Capítulo 40: Vida de Casado
A casa deles na Park Lane, ah, não tinha jardim, só uma entrada que dava pra rua. Enquanto o cãozinho da Srta.--não, Sra. agora, Sra. Cavendish, se fizer o favor--Alicia tinha que ficar no pátio maior do Duque, a égua dela, pelo menos, tinha as mordomias da cocheira lá atrás, onde recebia a escovação diária.
Juntos, os recém-casados andavam muito no parque, passeando pela King's Road num ritmo tranquilo. Hyde Park, precisa entender, tinha umas regras não escritas sobre a velocidade aceitável da montaria. Galopar não era uma opção. Então, eles se contentavam com um trote leve.
"Quando a gente for pro campo pra caçada, a gente vai correr até não poder mais", Cavendish declarou, com uma piscadela que sugeria que ele tinha mais coisas em mente além de cavalos.
Depois de um tempo bom de passeio calmo, eles desmontavam perto da Serpentine, admirando como a luz do sol dançava na superfície dela, e caminhavam em direção ao Kensington Gardens. Inseparáveis, eles eram a cara da felicidade de recém-casados.
Saindo pela entrada sudoeste, eles foram pra Piccadilly. Ao entrar na residência do Duque, o tal cão veio correndo, dando pro Cavendish umas mordidinhas de boas-vindas antes de virar as atenções pra Alicia, bajulando e se esfregando de um jeito muito sem dignidade.
"Bicho desgraçado", Cavendish resmungou, "e pensar que fui eu que te dei ele".
Ele tinha esquecido. Já fazia uns anos, quando Alicia tinha uns treze anos, e o cachorro velho do avô dela tinha ido pro céu dos cachorros. Com medo dela ficar mal, ele procurou em todo lugar um substituto, e acabou pegando um bicho com as mesmas marcas.
Ele entregou pra ela com um floreio, "Alicia, Alicia, esse cachorrinho é igualzinha a você, quieta e esperta".
Parece que o julgamento dele tinha sido, digamos, meio furado. Cavendish lançou um olhar fulminante pro cachorro, Pip, que tava sempre numa atividade frenética, exceto, claro, quando chegava perto dele.
A Alicia, por outro lado, assistia aquela cena com uma diversão silenciosa. Ela lembrava de tudo.
Depois de uma visita pros pais da Alicia, o Duque perguntou se ela queria mais alguma coisa pra enfeitar a casa nova, citando exemplos como um lustre de bronze ou uma estátua de mármore. Alicia, toda feliz, escolheu duas coisas. Tava cada vez mais claro que eles eram independentes de verdade agora.
Dali, eles foram pro norte, pra Burlington House, onde encontraram o Conde de Burlington tomando sol, com o Marquês de Stafford. Ficou combinado que eles iam jantar na casa do avô dela na noite seguinte.
A Lady Diana tava bem feliz com o único filho dela. Ele finalmente tinha levado esse casamento até o fim, embora ela ainda não entendesse muito bem como ele tinha conseguido.
Eles foram pras lojas da moda da Oxford Street e da Bond Street. Cavendish mencionou que o pai dele, Lord Cavendish, tava planejando construir um shopping inteiro. Isso ia ser bem mais prático no futuro.
A Lady Diana às vezes achava meio chato ir praquelas duas ruas, e Burlington House vivia sendo alvo da indelicadeza de ter cascas de ostra jogadas no pátio.
"Talvez um ano? E vai estar pronto".
Como eles iam estar nessa época, ela se perguntou?
E assim, o dia foi passando, culminando numa visita ao Marylebone Park, onde eles subiram a Primrose Hill, vendo toda a periferia norte de Londres. Quanto a Cavendish, os clubes de cavalheiros da St. James's Street foram, por enquanto, esquecidos.
