Capítulo 31
“Que porra é essa?” Eu repeti mais uma vez, só pra ver se a parada entrava na minha cabeça.
Não, não entrou nada; só um balde cheio de merda.
Eu virei pra encarar o cara sem nome que eu ainda ia socar. Ele tava ali, olhando a situação todo divertido.
“Quem é você?” Eu perguntei pra ele, baixinho, mas com um tom de raiva na voz.
“Quentin Yelton, o chefe da gangue que seu irmão entrou.”
Eu não sei se ele fez isso de propósito, mas tenho quase certeza que sim. Ele queria esfregar o sal na ferida que tava se abrindo, lenta mas com certeza.
“Bryant nunca faria isso. Ele é um bom garoto, notas altas, inteligente, um gênio, porra! Por que ele faria uma coisa dessas? Jogando a vida toda fora por causa de um- um- um babaca?!” Eu tava levantando a voz e xingando o chefe de uma gangue possivelmente perigosa. Que me processem.
Um músculo na mandíbula do Quentin contraiu e eu senti que ia cagar tijolo, mas eu era orgulhosa demais pra ceder ao medo. “Bem, esse babaca tem te protegido.”
Eu balancei a cabeça, em negação total.
“De jeito nenhum,” eu disparei, teimosa. “Por que o Bryant-”
“Bryant não faria isso por causa de ‘YOLO’, mas faria se envolvesse o bem-estar e a segurança da irmã dele.” O Dom murmurou, sarcástico, mas eu entendi cada palavra.
Ok, quando ele fala assim, isso soa como o Bryant. Tentando fazer algo heroico e acabar morto por causa disso.
Falando em morte...
“Foi mesmo um acidente?” No momento em que saiu da minha boca, os olhos do Quentin ficaram frios. Uma sombra passou pela expressão dele.
“Não,” ele admitiu, na lata, e eu dei uns passos pra trás. Eu não sabia o que tava esperando, mas...
“Quem?” Eu perguntei com a voz embargada, não tava a fim de alimentar meu ego agora.
“Eu.” O Quentin disse, simples, como se estivesse me dizendo que o tempo tá lindo, em vez de dizer que ele basicamente assassinou meu irmão.
Não, pior ainda. Ele era muito cuzão pra fazer isso. Ele contratou um filho da puta pra fazer isso.
A realidade daquela declaração não tinha entrado totalmente na minha cabeça, então eu continuei meio calma enquanto ele dava uns passos pra frente.
“Por quê?” Eu perguntei mais uma vez.
“Por quê?” Um deboche veio da minha direita e eu me virei pra ver a fonte, “porque o Bryant era um idiota, um cuzão.”
Dessa vez, era o Dom, e eu olhei pra ele com descrença total. O Bryant era o melhor amigo dele. Ele pegou o Dom pra criar. Ele criou o Dom e colocou ele nos ombros.
“Quê?” Eu cuspi. Meus olhos pareciam que iam saltar a qualquer momento.
“Ele era um babaca, Case. Ele- ele- ele não faria- você não entenderia. Ele era um puto cuzão que se achava o máximo.” O Dom gaguejou, com raiva pura, e eu olhei pra ele com traição.
Esse cara devia tudo ao Bryant. Devia a vida ao Bryant.
Eu fiquei olhando ele enquanto ele andava pra lá e pra cá, tentando formular uma frase coerente pra me explicar por que ele assassinou meu irmão.
É, claro.
Como se isso fosse possível.
Eu não consegui deixar de concordar com a minha consciência dessa vez. Esse tempo todo, tudo que eu pude fazer foi sofrer e lamentar e me afogar na minha própria autopiedade, porque me fizeram acreditar que o acidente foi um acidente. Eu não podia culpar ninguém. Nem mesmo o motorista do caminhão, porque ele também tava morto. Ele supostamente morreu de culpa, mas eu tava questionando tudo na minha vida.
Como eu posso ter certeza de que esse babaca não matou aquele lixo também?
“Por que você fez isso? Ele se importava com você tanto quanto se importava comigo.” Eu tava em conflito e minha voz refletia o quanto eu tava machucada por dentro.
