Capítulo 187
“Já vou!” Eu falei pro/pra Casey quando abri a porta do quarto pra avisar que eu tava saindo.
Quando a Casey não reagiu, eu suspirei e tentei de novo.
“Case, tô indo?” Eu não queria que ela voltasse pra real só pra me ver sumido e começar a me procurar na rua.
Dessa vez, tive uma resposta melhor: a Casey fez um “hum”, com o nariz enfiado no livro.
“Diverte-te!” Ela falou, meio desligada, com os olhos grudados nas páginas do livro.
“Beleza.”
Eu tinha usado os guris como álibi, falando pra ela que ia ficar fora até tarde hoje pra colocar o papo em dia com eles.
Sorte a minha que ela tava tão dentro do livro que tava lendo que nem ligou pra mim. O sol já tinha se posto faz tempo, mas a Casey não tinha saído do lugar na cama pra acender a luz do quarto. A única luz que tava ajudando ela a ler era a lanterna do celular, que tava virada pro teto. A luz batia no teto do quarto e não clareava quase nada, mas acho que era o suficiente pra Casey ler.
Era um péssimo costume que ela tinha desde que começou a ler. Ela começava a ler quando o sol ainda tava no céu e nem percebia que tava anoitecendo, até não conseguir mais ler as palavras na página. Aí, achava muita mão de vaca levantar pra acender a luz do quarto, então apelava pra qualquer fonte de luz que tava no alcance da mão; que no caso era a lanterna do celular dela.
Eu suspirei com a preguiça dela e estendi a mão pra parede do lado da porta, pra pegar o interruptor. Com um clique, o quarto ficou claro e a Casey piscou, com a cara toda amassada com o ataque repentino na visão dela.
Já desisti de ficar enchendo a paciência dela pra não ler no escuro faz tempo. Quando ela tá no mundo da ficção, parece que entopem os ouvidos. Geralmente, precisa de várias tentativas verbais pra chamar a atenção dela ou contato físico pra trazer ela de volta pra real. Às vezes, ela pode ficar difícil também, principalmente se já tá chegando nas partes boas do livro. Por isso, eu tento ficar longe quando ela tá com um livro na mão, a não ser que seja importante. Ela vira um monstrinho quando alguém interrompe a hora da leitura dela sem motivo.
Ela acenou pra mim como tchau sem levantar a cabeça e continuou lendo. Enquanto meu olhar ficou na minha irmã que nem percebeu, eu rezei pra conseguir chegar em casa em segurança hoje à noite. Eu esperava que o que eu tava com medo que acontecesse não acontecesse. Eu não queria que a Casey olhasse pra trás e se arrependesse disso pro resto da vida se eu não chegasse em casa inteiro hoje à noite. Eu não queria que esse momento virasse uma memória que ia assombrar ela pra sempre.
Com isso, eu saí do nosso quarto e a porta fechou com um clique.
Eu desci as escadas e torci pra chegar em casa vivo hoje à noite.
Talvez eu estivesse pensando demais e reagindo demais à missão que tava recebendo hoje à noite. Mas enquanto eu ia de moto pro endereço que o Jax tinha me dado, eu não consegui esconder o medo e a apreensão.
A única coisa que eu conseguia pensar eram os piores cenários que meu cérebro conseguia inventar.
Finalmente cheguei em outro galpão vazio, na periferia da cidade, não muito diferente do primeiro galpão que o Jax tinha me mandado. O galpão parecia abandonado também, assim como o primeiro, mas esse era maior. O portão do galpão tava pendurado pelas dobradiças e parecia que ninguém tinha visitado a área em anos, mas tinham marcas de pneus no chão perto dele.
Eu segui as marcas em volta da cerca alta que protegia o perímetro e cheguei num buraco enorme na lateral do galpão. Eu segui as marcas e achei uns jipes estacionados atrás do galpão. A luz entrava na noite escura pelas pequenas janelas e frestas nos corredores do galpão e eu conseguia ouvir vozes fracas lá dentro.
Estacionei minha moto perto dos jipes e procurei a entrada no galpão. Eu agradeci o chão macio que tinha as pegadas das pessoas que estavam aqui antes de mim. Eu fui pisando com cuidado enquanto contornava o galpão mais uma vez. Quando virei a esquina, ouvi alguém falando a poucos metros de distância.
Eu parei no lugar quando vi a silhueta de um homem alto, com ombros largos e bíceps do tamanho da minha cabeça. Tava muito escuro pra ver qualquer detalhe dele, então era compreensível qualquer um reagir demais à situação.
Quando o homem se virou e me viu, ele imediatamente estendeu a mão que não tava segurando o celular e pegou uma arma. Antes que eu pudesse piscar, a arma na mão dele já tava apontada pra minha cabeça.
Eu não entendi por que ele achou que eu era uma ameaça. Eu tinha metade do tamanho dele e tava desarmado. Mas acho que ele não ia saber disso, a não ser que me revistasse pra ver se eu tinha alguma arma.