Quer dizer, até ele descobrir a identidade do pilantra por trás da aposta e dos boatos que rolaram. Sempre que ele queria fazer alguma coisa, era só espalhar a notícia, e alguém ia aparecer com um ramo de oliveira.
Uma carta do Conde Percy, recebida logo antes da partida dele, também apontava pro mesmo cara.
William Cavendish, ao ver o nome, não ficou nem um pouco surpreso. Ele só tinha achado que ia ser um dos ex-pretendentes da Alicia.
Pol-Wellesley, ou melhor, Long-Wellesley, como ele tava sendo chamado agora. Um sujeito mais metido, inconsequente e impulsivo era difícil de imaginar. Ele nunca pensava em nada com um pingo de juízo, tratando tudo com um grau chocante de leviandade. Foi essa falta de noção que fez ele falar aquelas coisas absurdas durante uma bebedeira, incentivando o Lord Percy a ir atrás da Alicia, e até espalhando boatos falsos.
Cavendish tinha uma história com esse espécime de ser humano. Ia longe, seis anos atrás, numa missão diplomática. Pol-Wellesley, naquela época com dezesseis anos, tinha sido mandado numa turnê pela Europa, porque tava completamente indesejado na Inglaterra por causa do envolvimento com mulheres, bebida demais, jogos e uma montanha de dívidas.
Com a lábia dele, o ego inflado, as citações de Shakespeare decoradas, a proficiência na dança e as cantadas ensaiadas, ele tinha conseguido construir uma reputação pra si mesmo no Continente, pra grande satisfação dele.
Cavendish sempre tinha desprezado ele, achando que ele não passava de um ser oco e tolo. Ele achava que os vícios dele se limitavam a beber, jogar, frequentar bordéis e seduzir mulheres casadas.
Depois que a velha Duquesa de Devonshire ficou muito doente, ele voltou pra Inglaterra, vindo de Constantinopla e foi no funeral dela.
Coincidentemente, a mulher do Embaixador Charles Arbuthnot tinha morrido no parto, deixando ele completamente arrasado e negligenciando os deveres dele.
Com a partida de Cavendish, o cargo de Secretário Chefe ficou vago. E assim, Pol-Wellesley foi empurrado pro papel.
Ele não tinha um pingo de talento de verdade, mas, inchado pela bajulação de duas princesas russas, ele se iludiu achando que era capaz de qualquer coisa.
Portanto, ele decidiu ameaçar o Ministro das Relações Exteriores do Império Otomano, exigindo que ele fizesse as pazes com a Rússia, senão ele, Pol-Wellesley, ia declarar guerra em nome da Grã-Bretanha.
A carta lacrada contendo esse ultimato absurdo foi interceptada por William Cavendish, que tinha acabado de chegar de volta ao porto. Ele examinou o documento, com o nome e o selo dele (a nomeação oficial do Wellesley ainda não tinha sido finalizada), e, com a testa franzida, abriu.
Correndo de volta pra embaixada, ele ouviu Pol-Wellesley se gabando do grande feito que tava prestes a realizar.
A equipe da embaixada e a comitiva viram o homem de cabelo escuro e olhos azuis, ainda com o casaco e o chapéu de viagem, entrar com uma expressão sombria.
Os dois criados abriram as portas.
Tirando as luvas, o jovem e audacioso Pol-Wellesley se virou, o sorriso congelando no rosto ao encontrar o olhar de Cavendish.
Nem ele nem ninguém na sala teve tempo de reagir.
Sem dizer nada, Cavendish foi pra cima, pegou ele pela gola e deu um soco forte. Depois veio outro, igualmente forte. Pol-Wellesley finalmente voltou a si, e os dois começaram a brigar.
Naturalmente, Cavendish, sendo quatro anos mais velho, levou a melhor.
"Você queria começar uma guerra com os turcos? Sem o conhecimento do Embaixador ou o consentimento do Parlamento!"
William Cavendish, a própria imagem da elegância e compostura aos olhos dos outros, tinha abandonado completamente toda a pretensão de conduta de cavalheiro.
