Capítulo 29: Questões Conjugais
Depois do jantar, eles ficaram matutando em cima de uma pilha de convites, uma baita montanha de compromissos sociais, decidindo quais eventos honrar com a presença deles enquanto faziam sua estreia bombástica no agito social de Londres.
Suas famílias, numa rara demonstração de tato, deram aos recém-casados um pouco de sossego. Finalmente, o William Cavendish conseguiu encostar os lábios na têmpora dela, uma pequena vitória que abriu um sorriso no canto da boca dele.
A Alicia se mexeu um pouco, criando uma distância respeitável entre eles.
"O que foi, Alicia?" ele perguntou, não conseguindo mais esconder a preocupação. "Eu fiquei tão repugnante para você?" Ele tentou lembrar dos momentos de felicidade das semanas anteriores. O pescoço dela não tinha marcas, e ele tocou nele com cuidado. "Foram aquelas duas noites?" Ele conseguia entender que aquela frieza repentina pudesse ser causada por excessos.
A Alicia observou o roxo ainda sarando no queixo dele. "Não", ela disse, "Eu só acho que a gente devia manter uma certa... decência." Muita intimidade ia gerar fofoca, e o arranjo deles tava perfeito, obrigada.
Ela não tinha dado um beijo de bom dia nele, e os dias de carinho sem limites pareciam uma lembrança distante. Meu Deus, ele nem beijou ela direito desde ontem.
O William Cavendish, numa demonstração de dever de marido, acompanhou a Alicia num passeio até a Devonshire House. Depois de trocar umas gentilezas com o Duque e a Duquesa, a Alicia se ocupou de ajudar o pai dela no jardim, com tesouras de poda na mão.
O Cavendish ficou com a Duquesa na varanda, observando o par pai-filha. Naquele cenário, a timidez dele, normal, sumiu, substituída por um ar de confiança tranquila. Provou que o desejo da Alicia de voltar para Londres era por saudade, e não por insatisfação com o casamento deles. E ela tinha contado os planos deles pra temporada de caça no Marquês de Salisbury e o Natal em Londres. Certeza, ela não teria contado esses detalhes se não se importasse com ele.
A Duquesa, uma mulher com uma visão considerável, sorriu, sabendo das coisas. "Will", ela disse, com a voz cheia de compreensão, "vocês e a Ally talvez estejam muito íntimos." Afinal, ele praticamente viu ela crescer.
O que era um relacionamento realmente íntimo estava além da compreensão da Alicia. O laço entre marido e mulher era claramente de outra ordem, uma fusão de duas almas, por assim dizer. Voltando pra sociedade, ela ia precisar de um período de adaptação, uma aclimatação gradual a essa nova realidade.
O Cavendish entendeu. Cada um tinha seus próprios grupos de amigos e compromissos sociais. Talvez ele realmente precisasse dar um espaço pra Alicia.
Ele se aproximou da Alicia, notando que o vestido branco com detalhes verdes dela era igual a um que ela tinha usado antes do casamento. Hoje à noite, ela ia a uma festa na casa de uma mulher casada, organizada pela Lady Cowper, uma das ilustres patronas do Almack's. Com apenas vinte e seis anos, ela também era irmã do William Lamb, e cunhada da tia-avó da Alicia, a Lady Caroline.
Esses encontros, claro, eram proibidos pra maridos; só homens solteiros e jovens podiam participar. O Cavendish rangeu os dentes, a ideia de ficar longe da esposa dele era totalmente inaceitável. Mas eles iam ter que aprender a fazer como outros casais faziam, e seguir seus próprios interesses separados.
O jantar ia ser na Cowper House. A Alicia ia passar a tarde recebendo visitas das amigas solteiras, seguido de um chá marcado.
O Cavendish anunciou que ia passar o dia no clube dele e encontrar ela depois da festa. Ele ia buscar ela, e se ela estivesse a fim de ir ao teatro, ele estava à disposição.
A Alicia expressou a preferência de voltar pra casa às onze, em vez de ficar até altas horas. Ela não pediu pra ele ficar, até disse que ele podia ir pra onde quisesse, sem pedir permissão.
O coração do Cavendish doeu. Mas ele não podia mostrar. Ele tinha que parecer totalmente indiferente.
O William Cavendish sempre tinha sido uma força dominante na cena social de Londres, com o carisma, a personalidade e o bom gosto impecáveis, ganhando o título de "Rei não Coroado". Ninguém podia imaginar que o casamento dele ia ser tão... vazio.
Arrumado pra caramba, ele chegou na St. James's Street, o território sagrado do estabelecimento mais exclusivo para homens, o White's. Só de ver ele, a galera já se animou. Cumprimentos e reverências respeitosas foram oferecidas em abundância.
