Capítulo 22. Quente e Frio
Ele tava reparando nela, de costas pra ele, mó sem graça.
Ele tinha, tipo, no estilo maridão, abraçado ela mais cedo, só pra perceber que ela tava meio incomodada. Aí, meio a contragosto, ele colocou a camisa. A pele dela tava tipo radiante, com um calor que vinha de dentro. Ele encostou a bochecha na dela e tomou um susto. "Tá passando mal, meu amor?"
Ele ia levantar, buscar um médico, mas o doutor tava na cidade, e ir lá era melhor de cavalo, ele pensou, calculando o tempo que ia levar a viagem.
"Não." A Alicia fez que não com a cabeça. Ela tava, sei lá, por motivos que nem ela sabia, bolada.
"Poderia, por favor, soltar um pouco?" O calor dele tava incomodando um bocado.
"Ah." A atitude dela tinha mudado pra caramba. Um tempinho atrás, ela tava fazendo uns desenhos nas costas dele com a ponta dos dedos, um gesto que ele tinha achado mó bom.
O William Cavendish ficou sem palavras por um momento. "Vou vazar, então?" Parecia que a noiva dele não tava a fim de dividir a cama com ele agora.
A Alicia, agarrada num travesseiro, não falou nada.
Ele se vestiu em silêncio, arrumando o resto do lance deles... o ato. É, ele tinha usado todo o dinheiro dele esse mês. As coisas tinham sido, na opinião dele, bem boas. Mas depois, a ternura da Alicia tinha sumido que nem neblina.
Ele tava tão confiante. Ele achava que ela não desgostar dele já era o suficiente, que ela curtir o corpo dele ia bastar. Agora, ele tava tipo perdido nas águas desconhecidas dos sentimentos da esposa. Ele não entendia o que ela pensava, e tava ficando cada vez mais claro que ela não entendia o que ele sentia.
"Talvez um banho faça bem," ele sugeriu, sempre ligado nas necessidades dela. Ele a enrolou num cobertor, aliviado por ver que a temperatura dela tinha baixado um pouco.
"Boa noite," ela murmurou, deixando ele dar um beijo na testa dela.
Mas quando ele se virou, sentiu um abismo se abrindo entre eles, um buraco tão grande e fundo quanto o oceano.
A própria Alicia tava confusa. Ela queria ficar perto dele, mas, paradoxalmente, achava que isso tava sufocando. A ausência dele, no entanto, deixava um vazio, um frio onde o calor dele tinha estado. Ela se levantou da cama, mais agitada.
Era raro a Alicia ficar assim, com a emoção toda bagunçada. Mesmo quando tava naqueles dias, uma corrida ou um jogo de críquete já bastavam pra ela ficar de boa. Ela lembrou do "Eu te amo" sussurrado no ouvido dela, seguido de um sorriso tímido enquanto ele esperava a resposta dela, antes de beijá-la com uma vontade que beirava o desespero.
Amor?
A Alicia sabia que essas declarações eram normais entre marido e mulher. Os pais dela também falavam essas três palavrinhas. Mas ela não conseguia entender o que era esse "amor". Como era diferente do afeto que ela sentia pelos pais, pelos amigos, até pelo cachorro e pelo pônei amados dela? Era só o ato de fazer amor que fazia a diferença?
Pela primeira vez, a Alicia não escreveu uma carta para os pais pedindo conselhos. Ela decidiu desvendar esse mistério sozinha. Ela tinha, na correria, esquecido que algumas coisas não têm explicação.
De manhã, ele sentou e ficou olhando ela se vestir, com os olhos se encontrando no espelho de vez em quando.
O William Cavendish, depois de uma noite sem dormir pensando, chegou a uma conclusão. A Alicia simplesmente não tava acostumada a tanta... intimidade física antes da hora. Provavelmente, isso tinha tirado a chance deles se apaixonarem direito. Ele tava cheio de arrependimento.
Ela não deu um beijo de bom dia nele, um fato que não passou despercebido e deixou a melancolia dele maior ainda. De repente, ele sentiu que qualquer tentativa de prender ela com obrigações ou costumes era horrível. O William Cavendish percebeu que eles tinham começado errado. A Alicia precisava conhecer o amor antes do sexo. Mas ele viu que nem ele conseguia diferenciar os dois.
