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Rey deu uma risada com um aparelho preso na orelha direita.
O cara olhou direto para a cena à frente, vendo como várias frotas das maiores companhias aéreas do país estavam se movendo lentamente para entrar ou sair do estacionamento.
As pernas do cara estavam cruzadas, com uma mala cinza-clara média descansando à sua direita. O lounge da classe executiva estava deserto, já que Rey estava pegando o primeiro voo da manhã.
A frota de ferro o levaria de Frankfurt a Dresden, seguida por uma viagem de carro para a casa da família Lueic em Leipzig.
"Eu te disse que estava vindo", disse Rey com irritação, o que era claramente audível em seu tom de voz.
Os globos oculares do cara estavam se movendo perfeitamente, com uma mão apoiada na coxa.
"Eu não aceito convidados", ele disse novamente. "E eu posso explicar o que aconteceu. Sua chegada só vai interferir no meu trabalho, e as notícias que ouvi ontem à noite é melhor não serem uma farsa!"
Rey inconscientemente elevou o tom de voz, batendo o pé no chão acarpetado marrom claro.
Houve uma risada de sua mãe do outro lado da linha, que respondeu com uma voz muito suave.
"Seu pai realmente quer conhecer essa mulher", disse Patrícia Lueic - a mãe biológica do nobre.
"Ele ficou furioso quando soube que você estava visitando Heidelberg em vez de voltar para sua cidade natal para prestar suas homenagens à família extensa. Que tipo de filho faria uma coisa tão ridícula, Rey?!"
Rey fez uma pausa de dois segundos para massagear as têmporas que ainda doíam. Os efeitos do álcool que ele havia consumido na noite anterior ainda persistiam, juntamente com o que havia acontecido entre ele e Luana.
A partida apressada da ilha provavelmente deixou um ponto de interrogação e raiva na mente de Luana.
É que Rey não teve escolha, depois que encontrou um chamado de emergência vindo da casa de seus pais. O cara sabia que não seria capaz de evitá-lo, porque essa era a tradição que havia sido cumprida em sua família extensa por gerações.
É que Rey não esperava que sua mãe ligasse até no segundo dia do casamento, informando com sucesso que ele e sua falsa esposa estavam em Heidelberg agora.
"Eu sei", respondeu Rey ainda preguiçosamente. "Se você me mandar ir, então eu vou, Mãe. Mas eu não posso levar Luana junto, porque há algumas coisas que ela tem que fazer aqui."
Patrícia Lueic estava acostumada a conseguir o que queria. Seu desejo de trazer uma nora para a família não foi exceção, pois a mulher de meia-idade havia organizado secretamente uma grande festa para celebrar o casamento de seu filho.
"Não venha se você não a trouxer!" Patrícia disse severamente. "Não é você que eu quero receber nesta casa, mas a mulher que agora é a nova Sra. Lueic."
Rey respirou fundo, deixando escapar com a frustração se acumulando no topo de seus pulmões.
Um vislumbre do que aconteceu ontem à noite entre ele e Luana, veio e fez seu corpo ficar perfeitamente tenso.
Como ele poderia levar Luana perante sua família extensa, quando ele não tinha ideia de como lidar com ela.
A raiva de Luana na noite anterior era bem merecida para Rey, que sentiu muito por todas as ações que ele havia tomado fora da consciência.
"Meu embarque está quase chegando", disse o cara. "Olha, Mãe, eu vim porque você disse que a condição do Pai estava enfraquecendo. Eu não estou lá para apresentar minha esposa, então eu voltarei assim que eu garantir que você esteja bem."
Patrícia esculpiu um leve sorriso em seu lugar, entendendo a teimosia que seu filho deve ter herdado dela.
"Tudo bem se você insiste", disse Patrícia. "Vamos ver o que acontece mais tarde."
Sem esperar uma resposta de seu filho, Patrícia Lueic já havia pressionado o botão vermelho na tela do telefone com pressa.
Desconectando o telefone, Patrícia sorriu para seu marido que estava virando as páginas do jornal da manhã.
"Como foi?" perguntou Ryan Goette Lueic - pai de Rey, que agora ergueu a cabeça para olhar para sua amada esposa.
Patrícia se aproximou da posição do marido na mesa de jantar, batendo palmas com um sorriso.
"Eles estão vindo, querido", ela disse feliz. "Você não precisa se preocupar, porque a grande festa da família Lueic está prestes a começar de verdade."
***
Uma onda de Jack Miller escoltou Luana antes que ela embarcasse no navio.
"Mande lembranças ao seu marido, Luana", disse o cara com as duas mãos em volta da cintura. "Diga a ele que sinto muito pelo que aconteceu em Leipzig. Eu queria poder ver o Tio Ryan o mais rápido possível, mas bem, receio que não posso."
Luana só pôde dar um sorriso, pois não tinha ideia do que Jack estava falando agora. O olhar que Jovi lhe lançou indicou que ela não deveria fazer mais perguntas.
