Capítulo 49: O Ano Novo
Os dias em Bath passaram numa boa, tipo, sem muita coisa, tirando um lance. O casal feliz encontrou a Lady Elizabeth Foster.
Pra resumir, a Lady Elizabeth era a ex-amante do avô da Alicia e amiga íntima da avó dela, a Duquesa, que já tinha ido pro céu. As duas mantinham essa... parada por mais de vinte anos, morando juntas em Devonshire House e Chatsworth, dando um monte de assunto pros fofoqueiros da alta sociedade. O velho Duque, saca?, até teve dois filhos com a Lady Elizabeth e, depois que a Duquesa morreu, pensou em casar com ela. O pai da Alicia, o Marquês de Hartington, botou um fim nisso rapidinho.
A Lady Elizabeth, agora com cinquenta e poucos anos, tinha sumido da sociedade londrina, preferindo uma vida mais sossegada. Diziam que ela e a Duquesa se conheceram em Bath. Na época, ela tava separada do marido (por causa de um rolo meio bizarro com um garoto que cuidava dos cavalos) e, pra falar de leve, tava na pior. Aí, sei lá, ela foi parar no quarto do Duque.
A relação dela com a Georgiana, a Duquesa, era... complicada. Mesmo depois de virar a amante do marido dela, ela dizia que amava muito a mulher. Se era amizade de verdade ou só as manhas de uma mulher experiente, a Duquesa era super ligada nela.
Dos filhos legítimos da Lady Elizabeth, o pai da Alicia fingia que nem ligava. A Tia Georgiana era simpática até, mas a Tia Harriet guardava um rancor da mulher que, na visão dela, tinha bagunçado a família e humilhado a mãe delas. Afinal, o velho Duque mostrava pra todo mundo o lance com a Lady Elizabeth, botando ela no meio da vida deles, uma baita falta de respeito com a esposa.
Essa situação chata durou até a Alicia fazer sete anos. Foi só aí, quando o Duque começou a sentir a idade chegando e sentia falta de ter a família por perto, que ele pareceu perceber o absurdo do que tava fazendo e como tava ferrando a família dele. Ele e a Georgiana se entenderam.
A Lady Elizabeth, claro, vazou de Devonshire House. Mas os filhos dela ficaram. A Caroline St. Jules e o Augustus Clifford eram só dez e sete anos mais velhos que a Alicia, respectivamente, quase da idade das tias dela. A Caroline, uma garota que tinha o charme da mãe e sabia como ninguém chamar a atenção, era a queridinha do velho Duque... até a Alicia chegar, né? O Marquês de Hartington, por ser o herdeiro homem e saber um pouco das coisas, continuou sendo o favorito do pai, mas o velho Duque amava demais o filho bastardo, o Augustus, não tinha como negar. A diferença de idade, uns doze anos, fez com que o filho mais velho nem ligasse.
Mas o Marquês, vendo a parada da separação dos pais e sendo criado só pra ser herdeiro, com uma educação dura e sem perdão, não curtia muito eles.
Desde que casou em 1794, ele finalmente conseguiu tentar ser independente.
Demorou uma década, pra ser sincero, pra ele finalmente tirar eles de Devonshire House e acabar com aquela... dinâmica familiar estranha. Mas a vitória dele durou pouco. Cinco anos depois, a Duquesa morreu, e o velho Duque, com saudade, começou a pensar em casar de novo.
A Caroline St. Jules casou em 1809, com o George Lamb, o filho mais novo do Lord Melbourne (diziam que ele era filho do Príncipe Regente, nada mais nada menos!). Ela era cunhada da prima da Alicia, a Caroline, e da Lady Cowper. O casamento, tem que dizer, não era lá aquelas coisas; eles quase não dormiam juntos.
A Harriet também casou naquele ano, pressionada pelo pai a casar com a Lady Elizabeth Foster e com uma baita vontade de fugir da atmosfera tensa da casa da família.
A Lady Elizabeth quase virou Duquesa de Devonshire, um sonho que foi tirado dela cruelmente. Se ela guardava rancor ou tinha aceitado, só dava pra imaginar. O filho dela, o Augustus Clifford, era menos de boa. A última chance dele de ser reconhecido sumiu.