Eles falaram das notícias dos jornais. A Alicia tava disposta a conversar sobre isso, mas qualquer intimidade a mais tava fora de cogitação. Ela sentia que a proximidade dos últimos dias tinha bagunçado a cabeça dela. Ela apertou a ponta do jornal, não gostando do jeito que tavam mexendo com as emoções dela. Ela decidiu cortar o mal pela raiz.
No dia 16 de setembro, Moscou pegou fogo, um incêndio que durou dois dias, chegando até o Kremlin. O exército francês, pego de surpresa, foi obrigado a recuar às pressas. Quando a notícia chegou, já tinha quatro dias.
"Que pena," o William Cavendish murmurou, pensando na cidade do norte, com séculos de história, suas maravilhas arquitetônicas e tesouros artísticos, agora reduzida a cinzas. Nenhum dos dois tinha imaginado um fogo tão destruidor.
"Com os depósitos e suprimentos destruídos, como os franceses vão se organizar?" A Alicia franziu a testa. "Eles tão ferrados."
A maré da Guerra Russo-Francesa tinha mudado silenciosamente. Notícias dessa magnitude, assim que chegassem na Inglaterra, iam ser o assunto de Londres e arredores, com certeza. A bolsa de valores, finalmente, podia ver uma trégua.
O William Cavendish viu que tinha perdido a graça pra Alicia. Ele tinha pego o retrato, mas ela não tava interessada em pintar outro. As tentativas dele de perguntar eram recebidas com uma recusa educada. Os sorrisos dela, antes frequentes, agora eram raros como um dia de sol em novembro, e até a menor levantada de canto dos lábios tinha sumido.
"Você tá infeliz, meu amor?" Ele se esforçou pra pensar em como animá-la, levando ela pra vários passeios e viagens.
Eles escolheram um dia bom pra fazer um piquenique na colina, ela se protegendo do sol com um guarda-sol, estendendo a mão pra ele ajudar ela a subir. Ela tava com um par de luvas de renda delicadas, e o xale dela tremia com a brisa suave. Chegando no topo, eles estenderam uma toalha e curtiram a refeição, com o olhar dela passeando pela paisagem.
A Wimbledon Manor inteira, e os arredores, estavam ali na frente deles como uma tela pintada com todo cuidado. O lago brilhante, a grandiosidade palladiana da casa principal, os jardins formais e a ilha no meio do lago. Mais longe, as colinas e matas se estendiam até onde os olhos podiam ver. E lá, a casinha charmosa, vermelha, coberta de hera e rodeada de flores, com sua própria estufa, onde eles tinham passado a lua de mel.
"Você lembra da sua primeira visita a Wimbledon?"
A Alicia pensou. A saúde dela, que não era boa, tinha feito ela passar os primeiros anos em climas mais quentes, no sul da França e na Suíça. Ela tinha voltado pra Inglaterra com cinco anos, considerada saudável o suficiente pra viajar. Então, não era totalmente certo dizer que ela nunca tinha ido pra fora, era só que as lembranças dela daquela época eram meio vagas.
Convites de várias famílias nobres tinham chegado, querendo conhecer a filha do Duque. Ela ainda não era a herdeira oficial, mas a ausência contínua de um irmão tinha alimentado especulações. A mãe dela tinha anunciado que iam visitar um parente distante, e eles tinham embarcado numa viagem de carruagem. Graças à carruagem com quatro cavalos, levou menos de duas horas pra ir de Londres a Wimbledon.
Quando ela chegou, foi recebida pela visão de um grupo de meninos montados a cavalo, cheios de roupa de caça, acompanhados pelos cachorros latindo, voltando de uma caçada bem-sucedida. O líder do grupo, um garoto animado e barulhento, chamou a atenção dela. Ele desmontou com um floreio, com as esporas tilintando, e deu uma olhada nela.
Ele lembrou dela, mas ela não se lembrava dele.