"Você faz ideia do que é uma guerra, seu imbecil!" Ele já tinha ido pra um campo de batalha? Já. Era o inferno na terra.
E, no entanto, tinha alguém que queria começar uma guerra sem motivo.
Ele jogou socos nele.
"Você mencionou nossos navios de guerra no porto? Você acha que isso é uma vantagem? Se a guerra começar, o que você propõe fazer com a nossa marinha?"
Cavendish tava fora de si de raiva. Ele nunca tinha encontrado um cabeça-dura desses. Ele não tinha aprendido nada em um ano e meio? Ele não entendia de diplomacia?
Ele achava mesmo que podia ameaçar eles? Ele achava mesmo que os turcos não iam ousar revidar? Ele tava praticamente entregando uma arma carregada pra eles.
Uma troca de tiros despreparada e não provocada ia resultar em muitas baixas. Centenas de homens, centenas de famílias mergulhadas em luto.
O pobre do Sr. Pol-Wellesley teve dois dentes quebrados e a boca cheia de sangue, mas isso era uma ninharia comparado à catástrofe que ele quase causou.
Aqueles que entendiam a gravidade da situação não ousaram intervir, em parte porque achavam que ele merecia.
Ele tinha feito isso pelas costas de todo mundo!
William Cavendish estremeceu só de pensar no que poderia ter acontecido se ele não tivesse voltado a tempo. Era óbvio: guerra entre Grã-Bretanha e Turquia, a evacuação de emergência dos residentes britânicos e da equipe da embaixada, os doze navios de guerra no porto bombardeados, muitas baixas. Uma derrota tão humilhante, depois da Batalha de Trafalgar, ia causar um rebuliço na Grã-Bretanha.
O Embaixador ia enfrentar um inquérito no Parlamento, a carreira diplomática dele em ruínas.
A jornada diplomática de William Cavendish tinha chegado a um fim desagradável. O incidente foi abafado. O Embaixador Charles Arbuthnot, profundamente abalado, apresentou um pedido formal de desculpas ao Parlamento.
Ele escoltou Pol-Wellesley de volta pra Inglaterra, apesar das ligações dele com a influente família Wellesley.
Mas a outra parte era um Cavendish. Como o cara que tinha sido agredido, o Sr. Pol-Wellesley não teve escolha a não ser engolir o orgulho e, acompanhado pelo pai e pelo tio, oferecer um pedido de desculpas a William Cavendish.
Ele nunca tinha perdoado ele, só lançava um olhar frio.
Daquele dia em diante, Pol-Wellesley foi firmemente estabelecido na lista das pessoas mais detestadas dele. Ele não conseguia entender como alguém podia ser tão completamente destituído de juízo, e o cara não tinha demonstrado nenhum remorso de verdade.
Não adiantava conversar com uma pessoa dessas, Cavendish decidiu. Ele tava certíssimo.
Apos descobrir o papel dele nesse último rolo, William Cavendish não tava a fim de nenhuma conversa.
Ele simplesmente escolheu um momento oportuno pra derrubar a bebida no cara, levantando uma sobrancelha, "Você derramou meu vinho. Saloon do Jackson, boxe, a gente marca?"
Ele tinha feito um desafio, uma questão de honra, e o Sr. Long-Wellesley, agora sobrecarregado com o sobrenome da mulher, não podia recusar.
Esse acontecimento levou os dois homens a serem escoltados pro clube na Bond Street.
William Cavendish deu nele uma surra daquelas. Ele conhecia bem ele: impulsivo, cheio de fraquezas, impaciente e propenso a confiar em esquemas tolos.
O Sr. Long-Wellesley ficou completamente humilhado.
"Você não melhorou nada, né?" Cavendish comentou, dando um leve chute nele. Comparado a isso, ele quase tava começando a gostar do Conde Percy.