A gravidade da situação me atingiu como um balde de água gelada. Eu tinha me jogado num mundo onde as pessoas andam com armas como se fossem celulares e tenho certeza que elas tinham um bom motivo pra isso também. Só tinha 2 motivos que eu conseguia pensar do porquê as pessoas andariam com armas. Era a) elas precisavam matar alguém ou b) elas fizeram alguma coisa que irritou as pessoas e precisavam de uma arma pra se defender.
Julgando pelo porquê nós dois estávamos aqui e pela aparência desse homem, eu tava apostando nos dois motivos.
Eu levantei as mãos por reflexo e meus pulmões de repente esqueceram como funcionava.
“Quem é você?” A voz dele era grossa e profunda.
A minha garganta tinha secado faz tempo, provavelmente na hora que a arma dele apareceu.
Eu engoli em seco e pigarreei pra ter certeza que minha resposta não ia sair como um guincho.
“Eu sou novo. O Jax me deu o endereço desse lugar.”
A arma foi abaixada lentamente enquanto o homem virava a tela acesa do celular pra mim, pra ver melhor.
Eu apertei os olhos contra a luz, mas não me mexi. Ele tinha largado a arma há um segundo, mas nada impedia ele de tirar ela de novo.
Depois de um segundo, o homem deu um passo pra trás. “Me segue,” ele ordenou enquanto se virava e nos levava pra uma porta.
A porta tinha uma trava, mas não tava trancada. O Sr. Arma-na-mão abriu a porta e me deixou entrar.
O prédio não parecia muita coisa por fora, mas ficar lá dentro fazia parecer bem maior do que parecia. Tinha um teto alto e tava praticamente vazio.
O chão do galpão tava coberto de poeira e sujeira. O teto era muito alto pra eu ver alguma coisa, mas eu tinha certeza que anos de teias de aranha provavelmente cobriam os cantos dele.
A única mobília que não tava sem uma perna ou em pedaços dentro do galpão era uma mesa cheia de armas e facas. Tinha uma única lâmpada pendurada no teto bem em cima da mesa, que brilhava forte, iluminando as armas na mesa de madeira.
Tinha gente andando pelo galpão vazio, testando algumas armas. Alguns pareciam estar zuando, enquanto outros estavam reunidos em volta da mesa, com o corpo curvado pra olhar um pedaço de papel na mesa.
Você já sentiu aquela sensação quando você tá em algum lugar que nunca esteve antes sozinho, sem ninguém pra te dar apoio? Parecia que alguém ia me pular e me esfaquear pelas costas. Parecia solitário e o medo que me consumia parecia triplicar.
Enquanto eu fui me aproximando da mesa, o Jax me viu e fez sinal pra eu ir até lá. O papel na mesa ficou mais claro e eu consegui decifrar o que era, conforme a distância entre a mesa e eu diminuía.
Era um mapa.
Toda a cena parecia que todo mundo tava se preparando pra guerra.
E talvez eles estivessem.
Eu olhei pros rostos analisando o mapa.
O Quentin tava lá, falando com os caras do lado dele sobre o plano. Eu não conseguia entender direito o que eles tavam falando, porque meus olhos acabaram parando nas armas em cima da mesa, do lado do mapa.
Uma sensação ruim cresceu na boca do meu estômago e eu já tinha visto filmes o suficiente pra saber que você devia controlar a quantidade de emoções que demonstra na frente dos seus inimigos, mas meu estado de pânico não permitia esse controle.
A primeira a perceber foi o Jax. Eu senti os olhos dele perfurando o lado do meu rosto, mas meus olhos não conseguiam sair das armas que estavam na minha frente, desde que eu consegui ver elas de perto.
Sorte que o Jax teve a decência de segurar os comentários na frente dos outros membros da Máfia. Ele foi pro meu lado e me cutucou com o cotovelo de leve pra me tirar do meu transe.
Eu me virei pra olhar pra ele, tirando os olhos com sucesso das ferramentas de terror.
Eu não queria pensar por que eles tavam arrumando armas.
O Quentin finalmente percebeu minha presença depois que a discussão com os caras dele terminou.
“Ah, você tá aqui. Jax, explica pra ele.” O Quentin apontou pro mapa e falou pra todo mundo terminar o que tava fazendo. “Nós vamos sair em 15! Todo mundo, se preparem!”
No segundo que o Quentin e os caras dele saíram de perto da mesa, o Jax e eu ficamos sozinhos e o Jax imediatamente se virou pra mim, com um olhar afiado.
“Se você não quer ser engolido vivo por essas pessoas, se ajeita e tira essa cara daí.” Ele avisou baixo.
Eu olhei pra ele, minha mente ainda tava turva e demorou um tempinho pra eu entender o que ele disse.
“Quer que eu te dê um tapa?” Ele ofereceu com a voz baixa. “Nós só temos 15 minutos pra garantir que você não estrague tudo pra gente.”
Eu balancei a cabeça enquanto fechava os olhos com força e respirava.
