Capítulo 20: Matrimônio
Srta. Alicia estava acostumada a tomar café da manhã com os pais dela, porque era uma tradição da família, que eles amavam muito. Até os avós dela, quando dava, se juntavam. Agora, longe da galera, ela descobriu, pra sua surpresa, que tinha um novo membro na família. Ela esperava que ele estivesse na mesa do café, mas ficou meio bolada por ele ter se atrasado. Mas, quando ela botou os olhos nele, tudo foi perdoado. A noite anterior tinha sido puxada, afinal. Ele foi tão detalhista, tão... atencioso, como as duas tias dela mandaram. Era o certo a se fazer.
Cavendish, por sua vez, tentou lidar com a frieza da esposa com uma pose de "tô de boa". Mas ela continuou na dele, tipo, nem aí pra ele. Quanto mais íntimos ficavam no quarto, mais estranhas pareciam as interações deles durante o dia. Ele ofereceu o jornal pra ela, já tinha lido tudo. As últimas notícias diziam que o comandante russo, Kutuzov, tinha recuado sem lutar, deixando Moscou pros inimigos. Os moradores da cidade fugiram no meio da noite. No dia 14 de setembro, o exército francês entrou em Moscou, só pra ver que não tinha ninguém. Essa notícia, que já tinha três dias, tava no ar.
"Você acha que eles vão querer fazer um acordo de paz?", ele perguntou.
"Alexander? Nunca", Alicia respondeu com firmeza.
William Cavendish concordou. Ele pegou uma carta da esposa do embaixador russo, Dorothea Lieven, e mostrou pra ela. A carta tinha umas ideias sobre o que o Czar tava pensando. Essa mulher, pelo jeito, tava mandando muito nos negócios da diplomacia desde o começo do ano, com mais poder que o marido, o embaixador de verdade. Parecia que a Rússia tava pedindo mais ajuda da Grã-Bretanha. Uma parada que precisava da aprovação do Parlamento. A oposição Whig, inacreditavelmente, tava de acordo com isso. A família Cavendish, é bom lembrar, teve um papel importante pra essa galera se entender. Era um risco, claro, mas uma coisa era certa: Bonaparte não podia vencer.
Tanto Alicia quanto William, de um jeito ou de outro, gostavam das ideias da Revolução Francesa, o que dava uma base pra eles conversarem, apesar de, como sempre, rolar uns desentendimentos. Cavendish, com um pouco de nojo, chamava ele de "Bonaparte", porque ele era bem liberal. Alicia, por outro lado, ficava em cima do muro, apoiando a ideia de uma república e aplaudindo as ideias revolucionárias dele, mas odiava as atitudes autoritárias e a vontade de expandir os negócios. Depois de uns anos de discussão, eles aprenderam a não falar mais sobre isso. Ele preferia conversar sobre isso com o primo dele.
Depois de falar das notícias do dia, os dois foram dar uma volta tranquila.
...
A correspondência de ontem fez eles decidirem voltar pra Londres com urgência. As responsabilidades sociais de uma mulher casada eram muito maiores que as de uma solteira. Fazer e ir em várias festas, aumentar a rede de contatos e tudo mais. Principalmente, Almack's, o lugar mais importante da alta sociedade londrina, queria muito dar as boas-vindas a essa esposa recém-casada como uma das patronas deles. Cavendish, no entanto, tava querendo adiar essa parada. Sorte que a própria Alicia não tava muito a fim disso. Ele ficou por perto enquanto ela observava os insetos.
Ele observou, piscando os cílios, enquanto ela pegava um com uma pinça. "Eles vão virar borboletas", Alicia disse, antes de soltar e explicar direitinho as diferenças entre as larvas de borboleta e de mariposa. Cavendish, mesmo sem entender nada, guardou as palavras dela na memória.
...
Quando voltaram, ele foi organizar as coisas na gaveta, contando cada item com certa dificuldade. Eram as únicas coisas que ligavam ele a ela. Mas, pra não irritá-la... Ele pegou a caixa e devolveu pra ela.
Alicia levantou os olhos, concentrada em bordar uma faixa de chapéu. Ela tinha aprendido um ponto novo, que fazia rosas bem realistas. "Não quero", ela falou, dando uma olhada rápida na caixa aberta.
"O quê?" Cavendish olhou pra caixa de ouro puro com uma pontinha de confusão.
"Pode ficar", ela disse, voltando a atenção pra costura. Isso era mais a cara dela; ela não via necessidade de pegar de volta algo que outra pessoa tinha pegado. William Cavendish, meio confuso, pegou a caixa de volta. Ele sentou, jogando a cabeça pra trás. Será que Alicia já tava cansada dele?
"Você tá achando chato aqui?", ele se arriscou a perguntar. A vida no campo, afinal, era bem monótona perto da agitação social de Londres, com um monte de visitas, peças de teatro, concertos e bailes. Mas, pra falar a verdade, Alicia nunca foi muito fã de eventos sociais. Ela já tinha lido mais de uma dúzia de livros, terminado um quebra-cabeça de cem peças e feito cinco ou seis pinturas, duas delas coloridas com cuidado, mostrando o tédio profundo dela.
