Capítulo 113
Dessa vez, era meu pai. Ele tava tentando parecer de boas, mas dava pra ver que tava curioso pra saber o que eu ia responder. Tentei não me trincar com o nome dele, mas a força que eu tava fazendo na faca e no garfo aumentou. Tentei disfarçar cortando o pedaço de carne no meu prato.
"Ele é gente boa." Respondi seca, tentando mudar de assunto e esquecer. Não queria lembrar do que rolou, não me fazia bem e eu não queria perder a linha na frente de todo mundo, principalmente dos meus pais.
Só que a minha mãe, ou tava desligada, ou simplesmente ignorou os sinais que eu tava dando.
"E aí, a memória dele voltou pra gente?" Perguntou ela com a sobrancelha levantada. Me deu tudo pra não dar um sorriso falso pra ela e vazar do restaurante. Tentei o máximo pra manter a postura, só balançando a cabeça e mantendo um pouco de contato visual.
"Ele não se lembra de mim, mãe," Pelo menos não como namorada.
Uma careta se formou no rosto dela, franzindo as sobrancelhas, mostrando a decepção.
"Não entendo por que você não conta pro garoto. Eu sei que você gosta dele, Case." Tentei não explodir.
O tempo todo, meu pai ficou quieto, olhando pra mim como se estivesse fazendo as mesmas perguntas em silêncio. Eu não podia dizer pros meus pais que a razão de eu não querer que o Adam lembrasse de mim era porque eu era um perigo pra todo mundo. Eles não sabiam de nada sobre o Bryant entrar em gangue e as brigas de rua.
Não queria estragar a imagem do filho deles com essa informação. A memória que eles têm do Bryant devia ficar intacta, porque é isso que ele merece. Ele merece ser lembrado como uma pessoa perfeita, porque ele foi só o filho e o irmão perfeito.
"Eu não posso, mãe." Falei com esforço e deixei um pouco do meu desespero vazar, pra ver se eles me deixavam em paz. Infelizmente, com a minha mãe, era como se ela vivesse na própria bolha.
"Desculpa, querida. Não queria te chatear. Deve ser difícil pra você, mas você sabe que estamos aqui. É só que eu não quero que você demore pra perceber que algo bom pode estar escapando pelos seus dedos agora. Se aquele garoto fez seu pai gostar dele, ele é único." Minha mãe tagarelou e só um aperto de mão do meu pai pra finalmente calar ela.
Graças a Deus que pelo menos um dos meus pais tem a decência de saber quando parar.
"A gente só tá preocupado com você, mas estamos felizes que você se adaptou bem na faculdade." Concordei com um sorrisinho, agradecendo meu pai em silêncio antes de continuar comendo. O resto do jantar foi em silêncio depois disso e, quando a gente falava, meus pais evitavam falar do Adam a todo custo.
Eu agradeci, porque por mais que as lembranças com o Adam fossem boas, só de pensar que tudo era passado, doía. Aí tinha aquela lembrança dele me acusando de ter matado a Carla. Só de pensar, meus olhos começaram a lacrimejar.
Quando o jantar acabou, fomos pra casa e eu decidi abrir alguns livros pra adiantar as lições que ia estudar nesse semestre. Abri minhas anotações e tava pronta pra passar as próximas horas estudando, quando de repente lembrei da agenda de luta que peguei antes. Abri minha bolsa e tirei o papel.
A minha próxima luta era em dois dias. Comecei a ficar nervosa. Não sabia por que tava me sentindo assim, mas sabia que não ia adiantar nada. Respirei fundo e lembrei que dei o meu melhor no treino e que ia ficar tudo bem. Eu tenho que ficar bem. Ninguém vai se machucar por minha causa.
Ninguém, exceto o garoto cujo irmão tá atrás das pessoas que você ama porque você machucou ele feio numa das lutas.
A minha mente voou pro cara psicopata que tava me chantageando. Não vou mentir, tô com medo. Não porque me sinto ameaçada, não importa o quanto eu não queira morrer, eu acredito que a morte é inevitável e vai acontecer quando tiver que acontecer. Aceitei isso pra mim, mas era completamente diferente quando se tratava de quem eu amo.
Não acho que vou conseguir lidar direito com a morte de alguém que eu amo. Não quando eu investi tantos sentimentos nelas. Eu tava com medo porque a vida da minha família e dos meus amigos tava em jogo. Não era só a minha vida que tava em risco, era a de todo mundo, e eu não tava gostando das chances que eu tava enfrentando.