Capítulo 202
"É, dá um pulo aqui quando quiser, Bryant. Não tenho nenhum plano pra hoje à noite, então provavelmente estarei em casa. Te mando meu endereço por mensagem." O General Reeves disse no telefone.
"Obrigado, General. Te ligo quando estiver a caminho." Falei no telefone antes de desligar.
Já faz uns dias que não ouço falar do Dom. Se a nossa briga do outro dia não tivesse acontecido, eu não estaria pensando tanto no silêncio dele, já que não éramos o tipo de amigos que precisam se falar todo dia pra continuar próximos, mas o jeito que as coisas ficaram na última vez que nos vimos me deixou preocupado.
Chequei a conta dele nas redes sociais pra ver se ele estava ativo ou tinha feito alguma postagem ultimamente, mas não encontrei nada que aliviasse minhas preocupações. Talvez eu tenha pego pesado com ele...
Mas o que eu ia fazer?
No fundo, eu sabia que não me arrependi do que fiz naquele dia, porque sabia que tinha que fazer o que fiz pra ajudar a Casey. Só não me fez bem ter acabado machucando um dos meus melhores amigos fazendo isso.
Suspirando, decidi guardar meu celular e olhei pra cima, só pra fazer uma careta.
Esqueci de mencionar que era o dia da festa que a gente tava morrendo de medo?
Digo a gente porque tenho certeza que a Casey também tava morrendo de medo, só que calada.
A Casey entrou no quarto com um vestido curtinho que parava uns centímetros abaixo da bunda, com alcinhas finas que pareciam que iam arrebentar fácil.
Balançei a cabeça. "Nem pensar."
A Casey revirou os olhos pra mim como se já esperasse minha reação. O que mais ela esperava que eu dissesse? "Nossa, você tá arrasando, Case, todos os caras da festa vão ficar de olho em você?"
"É só um vestido, Bry. Olha, não tá mostrando nada. Escolhi ele porque sei como você se sente sobre roupas muito reveladoras." Ela apontou, gesticulando pro decote do vestido.
Ela tá certa, não mostrava nenhum peito, mas ainda não me fez sentir melhor sobre o vestido.
"E isso aqui não é revelador?" Perguntei pra ela, perplexo.
"Não é?" Ela me desafiou, levantando as sobrancelhas, ainda gesticulando pro vestido.
"Sei lá", eu murmurei, franzindo a testa pro look. "Não pode colocar uma calça?"
A Casey me lançou um olhar que dizia: "Sério mesmo?"
Arregalei os olhos como se dissesse: "Por que não, porra?"
Olhei pra barra do vestido, que era curta demais pro meu gosto. A Casey seguiu meu olhar e suspirou. "Ah, qual é, mano, não pode esperar que eu use um vestido que vai até o joelho e essas paradas numa festa de ensino médio. Esse é o melhor vestido que eu consegui pensar. Não é colado no corpo e não mostra peito pra atender suas exigências, mas ainda é ousado o suficiente pra uma festa de ensino médio que eu *quero* ir."
"Ousado?" Franzi o nariz pra escolha das palavras dela. "Sério?"
Ela deu de ombros pra mim, passando por mim pra pegar o sapato na sapateira perto da porta.
"Você sabe o que isso significa?" Eu segui ela de perto, enquanto ela parava na sapateira e procurava um par de sapatos adequado.
"Sei lá, é a gíria nova ou sei lá o quê. Entendo o básico, mas claro que não entendo o significado do dicionário. Para de se achar, todo mundo sabe que você é inteligente." Ela respondeu com indiferença, conseguindo soltar uma indireta pra esse que vos fala.
Balançei a cabeça, observando ela em descrença quando ela pegou o par de saltos que a mãe dela comprou. Lembrei dela falando pra mãe que provavelmente nunca ia usar, mas a mãe insistiu, dizendo que pelo menos ela ia ter um se o dia que precisasse chegar.
Sempre achei que a Casey nunca ia ser pega morta usando eles por vontade própria. Mas, de novo, nunca achei que ela fosse escolher usar um vestido ao invés de uma calça.
