Capítulo 36: Um Ciúme Muito Irrazoável
As alegrias passageiras do matrimônio, ai, logo deram lugar a uma verdade mega inconveniente. Porque ninguém consegue viver no mundinho social de Londres sem uma certa dose de socializar, e o Sr. William Cavendish agora tava passando pela provação de ver a esposa dele cercada por um bando de homens, tipo, super interessados nela.
Um marido generoso, ele não era.
Sério, o Cavendish tava completamente pirado. Antes do casamento, ele tava nem aí pra essas coisas. Agora, depois do casório, tava consumido por um ciúme tão forte que parecia que ia talhar o próprio creme do chá dele.
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No baile do Príncipe Regente na Carlton House, ele não aguentou mais. Precisava, tipo, achar ela. A companhia dos homens casados não tinha graça nenhuma, ainda mais quando a esposa dele tava por aí, provavelmente encantando os sapatos de algum garotão querendo impressionar.
E aí ele viu ela. Uma visão, com aquele cabelo loiro brilhante e veludo preto, ela conversou rapidinho com um mordomo e sumiu discretamente do salão de baile. Intrigado, e com um pé atrás, ele foi atrás.
Num canto mais reservado do jardim, protegido por uma fonte, estátuas e umas plantas estratégicas, ele encontrou ela. E com ela, um cara, que virou com uma cara de ansiedade e pegou na mão da moça.
O Cavendish franziu a testa. Ele devia, tipo, intervir, acabar com esse encontro secreto. Mas uma cena, ele sabia, só ia estragar a reputação da esposa dele.
Então ele ficou ali, observando os dois trocando umas palavras apaixonadas. Depois de pensar um pouco, ele decidiu continuar escondido, pra poder ouvir a conversa.
"Que que tá rolando, Lord Percy?"
"Eu não aguento mais, minha senhora. A gente se conhece há uns doze anos. Certeza que você entende o tanto que eu gosto de você... E o seu convite hoje à noite..."
"Quê?"
"Você não diz que não sente nada pelo seu marido?"
"Digo."
Cavendish não aguentou mais. Com a cara fechada, ele virou e foi embora, pisando duro.
Alicia, enquanto isso, tava super confusa.
"O que eu sinto por você é exatamente o mesmo, Lord Percy. Comparando, eu sempre vou escolher meu marido." Ela era direta, sem rodeios.
O rapaz ficou branco, parecia que ia desmaiar.
"Então, por que você me chamou aqui, Lord Percy?" Alicia perguntou.
"Quê?" O rapaz de cabelo loiro parecia realmente chocado, o coração partido dele, por um momento, esquecido.
Depois de uma conversa rápida e confusa, até eles foram obrigados a admitir que alguma coisa tava errada.
Lord Percy, agora super envergonhado, deu um tchau rápido.
Quem tinha feito essa brincadeira de mau gosto, ou se era só um mordomo desinformado, continuou sendo um mistério.
Cavendish observou Alicia voltar pra festa.
Ele fingiu que tinha acabado de chegar. "Seu champanhe, meu amor." Ele entregou pra ela com um sorriso meloso.
Alicia aceitou, o encontro estranho já sumindo da cabeça dela.
"Vai dançar? Acho que a próxima é uma quadrilha francesa."
Cavendish apertou o copo com mais força.
"Vou adorar."
Ele conseguia perdoar qualquer coisa. Ela era, afinal, a esposa mais querida dele.
Alicia, no entanto, sentiu que algo tava errado. O marido dela parecia distraído, quase tropeçando na dança.
"O que tá te incomodando?" ela perguntou, com uma ruga delicada na testa.
Ele, o dançarino mais top, tava gaguejando.
Ele se recuperou rapidinho, sem querer estragar a diversão dela.
Depois do baile, bem depois da meia-noite, ele levou ela pro carro. Lá dentro, ele pegou na cintura dela, puxando ela pro colo dele pra um beijo que era mais punição que paixão.
