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A voz da Luana quebrou o silêncio, o que imediatamente fez o Rey olhar pro lado pra sua esposa com um olhar sério.
"Morar e crescer numa vila em Heidelberg, minha infância não foi nada demais," a Luana continuou. "Uma garota do campo normal, que passava o tempo brincando com os amigos. Mas com nove anos, eu fiquei sabendo da parada."
"Rumores?" interrompeu o Rey, meio avoado. Ele usou um dos travesseiros pra apoiar, com a audição mais aguçada pra ouvir a história da esposa. "Notícias sobre o quê?"
"Sobre meus pais," a Luana respondeu com um sorriso fraco. "Dizem que fui abandonada quando criança, e não posso fazer nada sobre isso."
Os olhos da mulher estavam sonhadores, enquanto ela desenterrava uma história sobre si mesma que nunca tinha contado pra ninguém.
"Eu morava com minha avó e alguns primos, até que minha avó morreu quando eu tinha 14 anos." A Luana respirou fundo. "Foi tão doloroso, porque a morte dela não só nos fez perder o apoio, mas também tivemos que nos separar porque não havia mais ninguém pra nos sustentar além dela."
Cada palavra que saía dos lábios da esposa fez o peito do Rey roncar, porque descobriu que os dois foram criados de uma maneira muito diferente.
Se o Rey teve suas necessidades atendidas desde que nasceu, então a Luana enfrentou algo que a fortaleceu por causa das circunstâncias.
"Depois desse incidente, alguns dos meus primos foram levados como escravos pra Stuttgart." A Luana levantou a cabeça, deixando seus olhos encontrarem as íris azuladas do marido.
"Eu pensei que iria com eles também, mas a família Collins me encontrou no túmulo da minha avó," ela continuou. "Então, outra coisa que descobri naquela época foi que meus pais deviam uma grana pra família nobre."
O Rey não pôde deixar de balançar a cabeça, pois essa foi a linha comum da enorme compensação que seu pai deu à família Collins.
A Luana apertou os dedos involuntariamente, tentando segurar o choque e a dor que cresciam a cada segundo. Reviver aquele momento nunca foi fácil, especialmente quando ela teve que revelar tudo agora.
"Não precisa continuar, querida." O Rey alcançou as mãos torcidas da esposa e as juntou pra trazer o calor.
"Se isso te machuca ou te deixa triste, eu não vou ouvir," o Rey disse de novo. "Você pode parar agora."
A Luana curvou um sorriso fraco, deixando sua conta encontrar a do Rey por alguns instantes. Fez seu coração explodir perceber como ele não queria deixá-la triste.
O Rey sabia como deixá-la à vontade, e a Luana se sentiu realmente amada agora.
"Não, papai," ela disse meio que zuando. "Deixa eu terminar. Além disso, não é tão triste assim, de verdade."
Os olhos do Rey viraram rápido, como se perguntando se a Luana ficaria bem se continuasse a contar sua história. Acariciando as costas da mão do Rey, a Luana pareceu tranquila.
"No começo, eu estava preocupada porque tive que me mudar pra Munique," a Luana murmurou agora. "Não sei como assumi a dívida de pais que nem reconhecia, mas sou grata por ter sido a família Collins que me acolheu."
Aquele aperto de mão ainda parecia quente.
"Eles te trataram bem?" o Rey perguntou esperançoso. "Você é feliz lá?"
O sorriso da Luana se alargou ainda mais, seguido por um aceno de cabeça confiante.
"Eles são uma família muito boa e respeitada, Rey," a Luana disse honestamente. "Eles nos tratam bem, e fornecem mais do que o suficiente pra todas as nossas necessidades. Não há muitos empregados que não se sintam em casa, pois a Madame Collins é uma boa anfitriã e empregadora."
Houve um alívio que penetrou no coração do Rey. Grato por a Luana não ter sofrido o abuso que às vezes acontecia com os empregados. A família Collins que o Rey conhecia tinha uma boa reputação em sua cidade.
"Fico aliviado em saber disso," comentou o Rey com um suspiro de alívio natural. "Fico feliz que você tenha gostado da residência Collins antes do nosso encontro, meu amor."
A Luana assentiu lentamente. "Sou grata por isso também. Embora nosso trabalho pareça interminável, somos muito bem providos."
Agora não havia nada com que o Rey se preocupar, porque a Luana se saiu bem. Apesar das lembranças de sua infância imperfeita devido à perda de seus pais, a garotinha realmente se transformou em uma mulher adulta charmosa.
