Capítulo 59. O Anjo
Como já foi dito, a família Cavendish sempre pareceu ter talento pra alguma coisa. O do Joe era pra ciência, enquanto a Vicky – bem, ela era uma prodígio musical.
Ela adorava as artes; tocava piano, dançava balé, e a vida dela coincidiu, de um jeito incrível, com a vibe apaixonada da era Romântica. Ela curtia a vibe de Viena e Paris, estudando com um monte de mestres: Chopin, Liszt, Schumann – as verdadeiras joias que formavam o tesouro da música Romântica. A Alicia tinha um carinho especial pelas composições de piano do Chopin, que, na real, era um motivo forte pra eles passarem um tempão em Paris, quando dava.
A Vicky, mesmo na adolescência, já mandava ver em apresentações públicas e composições. Cantava em óperas, dançava e, que nem dá pra acreditar, defendia a atuação como uma profissão pra mulheres. Era quase impossível imaginar que os pais dela, de todos, iam apoiar essas paradas, deixando ela ser tão… pública. Depois de 1840, ela virou uma das mulheres mais fora da caixa, rebeldes e lendárias da época.
A Vicky, sem dúvidas, era uma gata. O cabelo preto como a asa da corva, que tava na moda na época – depois de mais ou menos 1820, a onda do cabelo loiro tinha sumido, e cabelo escuro era considerado melhor pra realçar a palidez elegante de uma mulher – combinava perfeitamente com a moda. Mas a Vicky nunca foi de ser discreta. Ela ria com uma vontade que, sei lá como, nunca tirava a graça dela. Alta e impactante, com uma certa ousadia na testa, e com umas pernas que pareciam não ter fim – quando ela fazia peças do Shakespeare, ela, escandalosamente, usava calças. A versão dela de Hamlet tinha uma beleza solene e trágica.
A imagem dela aparecia em um monte de pinturas acadêmicas, cercada por um monte de fãs e pretendentes. Ela nunca escondeu o charme dela, nem um pouco modesta, mas orgulhosa e completamente livre. Ela fazia o que dava na telha, recebendo um príncipe com a mesma facilidade que um andarilho sem grana. Os olhos dela eram de um verde frio e claro, que lembrava as florestas de pinheiros grandes e cheias de vento do Norte.
Quando ela fez dezoito anos, o Príncipe William, o segundo filho da Rainha Charlotte, ficou caidinho por ela. Pelo Ato dos Casamentos Reais, os casamentos dos membros da família real precisavam da permissão do monarca. Os príncipes normalmente tinham que casar com princesas do mesmo nível, e isso era ainda mais importante pro William, que era o segundo na linha de sucessão ao trono.
A Rainha Charlotte deu sinais de que ia ceder. A Vicky, ou melhor, Lady Georgiana, tinha muito apoio do povo, e, afinal, já tinha o exemplo de uma princesa alemã na família. A questão era que as… indiscrições… dela não ajudavam muito a manter a imagem digna da Família Real. Os jornais fervilhavam com especulações sobre a possível união, com mais gente apoiando uma nobre britânica do que uma princesa europeia.
Mas a Vicky, não quis saber. A declaração dela foi: "Não preciso casar com um príncipe pra provar nada." Ela não sentia nada pelo Príncipe William, considerando ele só um amigo da família.
A quantidade de corações que ela partiu foi, pra dizer o mínimo, enorme; teve gente que brincava que dava pra ir da Inglaterra até a Europa toda. A Vicky sempre teve um certo desprezo juvenil, uma frieza. Mesmo com vinte e seis anos, muito tempo depois da irmã mais nova dela ter casado, ela continuava solteira.
Ela adorava viajar, completamente de boa. Desenvolveu uma paixão por arqueologia, ficando em ruínas históricas, registrando tudo com pincel e tinta.
Daí, a Vicky fez uma parada que deixou todo mundo de queixo caído: casou com um americano.
Como uma mulher de uma família tão nobre ia casar com aquela… aquela selvageria sem civilização? Ele não tinha título de nobreza, nem nada, nem descendência da nobreza francesa; no máximo, era descendente de quem tinha chegado no Mayflower. Mas comparado às loucuras da vida dela, isso talvez não fosse tão surpreendente.
Eles tinham uma conexão intelectual forte, e ela virou uma grande defensora do fim da escravidão do outro lado do oceano. As viagens dela levaram ela pro Extremo Oriente, pra Índia, pra América do Norte, e até pras terras distantes do Oriente.
Ela casou três vezes na vida.