Quando abri de novo, finalmente consegui focar minha visão no Jax.
“Tô de boa.” Eu falei pra ele, com a voz quase inaudível, mas o Jax ouviu e virou pro mapa na mesa.
“Você é o motorista hoje à noite. Seu trabalho é simples e não deveria ser difícil não estragar tudo, desde que você se controle, então se garante.” O Jax ajeitou o papel na mesa e começou a apontar pra uma área que tava circulada de vermelho.
“Esse é o nosso ponto de entrega e coleta. Você precisa voltar em exatamente 15 minutos pra nos pegar, senão todos nós estamos ferrados.”
O Jax tirou uma caneta e desenhou uma linha no papel. “Dar três voltas nesse percurso vai levar 15 minutos, desde que você dirija numa velocidade constante de 40km/h. Não deve ter trânsito porque não é a estrada principal. Tudo que você precisa fazer é seguir os outros motoristas. Fácil.”
Ele então me entregou um relógio. “Foi configurado pra combinar com o de todo mundo.”
“E isso,” o Jax pegou uma arma da mesa. Eu dei um passo pra trás sem querer, porque meu corpo reagiu por reflexo ao sentimento de medo que tinha aparecido.
“Eu acho que não vou precisar disso.” Eu falei pra ele, olhando pro objeto em questão.
“Não seja burro.” A mão do Jax foi pra frente e agarrou a minha, forçando a arma pra mim. “Isso não é um dos seus joguinhos de futebol onde o seu oponente joga o corpo dele no seu. As pessoas do outro lado também têm armas. Não importa qual papel você tá fazendo nessa missão. Você escolheu o seu lado. Se você não quer morrer, é melhor ficar com isso perto de você.”
A minha garganta foi secando mais e mais enquanto eu ouvia as palavras do Jax.
“Sabe usar isso?” O Jax perguntou, pegando uma arma pra ele.
Eu balancei a cabeça em silêncio.
O Jax simplesmente mostrou onde tava a trava de segurança e como mirar. “Se certifica de segurar com as duas mãos, não vai acabar atirando em um dos nossos. Ah e, não que isso adiante, mas só pra avisar, seus ouvidos provavelmente vão zumbir com o barulho do tiro. É normal, então não surta e comece a atirar pra todo lado.”
Eu olhei pra arma na minha mão. O cabelo na nuca levantou e um calafrio se espalhou pelo meu corpo.
Isso tava realmente acontecendo.
“Nós saímos em 5, guris! Entrem nos jipes!” O Quentin berrou enquanto ia em direção à saída do galpão.
Eu me virei pro Jax, que tava checando as balas na arma dele.
“O que você quis dizer quando falou o outro lado?” Eu perguntei pra ele.
O Jax enfiou a arma na parte de trás da calça e começou a andar em direção à saída, seguindo a multidão de umas 20 pessoas.
Eu peguei o sorriso dele, mas ele não respondeu nem explicou minha pergunta.
Minhas pernas já tavam fracas e eu sentia que podia tropeçar no meu pé a qualquer momento.
Eu nunca tinha sentido essa sensação antes. Na escola, eu sempre me senti seguro na minha própria pele, sempre confiante. Como eu não ia ser, com o status de jogador estrela de todos os esportes que eu praticava? Eu sempre senti que eu era homem o suficiente, eu não era cego ou alheio à atenção que eu recebia da população feminina.
Mas estar nessa cena, em pé no meio dessa multidão, pela primeira vez na minha vida eu me senti pequeno. Eu me senti insignificante.
Enquanto as pessoas entravam nos jipes enfileirados atrás do galpão, o Jax apontou pra um jipe que eu imaginei que ia ser o carro que eu ia dirigir hoje à noite.
“Tenta acompanhar, Johnson.” Ele sorriu antes de ir pra outro veículo. Não tinha nada de positivo no sorriso que ele me deu.
A sensação da arma pressionando contra minhas costas, enquanto pendia pela minha cintura, era um lembrete constante do que eu tinha na minha posse.
Eu subi no banco do motorista do meu jipe e tentei acalmar meus nervos enquanto todo mundo entrava. O jipe balançava em silêncio sob o peso dos homens entrando no veículo e o movimento ameaçava me fazer passar mal.
“Vamos nessa, guris!” O Quentin gritou enquanto o jipe dele liderava a fila.
Eu dirigi atrás dos outros jipes, com as mãos agarrando o volante com força pra evitar que tremessem.
O som do cano de uma arma clicando no lugar era a única coisa que preenchia o silêncio no carro. Eu não me dei o trabalho de conversar e só foquei em passar por essa noite.
Isso é só um pesadelo.
Eu vou acordar logo dele.
Vai ficar tudo bem, porque isso é só um pesadelo.
Eu cantei essas três frases repetidamente na minha cabeça, enquanto meus olhos ficavam grudados nos jipes na minha frente.
É um sonho que você pode acordar, então vai ficar tudo bem.