Ele tinha pegado ela pra ele, naqueles tempos antes de ter que casar com ela passar pela cabeça dele. Ele adorava mostrar a prima dele, porque ele não tinha irmã. Os tios dele tinham casado tarde, e entre as meninas da idade dele, além da filha da tia dele, só tinha a Alicia. Então, ele tinha tratado ela como uma irmãzinha querida, dando presentes pra ela.
Como ela era linda.
Ele era um colecionador de joias, e a viagem dele pra Rússia tinha rendido um monte impressionante. Sempre que ele pegava uma joia nova, ele pensava no lugar onde ia colocar, e, inevitavelmente, os pensamentos dele iam pra Alicia. Ela merecia o melhor que o mundo tinha pra oferecer.
"Alicia, se eu fiz alguma coisa errada, por favor, me diga." Talvez fosse melhor se eles continuassem como família.
A garota se encostou nele, com o guarda-sol fazendo sombra pros dois. A Alicia, tem que dizer, sempre tinha visto o estilo de vida meio exagerado do primo dela com um certo desgosto. Ele bebia com uma animação que beirava o excesso, jogava com uma ousadia que muitas vezes deixava ele sem graça por um tempo, brigava com frequência, algo que não era de bom tom pra um cavalheiro, corria com as carruagens como se o diabo estivesse no encalço dele, e geralmente se comportava de uma maneira bem parecida com os outros perdulários da turma dele. A risada dele, um murmúrio baixo, muitas vezes trazia uma nota do que a gente pode chamar de cafajeste. A ideia de que ela pudesse, por alguma ironia do destino, acabar se entregando a esse estilo de vida, enchia ela de uma inquietação que se instalava como uma pedra na boca do estômago.
Mas ele também tinha a capacidade de provocar alegria de verdade. Talvez ela precisasse incentivar ele a ser mais comedido?
Naquela noite, enquanto eles tavam na biblioteca, uma cena de tranquilidade doméstica, a Alicia fez um pedido bem estranho. Ela queria que ele lesse em voz alta do Livro das Homilias. O William Cavendish ficou, pra dizer o mínimo, chocado. Era um texto de natureza decididamente didática, cheio de exortações sobre como uma mulher virtuosa devia se comportar, e um livro que ela, no passado, tinha tratado com a mesma animação que se reservava pra um caso de sarampo. A Alicia era, afinal, a mesma jovem que tinha, com a ousadia de uma revolucionária experiente, tirado a palavra "obedecer" dos votos de casamento – aqueles votos sagrados que tradicionalmente prendiam uma esposa a "amar, honrar e obedecer" o marido. Ela simplesmente cortou a sílaba ofensiva, deixando uma falha bem perceptível na cerimônia solene. Foi só por causa da posição social dos pais dela que o Arcebispo tinha, com um aperto quase imperceptível nos lábios, escolhido ignorar esse ato meio descarado de desafio litúrgico.
"O que tá te incomodando, Alicia?" ele perguntou, preocupado.
A Alicia, com a testa franzida, explicou que a imersão deles no "amor carnal" precisava de um período de purificação.
O William Cavendish achou que ela tava brincando, mas um olhar no rosto sereno dela convenceu ele da sinceridade dela.
"Ah?" Ele abriu o livro, com os olhos meio parados no texto denso. Ele evitava ir aos cultos sempre que podia.
Eles tiveram uma conversa franca, e ele serviu uma xícara de chá quente pra ela.
"As minhas atitudes nessas últimas noites fizeram você se sentir forçada?"
"Não, só... confusa."
"Desculpa, Alicia," ele disse, sério.
"Você acha nojento? Ou desagradável?" Ele precisava entender.
A garota franziu a testa. "Mas eu tenho medo que se entregar demais a esses desejos pode turvar o juízo da gente."
"A gente não é totalmente livre de desejos, e é o desejo que muitas vezes faz a gente agir de forma decidida."
Eles começaram um debate amigável. Ela, no fundo, era uma criatura da filosofia grega antiga e da doutrina religiosa, uma jovem muito tradicional, com uma disciplina que não combinava com os tempos.
"Enquanto a razão e o desejo tiverem equilíbrio," ele argumentou, "a gente pode se entregar com moderação e se controlar quando for preciso. Carpe diem." (Latim pra "aproveite o dia", que quer dizer aproveitar o momento presente).