Alicia ficou sem fôlego quando ele começou a desabotoar o vestido dela, as mãos dele passeando por baixo, sentindo as curvas da pele dela, que tava quente.
Essa paixão inesperada surpreendeu ela, sim, mas também acendeu uma faísca de empolgação dentro dela.
Ela observou o comportamento estranho do marido com bastante interesse.
Ela com certeza vai me odiar por isso.
William Cavendish não ligava mais. Ele tava louco de ciúme, a fachada de cavalheiro dele, em mil pedaços.
Essa, então, era a única forma de lembrar ela que ela pertencia a ele.
Mas Alicia, numa atitude que surpreendeu até ela mesma, abraçou o pescoço dele e se mexeu, se ajeitando mais firme no colo dele.
"Continua," ela murmurou, os olhos brilhando de um jeito curioso.
Ela sempre teve essa habilidade incrível de fazer ele fazer o que ela quer.
Cavendish gemeu, respirando com dificuldade enquanto agarrava a panturrilha dela, os dedos apertando tanto que deixaram marcas vermelhas na pele dela.
O carro era chique, com almofadas macias nas paredes.
Alicia se encostou nelas, curtindo essa sensação nova. Na luz fraca, ele se jogou em cima dela, os beijos dele selvagens e desesperados.
Ela pegou no rosto dele com as mãos, os dedos passando pela linha da bochecha dele até pararem.
"Você tá chorando?" Ela enxugou uma lágrima do cílio dele.
Tava molhado. Ela levou o dedo aos lábios, sentindo o sal.
Ele olhou pra ela, sem piscar.
"Você tá chorando," ela confirmou.
"Alicia." Ele encostou ela no canto, os corpos tão próximos que nem um sussurro passava entre eles.
"Eles não são nada comparados a mim, são?"
Mesmo sem ter ideia de quem eram "eles", Alicia beijou as lágrimas dele, sentindo o tremor que passou por ele, o jeito que os cílios longos dele piscaram e fecharam no escuro.
Mesmo assim, ela ofereceu consolo a ele. "Não."
"Você gosta mais de mim, não gosta?" Ele perguntou, desesperado por uma resposta.
Ele pegou os dedos dela que tavam passeando, levando eles aos lábios dele.
O calor, a umidade envolveram ela, a forma suave com que ele chupava e mordiscava enviando arrepios pela espinha dela.
"Chora mais," ela mandou.
"Quê?" Ele mordeu o dorso da mão dela, como se quisesse deixar uma marca, mas hesitou, os dentes dele parados na pele dela.
Uma lágrima quente caiu na mão dela.
Alicia se inclinou, os olhos deles se encontrando, os cílios longos dele emaranhados.
A mão livre dela passou pela linha suave da mandíbula dele.
"Sim, eu gosto mais de você."
Cavendish sentiu a mão dela descer, um toque leve como uma pena que tirou o fôlego dele.
Ele foi jogado pra trás contra as almofadas macias.
Ele marcou o pescoço dela, um espelho do que ela tava fazendo com ele.
Enquanto Alicia prendia ele, ele queria se rebelar, fazer alguma coisa, qualquer coisa, pra se libertar.
Mas ele adorava isso.
O cabelo loiro dela caindo, a curva da cintura dela, a pele clara das costas dela. Nisso, pelo menos, eles eram iguais.
Ela ia chegar perto, até os olhos deles se encontrarem, e ele só ia ver ele mesmo refletido ali.
Cavendish mordiscou o lóbulo da orelha dela, os movimentos dele alimentados por um turbilhão de frustração e confusão, as lágrimas escorrendo pelo rosto dele.
Por que ele era tão fraco, tão indefeso perto dela? Ele não conseguia fazer nada com ela, ou, na verdade, nada que ele fazia parecia machucar ela.
Alicia empurrou o peito dele, as mãos dela passeando pra cima e pra baixo.
Ele chorava muito fácil. Isso deixava ela louca de alegria. Nisso, pelo menos, ele era o preferido dela entre os homens.
