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Luana ficou na dela.
Rey ainda tava olhando pra ela com a mesma cara, esperando a Luana abrir a boca pra soltar a resposta.
Mas por algum motivo, a Luana do nada pareceu que ia apagar, ainda mais porque ela não conseguia pensar direito agora.
Tipo um trovão, a última pergunta do Rey deixou a língua dela dormente e difícil de mexer. A força que ela tava botando nos dedos no colo dela aumentou, mostrando que a Luana também tava toda atrapalhada.
Rey levantou um canto dos lábios pra fazer um sorriso.
"Hum, isso aí..."
O silêncio da Luana pareceu uma resposta, quando agora foi o Rey que quebrou o silêncio.
"Não precisa responder agora", o Rey cortou no final.
O cara não conseguia mais olhar pra Luana. Porque quanto mais tempo os olhares deles se chocavam, mais alto o estrondo no coração do Rey ficava.
A Luana arregalou os olhos. O Rey já tinha sentado direito, com o olhar desviado pra frente.
Pegando o volante de novo, o cara falou baixo depois.
"Pensa nisso", o nobre falou. "Porque minhas ações podem ser diferentes, dependendo da resposta que você der."
A Luana ainda não respondeu, assim como o Rey pisou no acelerador pra continuar a viagem que já tava demorando.
Deixando uma marca no coração da Luana, mesmo que ela não soubesse o que era.
***
A Patrícia não parava de pedir pra Luana visitar eles mais vezes naquela tarde.
Depois de ficar quatro dias e três noites em Leipzig, o Rey cumpriu a palavra dele, já que ele e a Luana iam voltar pra Munique naquela tarde.
Mesmo que a Luana parecesse estar numa boa com a Patrícia e o resto do povo que morava na mansão Lueic, o Rey achou que quanto antes eles voltassem, melhor.
Eles não iam precisar fingir na frente da família toda que ainda tava lá, e ia diminuir qualquer erro que podia rolar.
Então lá estavam eles agora, reunidos na sala antes do Rey e da Luana se despedirem de verdade.
"Me promete que vai vir quando tiver tempo, Luana", a Patrícia implorou pela sei lá quantas vezes.
A mãe do Rey estava sentada bem do lado da Luana, segurando a mão da nora dela com muita força. Na real, ela queria que a Luana e o Rey ficassem mais tempo, mas o que ela podia fazer já que o Rey usou o trabalho como desculpa pra voltar logo.
A Luana balançou a cabeça, dando o sorriso mais fofo pra Patrícia e pros poucos membros da família que estavam olhando pra ela ao mesmo tempo.
"Claro, Mãe", a Luana respondeu num tom tão gentil. "Vou falar com o Rey pra gente visitar sempre. Só cuida da sua saúde, e não se cansa muito cuidando do seu jardim, tá?"
Aí uns outros membros da família sorriram e riram da dica da Luana, porque agora a moça tava parecendo uma nora que realmente se importava com a sogra.
Nenhum deles sabia o segredo da Luana e da Patrícia, pois a Patrícia piscou antes de sussurrar pra Luana.
"Você fez uma promessa Luana, não pode voltar atrás se o amor vier depois", a Patrícia sussurrou quase inaudível, avisando a Luana de novo pra manter a promessa que ela tinha feito no outro dia.
A Luana só conseguiu sorrir de leve, escolhendo não responder mais nada às palavras da Patrícia.
O Rey interveio na reunião, pedindo permissão pra sair já que o voo deles era dali a umas horas.
Puxando duas malas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo, o Rey agiu exatamente como um marido de sonho. Sendo que antes disso, ele nunca se importou se a Luana tinha dificuldade pra arrastar a mala dela ou não.
Um aceno da Patrícia e do resto da família acompanhou a partida deles, que naquela tarde ia ser levada pelo motorista particular da família até o aeroporto.
Seguido por um voo no avião particular do Rey esperando na pista particular, o casal oficialmente voltou pra cidade deles.
Dividindo o céu limpo, tanto a Luana quanto o Rey escolheram ficar em silêncio durante a viagem. O próprio Rey já tava grudado no smartphone, checando e monitorando os relatórios da empresa.
Tirar uns dias pra visitar os pais tinha deixado o Rey com um monte de trabalho, e ele tinha que fazer o trabalho o mais rápido possível.
Dando uma olhada rápida pro Rey que tava ocupado com o tablet e o celular, a própria Luana escolheu fechar os olhos.
Rezando pra tudo isso passar rápido, rezando pra ter notícias boas esperando por eles depois que eles pisassem em Munique em algumas horas.
***
Um cara de terno cinza claro entrou na sala.