"Obrigada, Jack", ela respondeu, já parecendo melhor do que ontem à noite.
Luana não teve escolha a não ser voltar para seu quarto, trocar de roupa e dormir até o sol nascer. Ela nem sabia onde Rey estava até que Jovi dissesse que Rey havia retornado a Heidelberg primeiro.
"Obrigado por toda a sua ajuda, Sr. Jack", desta vez foi Jovi quem expressou sua gratidão.
Jack acenou com a cabeça, convidando Luana e Jovi a embarcar em seu barco.
Aproximadamente doze minutos depois, o iate estava no mar. Carregando dois passageiros a bordo, para retornar ao porto em Heidelberg.
Luana sentou-se na cabine principal da embarcação de luxo, bem onde ela tinha sentado quando partiu ontem.
A chegada de Jovi fez Luana levantar a cabeça, interrompendo o cara em seus rastros com uma pergunta.
"Então, seu chefe fugiu?" ela perguntou em tom sarcástico, e qualquer um que a ouvisse teria sido capaz de deduzir que a frase era cheia de ódio.
Jovi virou a cabeça, parando seus passos bem na soleira do sofá em frente à posição de Luana.
Os acontecimentos da noite passada ainda devem estar frescos na mente de ambos, mas de alguma forma isso os fez conversar um com o outro com mais liberdade.
"O Mestre não fugiu, senhora", argumentou o cara.
Pensando que essa conversa pode demorar um pouco, Jovi sentou-se em uma das cadeiras.
Luana zombou. Só de pensar em Rey, ela teve dor de cabeça, e o desaparecimento do cara da ilha realmente implicava que o nobre era um babaca.
"Eu sei que é seu dever defender seu mestre a todo custo", disse Luana. "Mas se você soubesse o quão ruim foi seu comportamento, você poderia pensar duas vezes antes de ficar ao lado dele."
Jovi deixou o silêncio se instalar por alguns segundos. O olhar que Luana lhe lançou parecia um pouco diferente, pois Jovi não pegou mais nenhuma hesitação ou indecisão no brilho da mulher.
Desde os acontecimentos da manhã, Luana decidiu que faria questão de não ser provocada por cada comportamento de Rey. Na verdade, ela planejou entrar em contato com Madame Collins no momento em que voltasse para Munique.
"Algo aconteceu", disse Jovi, quebrando o silêncio. "O Mestre não me disse por quê, porque ele queria que eu estivesse aqui para garantir que você estivesse bem."
Se o olhar de Luana estivesse no mar, desta vez ela se virou para Jovi com um movimento lento.
"Acontece que o Sr. Rey recebeu uma ligação de Leipzig ontem à noite", disse Jovi novamente. "Foi uma ligação da Sra. Patrícia Lueic, sua sogra. E as notícias que chegaram por telefone não foram boas, sobre a saúde de Rey de repente falhando. O Sr. Rey decidiu voar para Leipzig esta manhã."
Os olhos de Luana se arregalaram quando Jovi disse isso.
'Então ele não tentou me evitar?' ela se perguntou. 'Então ele partiu porque ouviu a notícia sobre seu pai, não por causa do que aconteceu ontem à noite?'
A memória dela voltou ao dia do casamento, quando ela só tinha visto um vislumbre do grande Sr. e Sra. Lueic sentados no lado esquerdo do auditório.
Logo depois que os votos foram ditos, Rey simplesmente agarrou sua mão e a levou direto para a mansão. Sem apresentá-la à família, Rey provavelmente já sabia que só terminaria em vão.
Porque, de novo, Luana era apenas uma substituta.
"Então, estamos voltando para Heidelberg? Ou talvez indo direto para Munique?"
Jovi puxou os cantos dos lábios para formar um sorriso.
"No começo você achou que ela poderia te manter em Heidelberg", respondeu Jovi. "Mas você nem conseguiu entrar na própria casa dele, porque Madame Patrícia disse que ela realmente queria te ver."
A testa de Luana franziu, pois ela ainda não entendia onde Jovi estava indo com isso.
"Eu não entendo", ela disse. "Por que ela ia querer me ver?"
"Porque você é a nova Sra. Lueic", respondeu Jovi sem hesitar. "A visita do Sr. Rey a Leipzig esta manhã acabou sendo inútil, porque acabei de receber outra ordem."
Luana piscou duas vezes, inclinando a cabeça enquanto tentava juntar a linha comum de tudo o que estava ouvindo agora.
"Espere", disse a garota em voz baixa. Seus globos oculares rolaram, como se em descrença com o que ela estava pensando agora. "O que você quer dizer, estamos indo para Leipzig?!"
O sorriso de Jovi se alargou, seguido por um único aceno de cabeça sem hesitar.
"É isso mesmo, senhora. Estamos indo para Leipzig, logo após este navio pousar em Heidelberg", disse o cara. "Mare tem todas as suas coisas prontas, e o Sr. Rey estará esperando por você em Dresden também."