O pai da Alicia, saca?, não tinha herdeiro homem. Se o Augustus fosse legitimado, ele ia herdar o ducado. Mas não, ele continuou sendo bastardo, sem nem sobrenome. Parecia uma baita injustiça que o título fosse pra um parente distante, só por causa da parada chata do nascimento dele.
O Marquês de Hartington, já numa certa idade e tendo assumido o controle de uma boa parte das propriedades e da influência da família quando fez 21 anos, e tendo feito um casamento bom pra política, tava numa boa pra vetar o casamento do pai. Um filho, antes de herdar o título, normalmente tinha menos poder que o pai, e os pais raramente largavam a mão da autoridade. O Marquês precisou de uma década de jogo de cintura, junto com a saúde fraca do Duque, pra conseguir isso. E a ideia de um novo casamento botou a galera toda pra falar, todo mundo louco pra saber o que ia acontecer.
A Alicia, com quatorze aninhos, tava super confusa com a briga entre o avô e o pai, e com a dor da morte da avó, que tinha acontecido só três anos antes.
A Lady Diana, uma mulher legal e esperta, convidou ela pra ir pra Burlington House, pra dar uma folga da treta da família. A Alicia ficou no quarto dela, passando as horas olhando pela varanda da sala.
Quando era criança, ela não entendia as... paradas estranhas da relação da Lady Elizabeth Foster com os avós dela. Foi só depois, quando ficou mais velha, que ela começou a entender, e foi em parte por causa disso que a Lady Elizabeth se afastou, ficando mais na dela.
O olhar dela foi pra Devonshire House, que tava longe. Caroline St. Jules, Augustus Clifford... aqueles dois estranhos que praticamente viram ela crescer, sempre tão legais, quase... puxa-saco. Mas ela nunca chamou eles de “Tia” ou “Tio”, mesmo depois de saber que eram filhos do avô dela. Porque, no fim, eles eram só... bastardos, sem nem a dignidade de um sobrenome.
Devonshire House era gigante, dava pra todo mundo numa boa. Assim como tinha dado pra Charlotte Williams, a filha bastarda do avô dela, que era dois anos mais velha que o pai da Alicia.
Diziam que a avó dela também tinha uma filha natural, do Earl Grey, uma garota só três anos mais velha que a Alicia, que foi criada pela família do Earl.
E tinha aquela garota que trabalhava na casa, adotada pela avó dela, tipo um monte de crianças sem pai que iam parar nas casas da galera da alta sociedade – uma boca a mais pra comer, quase nada demais. A garota sempre olhava pra ela com uma inveja. A Alicia tinha certeza que ela devia ser filha da avó ou de alguma tia-avó.
Mas a mãe dela tinha dito que a garota era só filha bastarda de um político com uma governanta. A avó dela, com toda a bondade e carinho por crianças, só tinha acolhido ela pra cuidar dos amigos dela.
Depois, a verdade apareceu, e a Lady Bessborough mandou ela pra um internato.
A Alicia entendia as regras da alta sociedade, por mais que se esforçasse pra aceitar. As relações eram uma teia complicada e cheia de dúvidas, mas ninguém achava nada de mais.
O William Cavendish, sempre ligado na prima, que parecia meio desanimada, observava ela com uma mistura de diversão e preocupação. Ele tinha acabado de estudar em Edimburgo e voltou pra Londres, pra fazer mais um curso de direito em Lincoln's Inn.
Ele tava dividido. Conforme ela ia crescendo, ele lembrava sempre do... noivado que já tava escrito. Ele era obrigado a casar com ela; era o candidato perfeito.
Ele não sentia... nada por ela, só o carinho que a gente tem por uma irmã mais nova que você ajudou a criar.
O Cavendish apoiou o queixo na mão, com um sorriso no canto da boca, vendo ela franzir a testa.
A Alicia tava pensando, com a testa franzida e concentrada.
Hábito, ela pensou, não é a mesma coisa que aceitação. Mesmo sabendo de todas as fofocas, dos vários casos e divórcios que tinham abalado a sociedade nos últimos anos.
Ela começou a ler romances góticos, achando neles um contraste com a realidade dela. Apesar das histórias serem cheias de reviravoltas e coisas impossíveis, pelo menos os personagens, depois de passar por um monte de coisa ruim, encontravam o amor e uma ligação de verdade.
Ao contrário dos casamentos por interesse que pareciam ser a marca da turma dela.