A primeira foi com aquele americano, herdeiro de uma família importante de Nova York. Ele era Whig, claro – um Whig americano, tipo, um republicano de carteirinha. Pouco depois do fim da Guerra Civil Americana, o marido dela morreu. Ela ficou triste, mas não por muito tempo. Voltando pra Europa, ela casou de novo, dessa vez com um príncipe alemão.
Ele era muito bonito, com traços alemães clássicos. Colecionador de arte, amante da música, com um gosto impecável, ele era uns dez anos mais novo que ela, e talvez um dia tivesse admirado a famosa Lady Vicky de longe. A relação próxima dela com o Rei Luís II da Baviera, embora totalmente platônica, causou um baita problema pro marido dela.
A Guerra Franco-Prussiana levou à separação do casal. O príncipe morreu de doença, deixando tudo pra ela.
Depois, ela foi morar na Rússia, atraída pela música folclórica e pelo balé clássico – tipo Tchaikovsky e outros. Ela aceitou o pedido de casamento de um jovem Grão-Duque russo, que, na real, era parente distante por causa do casamento do irmão dela. O casamento deles, claro, foi secreto; ela não se converteu ao cristianismo ortodoxo. Depois que ela morreu, ele passou, parece, o resto da vida lembrando dela.
No primeiro casamento dela, nasceram filhos.
A Vicky continuou com a energia a mil a vida toda, que nem o pai dela. Ela parecia valorizar o afeto, mas não vivia só por isso. Ela era musicista, arqueóloga, historiadora, jornalista. Defendeu a aprovação de várias leis que promoviam os direitos das mulheres. Morreu com uns oitenta e poucos anos, vendo as mulheres britânicas ganharem o direito de votar pela primeira vez.
"Eu vi, com os meus próprios olhos, o mundo daqui a cem anos", ela escreveu quase no fim da vida.
Depois que a Vicky nasceu, a Alicia e o William Cavendish tiveram uma série de perdas pesadas.
Em 1825, a Lady Burlington, a avó do Cavendish, morreu em Paris aos setenta e quatro anos. Os vários filhos e netos dela, que já tinham casado e tido filhos, se reuniram perto da cama dela.
O Lord Burlington, com setenta e seis anos, segurou a mão dela com força. Ele encostou a cabeça na cama, os olhos deles se encontraram, e ela fechou os dela. O Conde parecia estar bem; com a idade dele, parecia entender que a despedida era inevitável.
O Cavendish, que tinha sido criado pelos avós, sempre foi meio que um moleque, mas tinha a maior paciência e amor pela família. A mão da Alicia pegou a dele.
"A primeira vez que eu vi a sua avó", o Lord Burlington começou, com a voz grossa, "eu ouvi todo mundo falando, 'Ah, lá está ela, Miss Elizabeth Compton'." Ela era a única filha do Conde de Northampton, órfã e herdeira de uma grana alta. Todo mundo especulava qual ia ser o casamento vantajoso que o tio dela ia arranjar, talvez com o recém-nomeado Duque de Devonshire.
O Lord Burlington, que também ficou órfão cedo, cresceu com os filhos do tio dele. "Eu não resisti e fui dar uma olhada", ele continuou, "pra ver como era essa garota, que ia virar a mulher do meu irmão. E, de cara, me apaixonei por ela."
Ela tinha dezessete anos, ele tinha dezenove. Os olhos deles se encontraram, e esses dois jovens se apaixonaram na hora e pra sempre.
O irmão dele, o bisavô da Alicia, aprovou o casamento. Ele agradeceu por ter um título e grana suficiente, e o tio dela, depois de pensar um pouco, finalmente concordou. Eles casaram rápido pra caramba.
"Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida."
A frase que o William Cavendish sempre repetia, veio dali.
Quatro meses depois, o velho Conde morreu.
A perda de quem a gente mais ama é a pior dor. Os filhos e netos deles abaixaram a cabeça em luto.
A Lady Burlington deixou a propriedade dela pro segundo filho e pra filha dela. Ela tava feliz por ter vivido pra ver o neto mais velho casar e ter filhos. Por aqueles oito anos, ela ficou na cadeira dela, enrolada em um cobertor, vendo as duas crianças brincarem no gramado. O velho Conde tava do lado dela. Eles tinham sido companheiros a vida toda, e sempre foram felizes.
"Nós vamos ficar juntos pra sempre", o William Cavendish declarou, com a voz cheia de uma certeza inabalável. Ele tinha trinta e nove anos, e a Alicia tinha feito trinta; ele sentia a passagem do tempo forte.
O pai do Cavendish herdou o título e as terras, virando Lord Burlington, e ele mesmo passou de Sr. Cavendish pra Lord Cavendish.
