Capítulo 157
Dois dias depois da briga e eu ainda estava me sentindo tão detonada quanto uma hora depois da briga.
Rolando pra fora da cama não era uma opção, porque cada movimento que eu fazia me forçava a soltar um gemido.
Eu ainda tinha que ir pra escola hoje e, do jeito que eu estava mancando por todo lugar, ia precisar de um milagre pra passar despercebida.
Eu não queria perder um dia de aula, a menos que fosse uma situação de vida ou morte, então ligar pra avisar que tava doente definitivamente não era uma opção.
Quando meu alarme tocou, eu saí da cama com cuidado e tentei fazer o mínimo de movimentos possível.
Eu fui com calma pro meu armário e peguei umas roupas pra trocar antes de mancar pro banheiro.
Dizer que cada movimento doía pra caramba era pouco e eu só podia rezar pra que tudo amenizasse de alguma forma antes da minha última luta. Eu precisava vencer, muito.
Eu só podia torcer pra que meu oponente estivesse em pior estado do que eu. Provavelmente é a única maneira de eu ganhar a luta.
Depois de me limpar, tentei ficar o mais apresentável possível. Eu nunca gostei da sensação de ter a cara toda empastelada de maquiagem e, por isso, mandei um obrigado rapidinho pra Deus por não ter levado nenhum soco na cara na última luta.
Eu ainda tinha olheiras profundas e um pequeno corte aqui e ali no rosto, mas os roxos não eram tão ruins quanto os da última luta.
Eu peguei um moletom rapidinho, planejando ficar o mais confortável possível durante as aulas.
Sorte a minha, meus pais foram chamados pra uma reunião de emergência do conselho por mais uma semana. Logo depois da minha última luta.
Quando eles voltarem, tudo ia ficar bem. Sem mais lutas, sem mais perigo, sem mais vingança.
Eu não sei há quanto tempo não tinha paz na minha vida. Já fazia anos desde que eu comecei a lutar no Lugar Subterrâneo. Eu tinha esquecido como era viver sem estar tensa a cada segundo de cada dia.
Eu não conseguia me lembrar porque escolhi continuar vivendo esse tipo de vida, mas acho que ajudou a ocupar minha mente. Pode parecer horrível, mas me preocupar em ser emboscada por alguém do Lugar Subterrâneo nas ruas impedia minha mente de pensar na morte do Bryant o tempo todo.
Eu peguei minhas coisas na saída e fui pra escola.
Quando cheguei e estacionei, respirei fundo pra me recompor. Mandei uma oração rápida por força pra aguentar a dor de me movimentar por esse campus gigante e abri a porta do carro antes de me virar de lado pra sair do carro.
Eu dei passos pequenos pra evitar dores agudas que disparassem pelo meu corpo enquanto todo mundo passava por mim, alguns olhando duas vezes pro meu ritmo.
Em um certo ponto, percebi que tinha que subir as escadas pra chegar a uma das minhas aulas e gemi internamente. A vontade de gritar de frustração era tão difícil de suprimir que tive que respirar fundo e me convencer a não surtar.
Queime essa ponte quando chegar a hora, Case.
Eu foquei em não ser atropelada pelos estudantes universitários implacáveis que estavam empurrando as pessoas sem se importar. Eu quase dei um soco na cara de alguém por ter me dado uma cotovelada na cabeça, mas decidi que não valia a dor.
É melhor guardar isso pra última luta. Eu certamente vou precisar de tudo que puder reunir se for pra sobreviver àquela luta.
10 minutos de aula, depois de uma longa luta pra chegar ao auditório, comecei a questionar meus motivos pra ir pra escola hoje.
No que eu tava pensando?
Já que eu já tava lá, acho que era uma pergunta inútil pra mim mesma. Vou continuar lutando o dia todo e espero que as pessoas no corredor não me pisoteiem até a morte.
Eu não posso morrer ainda, ainda tenho que lutar e vencer.
Depois da aula, tive uma hora de intervalo antes de ter uma tutoria pra ir. Olhei pra esquerda, pras escadas que tinha que subir pra chegar na aula, e pra direita, pra onde ficava a praça de alimentação.
Decisões, decisões.
Decidi que merecia alguma recompensa por passar pelo trânsito da manhã nos corredores e comecei a mancar em direção aos restaurantes.
Era bem triste que eu não tinha amigos na Universidade. A ideia de fazer alguns era tentadora enquanto eu caminhava pelo campo aberto pra onde ficavam as barraquinhas de comida.
Pensar em amigos me lembrou da Penélope e da Monic.
E do Jake, claro.
Não era a mesma coisa desde que eu e a Penélope nos mudamos pra Universidades diferentes. Eu não duvidava que ela já estivesse sendo cercada por um monte de amigos.
A Monic, a última vez que eu ouvi falar dela, parecia estressada e chateada. Eu presumi que tinha algo a ver com o Jake, já que ela evitava falar sobre ele quando eu mencionava o relacionamento deles.
Tinha muitas coisas acontecendo e imaginei a dificuldade de ter que guardar meu segredo de outra pessoa. Eu estava cansada de mentir e fugir. Tive a sorte de meus pais estarem fora na maioria das vezes, mas eu não tenho condições de construir uma amizade com base em mentiras.
Talvez, quando tudo isso acabar, eu possa começar a viver uma vida normal de adolescente. Posso começar a fazer amigos e me preocupar com os problemas normais dos adolescentes.