"É suportável", ela respondeu.
Essa resposta morna, pior que fria, tava acabando com ele. Ela mandou ele escolher as linhas pra ela, perguntando se azul ia ficar bom na beirada.
...
"Você não tem muita paciência com as coisas normais, William George", Alicia falou, cortando uma linha. Ela começou a escrever um cardápio, assumindo as responsabilidades de dona de casa, como era esperado.
"É?" Então era ele que tava entediado? William Cavendish ficou confuso. Era assim a vida de um recém-casado? Ele percebeu, de repente, que tava pedindo demais. Ele encostou o queixo na mão, olhando pra esposa.
...
Alicia foi pro piano, uma rotina dela. Ela gostava de Mozart e Bach, mas não tinha nada contra um Beethoven. As notas melodiosas saíam dos dedos dela sem esforço. Diferente de muitas mulheres que tratavam música e pintura como só mais um talento pra fingir que eram charmosas, Alicia queria ser boa mesmo no que ela fazia. Ele devia ter percebido que uma mulher tão dedicada à perfeição ia aprender a aceitar e tolerá-lo aos poucos. Os jeitos de vida deles eram totalmente diferentes.
\Na época que ele era mais novo, com uns dez anos e pouco, Cavendish costumava imaginar a futura esposa dele. Uma visão dela, com o cabelo dourado meio solto, sentada no piano. Ele sabia que era ela. Ele se convenceu de que era feliz, que o amor dele por ela era suficiente.
...
Naquela noite, eles foram discutir o desenho de um novo brasão, uma parada que chamou a atenção de Alicia, que se aproximou pra ver. Esse símbolo ia enfeitar a carruagem deles e a roupa dos empregados. Cada geração da aristocracia costumava mudar o brasão da família, adicionando e alterando elementos pra criar uma versão única. Ele desenhou: primeiro, o fundo cinza e preto da família Cavendish com três cabeças de veado prateadas com chifres dourados. Depois, as listras diagonais vermelhas e brancas da parede do Conde de Burlington, os quadrados azuis e amarelos e as listras vermelhas do Barão Clifford. O fundo vermelho com estrelas amarelas do Conde de Sutherland, o fundo azul com folhas douradas do Marquês de Stafford e o fundo listrado vermelho e branco com uma cruz preta. Ele pensou um pouco, decidindo que quatro partes não iam ser suficientes; ia ter que ser seis. Ele fez um rascunho.
"É meio feio", Alicia comentou, encostando nele. Ele fez umas mudanças até ela gostar.
Quando voltassem pra Londres, iam precisar encomendar uma carruagem nova com o novo brasão. Ao olhar pro brasão novo, Alicia se tocou que, mesmo com o sobrenome igual, ela, de fato, tava casada.
...
Alicia começou a colorir o brasão pronto. Uma coisa veio na cabeça dela. Cavendish ainda tava lembrando do fogo da noite anterior e da calmaria do dia. Essa viagem na maionese durou pouco, porque Alicia perguntou de repente: "Você não vai voltar pra Londres?"
"O quê?" Cavendish se assustou, ficou em choque por um instante. Ela queria voltar pra casa? Ele disfarçou o nervosismo. "A gente vai junto?", ele perguntou.
"Não, só você", ela respondeu de boa.
Uau! Ela não queria mais ele. Ela ia mandar ele embora. Ele esperava, talvez ingenuamente, um período de carinho, um pouco de amor e afeto, por mais rápido que fosse, depois da noite passada. Ela usou ele e agora tava jogando ele fora. Ela tava mandando ele de volta pra Londres; ela não queria mais a presença dele! Cavendish fingiu que tava de boa, mas por dentro tava fervendo. Aquela mentirosa, ela tinha dito que gostava dele ontem à noite. Ele ficou quieto, com a raiva crescendo dentro dele. Mas a expressão de Alicia continuava a mesma, como se ela nem percebesse a raiva dele. Ele piscou, os cílios mostrando a bagunça que tava por dentro, uma mistura de mágoa e confusão. Ele começou a se perguntar onde tinha errado. Foi por ter roubado as coisas?
Alicia observou as expressões que mudavam no rosto do primo dela, uma nova diversão que ela tinha arrumado. Ela notou uma diferença grande no jeito dele antes e depois do casamento.
Cavendish, escolhendo as palavras com cuidado, finalmente perguntou: "Você quer ficar aqui sozinha?" Ele sentiu uma dor no peito. Será que ela já tava cansada dele?
Alicia, com o interesse diminuindo, voltou a colorir o brasão. Cavendish finalmente entendeu.
"Não é a sua eleição esse ano?", ela perguntou de leve, com os olhos grudados no trabalho.
