábios.
Eles se beijaram em silêncio por um bom tempo.
A Alicia podia ser descrita como lenta, ou talvez naturalmente insensível, indiferente. Ela provavelmente só entendia o amor familiar e a amizade. Ela nunca tinha entendido as nuances do amor e suas distinções, que, na realidade, eram muitas vezes misturadas e difíceis de diferenciar.