Ele fez um gesto com a mão na frente do rosto dela, sentando perto dela no tapete, com as pernas esticadas com cuidado. “O que tá te chateando, Ali?”
A Alicia piscou, olhando pra ele.
Por que eles tinham que casar?
Ela fez a pergunta com sinceridade, os olhos cheios de confusão.
Nada mais parecia incomodar ela, só isso.
Eles não se amavam, cada um tinha seus casos, mas iam ser marido e mulher, no sentido mais literal. Depois da morte da avó dela, o avô tinha sofrido muito, de verdade. Mas, dois anos depois, pensava em casar de novo. Casar de novo não era estranho, ela entendia isso; mostrava que o casamento anterior tinha sido importante pro homem, e ele queria ter essa relação de novo.
Mas ela não conseguia imaginar a Lady Bessborough com o mesmo título que a avó dela.
Todos os casamentos eram assim? Por que casar se ia trazer infelicidade? O que eles ganhavam, além de sofrimento?
Ele entendeu perfeitamente.
O Cavendish ouviu o desabafo da Alicia e ficou quieto.
“Casamento é sempre assim”, ele disse no fim, dando de ombros.
Ele olhou pra ela, perdido nos pensamentos. Eles ficaram ali, juntos, num momento de reflexão silenciosa.
A Alicia nunca mais tocou no assunto. Ela ainda era nova, afinal, e não tinha necessidade de pensar em casamento agora.
Quando eles encontraram a Lady Elizabeth Foster em Bath, ela, claro, tava bem mais velha, a beleza que todo mundo falava tinha sumido.
A tristeza da geração passada tinha, finalmente, chegado ao fim. Eles trocaram umas palavras educadas, o encontro foi até que bom.
No começo, tinha rolado um monte de coisa chata. A Lady Elizabeth tinha insistido que o filho dela usasse o brasão da família Cavendish e fosse no enterro do velho Duque.
Quando negaram o pedido, ela, numa crise, revelou quem era o pai do filho bastardo dela. Apesar de todo mundo suspeitar, nunca tinha sido confirmado. Essa era a regra da boa sociedade – manter as aparências, mesmo quando a verdade tava na cara. O chilique dela acabou com a encenação.
O pai da Alicia, ao lidar com a situação, foi super paciente. As três crianças tinham jurado no leito de morte da Duquesa que iam tratar a Lady Bess com carinho, então ele não tinha muito o que fazer.
Ele perdoou ela e botou um fim nas fofocas. A Lady Elizabeth Foster, depois, foi falar com ele pra pedir desculpas, e eles fizeram as pazes de algum jeito.
Ela não recebeu herança, só os presentes que o velho Duque tinha dado pra ela. Foi uma sorte, talvez, que o casamento nunca aconteceu, senão a confusão ia durar mais um ano.
A Lady Elizabeth olhou pro rosto da garota, vendo a semelhança com a avó dela. Diziam que toda a beleza da Georgiana tinha renascido na neta.
No pescoço, ela sempre usava um pingente com uma mecha do cabelo ruivo da Georgiana.
Ela tinha sabido do casal recém-casado, da união que parecia perfeita, mas não conseguia deixar de lembrar das besteiras da alta sociedade.
Ela foi tomada por uma emoção forte.
Durante a conversa, a Lady Bess contou que ia pra Roma. A visita a Bath era pra tomar banho, pra tentar melhorar da doença. Ela achava que o clima quente de Roma ia fazer bem pra saúde dela nos últimos anos.
A Lady Elizabeth Foster, conhecida carinhosamente como “Bess” pelos amigos, tinha visto vários dos ex-amantes e amigos dela sucumbirem ao tempo.
Ela concordou, os olhos cheios de lembranças, e sumiu no meio da galera de Bath.
A temporada em Bath foi rápida.
Quando voltaram pra Londres, eles voltaram pra vida deles.
O William Cavendish se jogou na campanha pra ser eleito, tentando conseguir um lugar na região de Westminster. Ele reclamava que o tempo dele era todo gasto nas paradas do Parlamento e em Whitehall.
A Alicia, sempre simpática, tranquilizava ele, “Vai lá fazer o seu trabalho”. Depois de três meses sem fazer muita coisa, ela também voltou pras coisas dela.
Ele escrevia os discursos; ela traduzia um livro de cálculo em francês. Eles se encontravam na biblioteca e ainda dormiam juntos todas as noites.
