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Luana assentiu fracamente, com um sorriso ainda grudado na cara.
"Sou eu, patrão."
Luana pegou a expressão de saco cheio na cara do marido, mas parecia que Rey tava tentando manter a pose na frente da mulher.
"Por que você veio? Não tava no jardim?"
Luana ficou chocada por uns segundos, sem esperar que Rey soubesse da rotina dela de manhã, que ela geralmente passava no parque.
Até agora ela nunca tinha contado isso pro nobre, mas com certeza Rey sabia de tudo e o que tava rolando na mansão.
"Ah, ainda não fui lá," Luana respondeu. "Ia comer umas torradas, mas alguém gritou tão alto que não teve como não adiar meu café da manhã delícia."
Os olhos de Rey arregalaram devagar, seguido da mão do cara esfregando a nuca.
Ah, ele quase tinha esquecido que não tava mais sozinho na mansão. O fato de Luana ter ouvido ele gritando devia ter assustado a mulher, e agora Rey tava começando a se sentir culpado.
"Ah, isso..." Rey cortou a frase. "Você se assustou?"
Luana balançou a cabeça por reflexo, mesmo que isso significasse que ela tinha mentido um pouco hoje de manhã. Lógico que ela se assustou, assim como todos os criados que ouviram o grito mais cedo.
"Markus me contou tudo," Luana disse depois de cinco segundos de silêncio.
"Ele é incompetente no trabalho dele!" Rey brigou assim que Luana mencionou o nome de Markus.
Por alguma razão, Rey sentiu a raiva tomar conta de novo, considerando a merda que aconteceu com a camisa dele hoje.
Ele devia estar pronto pra aquela conferência super importante, mas olha ele agora, nem vestido direito!
"Por isso que eu vim, patrão," Luana disse devagar, de vez em quando checando o brilho nos olhos do marido. "Pra te trazer uma camisa que você possa usar."
Rey balançou a cabeça com força, se virando pra encarar Luana de novo.
"Eu não uso camisas costuradas à mão, Luana," Rey explicou, na lata. "Tão procurando uma igual, mas me deixa tão puto ter que esperar."
Luana foi ouvida suspirando. Uma coisa que fez Rey congelar de repente, agora focando toda a atenção na sua mulherzinha ali atrás.
"Mesmo que sejam minhas costuras?" Luana perguntou com a voz baixa.
Talvez precise de um draminha pra superar a raiva de Rey hoje de manhã, quem sabe.
"Mesmo que meus dedos tenham que doer porque eu insisti em costurar de novo esse botão?" Luana continuou.
Yiha! O drama começa.
De repente Rey virou o corpo com um único tranco, encarando Luana que fez uma cara cheia de tristeza.
"Você se machucou?" O cara chegou mais perto.
Pegando a mão de Luana que ainda segurava a camisa, Rey pareceu examinar os dedos da mulher.
"Qual?" ela murmurou enquanto procurava. "Onde você se machucou?"
Luana quase sorriu largo, mas segurou rapidinho.
"Não, tá tudo bem." Luana tirou a mão do aperto de Rey rapidinho. "Não sinto mais nada."
Rey endureceu o maxilar na hora.
"Meu Deus, Luana!" Rey exclamou impaciente. "Por que você se deu a esse trabalho todo e se machucou, hein?"
Luana franziu os lábios com força quando Rey aumentou o tom de voz, mas a mulher não se assustou nem um pouco porque a voz continha um tom exagerado de preocupação.
"Porque eu achei que você ia usar pra mim," Luana sussurrou dramaticamente. "Mas tudo bem se você não quiser usar."
Como a maioria das mulheres, a manobra 'chata' provavelmente ia funcionar.
Assim que Luana ia recuar pra sair, Rey já tava segurando ela. A respiração dele tava irregular de preocupação com a mulher.
"Vem cá," Rey implorou. "Vem cá, Luana."
Luana entrou no modo rendição quando Rey a puxou pra um abraço e deu um beijo no topo da cabeça dela.
"Desculpa, tá?" Rey sussurrou baixinho. "Eu que devia estar agradecendo por você ter feito isso por mim, não levantar a voz como eu fiz mais cedo."
Luana sorriu feliz.
Markus e a empregada novata foram salvos hoje.
Era o mínimo que ela podia fazer, pra uns fracotes que dependiam da bondade dos nobres.
"Tudo bem," Luana balbuciou. "Agora você vai usar?"
Rey desfez o abraço quente, mas ainda segurou o corpo de Luana com os dois braços esticados.
"Vou," ele respondeu com um sorriso que começou a aparecer na cara dele. "Se você costurar, então eu uso."
Luana sorriu de volta e enfiou a camisa no marido.