"Will," ela sussurrou, testando a chave que destravava a contenção dele. Ela chamou o nome dele, a voz dela um ronronado rouco no ouvido dele.
Ele ia parar, os olhos fechando, uma entrega leve como uma pena.
"Droga, Alicia." Ele beijou ela, mas ela mordeu a garganta dele.
Ela marcou o corpo dele, as unhas dela deixando rastros longos pelas costas dele.
Ele pegou na cintura dela.
Eles deixaram suas marcas indeléveis um no outro.
Na manhã seguinte, Alicia olhou pro reflexo dela, pra constelação de marcas vermelhas que enfeitavam o pescoço dela.
Ela franziu a testa.
A camareira dela, Beth, mesmo acostumada com essas coisas, ainda ficou um pouco vermelha.
Um vestido de gola alta tava fora de cogitação.
Depois de pensar bastante, elas decidiram por um penteado meio preso, meio solto, enrolado mais forte do que o normal pra esconder um pouco.
Mas tava claro que ela não ia sair naquele dia.
Alicia cancelou os compromissos dela.
Ela deu um aceno curto pra prima dela, mas sem gentilezas.
William Cavendish não tinha dormido. Isso não era novidade; ele já tava acostumado com essas coisas.
Ele procurou Alicia, com a intenção de pedir desculpas. Ele tinha, pensando bem, achado o ciúme dele exagerado.
Aí ele lembrou das palavras dela na noite anterior, "Eu gosto mais de você."
E o jeito que ela tinha sussurrado, "Will." Um sorriso apareceu nos lábios dele.
Ele não recebeu boas-vindas, no entanto. Alicia dispensou ele na hora.
Mais tarde, enquanto ela tava na sala de estar, ela reclamou pros pais dela, "Eu odeio o Will."
Sem perceber, ela tinha adotado uma nova forma de se referir a ele.
"O que foi, meu amor?" O Duque e a Duquesa trocaram olhares preocupados.
Ela levantou uma parte do cabelo, mostrando as marcas vibrantes no pescoço dela, com uma expressão despreocupada.
"Não posso usar meu penteado preferido."
O Duque e a Duquesa ficaram sem saber o que fazer.
Eles não tavam mais preocupados com o relacionamento da filha deles com o genro.
A Duquesa examinou as marcas com um suspiro, enquanto o Duque mandou um mordomo buscar o médico da família, na esperança de encontrar algum remédio.
Cavendish tava sentado no clube dele, perdido em pensamentos.
Ele lembrou da noite anterior, mas o que ele podia fazer? Ele tinha que aceitar a realidade da situação.
Francis se aproximou, fazendo um comentário provocador. "Cavendish, a gente não te vê mais por aí."
Ele e a noiva dele tavam sempre juntos, nunca se desgrudavam, nunca separados.
Mas, mesmo assim.
William Cavendish não respondeu. Ele notou Lord Percy entrando na sala, com uma cara pior do que a dele.
O olhar do homem era complexo, indecifrável.
Cavendish zombou.
Ele sentou um pouco, os dois homens se encarando na sala.
Então ele levantou, tirou a luva e jogou no outro cara.
"Lord Percy, eu te desafio para um duelo."
Um suspiro coletivo preencheu a sala.
William Cavendish balançou a cabeça, a imagem sumindo como fumaça.
Duelo por causa do amante da esposa dele, criar um escândalo que com certeza ia arruinar a reputação dela?
Ele era um marido sensato.
Ele foi para o campo de tiro, em vez disso.
Na galeria do clube, ele carregou a arma dele, de novo e de novo.
Ele mirou no alvo, imaginando que era o Henry Percy.
Se o cara se aproximasse, ele com certeza ia matar ele num duelo.
Ele raramente viu Lord Percy depois disso.
Com certeza, o cara devia ter continuado as visitas dele, conversando educadamente sobre chá, os dois se encarando de lados opostos da sala.
Ele não podia mostrar que se importava, pra não dar satisfação pro cara.
Mas um foi, e outro chegou.