Ah, então era isso. Ele respirou aliviado, mas a aflição não passou totalmente. Eu achei que você ia me mandar de volta pra Londres. Ele guardou esse pensamento pra ele. Ele sentiu uma pontada de tristeza, percebendo que, talvez, ele fosse descartável pra Alicia. Ele ainda não tinha certeza sobre a noite passada.
Cavendish garantiu que o discurso dele já tava escrito e que a eleição ia ser só daqui a um mês, sobrando bastante tempo. Depois dos pedidos dele, Alicia finalmente concordou, com a atenção em outro lugar. Sem mais vontade de colorir o brasão, ela deixou o trabalho pra ele e pegou uma revista de matemática, se concentrando nos problemas.
...
Cavendish observou ela de canto. Uma sensação de urgência, uma necessidade de aproveitar esses momentos juntos, veio com tudo. Aquela pergunta sobre voltar pra Londres tinha assustado ele. Ele tinha medo que a fase de lua de mel já estivesse acabando. Os pensamentos dele tavam a mil.
Alicia, sentindo o cansaço, se esticou, encostando as pernas nele. Ela mandou ele massagear a panturrilha dela. Um sorriso apareceu nos cantos dos lábios de Cavendish. Ela precisava dele, afinal. Ele fez o que ela mandou, com o olhar preso nos pés dela, cobertos com sapatos de cetim, delicados e bonitos, a curva macia da panturrilha dela por baixo das meias de seda. Um rubor subiu pelo pescoço dele. Ela deu um chutinho na perna dele. Ele pegou o pé dela, e Alicia olhou pra ele. Ela tirou o pé da mão dele, esticando de um jeito relaxado. Os olhos dela tinham um toque de curiosidade. Eles se olharam, a respiração acelerando. Ele se aproximou e beijou ela. Alicia segurou o rosto dele, retribuindo o beijo, mas quando ele tentou aprofundar, ela afastou ele com cuidado.
Ele olhou pra ela com um pouco de decepção. Os olhos dela, embora inocentes, tinham um charme de serpente, que lembrava a serpente no Jardim do Éden. Alicia fez um sinal pra ele sentar de volta. Beijá-la o relaxava; um problema que tinha deixado ela pirada de repente tinha solução. Sem ligar pro olhar dele, como um gato ignora um rato sem graça, ela decidiu que os beijos dele não tavam mais no cardápio, por assim dizer. Ela não queria mais os beijos dele.
Depois de um beijo de boa noite, Alicia trancou a porta do quarto, mandando o primo mostrar o discurso pra ela no dia seguinte. Ela tava tratando ele como um professor! Era totalmente ridículo. Cavendish olhou com raiva pra porta fechada, uma barreira simbólica representando as regras inquebráveis que governavam o relacionamento deles. Ele sempre odiou regras, se rebelava contra elas, mas tava sem poder nenhum perto de Alicia. Ele devia focar na carreira dele, com a esperança de mudar a forma como Alicia via ele? Cavendish pensou nisso antes de dormir.
...
Alicia parou de escrever no diário, com uma memória vindo na cabeça. Ele tinha dito, naquela noite: "Eu sou o seu pônei". A imagem da cara envergonhada dele, mas ao mesmo tempo feliz, veio na frente dos olhos dela. No retrato mental do primo, ela adicionou mais uma pincelada: aparentemente inútil, mas surpreendentemente capaz. Ela tinha gostado da presença dele ultimamente, uma coisa que, na verdade, a deixava confusa. Hoje, por exemplo, ela queria que ele beijasse a panturrilha dela. Quando ele se comportava como um filhote, isso dava uma satisfação esquisita nela.
No café da manhã, Alicia revisou com cuidado o discurso dele. "É aceitável", ela declarou, depois de trocar umas palavras nas frases mais complicadas por outras que ela achava que eram melhores. Ela deu umas sugestões pra melhorar. Era raro ela elogiar; parece que ele tinha agradado.
Cavendish ficou todo orgulhoso. Ele tinha escolhido o tema do livre comércio, uma parada comum entre os Whigs, que muitas vezes defendiam reformas pra ter o apoio dos eleitores locais. Principalmente esse ano, com as Ordens do Conselho tendo sido revogadas só três meses antes, a oposição tava querendo usar as políticas de bloqueio do partido Tory.
Uma ideia veio em Alicia. As mulheres da aristocracia da época usavam os próprios jeitos de participar da política, principalmente a serviço dos pais e irmãos delas. As mulheres, acreditava-se, tinham mais capacidade de ter empatia e se conectar do que os homens, e usavam essa vantagem pra fazer trabalhos de caridade e fazer discursos, criando laços mais fortes com os eleitores e ganhando atenção. A avó, a mãe e as tias de Alicia, além da própria mãe de Cavendish, eram praticantes ferrenhas dessa arte, tendo bastante influência. Ela também ia ter que assumir essa responsabilidade.
"Não precisa se preocupar", ele disse, piscando uma vez. "Não é, afinal, a minha primeira vez." Cavendish, pelo jeito, tinha um monte de confiança em assuntos que não tinham nada a ver com Alicia.