O William Cavendish sabia que não podia forçar a Alicia a mudar o jeito dela. Ele só garantiu pra ela que nenhum sentimento era vergonhoso, nem ia levar à loucura de verdade. Se ela não quisesse fazer essas coisas, então pronto. Esquece as obrigações de esposa. Ele não ia obrigá-la, nem ia exigir os "direitos de marido" dele.
Outros podiam achar estranho. Pela lei inglesa, o corpo de uma esposa pertencia ao marido depois do casamento; eles eram considerados uma só carne. Mas a Alicia, antes de ser esposa dele, era, acima de tudo, ela mesma.
Ela olhou pro anel no dedo mindinho dele. Além da aliança de diamante amarelo extravagante, tinham duas alianças simples combinando, com as iniciais dela gravadas. Ele sempre tirava o anel antes dos momentos íntimos deles, colocando na mesa, e depois colocava de volta. A Alicia ainda não tava acostumada a usar o dela.
"Bons sonhos, meu amor," ele disse brincando. "Habeas somnia dulcia."
Ela tinha mania de traduzir tudo pro latim. Ele curtia imitar ela.
A Alicia levantou os olhos pra ele, e ele fez carinho no cabelo dela. Depois, ele substituiu o Livro das Homilias pelas Odes de Horácio, um livro que ela gostava mais, escolhendo o terceiro livro.
"Devo ler as Odes Romanas, as que são dedicadas ao seu amado Augusto?"
"A nona."
O diálogo com Lídia.
Ele começou a ler baixinho:
"Enquanto eu era seu favorito, e nenhum jovem preferido
Ousava abraçar seu pescoço branco..."
"Embora ele seja mais bonito que uma estrela,
Você é mais leve que cortiça, e mais irritável que o Adriático tempestuoso,
Com você eu adoraria viver, com você eu adoraria morrer."
Ele terminou a leitura.
A Alicia se levantou e abraçou ele, dando um beijo rápido nos lábios dele. Ela tava agradecida pela compreensão dele.
Embora ele quisesse beijá-la com mais vontade, ele se controlou. O William Cavendish saiu da bruma inebriante da paixão deles. Ele percebeu que era um marido, não um amante. Um marido devia ser responsável, confiável e, com certeza, mais maduro que a esposa. Mas ele tava morrendo de saudade dos tempos de glória. Ele ia guardar aquelas lembranças pra sempre.
Ele ainda tinha gestos inconscientes, uma vontade involuntária de ficar mais perto. Por exemplo, ele podia colocar a mão na parte de baixo das costas dela ou fazer carinho na nuca dela.
A Alicia ia evitar o toque dele com carinho.
O William Cavendish mantinha uma postura calma, mas por dentro, ele tava frágil, atormentado. Ele adorava a textura da pele dela, e agora ele só podia olhar de longe, forçando um sorriso quando ela perguntava sobre o humor sombrio dele.
A Alicia era meticulosa na autoanálise dela. Ela passou vários dias analisando os sentimentos dela, até fazendo comparações. A experiência tinha sido boa, de verdade, mas deixou ela com uma saudade insaciável, um desejo não realizado que vinha depois de cada encontro. Depois da euforia inicial, uma onda de tristeza a invadia.
Depois de pensar bem, ela decidiu se abster. Se o William Cavendish soubesse que essa era a razão da prima dele, talvez ele não tivesse se esforçado tanto naqueles primeiros dias.
A Alicia viu que, depois de dois dias sem fazer nada, o humor dela melhorou muito. Ela conseguia resolver equações complexas, preparar amostras e examinar fatias de minerais no microscópio com concentração total. Ela achou que tinha tomado a decisão certa.
Em dias ímpares, ele tentava entrar no santuário dela.
"Você já usou a sua cota mensal," ela informou, se referindo ao controle meticuloso que ela mantinha no caderninho dela, onde cada tentativa dele de testar os limites era anotada.
"Já?" Ele ficou pálido, desejando uma boa noite meio perdido antes de sair.