Não tinha paixão, mas uma companhia calma e tranquila, como se tivessem casados há décadas. Nada surpreendente, vendo o tempo que eles se conheciam.
Depois de passar um tempo com os pais em Devonshire House, a Alicia foi pra Burlington House, ficar com o Conde e a Condessa de Burlington, que já eram velhos.
A Condessa deu pra ela um anel que era da mãe dela, a Condessa de Northampton, que já tinha morrido há muito tempo.
A Alicia, pegando o anel antigo, agradeceu de verdade, dando um abraço carinhoso.
Naquela noite, ele pegou na mão dela, olhando pro anel pensativo.
“É bem fora do normal, né? Mas nós somos, de verdade, uma família agora.”
Ele apertou a mão dela com força.
Em dezembro, uns membros do Parlamento começaram a voltar pra Londres, e as reuniões voltaram.
As Casas do Parlamento, que ficam em Westminster Palace, eram o lugar dos debates apaixonados. Os membros, sentados em bancos altos, faziam discursos fortes sobre as leis propostas, enquanto o Orador mantinha a ordem, lendo os pedidos e pedindo os votos.
De cima, pelos dutos de ventilação, dava pra ver bem o que tava rolando dentro da câmara.
Ir na galeria que ficava do lado da Câmara dos Comuns era o programa favorito das mulheres da alta sociedade.
As donas do Almack's, em especial, eram fãs desse tipo de participação política. Elas davam suas opiniões com entusiasmo, esquecendo a ideia de que mulheres não deviam falar de política.
Aí, elas mandavam, usando a influência pra apoiar com seus recursos e dinheiro, as verdadeiras rainhas sem coroa.
A Alicia foi junto. Ela viu o marido dela, uma figura super importante no meio da galera. Ele bateu na mesa, com a mão em cima, com uma postura confiante e animada, com argumentos que ninguém conseguia vencer.
Os jornais elogiaram o Sr. William Cavendish pela aparência e pela oratória super boa.
Enquanto ele não estivesse perto da Alicia, ele parecia bom em tudo.
Quando voltou, e soube que ela tinha ido na sessão, ficou super feliz. “Não fui incrível?”
Ele tinha, naquele dia, detonado os argumentos do oponente sobre o governo do Lord Liverpool e as políticas sobre o comércio no Atlântico. Depois da morte do Perceval, as políticas abolicionistas que ele defendia estavam sendo prejudicadas. Os comerciantes de Liverpool estavam contrabandeando, e o novo Primeiro-Ministro, preocupado em firmar o poder, fingia que nem via.
Ele fez uma cara séria, e com um sorriso no canto da boca, chegou pra beijar ela.
O William Cavendish tava super ansioso pra ouvir os elogios da esposa. Depois da sessão, quando soube que as mulheres do Almack's tinham ido, o coração dele bateu forte de alegria, sabendo que ela com certeza ia estar lá.
Ela tava lá, com um xale, observando ele quieta no meio das conversas com as outras mulheres.
O Cavendish, tipo um cachorrinho, não tentou esconder a alegria. Ele tava quase abanando o rabo.
Ele pegou um monte de papéis da mão da Alicia, os olhos dele arregalando enquanto ele abria. Ele parou, franzindo a testa enquanto olhava o conteúdo.
Ele confirmou que não tinha lido errado. A cabeça dele subiu de descrença.
Os papéis tinham a crítica e as correções da Alicia no discurso dele, mostrando onde ele tinha falado errado e, às vezes, exagerado.
Ele levantou a sobrancelha.
Mas era tudo verdade.
O Cavendish fez bico. Ele não queria ouvir ela.
Se preparando pra dizer, “Vou lembrar disso.”
“Mandou bem”, a Alicia disse, tomando um gole de chá, se dignando a dar um elogio.
Os olhos dele brilharam e ele interrompeu ela pra dar outro beijo no rosto.
Ele ia no Parlamento três ou quatro vezes por semana. As quartas eram reservadas pro Primeiro-Ministro responder perguntas, e normalmente tinha menos gente às quintas e sextas. Domingos, claro, eram pros cultos.
Os outros dias dependiam das paradas que tavam sendo discutidas, precisando da presença dele se fosse necessário.
Quando o William Cavendish saiu da sessão, já era de madrugada. Ele viu a carruagem estacionada perto de Westminster Palace, com o brasão que eles tinham feito juntos.
