70
Silêncio.
Dois segundos.
Cinco segundos.
Dez segundos.
Até que Luana pigarreou baixinho, e repetiu as paradas que tinha acabado de revelar pro seu marido.
Se você quiser me dar um tapa, tô pronta. Se você quiser me chutar pra fora agora, eu vou na hora. Só não consigo mentir pra mim mesma, que eu já te amo, Rey.
"Eu não tenho uma gota de sangue nobre no meu corpo, Sr. Rey", Luana explicou de novo.
Uma explicação que devia ter feito Rey soltar ela faz uns dez segundos, mas parece que o cara ainda tava agarrado em Luana, e ficou quieto.
O coração do Rey afundou quando ele ouviu a Luana chamando ele de 'senhor', sendo que ela tinha acabado de falar com ele de boa e mencionar o nome dele com orgulho, uns minutos atrás.
"Eu não devia estar aqui, não devia nem te encarar." A voz da Luana era a única coisa que se ouvia no quarto escuro. "Eu não tenho nada, não mereço estar perto de você assim."
As lágrimas que tavam se acumulando nos olhos dela desceram de uma vez, com uma piscada só que ela tava se segurando o máximo que podia. Não sobrou nada da vida dela, agora que ela tinha revelado o que tava escondendo com tanta força.
A fúria do Rey era a recompensa que ela ia receber, mesmo não sendo totalmente culpa dela estar metida na vida de um nobre como o Rey Lueic.
O corpo da Luana tremeu junto com os soluços que começaram a ser ouvidos, torcendo pra que o Rey não achasse que ela tava fazendo drama agora. O coração da Luana tava realmente quebrado, e ela tava pronta pro que viesse.
"Eu não sou quem você pensa que eu sou", a Luana falou de novo. Não tinha mais motivo pra esconder, porque agora o Rey tinha que saber quem ela era de verdade. "Eu não sou parente distante da Madame Collins, eu sou empregada na mansão dela."
As palavras soaram super claras, mas o Rey não soltou ela nem um pouco. O cara puxou a Luana ainda mais pra perto, como se quisesse que ela dividisse a tristeza e a dor com ele.
"Para, Luana", o Rey sussurrou, com os lábios encostando na orelha da esposa. "Para com isso, por favor."
"Eu não posso ficar do seu lado." Mas a Luana não ligou pro pedido do nobre. "Não importa se o mundo acabar, meu Lord. Você e eu não podemos ficar juntos. Eu nem tenho o direito de olhar nos seus olhos, sabe?"
As lágrimas desceram ainda mais rápido, e a Luana começou a tremer com o corpo miúdo, que tava tremendo nos braços do marido. Os soluços encheram o quarto, com lágrimas de tristeza que deixaram o rosto da Luana vermelho e molhado.
Virando o corpo da mulher que ele tava abraçando com toda a alma, o Rey encarou a Luana pra olhar nos olhos dela. Mas a mulher ainda tava cabisbaixa, como se não conseguisse encarar o Rey de volta.
Ela tava com medo.
Ela tava com medo do Rey ver ela diferente.
Ela tava com medo dele soltar o abraço quentinho e jogar ela na rua.
Ela tava MUITO com medo.
"Eu sei, Luana", o Rey sussurrou, ainda com a voz bem baixa. "Eu sei. Eu sei quem você realmente é."
Como se tivesse sido apunhalada por milhares de agulhas de uma vez, a Luana sentiu uma picada que tava ficando insuportável. Secando as lágrimas com as costas da mão, ela respirou fundo.
"Olha pra mim", o Rey exigiu. "Luana, olha nos meus olhos."
A Luana não tinha pra onde correr. O aperto do Rey que agora tava firme na pele das costas dela, forçou a mulher a levantar a cabeça aos poucos, juntando coragem pra olhar nos olhos de alguém tão honrado como o Rey Lueic.
"Eu... não consigo." Depois de um segundo só, a Luana já tinha abaixado o olhar de novo. "Eu não consigo."
Se a Luana achasse que esse fato revelado só machucou ela, ela tava errada. Porque o coração do Rey tinha sido preenchido com tantas pedras que tavam corroendo ele, enquanto o cara ainda tava se forçando a ser forte.
Resistente ao destino, resistente às circunstâncias que eles tavam enfrentando agora.
"Luana, por favor." A voz do Rey era doce, fazendo a Luana quase esquecer que não devia esperar mais dessa vez. "Por favor, olha pra mim."
A Luana atendeu ao pedido do marido agora, e a cabeça dela se moveu pra cima. Olhando pra cima, ela deixou os olhos dela encontrarem as íris azuladas do Rey. As íris que ele amava, as íris que ele adorava, em meio a bilhões de íris no mundo.
"Eu sei de tudo", o Rey falou entre os soluços. "Isso não é só difícil pra você, mas pra mim também, Luana. Eu queria poder pedir pro universo parar de nos diferenciar por causa dessa merda de casta."
Nojento, foi o que a Luana pegou do tom do Rey agora. Tinha desespero ali, que também era seguido por uma confusão profunda.