Ele escondeu uma mão no bolso da calça, enquanto deixava a outra balançar bonitinho do lado dele.
"Voltou, senhor?"
Assim que o Pedro Visconde entrou numa sala marrom escura, uma mulher de uns 20 e poucos anos se levantou da cadeira e o cumprimentou.
O cara deu um passo pra mesa que tava vazia na última hora, virando a cadeira antes de se jogar nela.
Esticando os braços, o jovem parecia estar liberando toda a fadiga que tava deixando o pescoço dele pesado.
Estar na empresa e mudar de profissão de lutador pra empresário, o Pedro tava de saco cheio do que ele tava lidando nesses últimos dias.
Encostando na cadeira, o Pedro deixou os olhos dele encontrarem o teto branco da sala. O cara ficou pensativo e sonhador por um momento, depois percebeu que esse não era o mundo dele.
"Sabe, Margareth", a voz do Pedro encheu a sala. "Eu acho que eu não pertenço nessa cadeira gigante, porque tudo isso me dá claustrofobia."
A secretária que os pais dele escolheram -- Margareth Sullivan, voltou pra cadeira que ela trabalhava.
Fazendo um sorriso rápido, a Margareth já tava quase acostumada a ouvir o novo chefe dela reclamar da empresa e do trabalho.
"Você vai se acostumar, senhor", a Margareth falou enquanto os dedos dela dançavam nas teclas do computador. Ela não queria fazer confusão, porque era assim que o Pedro se comportava.
"Eu gosto mais de lutar do que de reuniões sobre orçamentos de milhões de euros", o Pedro falou de novo.
Deu pra ouvir o cara respirando fundo, antes de soltar um suspiro pesado. Se ele tivesse a chance de escapar de novo, ele provavelmente ia escolher viver longe da família dele pela segunda vez.
"Ah, Margareth", o Pedro chamou quando lembrou de algo. "Você procurou a pessoa que eu te falei naquela hora?"
A Margareth parou os movimentos dos dedos por um momento, depois virou a cabeça pra devolver o olhar do Pedro que tinha notado ela primeiro.
Balançando a cabeça, a Margareth abriu a boca pra falar.
"Sobre o Sr. Rey Lueic?" ela perguntou pra confirmar.
O Pedro levantou as duas sobrancelhas, seguido da voz da Margareth continuando.
"Não tem muita informação que eu consigo sobre o cara, senhor", a Margareth relatou. "Mas ele é um empresário que lidera a maior gráfica de Munique, com um total de oito filiais espalhadas pela Alemanha."
O ex-lutador levantou mais uma sobrancelha enquanto ouvia a explicação da Margareth, sem responder ainda.
"Dizem que o Sr. Lueic se casou recentemente, mas tem pouquíssima informação sobre a identidade da esposa dele", a Margareth continuou.
O Pedro levantou uma mão no ar, pedindo pra Margareth terminar o relatório dela naquela tarde.
A mente do cara tatuado imediatamente viajou, puxando ele de volta pro momento do jantar num dos hotéis estrelados de Heidelberg um tempo atrás.
O que também fez o cara lembrar de uma garota que roubou a atenção dele, que acabou tendo algo a ver com o Rey Lueic. Tendo perguntado pra si mesmo se ela era a esposa do Rey, o Pedro já tava curioso.
Abrindo a gaveta da mesa dele, ele pegou um cartão de visita que tava lá. O cartão de visita que o Rey entregou pra ele no porto naquele dia, com o número do telefone escrito bem claro.
Prestando muita atenção no cartão de visita, o Pedro inconscientemente fez um monólogo com ele mesmo.
'É verdade que você não tem celular, Luana?' o Pedro se perguntou. 'Se aquele cara é seu marido, por que vocês não parecem se amar?'
"Tem mais uma coisa que eu consegui descobrir, senhor", a Margareth falou, interrompendo a viagem do Pedro. "O casal Lueic mora na Voanne Avenue, uma das melhores residências de Munique."
Ouvindo a palavra Munique ecoar na sala grande deles pela segunda vez, o Pedro de repente arregalou os olhos involuntariamente.
O cérebro do cara foi forçado a trabalhar duro por uns segundos, antes dele sorrir bastante. A Margareth ficou confusa com a reação do chefe dela, mas ela escolheu continuar com o trabalho que ainda tava acumulado.
Puxando o celular do bolso da calça, o Pedro Visconde rolou a tela e discou pra alguém uns segundos depois.
Esperando até o quarto sinal, o telefone finalmente foi atendido pelo interlocutor do Pedro do outro lado.
O sorriso ainda ficou no rosto do cara, enquanto ele agora cumprimentava num tom de voz médio.
"Valerie, sou eu. Quer que eu te visite em Munique?"