O Cavendish, sempre distante, tinha poucos amigos próximos, e menos ainda se atreviam a zoar ele. Ele tinha o poder de ostracizar sem esforço qualquer um que o desagradasse dos círculos sociais de Londres, um destino pior que a ruína social pra qualquer nobre.
Só os mais ousados, e os mais próximos dele, ousaram oferecer parabéns alegres pelas núpcias recentes, lamentando que a ausência dele tinha jogado uma sombra sobre Londres, deixando a rua toda apagada com a falta dele.
O Marquês de Tavistock, Francis Russell, um cara de cabelo castanho e olhos verdes, passou o braço pelo pescoço do primo dele. "Cavendish, a gente tava fazendo apostas sobre quando você ia finalmente mostrar a cara!"
"Vem, vamos jogar umas rodadas de cartas e beber um pouco."
Em meio às risadas e brincadeiras, o Cavendish recusou todos os convites.
"O quê, vai sentar com os caretas?"
"A vida de casado te mudou mesmo."
Só o Francis ousaria fazer piada com ele tão à vontade.
Os membros do White's eram jogadores viciados, sempre a fim de uma aposta. Se era qual gota de chuva ia chegar no fundo da janela primeiro, ou quem ia ser a próxima pessoa a entrar no clube, milhares de libras eram apostadas rotineiramente.
O olhar do Cavendish caiu na aposta mais disputada do momento: o estado do relacionamento de um certo casal recém-casado, designado como "C&A". A quantia total tinha chegado a cinco mil libras. As probabilidades eram três para um, uma visão um tanto pessimista. Ele assinou um cheque de três mil libras, apostando em si mesmo. Eles iam ser o casal mais apaixonado de todos, sem exceção.
A Alicia sentou, vendo os pais dela trocarem um beijo de despedida. Casados há dezessete anos, o carinho deles era constante, nem grudento nem distante, uma fonte de segurança silenciosa.
"Ally, você tem certeza de que não vai comigo?" a Lady Anne perguntou, se preparando para visitar a tia dela, a Duquesa de Beaufort.
"Não, mãe", ela respondeu, concentrada nas lições inacabadas que tinha negligenciado durante o mês passado. A Alicia resolveu retomar os estudos de astronomia, matemática e física. A prima dela tava totalmente esquecida.
À tarde, as amigas solteiras dela chegaram, e elas passearam pelo jardim dos fundos, a conversa delas indo parar nos mistérios da noite de núpcias.
A Alicia, tranquila, contou a experiência dela, arrancando risadas das amigas. Ela não tinha sangrado, o que era totalmente normal, já que ela tinha sangrado uma vez quando andava a cavalo aos treze anos. O marido dela tinha sido um pouco inexperiente, meio desajeitado. A dor era inevitável, junto com um tipo peculiar de prazer.
As moças coraram, ouvindo com atenção. Elas lamentaram não ter conhecido o Sr. Cavendish, um homem com beleza extraordinária e maneiras impecáveis. Elas também queriam um marido tão desejável. A conversa então mudou para as últimas chegadas em Londres, quaisquer jovens elegíveis que pudessem ter aparecido na cena social.
As damas casadas, à noite, foram muito mais diretas. As patronas do Almack's há muito tempo queriam incluir a filha do Duque nas fileiras delas. Agora que ela era casada, chamada de "Lady Alicia", embora o significado tivesse mudado de Srta. para Sra., ela finalmente era elegível.
A Alicia se adaptou rapidamente ao novo papel dela. O Almack's era o auge dos clubes sociais mistos de Londres, com uma exigência muito alta para entrada e um processo de seleção rigoroso. Não apenas a linhagem era fundamental, mas o caráter e as realizações tinham que ser impecáveis, além de qualquer reprovação. Ou melhor, simplesmente aprovados pelas patronas. Algumas, apesar do alto status, podiam ser excluídas devido a conflitos pessoais ou antipatia. Elas estabeleceram a lista de convidados com uma atitude caprichosa e egoísta, com um máximo de quinhentos convites, e os que os recebiam podiam trazer um convidado. Um baile era realizado toda quarta-feira à noite.
O sucesso social de uma moça era medido pela capacidade dela de garantir um convite para o Almack's. As mães sonhavam em obter um convite assinado por uma patrona, garantindo a entrada das filhas no salão de baile e a chance de conhecer um solteiro elegível.
As patronas eram cada uma mais metida que a outra. Eram sete no momento. A Lady Cowper era famosa pela beleza e inteligência dela. A Lady Jersey tinha herdado a Child's Bank do avô dela, uma fortuna colossal de 1,2 milhão de libras. Ela era considerada rude, barulhenta e sem modos. A Lady Leven, como esposa do embaixador russo, era uma mulher formidável, particularmente arrogante. A jovem Baronesa de Perth também era conhecida pela arrogância dela.