Depois de calçar os sapatos de salto, ela pegou no meu braço e praticamente me arrastou pro carro. "Vamos, bora."
"A gente não *pode* ir?" Tentei pela centésima vez.
A minha irmã me lançou um olhar que ameaçava me matar sem encostar.
Levantei a mão que ela não estava segurando em sinal de rendição. "Tá bom, tá bom, não pergunto mais."
Ela assentiu, seus olhos disseram: "É melhor continuar assim."
Isso ainda não mudou o fato de que eu estava muito tentado a levar ela pra outro lugar em vez da festa, no entanto.
Mas a Casey é esperta. Ela abriu o GPS e me manteve na linha. Quando peguei uma rota alternativa que o GPS não mostrava pra ganhar tempo, ela bateu no meu braço e apontou pro celular, mostrando o mapa destacado.
Tive que esfregar o braço depois de levar mais alguns tapas no mesmo lugar várias vezes. Em um momento, eu explodi e disse: "Pelo menos bate em outro lugar!"
Se olhares matassem, eu estaria enterrado.
"Ah, se você parasse de palhaçada e começasse a dirigir pra festa de verdade, nem ia levar tapa!"
Ok, justo. Isso não me impediu de fazer bico, no entanto. Fiquei magoado. Emocionalmente e fisicamente.
Levamos 30 minutos pra chegar na festa e, antes que ela pudesse sair do carro, eu peguei no braço dela e a impedi pra dar uns últimos conselhos e lembretes. Não foi difícil pará-la, no entanto. O fato de que ela não saiu correndo do carro imediatamente, sabendo que, se desse uma chance, eu provavelmente ia dar outra volta no quarteirão, assim que chegássemos, provou o quanto ela queria estar em qualquer lugar, menos nessa festa. A hesitação dela era clara como o dia.
"Fica longe dos garotos", eu comecei.
Ela revirou os olhos, "Você sabe que não vou conseguir fazer isso numa casa cheia de gente dos dois sexos. Parece que tá lotado também." Ela gesticulou pra casa que estava praticamente transbordando de gente.
Me virei pra ver o que ela tava se referindo e suspirei. Claro, ela tava certa. Claro, eu sabia que o que eu disse era impossível de fazer. Mas um irmão pode sonhar, né?
"Não chegue perto de nada que pareça suspeito", eu disse.
De novo, outra revirada de olhos. "Ah, sei."
"Ei, tira a grosseria", dei um peteleco na testa dela.
"Ai", ela rosnou pra mim, irritada, esfregando o lugar.
"Ah, você me bateu mais!" Apontei pro lugar no meu braço que ela tinha batido repetidamente durante todo o caminho de carro. "O que aconteceu com 'nunca bater no motorista'?" Eu bufei.
"Ah, o motorista tava pedindo", ela retrucou.
Como sempre, ela tinha um ponto, o motorista tava pedindo.
Depois de uns segundos, a brincadeira entre nós diminuiu e eu segurei seus olhos, garantindo que ela soubesse que eu tava falando sério. "Você sabe que não é tarde demais se você não quiser fazer isso, Case?"
Ela mordeu as bochechas e olhou pra casa que tinha luzes piscando saindo pelas janelas. Quando ela olhou de volta pra mim, vi o medo nos olhos dela, a insegurança sobre si mesma, o desconforto que ela tava sentindo por ter que sair da zona de conforto, mas, mais do que qualquer coisa, a determinação dela brilhou mais do que todas as outras emoções que eu acabei de listar.
Ela pareceu ter se fortalecido.
Ela ia fazer isso.
Não importa o que ninguém mais diga, ela ia provar que aquelas garotas estavam erradas.
"Ok", eu finalmente disse. Ela não precisou dizer em voz alta, entendi alto e claro.
"Eu venho te buscar em algumas horas. Se cuida." Apertei o ombro dela. "Me liga se precisar de alguma coisa."
Ela assentiu. "Valeu, irmãozão."