O bisavô da Alicia e o Lord Burlington eram amigos de longa data. Ele foi no funeral, parecendo sentir que a hora dele tava chegando.
Aquele dia, inevitavelmente, chegou.
Em 1827, o Marquês de Stafford, aos setenta e cinco anos, chegou ao fim da vida.
A Alicia chorou tanto que quase desmaiou; os baques foram quase demais pra ela aguentar. Todas as lembranças – os avós dela, a Rainha Charlotte, a tia-avó dela, Lady Salisbury – a morte deles tinha apagado o passado, deixando uma dor insuportável e persistente.
"Não chora por mim, filha", ele sussurrou, estendendo a mão pra secar as lágrimas dela, mas a mão dele não conseguia mais subir. As duas alianças de casamento, no dedo mindinho dele, tinham perdido o brilho final. Elas iam ser enterradas com ele; a mulher dele, uns quarenta anos antes, tinha sido enterrada, sozinha, no túmulo da família. Oito anos depois, o filho mais velho deles tinha se juntado a eles. Ele tinha esperado tempo demais.
"Você tem que viver, Granville, promete pra mim. Jure pra mim, e pelos nossos filhos." O rosto dela tava pálido, os lábios tremiam, e ela segurou a mão dele.
"Pai", a Duquesa de Devonshire chorou, agarrando a mão do pai dela. Ela chorou, lembrando como, trinta e dois anos antes, ela tinha dado adeus ao irmão morrendo.
"Não é culpa sua, Anne. Viva bem, não faça nenhuma besteira, irmã", ele tinha pedido pra ela antes de morrer.
Era tudo muito doloroso.
O Marquês de Stafford morreu com um sorriso no rosto.
Com a permissão do Parlamento e a aprovação do Rei George IV, o Marquês recebeu o título adicional de Duque de Sutherland – usando o título e as terras da mulher dele. Como o primeiro Duque da nova criação, por costume, o título, junto com todas as propriedades, podia ser herdado por uma filha.
Aquela grana toda podia, então, ser passada pela linha feminina, e todo mundo se impressionava com a perspectiva de uma Duquesa dessas. Mas a Duquesa de Devonshire adiou o título, decidindo não usar pra geração dela. Isso significava que, depois da morte dela, a única filha dela, Lady Alicia, ia ser investida como a segunda Duquesa de Sutherland.
Numa Inglaterra onde os títulos de nobreza normalmente só eram herdados pelo filho mais velho, os descendentes dela não só iam herdar o título de Duque de Devonshire do lado do pai, mas também o título de Duque de Sutherland do lado da mãe. Isso ia ser passado pro segundo filho, que, com a permissão real, ia mudar o sobrenome pra Sutherland-Levison-Gower-Cavendish.
Resumindo, essa geração da família Cavendish ia ter dois Ducados.
Nesse momento, quando o poder e o status da família estavam subindo aos poucos, com destino a continuar no auge pelo próximo século, nasceu a filha mais nova.
Ela foi o resultado da tristeza profunda da mãe dela. Os sentimentos da Alicia pelo bisavô dela eram muito fortes; ele era um parente próximo que tava com ela desde criança. A morte dele, vinte anos depois da avó dela, foi como botar gelo em cima da neve. Apesar de já ter trinta e dois anos, aconteceu numa época em que os dias de juventude tavam indo embora, e os mais velhos que davam abrigo e proteção também tavam indo.
Ela e a mãe se apoiaram, sofrendo a perda de quem elas mais amavam. A Duquesa de Devonshire manteve a força de sempre, mas as lembranças da juventude dela, inevitavelmente, a dominaram. O Duque e o William Cavendish sentiram a dor deles forte. Eles planejaram acompanhar as mulheres deles numa viagem pras Terras Altas da Escócia. Eles queriam fugir de lugares familiares, mas não conseguiram não relembrar.
E, depois de ir ao funeral, a Alicia descobriu que tava grávida.
Pouco tempo depois da morte do bisavô dela, uma nova vida chegou.
Anne Elizabeth Granville – esse nome carregava tanta saudade e lembrança.
Ela era uma garota loira, com olhos azuis profundos – olhos que pareciam com os do trisavô dela, que ela nunca conheceu.
Chamaram ela de Angel.
Ela nasceu antes do tempo, os chorinhos dela eram fracos, tão frágeis; a família dela ficou preocupada que ela fosse embora, que ela voltasse pro Céu.
Mas ela sobreviveu.
Ela sempre foi o maior conforto pros pais e avós dela. Ela escreveu o último capítulo da história dessa família.