Seu comportamento educado e de bom coração também foi a razão que deixou o Rey doido por ela.
"Você nunca pensa nos seus pais, Luana?" perguntou o Rey agora. O relógio tocou dez vezes, indicando que a noite estava chegando. "Você sente falta deles?"
A Luana não conseguiu responder à pergunta imediatamente. Desta vez, ela fez uma pausa pensativa, absorvendo-a com todo o corpo e alma antes de murmurar a resposta.
"Isso…," a Luana hesitou. "Eu nunca tenho," ela disse com confiança. "Talvez porque eu não os reconhecia, então não senti falta nem um pouco."
O Rey procurou a Luana pra abraçá-la com força, como se estivesse se preparando pra ser o refúgio da mulher.
"Tudo bem," o Rey sussurrou entre seus abraços. "Agora você tem minha mãe e meu pai e eu aqui. Espero que isso seja suficiente pra você se sentir menos sozinha."
A Luana aninhou a cabeça mais profundamente, completamente aninhada no peito largo do marido.
"Eu não poderia pedir mais do que isso, Rey," ela sussurrou. "Se você está perguntando quando exatamente me apaixonei por você, talvez eu possa responder isso desta vez."
O Rey ficou atordoado por alguns segundos, antes de perguntar.
"Quando? Quando exatamente você começou a me amar?"
A Luana quebrou o abraço, pra olhar pro marido.
Seus lábios rosados eram o objeto da atenção do Rey, pois ele se absteve de agarrá-los neste momento.
"Desde que você me deu sua mãe," disse a Luana com um sorriso. "Desde então, meu coração não para de bater quando estou perto de você."
O Rey puxou sua memória pra lembrar, se transportando pro momento em que conversaram no quarto do homem na grande residência do Lueic em Leipzig.
Sim, foi quando o Rey deu sua mãe pra Luana.
"Desde então?" Os olhos do Rey se arregalaram. "Você se apaixonou por mim?"
A Luana encolheu os ombros, tentando esconder o fato de que ela obviamente acabava de revelar.
"Bem, talvez," ela respondeu. "Ninguém nunca me deu o que eu queria, e você é a primeira pessoa a me dar."
Movendo-se pra colocar as duas mãos nas bochechas do marido, a Luana continuou. "Obrigada por me amar, Rey. Sou grata por isso."
Avançando pra beijar os lábios do Rey, a Luana expressa a felicidade que sente. O tempo que ela passou em sua infância imperfeita foi agora substituído por uma perfeição que ela nunca imaginou.
"Eu deveria ser o único a agradecer, querida," o Rey respondeu em meio sussurro. "Obrigado também por me amar de volta. Fico feliz em ser seu primeiro amor."
O Rey beijou a testa da esposa de volta, quando a Luana riu meio que de sacanagem. Olhando pro Rey hesitante, a Luana estava se perguntando se deveria endireitar alguma coisa ou não.
"Uhm, sim." A Luana pigarreou suavemente. "Eu te amo, mas desculpa, Rey. Você não é meu primeiro amor."
Embora inicialmente hesitante, mas finalmente a Luana disse a verdade. Olhando pro rosto drasticamente mudado do Rey, a Luana não pôde deixar de rir.
"Sinto muito, Sr. Rey," disse a mulher, levando a melhor. "Mas você tem que aceitar a situação."
A mandíbula do Rey endureceu assim, por alguma razão o ciúme tomou conta rapidamente, embora tudo fosse no passado.
A ideia de a Luana gostar de outro homem fez seu peito apertar de repente.
"Me diga," a voz do Rey era bem fria. "Me diga, quem é esse homem? Aquele que se tornou seu primeiro amor, quem é ele?"
A Luana olhou pro Rey com uma expressão engraçada, porque o cara parecia tão adorável.
"Você o conheceu," a Luana respondeu honestamente.
O Rey franziu a testa. "Eu tenho! Quando?" O tom de voz do homem subiu. "Onde?"
A Luana esfregou o braço do Rey que parecia estar ficando duro.
"Calma, você quer saber?"
"Sim, me diga agora."
Os olhos deles se encontraram novamente, assim que a Luana abriu os lábios pra murmurar as palavras.
"Ele é… Mário."
A sobrancelha do Rey se franziu ainda mais. "Mário? Quem é Mário?"
"O amigo meu que você conheceu em Heidelberg, quando estávamos no hotel naquela hora."
Os olhos do Rey reviraram perfeitamente, quando sua mente agora visualizou o homem a que sua esposa estava se referindo.
Mário… Aquele cara da equipe do hotel?!