Assenti de volta e observei ela pegar a bolsa e sair do carro.
Esperei até que ela entrasse pela porta da frente antes de desviar meus olhos dela e abrir o porta-luvas do carro pra *ter certeza* que os arquivos estavam lá antes de começar a viagem pro outro lado da cidade pra ver o General.
Eu sabia que tinha colocado lá enquanto esperava a Casey se arrumar, mas eu tinha todo o direito de estar ansioso; aquele foi um ano de trabalho disfarçado, de arriscar nossas vidas.
Digitei o endereço que o General me deu no meu GPS e comecei a dirigir. Meu tempo estimado de chegada foi de uma hora. Eu deveria ser capaz de informá-lo sobre o que tá acontecendo, pedir ajuda e entregar tudo a ele em meia hora e voltar pra festa pra pegar a Casey no horário.
A meio caminho do lugar do General, meu celular começou a tocar. Atendi a ligação sem ver o identificador de chamadas e conectei nos alto-falantes do carro.
"Bryant?" Uma voz familiar perguntou no telefone.
"Ah, é..." Eu vacilei, tentando descobrir quem tava falando. Desviei os olhos da estrada por um segundo pra verificar o identificador de chamadas e reconheci o número da Casey.
"É a Shay, amiga da Casey", ela disse.
"Ah, certo. Desculpa, não reconheci sua voz", eu disse, desviando meus olhos de volta pra estrada. "A Casey tá bem? Por que o celular dela tá com você? Ela perdeu?"
"Hum..." A Shay hesitou. Meus sentidos começaram a formigar e eu liguei a seta pra esquerda, procurando um retorno de carro mesmo antes da Shay poder me dizer o que tava acontecendo.
"Eu acho que você precisa ir buscá-la", a Shay finalmente disse.
Eu já tava virando o carro naquele momento, "Eu tô a 30 minutos daqui agora, mas chego logo. Por favor, cuida dela pra mim até eu chegar."
A Shay desligou a ligação depois de me dar um 'ok' e eu disquei o número do General pra dizer que ia me atrasar muito.
"Tá tudo bem?" Ele me perguntou.
"Sim, aconteceu uma coisa com a minha irmãzinha e eu só preciso buscá-la e levá-la pra casa. Desculpa por te acordar tão tarde", eu me desculpei, me sentindo genuinamente mal por tomar o tempo dele e fazê-lo esperar.
"Não, tudo bem. Como eu disse, você sempre é bem-vindo. Não pode levar sua irmã com você e só trazê-la aqui em vez de ir e voltar? Não me importo de receber vocês dois, se é isso que te preocupa. Isso economiza tempo e combustível", o General sugeriu.
Balancei a cabeça, mesmo que ele não pudesse me ver. "Não é algo que eu gostaria de compartilhar com ela."
"Ela não sabe sobre isso?" O General perguntou. Quando eu não respondi, ele me fez outra pergunta semelhante, desta vez com um toque de preocupação na voz dele.
"Seus pais sabem?"
Mordi meu lábio e respirei pelo nariz. "Não", respondi com sinceridade.
"Por favor, não conte pra eles que estou pedindo sua ajuda. Pelo menos não até eu chegar lá e te mostrar com o que preciso da sua ajuda", eu pedi.
O General ficou em silêncio por um tempo antes de finalmente concordar. "Ok, vou te esperar. Vá com calma e dirija com segurança."
Eu agradeci a ele antes de desligar, soprando ar pela minha boca pra expulsar toda a tensão do meu corpo.
A ideia de minha família descobrir antes de tudo ser resolvido me deixa nervoso. Eu quero que as coisas sejam resolvidas antes que eles descubram alguma das coisas que eu tenho feito ultimamente. Não me importo de apanhar, desde que aconteça *depois* que meus planos forem colocados em ação e o processo de derrubar a Máfia começar.
Tá quase no fim, Bry. Só mais alguns passos. Você tá quase lá.
Primeiro as primeiras coisas, tirar minha irmãzinha daquele lixão e levá-la pra casa.