Visconde Belgrave, de cabelo escuro e olhos castanhos, com pele clara e jeito de intelectual, tava conversando baixinho com Alicia.
Mais tarde naquela noite, ele perguntou sobre isso.
Alicia virou, explicando que ela e o Visconde tavam colaborando numa tradução de um texto de cálculo, pra ser a primeira edição em inglês.
Ela mostrou pra ele o manuscrito encadernado em couro.
Claro, ele ia apoiar ela. Ele sabia que o Belgrave era um matemático brilhante, quase um gênio na área.
Richard Grosvenor. Ele tinha uma disposição agradável, se bem que um pouco calado. Cavendish achava ele tolerável.
Saindo do escritório, eles trocaram um aceno de reconhecimento.
Cavendish entrou, encontrando Alicia concentrada no trabalho dela.
As marcas no pescoço dela tinham sumido, assim como a paixão deles parecia existir só no escuro, desaparecendo com o amanhecer.
Ele acariciou o pescoço dela.
"O que foi?"
Cavendish parou.
"Nada." Ele queria saber o que ele significava pra ela.
Ele era só uma conveniência?
Mas até o menor sinal de carinho dela era suficiente pra manter ele ali.
"Como fazer pra ter certeza que a esposa só tem olhos pra você?" Cavendish perguntou uma vez pro primo dele, bêbado, fazendo essa pergunta absurda.
"Não tem como. É impossível."
"Ah."
"Você não ia se cansar de ver a mesma cara todo dia?"
"Ia?"
Ele voltou pra casa e estudou ela com atenção. Talvez tivesse um pouco de verdade nisso.
Alicia observou o olhar vazio do marido, pensando que talvez essa aflição ia passar quando ele tivesse mais pra fazer em dezembro.
Ela finalizou a tabela de conteúdos pra tradução, deixando o manuscrito de lado.
"Alicia, como eu tô hoje?"
Ela olhou pra cima.
Cabelo escuro, olhos azuis, impecavelmente vestido, mas a gravata dele tava meio alta.
"Muito bem."
"Não, eu quero dizer, tô bonito?"
"Bonito o suficiente," Alicia respondeu distraída, a atenção dela já voltando pro trabalho.
"Você nem me vê?"
Ela filtrou a pergunta dele automaticamente.
"Passável, acho eu."
Ele tava cada vez mais esquisito.
"Por que você tá perguntando?"
Cavendish mudou de assunto.
"Você nunca gasta meu dinheiro," ele reclamou.
Maridos normalmente revisavam as despesas mensais das esposas, mas Alicia mantinha as finanças dela separadas.
"Eu tenho o meu." Só a mesada dela era mais do que ela conseguia gastar, e as despesas de vida dela não vinham da conta dela.
Alicia não tinha vícios, como jogos. Os gastos dela por ano raramente passavam de dez mil libras, a maior parte em livros e equipamentos científicos.
Ela tava satisfeita com pouco.
Cavendish brincou com uma trança do cabelo dela, um sorriso nos lábios dele quando ele notou a testa franzida dela. "Continua com o seu trabalho, então."
Ele chegou na porta, aí parou, reunindo coragem.
"Alicia!"
O que foi agora?
Alicia largou a caneta, observando ele parado contra a luz, os ombros largos e as pernas longas, a elegância da mandíbula dele, aquela curva familiar dos lábios.
Ela admirava muito o cabelo escuro e os olhos azuis dele.
Dois anos atrás, quando ela ainda tava na escola, ela e as amigas dela tinham debatido qual homem era o mais bonito, o mais charmoso.
Alicia tinha escolhido o primo dela.
"Ele tem um rosto muito bonito."
A combinação perfeita de bonito e formoso.
Ela nem imaginava que ia conhecer tanto sobre ele, e tantos outros parentes dele.
Olhando pra aquele rosto sereno, Cavendish de repente percebeu que nenhuma resposta importava.
"Boa noite, meu amor!"
Ele deu um tchauzinho e fechou a porta.
Alicia apoiou o queixo na mão, imaginando o que ele queria dizer.