Sim, ele tava confinado. Ele deitou na cama, olhando pro teto, pensando onde tinha errado. Ainda tinha chance de salvar o relacionamento deles? Eles estavam destinados a passar a vida juntos nesse estado de afastamento educado? Ah, ele tinha prometido pra Alicia, mas tinha como fazer ela amar ele? Ele se revirou na cama, com o coração quebrando um pouco mais cada vez que ele pensava em como os esforços dele tinham dado errado de um jeito espetacular.
No dia seguinte, na mesa do café, a Alicia fez um anúncio. "Vamos voltar pra Londres no final do mês."
Quê? A lua de mel deles, que normalmente durava dois ou três meses, ia ser cortada pela metade. O William Cavendish de repente percebeu que essa era a única chance de fazer a Alicia se apaixonar por ele. E ia acabar. Depois da lua de mel, ele não ia ter mais uma razão legítima pra ficar tão... perto dela.
Embora a Alicia tenha explicado que a Tia Harriet tava perto do parto e queria ficar perto dela, e que Londres oferecia o melhor cuidado médico caso surgisse alguma complicação, e que a Sra. Granville tava morando na vila deles em Hampstead pra escapar do ar tóxico do verão, tudo soou perfeitamente razoável.
Eles escreveram cartas informando as famílias sobre a volta deles.
O William Cavendish tava desanimado.
Sob o peso desses golpes sucessivos, o espírito dele foi totalmente destruído.
A Alicia notou a tristeza dele enquanto terminava de colocar um laço no chapéu dela. Ela achou que a tristeza dele vinha da incapacidade dele de fazer as atividades físicas deles.
Ele tava sem palavras. De certa forma, ela tava certa, mas a verdadeira tristeza dele vinha da incapacidade dela de amar ele.
"Você pode procurar consolo em outro lugar," a Alicia sugeriu casualmente, já que não era incomum as esposas procurarem amantes pros maridos que não conseguiam satisfazer os desejos deles.
Ele olhou pra ela, totalmente chocado.
"O quê?"
Ela tava sugerindo que ele pegasse uma amante?
Ele tava totalmente arrasado.
Ela... como ela podia estar tão calma com isso?
A Alicia olhou pra ele, com a expressão impassível.
O William Cavendish se sentiu obrigado a esclarecer as coisas. "Eu nunca fiquei com outra mulher, Alicia. O que você tava pensando?" Ele tava sem fôlego.
Nos corredores sagrados da aristocracia, a virtude de uma mulher solteira era valorizada acima de tudo, guardada com mais força do que as Joias da Coroa. Um cavalheiro, no entanto, tinha uma interpretação bem... liberal da decência. Na verdade, era praticamente esperado que um homem de nascimento nobre plantasse suas sementes selvagens com a animação de um fazendeiro espalhando sementes num campo fértil. As amantes eram exibidas como troféus, uma prova da virilidade e do charme de um homem, ou assim eles gostavam de acreditar.
Na noite de núpcias, então, havia um desequilíbrio de experiência. Podia-se até chamar de tragédia.
A Alicia tinha visto isso de perto na própria família. As duas tias dela, exemplos de dever conjugal, tinham a tarefa nada invejável de criar os filhos ilegítimos dos maridos delas.
A avó dela, ao entrar nos laços sagrados do matrimônio, foi recebida com a surpresa deliciosa do caso extraconjugal do marido com uma costureira, uma mulher charmosa que tinha tido uma filha. Essa criança foi entregue rapidamente aos cuidados da avó dela.
Esses arranjos eram aceitos com uma calma surpreendente em seus círculos. A avó dela, embora inicialmente com o coração partido - os pais dela, numa rara reviravolta do destino, tinham sido um daqueles casais apaixonados, totalmente dedicados um ao outro e escandalosamente fiéis - tinha finalmente se resignado à realidade da situação dela.
A Tia Harriet, nas cartas dela, até se referia aos filhos ilegítimos do marido da tia dela como "coisinhas queridas".
E a gentil Georgiana, que Deus a abençoe, já tinha recebido duas "coisinhas" na própria casa.
Os objetos de afeto de um nobre não se limitavam às senhoras casadas de uma certa idade. Ah, não, eles estendiam as atenções amorosas deles a moças plebeias, e até, ousei dizer, ao submundo das atrizes e, nos casos mais chocantes, às mulheres da noite.
