28
Luana só conseguia ficar largada, com o corpo encostado na parede do banheiro.
A água caindo em cima dela toda a hora deixava o corpo inteiro molhado, com roupa que ainda tava perfeitamente grudada no corpo fino.
Escapando do Rey mais cedo com sucesso, Luana acelerou os passos pra voltar pro quarto. Porque não tinha pra onde ir, torcendo pra que o Rey, aquele nobre babaca, não aparecesse essa noite.
Dava pra ouvir bem os gritos de animação das pessoas que tavam na festa, mesmo depois que todos os fogos de artifício que o Rey preparou explodiram no céu.
Agora que a noite tava escurecendo, a música do bar ficou mais alta. Todo mundo se juntou no bar, que era o lugar principal da festa de hoje, esquecendo que tinha uma mulher lamentando o destino dela em um dos quartos da estalagem.
Não sabe quanto tempo a Luana ficou ali, curtindo o jeito que a água gelada escorria no corpo dela.
Com os olhos vazios olhando pro chão, Luana abraçou as pernas e encostou o queixo nos joelhos.
Sem dar bola pras pontas dos dedos todas ferradas, ela tava fundo demais nos próprios pensamentos.
O suspiro que saiu dos lábios do Rey mais cedo ainda tava tocando nos ouvidos da Luana, o que fazia doer forte até os ossos.
Olhando pro reflexo todo zuado dela naquela noite, Luana reparou em várias marcas vermelhas que agora tavam bem visíveis no pescoço fino dela.
"Já era, Luana", a mulher murmurou baixinho, com os olhos tristes.
"O que você vai fazer agora? Seu futuro foi pro saco, você nem merece mais viver."
Os lábios da Luana tremeram quando ela terminou a frase, com pedaços de memória ainda bem marcados nos cantos dos olhos.
Como o Rey empurrou ela, como o Rey amassou o corpinho dela, e como o Rey agarrou ela com tanta força que ela não conseguia se mexer.
Os gemidos que saíam dos lábios da Luana pareciam não ser ouvidos, porque o Rey não tava nem aí pra mulher.
"Filho da puta", Luana sussurrou de novo. No meio daqueles pensamentos bagunçados, a Luana nem conseguia pensar direito.
O corpo dela tava tão sujo, e ela sentia que não tinha mais nem um pingo de respeito por si mesma.
Sem sair da posição, a Luana fechou os olhos quando o estrondo no peito voltou.
Baixando a cabeça, a mulher sentiu como o corpo dela tava amassado e gelado, mas ela não tinha jeito de voltar atrás.
Como ia ser a vida dela? Como ela ia seguir em frente? E será que ela ia ter chance de construir a própria família?
A água do chuveiro continuava caindo na Luana, e ela tava completamente sozinha.
***
Jovi não fazia ideia do que tava rolando de verdade.
Mas o cara não teve escolha a não ser obedecer o que o Rey tinha acabado de mandar.
O assistente pessoal do Rey tava quase fechando os olhos, já cansado demais da festa que tinha acabado agora.
Mas uma batida forte na porta do quarto fez o Jovi pular da cama, cambaleando em direção à porta e tropeçando quando viu o chefe dele bem na frente.
O Rey tava meio desarrumado, com o cabelo que não tava mais naquele coque certinho. O cheiro de álcool dava pra sentir do corpo do cara, quando o Rey simplesmente mandou uma ordem pro Jovi.
Uma ordem que o Jovi recebeu às três da manhã, que ia ter que ser cumprida mesmo com o sono já batendo.
O Rey já tava correndo na frente, com o Jovi logo atrás.
"Vê se ela tá bem", o Rey mandou pela última vez, antes de pular no barco.
Jovi ainda tava franzindo a testa, porque o Rey não tinha explicado o porquê dele ter voltado pra Heidelberg tão cedo. E ainda por cima, a patroa deles não veio junto.
"Eu não respondo perguntas, Jovi", o Rey já tinha avisado, bem na hora que os lábios do Jovi iam se mexer.
A brisa mandou um frio no ar, porque a ilha tava bem deserta agora. A festa tinha acabado, e os outros moradores pareciam ter voltado pros lugares deles.
"Me liga quando chegar amanhã", o Rey mandou de novo. "Entendeu?"
Jovi de novo não teve jeito a não ser dar uma balançada com a cabeça pra mostrar que tinha entendido.
Vendo o Rey que agora tava pulando no barco com um movimento firme, o Jovi respirou fundo e soltou o ar devagar.
'Tem alguma coisa errada', ele pensou.
Uns segundos depois que o Rey entrou no navio, o navio acelerou pra rachar o oceano. Criando uma distância que começou a crescer entre o Rey e o Jovi, o nobre realmente não olhou pra trás.
Jovi ainda tava na beira do porto, vendo como o navio que o Rey tava indo ia embora a cada segundo.
Depois de ter certeza que o navio tava navegando numa boa, o Jovi finalmente decidiu se virar e começar a andar dali.
O frio no vento fez ele querer se esquentar, puxando o casaco mais perto enquanto andava com as mãos nos bolsos da calça.
O sono que tinha pegado nele mais cedo simplesmente sumiu, com os olhos do cara já bem abertos.
A lua ainda brilhava em cima, quando o Jovi sem querer deu um passo pra andar pela beira da praia não muito longe do porto pequeno.
Sofrendo pra fazer o fogo pegar no começo, o Jovi finalmente conseguiu acender o cigarro que ele tinha enfiado nos lábios.
"Que merda tá rolando?" murmurou o cara no silêncio, falando e se perguntando.
"Será que o Sr. Rey sabe onde a Srta. Beatriz tá?" Jovi tentou adivinhar. "Mas pelo visto não, porque o Mark nem me contatou ainda."
Quanto mais perto o cara chegava da praia, mais especulações vinham na mente dele.
Prestando atenção no que tava em volta, o Jovi ficou andando por aí. Até que sem querer o cara ficou chocado, com os olhos que agora tavam apertados devagar.
Os olhos meio azuis dele pegaram a imagem de alguém que não era ele, que tava não muito longe da beira da praia.
Uma rajada de vento balançou o cabelo solto da mulher, e o Jovi não conseguiu não reparar mais.
"Talvez ela tenha bebido demais", o cara murmurou de novo. "Mas nadar de manhã cedo assim não é uma boa ideia mesmo."
Parando, o Jovi ainda tava vendo. Soltando e puxando a fumaça do cigarro, o canto do olho do Jovi não escapava da silhueta da mulher, que tava ficando mais clara.
A mulher andou sem hesitar na beira da praia. Quando os pés dela se moviam, ela ia mais fundo no mar.
Jovi franziu a testa, tentando adivinhar o que a mulher ia fazer.
Os passos da mulher não diminuíram nem um pouco, mesmo depois que as ondas bateram várias vezes no corpo dela, que ela parecia estar fazendo de tudo pra segurar.
"Dessa vez, é a mulher que parece ter dado errado", Jovi falou pra ele mesmo de novo. "Ela tá planejando se matar?"