“Ele nos proibiu de ficar juntos. Você não lembra, Case?! Ele tava no caminho do que poderia ter sido a melhor coisa que aconteceu com a gente. Você não conseguiu ver? Foi o melhor!” Os olhos dele estavam arregalados e implorando, pedindo pra eu entender.
Claro que eu lembrei daquele dia.
Quando eu disse que o Dom e eu tínhamos um passado, era muito complicado. Ele, aparentemente, tinha uma paixão estranha por mim e eu, por outro lado, o via como nada mais que um irmão.
Eu contei pro Bryant o quanto eu tava desconfortável quando o Dom confessou o ‘amor eterno’ dele por mim naquele dia, e ele me prometeu que eu nunca mais ia ter que passar por isso.
Engraçado, ele cumpriu a promessa e nunca mais aconteceu. Sem mais confissões melosas e toda aquela merda. Naquela época, eu era muito egoísta, tão satisfeita com a situação que nem me dei ao trabalho de perguntar como ele fez isso.
Eu tava me arrependendo agora.
“Ah, claro, querido, eu entendo, você matou meu irmão porque você era um psicopata. Meu irmão morreu por causa de um cara doente que tinha sentimentos por mim e ele proibiu esse psicopata, que acabou morto por causa disso. Sim, claro que eu entendo,” eu falei, fingindo naturalidade. Os olhos dele brilharam de esperança.
“Ah, para, querida! Entenda meu sarcasmo, seu bunda mole com cérebro de burro e cara de sapo! Você assassinou meu irmão; tipo, o Bryant; tipo, o cara que passou a vida cuidando de você como se fosse irmão dele; tipo, o cara que TE ENSINOU CADA PORRA DE COISA NA SUA VIDA!” Eu comecei suave, mas então fui alimentada pela raiva e ódio puros que corriam por mim em direção ao cara. Eu não acredito que eu o cumprimentei com um abraço.
Eu me senti uma idiota por pensar que ele tava sofrendo quando foi embora, por pensar que ele tava de luto e precisava de espaço. Que se foda ele e suas mentiras. Ele podia ser o presidente, tanto faz, eu ainda ia decepar a cabeça dele e enfiar tão fundo na bunda dele que ele não conseguiria cagar por um mês.
Marchando pra cima do Dom, eu comecei a gritar na cara dele enquanto enfiava meu dedo indicador no peito dele.
“SEU DESGRATIFICADO FILHO DA PUTA!” Eu tentei dar um soco nele, mas ele foi rápido demais.
“Ah, Casey, Casey, Casey,” ele tut, balançando o dedo indicador, “você sempre foi a mais lenta entre nós.”
Eu cuspi na cara dele e ele soltou minha mão pra limpar com nojo. “E você sempre foi o que não tinha cérebro entre nós,” dito isso, eu levantei meu joelho e fui em direção às partes baixas dele. “Isso por ser um farsante.” Antes que ele pudesse proteger suas partes, eu levantei meu joelho de novo, batendo duas vezes seguidas.
“Isso por assassinar meu irmão.” Eu dei um passo pra trás, deixando ele cuidar dos seus ovos enquanto encolhia os ombros e se curvava pra frente.
Eu aproveitei a chance e levantei a mão pro pescoço dele, prendendo meus dedos juntos na nuca antes de levantar o joelho, dessa vez pra encontrar a cara dele. Uma rachadura nojenta encheu meus ouvidos. Música pra meus ouvidos. Embora não fosse o suficiente pra apagar o fogo, ainda era o suficiente pra acalmar meu monstro interior.
Quando eu me virei pra correr em direção à minha moto, o Quentin não tava em lugar nenhum, como se ele nunca tivesse estado ali. A única coisa que poderia ter dedurado a presença dele um segundo atrás era a marca dos sapatos dele no chão úmido.
Eu não tenho tempo pra pensar nisso, porque minha mente tava focada em sair dali.
Então, por mais que eu quisesse ficar e chutar as bolas do Dom mais um pouco, eu peguei meu capacete, subi na minha moto e vazei dali o mais rápido que pude.