Era, pra dizer o mínimo, um mundo de total caos.
A Alicia, com a sobrancelha arqueada, olhou pra ele. A expressão dela parecia dizer, "Você, um homem com tanta... experiência?"
Ele se esforçou pra explicar, com a fachada de cafajeste desmoronando na frente dos olhos dela. "Não tá vendo? Você realmente acreditou nisso o tempo todo? Oh, Alicia, meu Deus!"
Ele sempre se orgulhou da moderação dele, da discrição dele. Ele, na verdade, tinha achado essa história toda de envolvimentos amorosos bem... cansativa. Ele era um homem de bom gosto, não era dado a esses desejos baixos.
Ou era o que ele pensava. Até agora.
Mas por que ela ia pensar diferente?
"Tudo começou na primeira vez que eu te beijei..."
Ela foi a primeira garota que ele tocou na vida. Ele nunca soube que o amor podia ser tão bom.
Ah, e tão doloroso também.
Ele não tinha amante?
A Alicia olhou pra ele com uma expressão pensativa, com a cabeça inclinada pro lado.
"Ninguém nunca se interessou por você?" ela perguntou, como se estivesse falando de uma espécie de besouro sem graça.
Não admira que ele fosse tão grudento.
Ele podia ter chorado. De pura frustração, sabe, não de sentimentalismo.
Com uma risada forçada e frágil, ele respondeu, "Eu garanto, tem um monte de gente que me acha bem... legal."
"Assim como muitos me acham," a Alicia respondeu, piscando com uma cara de total perplexidade. "Tem alguma coisa errada com você?"
O William Cavendish sentiu o coração dele quebrar em um milhão de pedacinhos. Ele respirou fundo, depois expirou, um suspiro que parecia carregar o peso do desespero dele.
"Então por que, durante as negociações antes do casamento, você falou isso?" A Alicia insistiu, sem desviar o olhar.
O quê?
Ele lembrou, com uma clareza agonizante, das palavras descuidadas que ele tinha dito durante as discussões sobre o casamento.
"Não vou me preocupar com suas amantes. É bem comum, afinal, pra gente na nossa posição." Ele até pensou, na época, que tipo de amante ela ia escolher pra ela.
A bomba enterrada finalmente explodiu.
"Então você não tem nenhuma." A Alicia pareceu perdoar a trapalhada dele. Ele nunca conseguia entender os sentimentos de uma mulher.
Do jeito que ela falou aquelas palavras, tão calma, tão fria, como se estivesse falando do tempo. Ela realmente achava que ele era um libertino, interessado apenas nos prazeres carnais?
O William Cavendish sentiu uma onda de emoções conflitantes. Ele não conseguiu invocar a raiva justa dele. Em vez disso, uma dor profunda se instalou no peito dele.
A Alicia tava perplexa. Ela simplesmente não conseguia entender o que o primo dela queria.
"Sim," ele admitiu, balançando a cabeça secamente, com os cílios longos passando pelos olhos avermelhados, um contraste com a postura orgulhosa dele.
"Alicia, eu sou uma pessoa horrível. Sim, eu só procuro satisfazer meus próprios desejos baixos. Eu sou um homem de caráter ruim."
Ele falou com amarga ironia.
Não era porque ele amava ela.
Ele tava machucado.
Ele sentiu como se o coração dele tivesse pegado fogo, como Moscou.
Não vou mais me enganar.
Se você tá cansada de mim, então eu vou ficar longe.
Esses eram os pensamentos dele, mas ele não ousava dizer em voz alta.
Com um aceno educado, mantendo uma postura de cavalheiro, ele murmurou, "Não vou te incomodar mais, prima."
Assim que voltarmos pra Londres, vamos seguir o nosso acordo. Nunca mais vou te incomodar.
Ele deu dois passos, depois parou, atingido por uma realização repentina. Como ele pôde?
A culpa foi dele. Ela era tão nova, tão inocente. Por que ele tinha falado aquelas palavras antes do noivado?
A Alicia observou o primo se virar, um drama silencioso se passando no rosto dele.
