16
[Uma semana atrás em Jacarta, Indonésia]
A sala enorme estava silenciosa. Um cara estava sentado numa poltrona gigante, daquelas de uma pessoa só, coberta de couro marrom claro.
Na frente dele, uma mesa de vidro com várias latinhas de cerveja e uns refrigerantes gelados.
O cara cruzou uma perna sobre a outra, olhando pros sofás do lado direito e esquerdo, um de cada lado, onde cada um estava sentado. Tinha mais um cara em cada sofá.
"Já pensou bem, Pedro?" A voz do Kaisar Lefano – o chefe de uma das organizações chamadas Os Vermelhos, conseguiu quebrar o silêncio.
Os dois caras na frente dele se viraram, meio que no automático, porque um deles era um lutador chamado Pedro Visconde.
O jovem de cabelo preto como a noite balançou a cabeça.
"Minha família já sabe que tô aqui, Rei," ele respondeu firme. "Minha coroação é daqui a duas semanas, preciso voltar."
O cara, que também era chamado de Rei na organização, só conseguiu soltar um suspiro. A saída do Pedro da Indonésia ia deixar ele sem gente quando o Pedro tava no pique pra ser o principal da organização.
Dois segundos de silêncio entre eles até o outro cara, que tinha o apelido de Jaguar, ser ouvido pigarreando alto pra caramba. O cara com as tatuagens nos dois braços endireitou a postura, olhando pro Pedro na frente dele.
"Então, você tá voltando pra Alemanha?" ele perguntou, cheio de confiança.
Recebendo um aceno do Pedro Visconde em resposta, o cara levantou as duas sobrancelhas, meio sem querer.
"Me diz," implorou o Roman, o segundo mais importante da organização Os Vermelhos. "Vai largar as armas e viver como nobre. É isso mesmo?"
O Pedro abriu um sorrisinho. Kaisar e Roman, os dois chefões da organização que o forjaram há um ano, pareciam genuinamente confusos com a decisão do Pedro dois dias atrás.
De repente, o Pedro, um dos lutadores mais confiáveis dos Vermelhos, revelou seu verdadeiro eu e disse que tinha que deixar a organização.
"Eu não queria mesmo voltar, Jaguar," começou o Pedro. "Me sinto vivo aqui com vocês, e sou muito grato por terem me aceitado nessa organização há um ano. Mas, aparentemente, minha fuga não pode mais ser escondida, já que minha família conseguiu me farejar e me obrigou a voltar para casa."
Kaisar foi visto ajeitando o cabelo em câmera lenta.
"Tô chocado," disse o chefe da organização. "Você era tão bom em esconder sua identidade que chegou a querer viver uma vida dura como essa e largar seu palácio na Alemanha. O que você tava pensando quando fugiu?"
O Pedro aumentou ainda mais o sorriso. Essa conversa não parecia mais formal quando Roman se moveu pra abrir sua primeira lata de cerveja. O cara se recostou na cadeira, aparentemente pronto pra ouvir a narração e explicação do Pedro.
"Eu evito casamentos arranjados," o Pedro respondeu honestamente. Não tinha mais motivo pra esconder sua identidade. Porque ele não era mais um lutador dos Vermelhos, mas o último filho da família Visconde que mora na Alemanha.
"Ainda existe muita tradição de casamentos arranjados entre nobres como nós," continuou o Pedro, mas não parecia que ele tava se gabando. "E eu sou muito novo pra viver em matrimônio com uma mulher que nem mexe comigo."
Kaisar e Roman trocaram olhares. Eles ficaram meio surpresos porque o motivo que o Pedro expressou era algo que nenhum dos dois esperava. Kaisar e Roman se lembravam do Pedro como um jovem com um bom corpo e força acima da média quando ele foi chamado pra entrar na organização.
O Pedro também foi um dos lutadores que evoluiu rápido o suficiente pra se tornar um dos lutadores mais confiáveis dos Vermelhos.
Ouvir o Pedro falar sobre mulheres e amor parecia um pouco estranho.
Kaisar respirou fundo de novo. Ele trocou alguns segundos de olhares com Roman antes que o cara também pegasse sua primeira lata de cerveja.
"Não posso pedir pra você não ir," disse o Rei. "Respeitamos sua decisão de voltar, mas lembre-se que a organização sempre vai te receber de braços abertos, quando você quiser."
O sorriso no rosto bonito do Pedro ficou ainda maior, junto com o alívio por ter recebido permissão da pessoa que ele mais respeitava na organização.