Passando por um espelho, ele se examinou, depois franziu a testa.
A Alicia tinha ficado amiga da Sra. Long-Wellesley. Ela era uma mulher pequena, todo mundo gostava dela, tinha uma natureza gentil e se dedicava a várias causas de caridade.
Antes do casamento, ela era conhecida como a "Herdeira de Wiltshire", a plebeia mais rica da Inglaterra, com uma renda superior a quarenta mil libras por ano. Ignorando todos os avisos e cartas anônimas, ela tinha se casado com Pol-Wellesley por amor.
Ele era um canalha notório, conhecido pelo comportamento grosseiro e dissoluto. Mas ela amava e respeitava ele profundamente. Ela não era totalmente ignorante do passado dele, mas depois que ele confessou as transgressões anteriores, ela perdoou ele.
William Cavendish sentiu muita pena da Sra. Long-Wellesley. Pelos padrões dele, ela era uma boa pessoa.
Só de pensar nela presa a um vilão desses por toda a vida o enchia de desespero.
Essa última briga ia, sem dúvida, deixar as coisas estranhas entre a Alicia e a nova amiga dela.
Ele deu um soco na própria cara, olhando no espelho.
Quando a Alicia voltou, encontrou o marido, que tava perfeitamente bem mais cedo, com o lábio rachado e um olho roxo.
Ela pegou o rosto dele nas mãos, examinando os ferimentos. Cavendish soltou um chiado.
Pegando um remédio da enfermeira, Alicia cuidou dos ferimentos dele. Cavendish ficou secretamente feliz. Ele reprimiu um sorriso, percebendo que isso era uma vantagem inesperada.
Ele choramingou, dramatizando a dor, "Dói. Alguém me bateu".
Então, virando a verdade do avesso, "Long-Wellesley. A culpa é toda dele", ele fez beicinho.
A Alicia levantou uma sobrancelha, "Eu ouvi dizer que foi você que provocou ele, esbarrou nele de propósito".
Cavendish ficou quieto por um momento, depois murmurou, "Eu tive meus motivos".
"Aham".
A Alicia mencionou que Catherine, Sra. Long-Wellesley, não tinha demonstrado nenhum desgosto ou culpado ela. Ela achou que era só algum tipo de desafio masculino.
Long-Wellesley tinha falado mal dele pra mulher, mas, sentindo-se culpado, não tinha revelado o verdadeiro motivo. Ele sempre teve ciúmes de William Cavendish, que constantemente o ofuscava, até no casamento deles.
Mais tarde naquela noite, a Alicia apertou a ferida dele, fazendo Cavendish fazer uma careta de dor. Ele tava convencido de que ela fez de propósito; ela tava claramente descontente.
"Você não vai sair pra lutar um duelo com pistolas, vai?" Alicia perguntou de repente.
"Claro que não. Eu não sou tão tolo".
Ele olhou pra ela.
"Você tá preocupada comigo?" Cavendish perguntou, piscando os cílios com um sorriso.
Ela apertou forte o canto da sobrancelha dele. Ele respirou fundo. Ela acalmou ele com um beijo nos lábios.
Depois se afastou, leve e provocante, uma tortura deliciosa.
"Dói?" Alicia traçou os ferimentos dele com os dedos.
Ele começou a fazer papel de vítima, lágrimas enchendo os olhos, ameaçando cair.
"O que você acha?" Ela se inclinou, o corpo dela encostando no dele. Desde que se mudaram pra essa nova residência, eles desfrutavam de uma nova liberdade.
"Então por que você gosta tanto de brigar?" Alicia lembrou do incidente no carnaval, o gosto de sangue na boca dela quando ela beijou ele.
"Instinto", ele murmurou no ouvido dela, "Assim como eu gosto de..."
Ele riu baixinho.
A Alicia corou furiosamente, olhando pra ele. Ela percebeu que a dinâmica harmoniosa e brincalhona deles era bem rara mesmo.