A Luana resolveu fechar os lábios com força, porque ela sabia que não tinha saída pra eles.
"Eu não quero te deixar ir, Luana", o Rey assumiu a fala agora. "Eu quero que você fique aqui, não quero que ninguém ocupe seu lugar. Eu quero que você seja minha esposa, quero que você seja a grande dama dos Lueic. Eu quero..."
"Não, senhor", a Luana interrompeu, e balançou a cabeça. Os olhos dela começaram a brilhar, e soltou uma decepção que doía no fundo da alma. "Você sabe que isso não é possível."
O Rey rosnou de frustração, mas não soltou a Luana nem um pouco.
Porque o Rey também tava com medo.
Com medo da Luana ir embora de verdade, se ele soltasse o abraço.
Com medo de não poder mais ver o rosto dela.
Com medo de ficar sozinho de novo, se a Luana fosse embora.
Com medo de nunca mais ver a esposa dele.
"Por favor, não desiste de mim, Luana", o Rey implorou. "Você só precisa acreditar que a gente pode superar tudo. Você não prometeu que ia confiar em mim?"
O coração da Luana afundou quando ela pensou no que podia estar por vir pra eles. Afinal, um relacionamento entre castas diferentes nunca podia ser real. Pra onde eles iam correr? Pra onde eles iam se virar?
"Eu não posso, senhor. Eu não consigo." Não tinha motivo pra aguentar, principalmente porque esse lugar era do próprio mestre dela. "Por favor, me deixa ir."
"Eu não vou", o Rey foi firme dessa vez. Pegando a testa da jovem, o Rey deixou uma única lágrima cair dos olhos azulados dela. "Eu não vou te deixar ir, não importa o que aconteça. Tá ouvindo, Luana? Você nunca pode ir embora."
Egoísmo tinha levado o Rey a agarrar a Luana, mesmo que o Rey soubesse que o que tava esperando por eles podia machucar a esposa dele. A Luana soluçou de novo, e a mão dela agora tava esfregando de leve a lágrima do Rey.
O cara tava chorando por ela. Um nobre tinha agarrado a mão desprezível dela com força.
"Não chora", a Luana implorou com um sorriso forçado nos cantos dos lábios. "Você não merece chorar por uma escrava como eu."
"Você é minha esposa!" o Rey respondeu rápido. "Você é a Sra. Lueic, e sempre vai ser. Tá me ouvindo?"
Tinha um tom de desespero na voz do Rey, e a Luana agora só conseguiu balançar a cabeça de forma vaga. Se resignar à situação era provavelmente melhor, mesmo que o coração dela estivesse tão dilacerado.
"Me deixa ir agora, Mestre."
"Eu não sou seu mestre!" De novo o Rey latiu num tom de voz que ele levantou, sem saber como controlar a raiva que tava se acumulando no peito dele. "Eu sou seu marido, Luana! Seu marido legal! Para de me chamar de mestre! Já encheu!"
Ele queria gritar com toda a força, ele queria levar a Luana pra fazer ela se sentir segura e não ameaçada. Sem o Rey perceber, o tom de voz dele que tinha subido fez a Luana fechar os olhos por uns segundos.
"Desculpa, amor, desculpa", o Rey esfregou a bochecha da esposa. "Desculpa por ter gritado com você."
A Luana não sabia o que dizer, porque o coração dela tava anestesiado. Tudo parecia falso, mesmo que o Rey parecesse estar oferecendo alguma coisa (talvez) pra ela. Mas como alguém de uma casta baixa, a Luana sabia que não tinha nem um fiapo de esperança.
"Eu tenho um pedido", a Luana sussurrou depois de uns momentos de silêncio. "Meu último pedido pra você, e eu espero que você atenda."
O Rey balançou a cabeça meio hesitante, preocupado com a Luana pedindo de novo a separação. Ele não podia. O cara não podia dar pra Luana o que ela pediu.
"Qualquer coisa, menos separação", o Rey respondeu. "Qualquer coisa que você pedir, só não me pede pra te deixar ir."
A Luana realmente não queria se deixar levar pela esperança, porque ela sabia que de novo eles não iam conseguir. Nunca.
Só dessa vez. Só mais uma vez.
Chegando mais perto, a Luana beijou os lábios do Rey e ficou ali por uns segundos. Não agarrou ele, só beijou. Um beijo que fluía com amor, e também com uma tristeza profunda.
"Querida."
"Me deixa dormir nos seus braços hoje à noite", a Luana sussurrou. "Só mais uma vez, eu quero muito dormir nos seus braços."
Algo tremeu no coração dos dois, uma ferida aberta que se abriu mais com o abraço quentinho deles.
A Luana encostou a cabeça no peito largo do nobre e fechou os olhos pra abafar toda a tristeza. Esperando que tudo fosse só um sonho quando ela acordasse mais tarde, esperando que isso não fosse real.
Apoiando a esposa enquanto ela começava a fechar os olhos, o Rey agarrou a Luana com força numa mistura de emoções. Fazendo carinho no cabelo dela da forma mais suave possível, o Rey sussurrou baixinho no ouvido da esposa.
"Eu te amo, Luana. Eu te amo."