O Almack's não era apenas uma plataforma social, mas também um lugar onde os políticos eram ativos, expandindo a influência deles.
O Cavendish os conhecia bem, tendo a mesma idade e participando ativamente dos eventos sociais.
As patronas, como muitas damas aristocráticas, tinham relacionamentos com os maridos que não eram ruins, mas isso não impedia ter amantes. Por exemplo, a Lady Jersey, que se casou com o Conde de Jersey por amor, e ele era bonito, ainda achava inevitável ter jovens amantes. Um marido tinha que ser tolerante; ele não podia duelar com todos os amantes.
Um amante era um símbolo importante do charme pessoal, uma prática comum na alta sociedade. Toda dama tinha uma multidão de admiradores da qual escolher alguns, ou até compartilhar eles. O pré-requisito era dar à luz o filho mais velho para garantir a herança do título.
A Lady Jersey perguntou, sem nenhuma pretensão de sutileza, sobre a harmonia das relações íntimas deles durante a lua de mel. Ela e o Cavendish eram parentes por casamento.
Essa pergunta fez até a Lady Cowper levantar uma sobrancelha, e ela reformulou a pergunta com tato.
A Alicia, totalmente tranquila, respondeu: "Foi... passável."
A Lady Cowper e a Lady Jersey trocaram um olhar cúmplice, reprimindo um sorriso. Elas não esperavam que o famoso William Cavendish, fosse tão... comum nesse quesito. Essa era a raiz da discórdia conjugal deles?
Essas damas aconselharam ela, com franqueza, a não se preocupar, pois o prazer podia ser facilmente encontrado com amantes, e o charme dela era mais do que suficiente para atrair uma multidão de admiradores. Um marido, afinal, apenas fornecia o status de mulher casada e um certo nível de proteção.
Claro, manter um casamento estável e garantir a harmonia entre marido e amantes era uma arte em si. Se não, apenas flertar com homens podia tornar um casamento tedioso muito mais suportável.
Como disse a Lady Jersey, o marido dela amava ela, mas a vida dele consistia apenas em caçar, seus cavalos de corrida e cães, ele era habitualmente silencioso, não entendia as piadas dela, e a intimidade deles era apenas uma questão de rotina. Embora os sentimentos dela pelo marido não tivessem mudado muito em oito anos, e se ela tivesse que escolher novamente, ela ainda o escolheria.
Além disso, os homens se tornavam menos atraentes com a idade, e a energia deles diminuía. Ter um jovem amante não era de forma alguma uma coisa ruim. Os amantes podiam ser substituídos, mas um marido era pra vida. Um marido normal não teria ciúmes de um amante.
Um dos amantes compartilhados da Lady Jersey e da Lady Cowper era o chamado "Cupido", o Visconde Palmerston, que era muito bom em flertar. Ele estava recentemente prestando muita atenção na Lady Leven.
A Alicia absorveu essa informação com velocidade notável.
O William Cavendish estava totalmente alheio à tutoria duvidosa que a esposa dele estava recebendo. Ele estava ocupado garantindo a todos que ele e a esposa dele estavam profundamente apaixonados e que todos tinham cometido um erro grave nas apostas. Eles deviam se preparar para perder o dinheiro e cair em dívidas. Ele foi então servido com álcool até ficar bem bêbado.
Ele lembrou da última vez que tinha ficado bêbado, e desta vez. A Alicia queria se mudar, e eles nem tinham se beijado hoje. Encostando o queixo na mão, ele foi dominado pela tristeza. Balançando a cabeça, ele ofereceu um conselho: "Nunca case, o casamento é a cova de si mesmo."
Num momento ele estava reclamando, no outro ele se levantou.
"O que você tá fazendo, Cavendish? A noite ainda é jovem."
"Eu vou buscar minha esposa", ele declarou, pegando o chapéu. A festa tava chegando ao fim, e ele estava determinado a pegar ela. Sim, minha esposa.
Ele chegou na Grosvenor Square, esperando na carruagem uma meia hora antes.
Assim que o lacaio abriu a porta, a Alicia entrou, agarrando o xale dela, e foi imediatamente recebida com o cheiro forte de álcool.
Ele agarrou o pulso dela. "Alicia."
A porta fechou, e ele puxou ela para um abraço, os braços dele envolvendo as costas finas dela, segurando ela perto. Com uma ousadia incomum, ele a segurou com força, dando um beijo bêbado nela. O cheiro doce de uvas, o sabor fresco de maçãs e peras. Ela provavelmente conseguia adivinhar o que ele estava bebendo.
Ele entrou na boca dela com ousadia, engatando a língua dela, provocando e seduzindo. A mão dele foi para ela, e ela não resistiu. O toque das pontas dos dedos dele fez ela se encostar no ombro dele. Os lábios macios dele encontraram os dela. A Alicia retribuiu o abraço dele.