"Desculpa," ele disse, com a voz embargada de lágrimas não derramadas. "Eu nunca pertenci a outra pessoa. Eu só amei você."
A mão dela estava no rosto dele.
Foi a primeira vez que ele falou a palavra "amor" em um contexto tão normal. E ele descobriu que não era tão difícil dizer, afinal.
Eu só beijei você, só fiquei íntimo de você.
Eu não quero que a gente seja livre pra ter amantes. Eu só quero você.
A Alicia observou a vermelhidão em volta dos olhos dele.
Ele não tinha ninguém que amasse ele. Que pena.
Talvez ela amasse ele, então.
Ele era, afinal, um iniciante em questões do coração.
Um pouco de desajeito podia ser perdoado.
Como muitos recém-casados, eles iam inevitavelmente ter atritos enquanto se ajustavam aos hábitos e rotinas um do outro.
E assim, a primeira briga de casal deles chegou ao fim. O William Cavendish até sentiu um pouco de vergonha pela demonstração unilateral de raiva dele.
A Alicia era sempre tão calma. Ele nunca conseguia decifrar o que ela pensava.
Naquela noite, a Alicia escreveu uma carta pra mãe dela.
"Querida Mãe,
Meu marido, ou melhor, William, está constantemente declarando o amor dele por mim. E toda vez que ele faz isso, eu fico sem palavras."
A Alicia não era do tipo que falava as palavras "Eu te amo" casualmente.
Ela era uma criatura de pensamento profundo, de estudo meticuloso, com um interesse em dissecar tudo ao redor dela, tanto no sentido literal quanto figurado.
A hesitação anterior dela tinha virado uma espécie de fascinação distante. O William Cavendish tava provando ser ainda mais caótico do que ela tinha imaginado. E isso, de uma forma estranha, fez com que as próprias incertezas dela parecessem menos assustadoras.
Ela não conseguia mais encontrar nenhum vestígio do primo confiante e seguro que ela conhecia.
Em resumo, a Alicia se sentiu cada vez mais atraída pela vulnerabilidade dele, pelo vai e vem das emoções dele.
O William Cavendish, por sua vez, tava perdido nos próprios pensamentos.
Ela é inteligente e obtusa, caprichosa e teimosa, mas tem um temperamento surpreendentemente gentil.
Ele pensou no que podia fazer pra se redimir.
A Alicia só quer minha presença física, meu toque. Ela não me ama. Ela podia me substituir por qualquer outra pessoa. Não é sobre mim.
Era por isso que ela conseguia falar aquelas palavras cruéis.
A Alicia achou cada vez mais engraçado o espetáculo do marido dela. Tinha olheiras; ele claramente não tinha dormido bem.
Ele parecia totalmente infeliz, mas ainda incrivelmente bonito.
O cabelo dele, normalmente impecável, tava bagunçado, e ele tava com a mesma gravata do dia anterior. Um descuido bem estranho, considerando a mania do primo dela de nunca repetir o estilo da gravata.
A Alicia achou esses detalhes bem fascinantes.
Eu preciso agir de uma forma que agrade a Alicia, não a mim.
Embora, na verdade, ele ainda não fazia ideia do que realmente agradava ela.
Eles se encontraram na galeria comprida, uma passagem estreita onde os caminhos iam se cruzar.
Mesmo em tempos de guerra, as últimas modas de Paris continuavam chegando em Londres, ditando os caprichos sempre mutáveis do estilo.
Este ano, por exemplo, as saias tinham subido, abandonando as caudas pesadas das temporadas passadas. Os penteados inspirados nos romanos tinham dado lugar às ondas gregas, mais divertidas.
Ela tava linda. Um xale vermelho cobria os ombros dela, revelando a curva elegante do pescoço dela.
Ele lembrou das medidas dela, que tinham mudado um pouco, marcando a transição dela de menina pra mulher.
Ele olhou pra ela, hipnotizado.
A Alicia, com as mãos juntas, ofereceu uma saudação. Foi a primeira vez que ela realmente olhou pra ele quando ele tava totalmente vestido.
"Bom dia."
