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A vibe tava estranha.
O Rey já tinha botado os óculos de marca de volta, logo depois daquela frase seca que saiu dos lábios grossos dele uns segundos atrás. De canto de olho, o cara ficou olhando a Luana de perto, tipo, se escondendo atrás do espelho de vidro.
A Luana respirou fundo. Mandando uns passos lentos pra chegar na cadeira vazia bem do lado do Rey, a mulher, tipo, não tinha outra opção. Se jogando pra sentar lá, a Luana soltou o ar com força.
Pra onde a gente tá indo?
Ela tava doida pra perguntar, mas uma olhada pro Rey, que já tinha virado a cara pro outro lado, desanimou a Luana.
O Rey, de verdade, não tava escondendo os sentimentos dele, que eram sentimentos de ódio pela mulher que agora era a esposa dele.
A Luana não conseguiu evitar de apertar os dedos no colo. A Mare não aparecia mais, nem o Jovi, que devia estar do lado do Rey antes.
A Luana não sabia se a Mare tava nesse avião ou não, e de novo, ela não teve coragem de perguntar.
A voz do Piloto veio no megafone, falando que o avião ia decolar nos próximos dois minutos.
O coração da Luana acelerou ainda mais, com todo tipo de coisa passando na cabeça dela. As caras da Madame Collins e da Beatriz se revezavam aparecendo no canto do olho dela, e a menina tava ficando cada vez com mais medo de encarar o destino dela pela frente.
Ela rezou em silêncio, um monte de vezes, pra que o Rey pelo menos tivesse a bondade de não aliená-la no primeiro dia dela como esposa.
"Por favor, pelo menos não me deixe em outro lugar", a Luana sussurrou pra ela mesma em silêncio.
O avião não voou muito no ar. A Luana quase dormiu depois de ficar olhando pro Rey várias vezes, que não tava nem aí, mas ela não dormiu porque a voz do Piloto foi ouvida de novo.
Dessa vez, a Luana foi informada que eles iam pousar em dez minutos, e ela checou a pressa o relógio vagabundo no pulso direito.
Com os olhos arregalados, ela contou o tempo, que deu trinta minutos. Mas pareceu uma eternidade, porque nem ela nem o Rey tinham falado nada desde antes.
A Luana olhou pro lado de novo. O Rey ainda tava com a cabeça virada pro outro lado, talvez de propósito, não querendo ver a Luana, mesmo que eles estivessem bem perto.
A Luana queria parar de respirar durante a viagem, porque toda vez que ela puxava oxigênio, o perfume másculo do Rey também entrava pela fresta das narinas dela. Ela tava se tremendo em silêncio, mas por dentro tava elogiando como o gosto do Rey era, tipo, outra coisa.
Até o perfume dela era quase viciante, e a Luana amava isso.
A voz do Piloto foi ouvida mais uma vez, seguida pelo Rey, que agora tava se mexendo devagar pra corrigir a posição dele. A Luana observou em silêncio e deu um pequeno suspiro quando o Rey olhou pra ela com firmeza.
"Endireita a sua cadeira", o Rey falou, seco.
A Luana balançou a cabeça de leve. Mordendo o lábio inferior, ela falou baixo então.
"Já chegamos lá?"
O Rey lançou um olhar furioso. Tirando os óculos e guardando no bolso da camisa, o Rey foi ouvido suspirando.
"Você não ouviu o que o Piloto falou? Tá surda? Ou não entende alemão?"
Foi uma provocação, e por algum motivo, a Luana não curtiu. Não parecia que ela tinha feito nada de errado, e a atitude do Rey tava demais.
"Lógico que eu ouvi", a Luana disse, aumentando o tom de voz. "Eu entendo alemão muito bem, caso você esteja curioso. Seja Hochdeutsch ou Standardeutsch, eu entendo tudo. Só tô garantindo, porque você tá parado igual uma estátua. Pra onde nós estamos indo? Ninguém responde minhas perguntas, e parece que você não acha que eu existo!"
Ela não sabe o que deu nela dessa vez. Julgando pela árvore genealógica, ela deveria estar ajoelhada pro Rey agora. Pra implorar perdão pela audácia dela, por levantar a voz na frente de um nobre muito respeitado.