"Por que você me rejeita?" ele murmurou, com uma ponta de queixa na voz dele. Ele conseguia sentir, "Você gosta de mim."
O Cavendish parou, o estado de embriaguez dele o tornando incomumente assertivo. "Onde a gente tá indo?"
O rosto da Alicia estava ligeiramente corado. Era estranho; toda vez que ele tocava nela, ela reagia forte. Ela sentou no colo dele.
"Burlington House."
O Cavendish sorriu, com o queixo roçando o peito dela. "Tudo bem", ele disse. A esposa dele tava voltando pra casa dele. Ele tinha esquecido que isso só tava dentro do limite de três dias.
Eles desceram da carruagem como se nada de errado tivesse acontecido. A Alicia estava um pouco sem fôlego quando ele a conduziu pela mão, entrando sorrateiramente por uma porta lateral.
O Conde e a Condessa de Burlington, estando em idade avançada, se aposentaram cedo. Os pais do Cavendish eram notórios por suas noites longas. Eles subiram para o terceiro andar, e no patamar, eles não conseguiram mais se conter, caindo num abraço apaixonado.
"Eu sabia", ele sussurrou, tremendo de excitação. Os dentes dele roçaram gentilmente a bochecha dela. Ele abriu a porta, puxando ela para o quarto dele. Ele pegou a cintura dela e fechou a porta com a outra mão.
Ela amava o cheiro de álcool nele, os lábios agora ainda mais vermelhos e os cílios escuros dele. E uma força irresistível.
O joelho dele pressionou o interior da coxa dela, a mão dele repousando na porta. Apesar da impaciência dele, ele preparou ela pacientemente. Ele beijou ela enquanto desabotoava a gola dela, os olhos dele fixos na pele branca dela como a neve.
Ele a levou para a cama, as mãos dele envolvendo as pernas dela, o som farfalhante das roupas deles enchendo a sala.
A Alicia pensou no que tinha dito hoje, que era "passável."
Ela só conseguiu alcançar, as mãos dela explorando os músculos firmes das costas dele por baixo da camisa.
Depois daquele momento, ela engoliu um suspiro.
Em meio à subida e descida, ele agarrou a mão dela, guiando ela para a bochecha dele. "Você não consegue viver sem mim, Alicia, consegue? Você não consegue viver sem mim." Ele tava ansioso e inseguro, mordendo o lábio com esperança.
Segurando a cintura dela, ele perguntou de novo e de novo.
Ele limpou ela, vendo que ela pertencia só a ele. Impressões digitais vermelhas na pele leitosa dela. Ela se inclinou preguiçosamente, com a perna no corpo dele. As sobrancelhas dela relaxaram, e ele beijou os lábios dela de novo e de novo.
Ele queria ouvir ela elogiando ele, ou prometendo nunca mais abandoná-lo.
A Alicia traçou os contornos do rosto dele. Ela ponderou o casamento peculiar deles. Ele sempre queria estar perto dela, era assim que os casais jovens eram? Aquelas patronas, a maioria das quais estavam casadas há muitos anos, tinham gradualmente se cansado dos maridos e ganharam liberdade depois de dar à luz um herdeiro.
"A gente vai dormir junto?" ele perguntou, acariciando o ombro dela, e tentando fazer ela tocar o peito dele, ela gostava de beliscar.
Depois das emoções da paixão, a Alicia normalmente ficava dominada pela fadiga e uma sensação de distanciamento. "Eu volto em um tempo." A Alicia não queria ouvir as conversas dos empregados. Dormir no mesmo quarto era vulgar e rude, e mais cedo ou mais tarde toda Londres ia saber.
"Tudo bem." Ele não conseguia convencer ela. Os dias utópicos da lua de mel deles tinham terminado de vez.
"Você consegue andar?" ele perguntou com preocupação.
A Alicia fechou os olhos.
"Eu vou dormir do lado", ele murmurou. Ele não podia dormir com ela, então ela ia deixar ele ficar aqui.
Ela puxou ele, ele hesitou, e então sorriu. Ele ficou com ela um tempo. Ela gostava de deitar no corpo dele, subindo e descendo com a respiração dele.
Ela dormiu.
Ele carregou ela para o quarto ao lado e beijou a testa dela. Então ele trocou a roupa de cama com obediência.
Mas isso não impediu toda a Burlington House de saber, no dia seguinte, que os recém-casados tinham dividido o quarto.
A atmosfera na mesa do café da manhã tava meio tensa. Os Burlingtons e os Cavendishes ficaram aliviados, descartando uma série de conjecturas como doenças ocultas e falta de intimidade. Pelo menos não era tão ruim.
O Cavendish corou um pouco, mas a Alicia tava relaxada, totalmente indiferente.