Segurando o chapéu, ele correu.
As palavras de saudação morreram na boca dele quando ele abriu a porta da carruagem e viu a esposa dormindo.
Ele entrou com cuidado na carruagem.
Ele sentou perto dela, deixando ela encostar a cabeça no ombro dele.
O olhar dele era carinhoso. Ela tinha esperado ele terminar a reunião.
Ele abaixou a cabeça, com uma expressão pensativa, olhando pra ela.
A Alicia abriu os olhos. Ele tava tão quentinho, e pegou na mão dela.
“Você já acabou”, ela disse, levantando a cabeça e esfregando os olhos.
Ela tinha pensado em esperar ele voltar junto depois da festa, mas tinha dormido sem querer.
“Ah, desculpa”, ele pediu. “Não devia ter feito você esperar tanto.”
A galera da alta sociedade de Londres, tipo nas interações sociais, costumavam ter reuniões depois das sete ou oito da noite, e às vezes iam até às três ou quatro da manhã, ou até a noite toda.
Ele passou a mão no rosto dela com carinho. Ela se aconchegou no abraço dele, fechando os olhos de novo, voltando a dormir em paz.
Quando tava bom, ela ia andar a cavalo, passando pelos Tribunais Reais.
O William Cavendish, com a roupa de advogado, com a peruca na mão, tava conversando com um colega depois de uma sessão.
Ele viu ela, e o sorriso dele aumentou.
Aos olhos de todo mundo, ele correu até ela, levantando ela no colo e girando.
“Alicia, você é fofa! Como pode ser tão fofa!”
A Alicia, com a chicote ainda na cintura, ficou sem reação por um momento. A chegada do inverno pedia roupas mais quentes, e a gola de pele fazia as bochechas cheias dela parecerem maiores.
Ele sorriu pra ela, dando um beijo no rosto.
“Por que você veio me procurar?”
“Tem uma reunião, eu tava passando por aqui.”
Sem se despedir do amigo, ele foi falar com ela, conversando enquanto saía.
Os amigos dele trocaram olhares confusos, pensando na proposta legal que não foi totalmente discutida.
“Eu vou vencer”, ele garantiu.
O William Cavendish se dedicou mais no trabalho. Ele tava decidido a ganhar a eleição em Westminster e conseguir um lugar bom na Câmara dos Comuns – só pelo esforço dele.
A Alicia ia ter orgulho dele.
Vendo as olheiras, e os lábios rachados, resultado de várias noites em claro estudando, seguido de idas e vindas, ela percebeu.
A primeira coisa que ele fazia quando chegava em casa era procurar por ela, pra dar bom dia ou boa noite, pra tomar café da manhã ou jantar com ela.
Bem diferente dos vários homens que gastavam as refeições nos clubes, longe das famílias. Essa tinha virado a rotina dele.
A Alicia percebeu o comportamento diferente do marido e as olhadas de cansaço que ele tentava esconder.
Era comum as mulheres da alta sociedade ajudarem os pais e irmãos nas campanhas eleitorais, um jeito de participar da política aceito por todo mundo. A imagem das mulheres costumava ser mais acessível, e a participação em projetos de caridade as fazia ser lembradas pelos eleitores.
Ela pensou nisso.
O Cavendish ficou chocado ao ver ela, com as cores azul e branco do partido Whig, com um chapéu grande e uma faixa. Ela apareceu no meio da galera, fazendo campanha pra ele.
Igual a avó dela, ela foi recebida com gritos e carinho da galera de Londres.
Ela estendeu a mão da carruagem, e a galera foi pra perto beijar os dedos dela, dando um monte de flores.
Eles não tinham esquecido a avó dela, a Duquesa de Devonshire, nem a mãe dela, e ela era a cara delas duas!
Ela olhou pra cena com calma, com um sorriso de leve, olhando pra ele, mostrando uma alegria inacreditável.
O Cavendish relaxou a mandíbula, segurando a emoção, se controlando pra não pular e acenar pra ela.
Ela tinha vindo! Ela gostava muito dele! Ele não podia perder.
Ele endireitou a postura, o sorriso dele ficou mais sincero.
Dá pra ver, talvez, que por muitos anos eles iam ser os parceiros políticos mais fortes, apoiando um ao outro, firmes nos projetos.