"Obrigado por toda a ajuda e orientação, Rei," disse o Pedro sinceramente. "Você me transformou em uma pessoa nova, e tenho certeza que minhas habilidades não vão sumir, mesmo que eu não esteja mais com vocês."
Roman concordou com a cabeça, concordando totalmente com o que acabara de ouvir.
"Estar por trás da sua equipe é a minha maior honra, Jaguar," continuou o Pedro. "Que sua vida de casado seja sempre feliz, e venha pra Alemanha quando quiser. Estarei lá pra te dar as boas-vindas."
Kaisar e Roman trocaram um sorriso, embora ainda houvesse um sentimento de angústia nos dois corações. Deixar um lutador habilidoso como o Pedro ir embora nunca era fácil, mas não havia mais nada que os dois pudessem dar a ele além do apoio contínuo.
"Certo então," disse Kaisar, com a intenção de terminar a conversa. "Venha quando você..."
A frase do cara foi interrompida quando o celular tocou no bolso da calça do Roman de repente, muito alto.
O Roman pegou o celular apressado, olhando alternadamente para Kaisar e Pedro, que estavam esperando em silêncio.
Olhando para a tela do celular por alguns segundos, Roman sorriu quando pediu permissão pra atender o telefone agora.
"Um momento," disse o cara. "Alguém de casa ligou."
Imperador e Pedro se olharam antes de se concentrarem em suas bebidas. Dando espaço para Roman atender o telefone, o cara tatuado se levantou do sofá e foi pra outra parte da sala.
Roman voltou com uma expressão de preocupação depois de alguns segundos na ligação.
Ele não sentou imediatamente onde estava, mas preferiu ir até o Pedro e estender a mão pra ele.
"Tudo de bom pra você, Pedro," ele orou. "Não posso te levar pro aeroporto, mas certifique-se de ativar seu número de celular, caso a gente vá de férias pra Alemanha."
O Pedro aceitou a mão do Roman e a apertou com firmeza, recebendo vários tapinhas no ombro do cara, já parecendo mais cheio.
"Sempre que precisar, Jaguar," respondeu o Pedro rapidamente.
Roman soltou o aperto de mão, já de pé e olhando pro Imperador agora.
"Kai, tenho que ir. Minha mulher tá doente de novo, e tenho que estar lá o dia todo. Se não se importar de cuidar da organização sozinho?"
O Rei concordou, falando baixinho com uma mão, sinalizando para Roman escapar.
"Tudo bem, Rom. Não há com o que se preocupar. Volte, porque a família é sempre mais importante que qualquer coisa."
Roman concordou, dando um cumprimento antes de já ter se virado e saído da sala enorme.
Deixando Kaisar e Pedro ainda lá, Pedro agora olhou pro relógio pra ver as horas.
"Meu voo também tá quase na hora, Rei," disse o jovem.
Kaisar respirou e expirou novamente suavemente, tendo mesmo que deixar o Pedro voltar pra Alemanha naquela manhã.
"Tudo bem, Lutador," o Imperador se levantou da cadeira. "Vamos nos despedir dos outros, e eu te levo pro aeroporto."
O Pedro mostrou os dentes brancos, abandonando metade dos seus sonhos de se tornar um bom lutador como ele aspirava desde criança.
Ele estava meio desanimado em voltar para a grande residência da família e não podia mais deixar seu lugar como nobre respeitado na cidade. Afinal, ele tinha o nome Visconde atrás do nome, e era hora de voltar para a vida real.
Ele compareceu a este banquete logo depois de aterrissar, mas o Pedro não conseguia tirar os olhos da garota com o vestido de brocado rosa.
A garota esteve em seus braços por alguns segundos, mas de alguma forma conseguiu fazer seu peito disparar só de pensar nisso.
A garota estava andando devagar com uma mulher ao lado, indo em direção à saída mesmo antes do jantar começar.
"Eu não sabia que a garota que eu tava esperando tava aqui," o Pedro murmurou enquanto girava o copo com sua bebida. "A garota que fez meu coração bater sem motivo aparente, e parece que meu retorno traz algo extraordinário."
O cara manteve o olhar fixo até que a silhueta do corpo virasse em uma das portas. O Pedro não fazia ideia dos outros dois olhos, que o encaravam com tanta intensidade desde então.
O olhar de um jovem nobre que não era menos bonito e que acabou sendo o marido legal da garota por quem o Pedro tinha acabado de se apaixonar.
Rey Lueic.