Capítulo 136
Eu passei pelo Jerry na saída da sala e corri direto pra ele, precisando desesperadamente de um abraço. A cara dele virou uma de preocupação e ele me envolveu com os braços no meu corpo tremendo.
Eu não via ele desde que cheguei aqui, mas fiquei aliviada que ele tava lá na hora que eu tava quase tendo um ataque. Ele sempre foi uma figura paterna pra mim e eu acho que era disso que eu mais precisava agora.
"Ai, Case, sinto muito." O Jerry sussurrou com a voz embargada, que era o espelho de como eu tava. Eu só balancei a cabeça, com o rosto grudado no peito dele. A dor era demais e eu sentia que ia explodir. Senti que tava sendo puxada pra cozinha e ele me sentou num dos bancos da bancada.
"Me conta o que tá rolando," o Jerry incentivou, sentando no banco do meu lado. Ele esticou o braço pra me abraçar de lado e eu me encostei nele, sem saber por onde começar.
"Você me falou, quando eu tomei a decisão de não contar pro Adam quem eu realmente era, que ele merecia saber a verdade. Mas também me disse que não ia interferir porque a decisão era minha," comecei, fungando baixinho.
"Eu não me arrependo de ter criado essa distância entre a gente porque, honestamente, acho que tô trazendo todo tipo de perigo pra vida dele por estar com ele. O acidente provou isso." Lágrimas novas brotaram nos meus olhos quando o Jerry tentou me defender depois que eu falei da culpa que eu ainda sentia.
"Aquilo não foi culpa sua, Case. Foi um acidente e você não teve controle nenhum sobre isso." Deu pra ver que o Jerry tava tentando me convencer de verdade porque a voz dele ficou mais firme, mas eu continuei balançando a cabeça teimosamente. Decidi que não ia conseguir me explicar direito pra ele a menos que contasse tudo sobre a situação fudida em que eu tava agora.
"Jer, a real é que eu luto na rua faz anos. Quando o Adam me contou sobre a Carla e como vocês tavam com problemas nas contas, eu entrei numa competição pra ganhar uma grana e ajudar vocês secretamente com as contas do hospital. Não me toquei na época. Era tudo pra salvar a Carla no começo, mas agora eu percebi que fiz merda em ser tão inconsequente. Subestimei o perigo de participar de uma competição onde gente sem escrúpulos participa." Eu mantive a cabeça baixa enquanto tentava contar minha história de forma concisa. Tava envergonhada do que eu fiz pra bagunçar a paz e a tranquilidade da família dele.
"Tentei parar quando a Carla morreu, mas apareceu aquele cara no enterro dela. Aparentemente, eu machuquei o irmão dele numa luta e ele exigiu que eu continuasse lutando na competição, senão ia machucar as pessoas que eu amo. Fiquei aterrorizada, mas o Adam tinha certeza que era blefe, então tentei ter fé. Mas, de repente, o Adam foi atropelado por aquele carro." Enxuguei as bochechas molhadas. Tava com medo do que ia ver se levantasse a cabeça pra encarar os olhos do Jerry. Tava com medo do ressentimento que podia ver.
Quando não ouvi resposta dele, continuei falando e evitei contato visual com ele.
"Aquela noite eu escolhi manter distância da sua família o máximo possível, mas ainda estar lá pra vocês, pra cumprir a promessa que fiz pra Carla. Pensei que, talvez, mantendo distância, a próxima leva de pessoas que eu acidentalmente irritasse não ia mirar na sua família. Não tenho ninguém pra culpar, a não ser eu mesma, pelas minhas decisões sem pensar. Mas não me arrependo de não ter contado pro Adam quem eu realmente era."
Finalmente olhei pra cima, procurando nos olhos dele qualquer ódio ou desgosto direcionado a mim. Felizmente, não encontrei nada. Só tristeza e preocupação.
"Me faz uma pessoa ruim não me arrepender de esconder as coisas do Adam, mas ainda chorar pelas consequências disso?" perguntei pra ele, ainda procurando no rosto dele. Eu sabia que ele provavelmente sabia sobre a Kiara. Os garotos Jones não eram exatamente tímidos sobre a vida amorosa deles.
Lembrei do dia que conheci o Jerry e a Carla. Não demorou muito pra ele me apresentar pros pais dele e eu acredito que foi o mesmo com a Kiara também.
O Jerry balançou a cabeça, juntando a bagunça na frente dele nos braços. Continuei soluçando sobre meu coração partido no abraço dele, que era como o de um pai.
"Sinto muito, Case. No dia que ele foi pra casa com a Kiara atrás dele, eu já temia o dia que você ia descobrir sobre eles. Sabia que ia te quebrar, mesmo você sempre agindo como forte. Você tem essa casca dura de lutadora, mesmo quando tenta fazer o papel de certinha. Me quebra te ver assim; de verdade." A voz dele tava sangrando a dor que ele guardava e eu mal conseguia ouvir ele sussurrar, "Adam, o que você fez."
Chorei mais forte pela bondade que esse homem teve comigo, mesmo depois de saber a história toda do desastre que eu trouxe pra família dele.
"O que eu faço agora, Jer?" Eu tava tão perdida e sentia que tava tateando no escuro em busca de uma direção; por qualquer sentido de direção. Pela primeira vez, me senti como uma menininha que tava sozinha num mundo escuro.
"A polícia?" o Jerry perguntou. Eu balancei a cabeça rapidamente que não e ele assentiu em compreensão.
"Por mais que eu não goste da ideia de você colocar sua vida em risco continuamente assim, odeio admitir, mas você só tem que passar por essa luta e vencer. Você tem que jogar no ataque nessa vida, se se contentar em só se defender, você basicamente tá se preparando pra morrer. Quanto ao Adam, tenho certeza que tudo vai dar certo no final. Sei que não é algo que você gostaria de ouvir, mas no fim das contas, sempre vai ter um plano maior pra todos nós e é tudo para o bem. O que acontecer pro Adam e pra você, vai ser pro bem. O que acontecer entre vocês dois, você sempre será bem-vinda aqui. Você sempre vai ser como uma filha pra mim." As palavras do Jerry me tocaram. Ele me lembrou de ter fé e confiar em qualquer plano que tenha sido traçado pra mim.
Eu não tô sozinha nisso e nunca estive. Eu tive o Preston, mesmo quando não tinha o Adam. Eu tive o Jerry, que me apoiava silenciosamente, mesmo que eu pudesse dizer que ele desaprovava minhas decisões e ações. Nunca estive sozinha todo esse tempo. Mesmo quando eu tava chorando sozinha no meu carro ou no meu quarto, eu sabia que Deus tava cuidando de mim e que eu tava segura. Eu só precisava confiar nessa força maior porque, no fim das contas, eu era só humana.
Depois de abrir meu coração pro Jerry, ele me falou pra ficar a noite e usar o quarto de hóspedes. Meus pais tavam chegando em casa no dia seguinte, então falei pra ele que talvez fosse embora cedo na manhã seguinte pra garantir que não ia me atrasar pra pegar eles no aeroporto.
O Jerry me deu outro abraço apertado antes de se despedir e ir pro próprio quarto. Peguei o quarto de hóspedes que eu ficava durante as poucas noites que eu consegui passar por lá. Não levei nenhuma troca de roupa, já que não tava planejando ficar a noite. Geralmente, eu ia pegar algo emprestado do Adam, mas como essa não era mais uma opção, optei por dormir com a roupa que eu tava.