Ela visitava os pobres, ia pras favelas de Westminster, distribuindo mantimentos, dando cobertores, roupas, comida e carvão pra esquentar. Ela mostrava carinho pra todo mundo, fazendo o trabalho com a maior sinceridade e empatia, com uma influência muito forte.
A Alicia disse que agora sabia como gastar a mesada anual de trinta mil libras, e todo mundo incentivou ela.
A família Cavendish se juntou, conseguindo um monte de reconhecimento nessa eleição, mantendo a reputação, assim como a Duquesa tinha feito. Isso fez com que a influência política deles fosse ainda maior.
Aí, até os críticos dos jornais não acharam muita coisa pra reclamar. A Duquesa de Devonshire sempre foi radical, apoiando abertamente todas as reformas e fazendo campanha pela libertação do deputado Sir Francis Burdett.
No meio de tanto apoio e admiração, com o Parlamento em sessão, a parada do título da Alicia foi levantada.
Um mês depois, o William Cavendish, por uma diferença pequena de votos, foi eleito em Westminster, uma das regiões maiores. Uma baita conquista, vendo a idade e a experiência dele, e uma prova das qualidades dele.
Além da aparência e da oratória, a esposa dele, Lady Alicia, teve um papel muito importante. Ela virou a mulher mais famosa da Inglaterra, o centro das atenções, com uma influência grande.
“Eles só conhecem você, Alicia!”
Chamavam ela de “Lady A”, e ela tinha virado a pessoa que representava essa geração. Ele tava mais feliz que ela, quase nem ligando pra própria eleição.
A Alicia tapou a boca dele com delicadeza, afastando ele.
“Eu não terminei a anotação ainda”, ela disse calmamente.
O William Cavendish apoiou o queixo na mão, encostado na mesa, com um sorriso de impotência no rosto.
Depois de um tempo, ela parou de franzir a testa, tendo resolvido o problema. Ela estendeu a mão pra ele.
Dando permissão pra ele beijar ela.
Ele sorriu, encostando no queixo dela de leve.
“Senhora, tem alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar?”, ele perguntou, levantando a sobrancelha.
A Alicia, sem hesitar, mandou ele pegar um monte de documentos, pra fazer a interpretação mais certa de um conceito.
Ele adorou ser útil, poder dividir tanta coisa com ela.
No Natal, eles ganharam um monte de presentes. Tava nevando lá fora. Seguindo a tradição, eles se beijaram embaixo do visco.
“Feliz Natal.”
O título dela continuou o mesmo, “Lady Alicia”, mas ela era a esposa dele, a amada dele.
Ele abraçou ela com força.
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Na neve, eles correram atrás um do outro em volta da fonte congelada, fazendo guerra de bolinhas de neve.
Ela botou neve na gola dele. Ele tentou pegar ela, rindo muito, e depois, pensou um pouco, e pegou na bochecha dela.
A Alicia, aproveitando a chance, jogou uma bolinha de neve que ela tinha escondido atrás das costas, acertando ele na cara. Ela riu e correu.
Ele fazia esses jogos com ela, construindo bonecos de neve e patinando no lago.
“Que pena que o Tâmisa não congelou.”
Os invernos da última década não tinham sido frios o suficiente pra congelar, ao contrário de outros anos, quando tinham as feiras de gelo.
Ele pegou na mão dela, e eles deslizaram de um lado pro outro do lago. A Alicia patinava bem, mandando bem em tudo, com graça e agilidade.
“Os russos até dançam valsa no gelo.”
Eles tentaram. Ela tropeçou, e ele pegou ela no colo. A Alicia encostou a cabeça no ombro dele, olhando pra baixo, com um ar de tranquilidade.
Os sinos do Ano Novo tocaram, e eles viram os fogos de artifício no céu. Satisfeitos com a comida e o vinho, eles fizeram seus pedidos em silêncio.
“O que você pediu?”, perguntou o Cavendish.
A Alicia piscou.
“Ah, é, eu sei, se você contar, não vai acontecer”, disse o Cavendish, dando de ombros. Ele pegou na mão dela, recebendo o Ano Novo.
O pedido dele era passar o máximo de tempo possível com ela. Ele, afinal, era alguns anos mais velho que ela.
Com esse pensamento, ele entrelaçou o dedo mindinho com o dela, segurando firme.