Ele parecia mais novo do que ela imaginava, principalmente com aquele terno marrom claro, que suavizava as características fortes dele.
Ele manteve uma distância adequada e respeitosa, digna de um marido e primo confiável, assim como ele tinha prometido durante o namoro deles, nunca impor.
A Alicia não conseguiu perceber nenhuma raiva no comportamento dele. Ela não se importava com ele.
O William Cavendish abaixou o olhar.
Então, ela ouviu a Alicia dizer, "Um beijo de bom dia?"
Ele olhou pra cima, confuso.
Ela se aproximou e deu um beijo rápido na bochecha dele, e logo se afastou.
Ele tocou na bochecha dele, com uma cara de total confusão.
Que estranho. Ela não parecia detestá-lo, afinal.
O William Cavendish ficou totalmente perplexo. Ele ainda não tava acostumado a essas mudanças bruscas nos sentimentos dela.
A Alicia, longe de estar incomodada com os acontecimentos da noite anterior, tava desenvolvendo um interesse bem peculiar pelo marido.
Se ele tivesse visto ela dissecar um coelho, ou tirar uma faca da bota pra tirar a pele de uma raposa depois de uma caçada.
Ele ia reconhecer o brilho nos olhos dela.
Provavelmente, ele tinha visto, mas não tinha prestado muita atenção na época.
Ela queria dissecar ele, por dentro e por fora, pra descobrir as enormes diferenças entre o primo dela e ela mesma.
A Alicia percebeu que eles eram seres fundamentalmente diferentes.
Na mesa do café da manhã, ele perguntou se ela queria ir de barco, ou talvez andar a cavalo, ou até dar uma volta de carruagem.
Nos últimos dias, eles tinham usado quase todas as atividades imagináveis.
Era, talvez, hora de voltar pra Londres.
A vila tava planejando uma festa da colheita, com uma procissão com tochas e a chegada dos ciganos.
A Alicia expressou a indiferença dela, dizendo que qualquer atividade ia servir.
Ele queria fazer ela feliz, mas ela continuava sempre tranquila, topando qualquer coisa.
Ele ajudou ela a entrar no barquinho, que balançava perigosamente quando ele entrou depois dela. Pegando os remos, ele os afastou da margem.
Ele remava sozinho, enquanto a Alicia admirava a paisagem ao longo da beira do lago.
Eles iam atravessar de um lado pro outro.
Finalmente, ele desistiu dos esforços dele e se deitou, descansando a cabeça no colo dela enquanto o barco flutuava devagar.
Nenhum deles tocou no assunto da volta deles pra Londres, escolhendo saborear aquele raro momento de tranquilidade.
"Lembro que você viajou pro Lake District uma vez, Alicia," ele comentou, com os olhos fechados. Depois dos eventos turbulentos dos últimos dias, nada que ela fizesse podia mais surpreendê-lo.
Ele só queria ficar com ela.
Com as viagens para o exterior limitadas pela guerra, muitos dos destinos cênicos da Inglaterra tinham ganhado nova popularidade.
O Lake District, localizado no noroeste, tinha montanhas de tirar o fôlego e lagos serenos. No outono, a paisagem se transformava em uma tapeçaria de vermelho e dourado, com as cores vibrantes das folhas de bordo refletidas nas superfícies espelhadas dos lagos.
Os Lake Poets, um grupo de escritores que tinham procurado refúgio na beleza da região, escreveram versos celebrando o esplendor da natureza.
Depois que a avó dela faleceu, a Alicia tinha procurado consolo no Lake District, acompanhada pela governanta, uma acompanhante e um monte de empregados.
Ele, numas férias raras e finalmente tendo atingido a maioridade, adorou a liberdade nova e pacientemente fez companhia pra ela.
A missão diplomática dele tinha terminado de uma forma meio absurda.
Ao retornar, ele tinha se dedicado à campanha por uma vaga no Parlamento, representando Derbyshire - uma tradição familiar, já que um lugar na Câmara dos Comuns exigia que a pessoa fosse maior de idade.
Eles relembraram as viagens deles.
Era improvável que qualquer um deles, em meio às aventuras deles, pudesse ter previsto que se casariam cinco anos depois.