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Rey observava Luana, vendo o bordado que ela tinha acabado de começar, sendo segurado firme pela mulher.
"O que você tá fazendo?"
Luana abaixou a cabeça, levantando suavemente seu bordado.
"Tô fazendo uns paninhos," ela respondeu na boa. "Meu tempo ia ser desperdiçado se eu não fizesse nada."
Mare, percebendo a situação, resolveu recuar devagar, sumindo atrás da porta. Deixando os dois mestres livres pra bater um papo na sala enorme.
Rey pigarreou de leve, antes de chegar e sentar na frente de Luana. Os olhos de Luana seguiram os movimentos do nobre e colocaram o bordado na mesa de vidro.
"Por que você veio pra casa tão cedo hoje?" Luana perguntou na moral.
Porque Rey geralmente voltava depois que escurecia, então dava pra contar nos dedos as vezes que eles se encontravam, mesmo dividindo o mesmo quarto.
Rey desabotoou o casaco, sacudindo pra aliviar a tensão.
"Meu trampo tá acumulando," o nobre disse, encostando na cadeira. "Por isso vim pra casa mais cedo, e também pra ver o que você tava fazendo na minha ausência."
Luana piscou duas vezes, devolvendo o olhar de Rey pra ela. Aí o olhar de Rey foi pra mesa, como se estivesse subestimando o que Luana tava fazendo.
"E aparentemente você passa o tempo bordando? Não tô enganado?"
"Não tem nada de errado em bordar," Luana se defendeu. "As 24 horas que eu tenho por dia não podem ser gastas dormindo e comendo. Ajudar na cozinha também não pode, que dirá pegar numa vassoura. Então, é isso que eu faço."
Rey ainda manteve uma expressão neutra no rosto. Porque Luana não agia como as outras nobres, que estavam acostumadas a curtir a vida com extravagância.
Nessa época, qual mulher jovem ia mesmo se trancar em casa? Luana nem reclamava em pedir cartão de débito, e nem protestava sobre o que tinha na residência grande.
"Por que você tá fazendo isso?" Rey franziu a testa. A pergunta soou retórica, mas ele realmente queria saber.
Dessa vez foi Luana quem corrigiu a posição, antes de falar pra responder.
"Fazendo o quê?" ela perguntou, sem entender. "Não posso bordar? Também não posso desenhar ou ler livros?"
Por boa parte da vida dela, os últimos sete dias tinham sido os dias em que Luana se sentia livre com o tempo que o universo dava pra ela. Ela era livre pra ler livros, desde livros de história até romances que estavam arrumados direitinho na biblioteca da mansão.
Rey pareceu rir baixinho. Ainda tentando adivinhar pra onde essa conversa ia, o cara massageou as têmporas.
"Por que você não me pediu dinheiro?" Rey perguntou de novo. "Você não pediu nada, não pediu nada. Não vai em reuniões, e não gasta dinheiro. É esse tipo de vida que você tem vivido, Luana?"
Luana não sabia por que Rey parecia incomodado com isso, porque ela tava curtindo muito esse tempinho. Mas ele tinha surgido do nada e dado uma bronca nas atividades úteis que ela tava fazendo.
"Seja como uma grande dama!" continuou Rey com o volume no talo, antes que Luana pudesse responder. "Você é a Sra. Lueic, então aja como qualquer outra nobre!"
O olhar do cara se torceu perfeitamente, pois agora era Luana quem estava cerrando os lábios com força. Olhando pra Rey com um sentimento confuso, ela não sabia o que dizer.
"Eu não vou," Luana finalmente falou depois de uns segundos de silêncio. Vendo Rey ainda lançando olhares pra ela, a mulher continuou.
"Eu não sou uma grande madame," ela disse num sussurro. Ela não queria que a conversa deles fosse ouvida pelos outros.
"Eu gosto disso. Eu gosto de bordar, gosto de desenhar, gosto de ler livros. Não preciso ser outra pessoa, se não sou eu."
Falando tudo com clareza, Luana teve que segurar o barulho na altura do peito. Ela tava chateada porque Rey corrigiu de repente a escolha dela de atividades, principalmente sem nenhuma razão aparente.
"E também não preciso do seu dinheiro," Luana continuou com um olhar furioso. "Eu não vou a lugar nenhum, só vou ficar quieta e obediente aqui dentro."
Rey ainda escolheu ficar em silêncio, pois Luana agora mudou o corpo pra chegar mais perto do cara. Cortando a distância que sobrou, Luana aproximou o rosto.
"Também não vou te dar problemas, então você só tem que fazer o que tem que fazer, Sr. Rey," ela disse num sussurro.
Rey levantou a cabeça por reflexo, diminuindo mais ainda a distância entre o rosto dele e o de Luana. Ele não queria admitir, mas tinha uma parada invisível que Rey sentia nesse momento.
"Encontre sua noiva o mais rápido possível," Luana disse de novo, ainda sem mudar de posição. "Como você tá procurando por ela? Você realmente tá procurando ou não, de qualquer jeito?"
Luana planejou voltar pro lugar dela, mas dessa vez Rey já tinha agido mais rápido. Segurando as duas mãos de Luana, o cara fez Luana cair no colo dele por reflexo.
Sem perder a pose, Luana caiu certinho nas coxas de Rey, que estavam arrumadas. A mão do cara agarrou a cintura de Luana, fazendo Luana arregalar o olhar de choque.
Vários empregados que queriam passar escolheram dar a volta, até Mare pediu que várias portas de acesso à sala fossem fechadas temporariamente.
Porque uma coisa grande tava acontecendo ali.
"Sr. Rey, o que você tá --"
"Só um instante," Rey cortou rápido.
Luana congelou, com uma batida do coração que ela não conseguia controlar. Estar tão perto de Rey deixou difícil pra ela respirar, não por falta de oxigênio, mas porque o sangue dela tava bombeando além do ritmo normal.
Luana sentiu claramente o perfume característico de Rey, que explodiu nos sentidos dela.
Cerrando os lábios o máximo possível, Luana tentou se controlar. Até agora ela sentiu alguma coisa pressionando a mão dela, que acabou sendo a cabeça do herdeiro.
"Senhor, você não tá --"
"Tô com tanto sono," Rey cortou a frase de Luana no momento certo.
Encostando a cabeça na mão de Luana, Rey deixou a sonolência dominante tomar conta da consciência que tava prestes a voar.
"Só um instante, Luana," Rey sussurrou de novo, quase inaudível. "Eu quero dormir um pouco, porque aquele trampo tem dificultado pra mim pegar no sono nos últimos dias."
Luana ainda tava tentando recuperar o fôlego quando percebeu que os braços de Rey ao redor da cintura dela estavam afrouxando aos poucos.
Na sala grande e silenciosa, Luana estava no colo de Rey. Se tornando um encosto pro nobre que parecia estar caindo no sono aos poucos, Luana se mexeu bem devagar.
Abrindo um braço todo, ela agora inconscientemente deixou Rey encostar no peito direito dela. A cabeça do cara caiu mole, pois a respiração dele começou a soar regular.
Mordendo o lábio inferior hesitante, Luana engoliu seco.
Uma mão voltou o abraço sem querer, enrolando na forte costa de Rey pra dar uma leve batidinha.
Luana não sabia que demônios tinham visitado ela naquela tarde, pois agora ela sussurrou bem baixinho.
"Durma bem," ela sussurrou. "Você não precisa trabalhar demais, porque eu não vou gastar seu dinheiro. Nunca."