Mas o que a Luana sentiu não foi isso, porque agora um sentimento de alívio encheu o coração dela. Ela não queria que o Rey a visse como alguém que não tinha vida. Ela não queria que esse Rey arrogante a subestimasse. Ela queria provar que também podia ser sarcástica e fazer uma voz alta.
O Rey rosnou com a mandíbula travada. Nenhuma nobre tinha gritado com ele antes, especialmente agora que ele tava sendo gritado por uma menina tão nova. A alma máscula do Rey se rebelou, com o orgulho dele sendo completamente manchado agora.
Droga, essa mulher!
"Você!" o Rey rosnou, baixinho.
A Luana deu um pequeno suspiro, inconscientemente se afastando alguns centímetros. Os olhos dela arregalaram quando ela viu o Rey encarando ela com um olhar afiado, e o cara parecia estar muito bravo.
"Como ousa..."
"Eu também sei falar", a Luana cortou rápido. Sem dar espaço pro Rey continuar a frase dele, a mulher já tinha entrado primeiro.
"Escuta, Sr. Rey. Eu não queria estar aqui, pra você saber", a Luana continuou. O Rey já tava bravo, então vamos ficar bravos. "Eu tô tentando salvar o bom nome de dois, incluindo o seu, e você tá gritando comigo um monte de vezes desde então. O que eu tô fazendo de errado? Eu também não quero estar aqui! Eu também preferia ir pra casa se eu tivesse essa escolha!"
Os olhos do Rey arregalaram direitinho. Os dedos dela apertaram com força sem querer, fazendo as juntas ficarem brancas involuntariamente. A voz dessa jovem era muito irritante pros ouvidos, mas o Rey não podia negar porque o que essa falsa Sra. Lueic falou era, de fato, verdade.
Porque a Luana é a falsa.
Porque ela não devia ser a que segura o título de Sra. Lueic.
Porque ela devia ser...
A Comissária de bordo chegou com um sorriso no rosto, fazendo um gesto de respeito pro Rey e pra Luana, que ainda estavam se encarando com ódio.
Sorte que a Comissária de bordo chegou na hora certa, porque agora ela tava ajudando a quebrar a atmosfera hostil borbulhando entre os dois passageiros.
"Preparem-se para a aterrissagem, Senhoras e Senhores. Vou abrir a janela agora." A voz da Comissária de bordo encheu o quarto, seguida pela ação do Rey, que agora escolheu reafirmar a posição dele no assento.
A Luana também escolheu desviar os olhos, prestando atenção na janela do avião que a Comissária de bordo tinha começado a abrir.
Devagar, a beleza da Luana encontrou uma visão familiar, especialmente quando uma ponte abaixo parecia dar as boas-vindas à casa dela.
"Nós vamos pra Heidelberg?!" A Luana, sem querer, virou o corpo pra encarar o Rey, não deixando muita distância entre os dois.
O Rey ficou chocado. Um pouco surpreso com o movimento repentino da noiva falsa dele, ele prendeu a respiração sem querer por alguns segundos. A cara da Luana parecia muito perto, e o Rey podia ver como a estrutura da cara da mulher era perfeitamente esculpida.
"S-sim", o Rey respondeu meio hesitante.
Droga, o que tá acontecendo com o Rey agora?
A Luana abriu um sorriso, sem perceber o brilho feliz nos olhos dela. Virando o olhar pra fora, a mulher não parou de sorrir.
"Você conhece esse lugar?" o Rey perguntou, curioso. Por que a Luana parecia tão feliz?
A Luana balançou a cabeça, virando o olhar mais uma vez pra responder a pergunta do Rey.
"Lógico", ela disse alegremente. "Porque essa é Heidelberg, onde eu nasci e fui criada."
O Rey juntou as sobrancelhas, pensando rápido. Ele não tinha perguntado ou investigado a história dessa mulher antes, e agora os fatos sobre a Luana estavam começando a aparecer devagar.
O Rey ainda tava olhando pra Luana quando a voz do Piloto encheu toda a cabine.
"Sr. e Sra. Luiec, bem-vindos a essa cidade romântica, Heidelberg."