"Obrigada, patrão."
Mas em vez de aceitar a oferta, Rey abaixou o corpo pra ficar na altura de Luana.
"Coloca em mim então," Rey implorou meio sem vontade. Que modo!
Esticando as duas mãos, ele se preparou pra virar um menino que ia ser vestido agora.
Luana teve que rir, muito feliz em ver como a cara bonita tinha mudado pro visual de sempre.
Aquela chatice, talvez, tinha evaporado completamente.
"Ok."
Luana aceitou o pedido do marido, agora colocando a camisa pra cobrir o corpo firme de Rey. Como se estivessem treinados pra isso, os dois riram um pro outro.
Rey não deixou a distância se esticar, enquanto Luana agora colocava um dedo bem no botão de cima da camisa do cara.
"Quer que eu abotoe também?"
"Hm hm."
A mão de Luana se moveu de um jeito muito gentil, enquanto ela abotoava a camisa até o botão de baixo.
Limpando o tecido macio agora, Luana deixou Rey abotoar a base da manga dela.
"Foi isso que você consertou mais cedo?" Rey perguntou enquanto olhava bem pra Luana.
A Sra. Lueic assentiu com um sorriso brilhante. "Não tão perfeito, mas serve bem."
Rey concordou com isso, porque o botão tava bem consertado mesmo. Por alguma razão, o nobre tava vivendo como se não fosse ele mesmo, enquanto ele tinha deixado Luana entrar e mudado os hábitos dele um por um.
A presença dela era suficiente pra fazer Rey viver a vida de um jeito diferente, e ele gostava disso agora.
"Pronto." Luana esfregou o peito de Rey pra garantir que a camisa tava bem usada. "Você pode ir pra conferência agora, patrão."
O sorriso radiante de Luana pareceu clarear o coração antes ressentido de Rey, enquanto agora o cara tinha liberado toda a raiva que tava guardada.
"Todos os humanos podem cometer erros, Sr. Rey," Luana disse de novo. "Assim como essa nova empregada, e espero que você retire o que disse sobre demitir ela. Ela precisa muito de um emprego, de pessoas bondosas como você."
Rey geralmente não gostava de receber ordens, mas as palavras de Luana soaram tão boas. Será que o amor tinha mesmo tomado conta da consciência?
Rey ainda tava em silêncio, mas Luana já tinha continuado.
"Eu sei que você é generoso," ela elogiou. "Eu cuido disso pra você, então você só precisa focar no seu trabalho, ok?"
Demorou dois segundos antes de Rey se aproximar pra roubar um beijo na bochecha de Luana.
Um beijo que fez Luana corar igual uma flor encontrando uma abelha (que porra é essa, kkk).
"Essa é a minha resposta," Rey respondeu parecendo feliz. "Obrigado, Luana. Você salvou meu dia."
Luana tava feliz mesmo em fazer isso, porque ela tava arriscando o emprego de várias pessoas.
Ela sabia como era estar no lugar da empregada novata, e ela realmente queria ajudar. Pensa nisso, como um favor entre os excluídos.
"Agora se arruma, patrão," Luana disse enquanto dava um passo pra trás. "Eu vou lá pra baixo continuar meu café da manhã atrasado."
Rey obedeceu de novo, mas ele já tinha puxado Luana pra silenciar os lábios dela. Um beijo doce que abre a manhã provavelmente ia deixar o dia dele melhor, e ele tava tentado por aqueles lábios rosados desde sempre.
"Coma bem," Rey mandou depois de soltar o puxão. "Tenho que ir, Luana."
Luana assentiu, depois se virou pra sair da posição de Rey. A barriga dela tava roncando de novo, e ela não podia mais demorar.
O som da porta fechando virou o último backsound, pouco antes do som do celular de Rey encher o quarto.
Se esculpindo mais uma vez em frente ao espelho, não muito longe da posição anterior, Rey garantiu que tava perfeito pra a conferência de hoje.
O nome de Jovi na tela fez ele deslizar o telefone brevemente, depois ativou o modo viva-voz pra ficar na linha.
"Sim, Jovi."
"Senhor." A voz de Jovi soou um pouco diferente naquela manhã.
"Fala."
O foco de Rey caiu nos lábios que pareciam meio molhados, enquanto o cara puxava os cantos dos lábios pra um sorriso fraco.
O cheiro do corpo de Luana ainda tava presente, com os lábios molhados dele tendo acabado de esmagar os dela.
"Desculpa, Mestre." Jovi fez outro som.
Foi mais pesado dessa vez, enquanto ele continuou a frase dois segundos depois.
"A Srta. Beatrice já foi pra Munique, via um voo há duas horas."