Capítulo 199
"Indo embora?" A Casey me perguntou enquanto mexia no cereal com leite na tigela do café da manhã.
"Sim, eu volto lá pelas dez da noite." Eu falei pra ela, enquanto as minhas chaves faziam barulho no bolso. "Você tem algum plano pra hoje?"
A Casey balançou a cabeça, "Chega em casa a hora que quiser, não sou criança, vou ficar de boa. Só vou ficar relaxando dentro de casa, maratonando na netflix e curtindo meu sorvete."
Eu não queria discutir com ela sobre voltar mais tarde. Era mais pela minha paz de espírito do que qualquer outra coisa. No ano passado, eu tentei muito nunca deixar a Casey sozinha. Principalmente em uma casa vazia, de noite. É claro que ela não entendia de onde vinham minhas preocupações e ansiedades, mas tudo bem. Eu me preocupo e fico ansioso, ela pode viver na ignorância feliz que vem com a falta de noção dos perigos que parecem estar em todo lugar ao nosso redor.
Eu parei na porta pra colocar os meus sapatos. "E as suas amigas?"
"Namorados." Ela respondeu simples. Eu podia sentir ela revirando os olhos sem precisar olhar pra ver ela fazendo isso. Eu ri.
"Você chega lá um dia." Eu falei, tentando ser encorajador. Eu sou superprotetor, mas não sou irrazoável. Eu sei que um dia cada um de nós vai conhecer alguém e ter nossas próprias famílias. Não podemos ficar grudados um no outro pra sempre.
A Casey deu de ombros, "Eu não ligo pra vida de solteira. Ouvir as histórias sobre as brigas que eles têm é o suficiente pra me convencer de que eu escolhi o caminho certo." As sobrancelhas dela estavam um pouco franzidas e seus lábios estavam firmes, como se ela realmente acreditasse no que estava dizendo.
A expressão que ela fez me fez rir.
"Ok, Case. Aproveita a vida de solteira." Eu entrei na brincadeira.
A Casey se virou pra mim, concordando com a cabeça, "Sim, com certeza. Se divirta no encontro!"
"Valeu, te vejo mais tarde." Eu acenei, recebendo um aceno de volta dela antes de fechar a porta e trancar, sabendo que a Casey ia ficar com preguiça de ir até a porta da frente e ia acabar esquecendo de trancar. Eu não quero correr o risco de deixar a porta da frente destrancada enquanto ela tá sozinha em casa. Pode me chamar de paranoico o quanto quiser, todos nós sabemos que eu tenho um bom motivo pra ser.
Eu me virei pra ir pro meu carro quando vi um carro familiar estacionando na frente da nossa casa.
Eu franzi a testa, esperando o Dom sair do carro enquanto eu assistia e ouvia o motor morrer.
A porta do motorista abriu e o Dom saiu e fechou a porta com uma mão, enquanto a outra segurava um buquê de flores.
Meu coração ficou pesado, antecipando a conversa que eu sei que vamos ter muito em breve. De jeito nenhum eu vou deixar ele passar por mim e ir pra casa. A Casey não era burra, se ela visse ele na nossa varanda, com flores na mão, ela ia saber o que ele tava tentando fazer. Aí, ela ia ter que rejeitar ele de novo e ia doer nela porque ela sabe que ia estar magoando um amigo que é querido pra ela. A Casey tava tão bem essa manhã, eu não quero que ela passe o resto do dia chorando por causa desse babaca, que não consegue entender as dicas.
Eu olhei pra trás. Eu sei que as chances da Casey sair naquele segundo e testemunhar isso eram mínimas, mas eu ainda senti a necessidade de verificar de qualquer forma.
Assim que tentei ouvir qualquer passo vindo pra porta da frente e não ouvi nada, eu encontrei o Dom no meio do caminho e o agarrei pelo cotovelo, basicamente arrastando ele e forçando ele a vir comigo enquanto eu contornei a esquina e fui pra lateral da casa.
"Cara, o que você tá fazendo?" Eu perguntei, deixando a minha frustração por ele vir à tona.
Ele olhou pra mim, confuso, levantando as flores na mão pra mostrar pra mim. "Não tá bem claro?"
Minhas sobrancelhas se ergueram um pouco enquanto eu fechava os olhos pra tentar me acalmar antes de acabar explodindo com um amigo que eu considerava muito importante pra mim.
"Dom, eu te falei que ela não tá interessada e que ela se sente desconfortável. Eu te falei pra não fazer mais nenhuma gracinha com ela." Eu tentei lembrar ele, caso ele tivesse tido uma perda temporária de memória que eu não sabia, sei lá, tipo bater com a cabeça quando caiu da cama essa manhã ou algo assim.
O Dom olhou pras flores na mão dele antes de olhar pra mim de novo, "Eu só quero dar flores pra ela, Bry. Eu não posso fazer isso quando somos amigos?"
Eu suspirei, eu sei que eu posso ter sido muito duro com o garoto, mas eu conheço a minha irmã. Ela não ia levar isso na esportiva. Ela ia pensar demais, ia acabar traçando uma linha, ia saber que tava magoando um amigo por fazer isso e ia acabar se odiando por magoar alguém de quem ela gosta.
"Me desculpa, Dom. Mas você sabe que a Casey é diferente." Eu tentei argumentar com ele, cansado de machucar meu amigo também.
Nesse momento, traços de raiva começaram a manchar a expressão do Dom, traços que eu nunca tinha visto ele direcionar pra mim antes.
Eu já vi o Dom bravo. Nós crescemos juntos, era impossível não ver. Ele já ficou bravo comigo antes, mas a última vez que isso aconteceu foi anos atrás, quando éramos crianças, e foi por causa de um incidente em que eu tinha quebrado um dos brinquedos dele sem querer.
Mesmo assim, a raiva dele não durou muito.
Eu já vi ele ficar puto com outras pessoas, mas ele nunca ficou puto comigo. Mesmo durante a nossa primeira briga, quando eu o confrontei pela primeira vez sobre os sentimentos dele pela Casey, ele não teve essa.. esse ódio nos olhos.
Ele queimava como fogo nos olhos dele e eu não posso mentir e dizer que não me assustou.
"E a Casey ser diferente? É claro que eu sei como ela é diferente, Bry! É claro que ela é diferente! Ela é sua irmã, então não é qualquer um que pode tentar ficar com ela. Ela é a Casey e é por isso que os padrões têm que ser altos. Mas e daí? O quê? Você acha que eu não sou bom o suficiente pra ela? Você acha que eu não sou bom o suficiente?" O rosto dele acabou a centímetros do meu e eu podia sentir a respiração pesada dele batendo na parte inferior do meu rosto enquanto ele me encarava.
Eu não desviei da raiva nos olhos dele, na voz dele. Eu encarei o olhar dele de frente e mantive, embora eu soubesse que ele entendeu errado o significado por trás das minhas palavras, eu entendi de onde a raiva tava vindo agora que eu ouvi a ladainha dele.
As inseguranças dele brilhavam ao lado da raiva dele. Através do fluxo de palavras que tinha saído da alma ardente dele, eu podia ouvir a voz insegura de um garotinho que se sentia como se estivesse sendo negado reconhecimento, reconhecimento.. apreciação.
Quando eu disse que a Casey era diferente, eu tava me referindo a como ela ia levar o gesto que ele tava fazendo de ir na casa no Dia dos Namorados com um buquê de flores pra ela. Ela era diferente, ela não ia conseguir ignorar isso com um simples pensamento de que era só um gesto amigável; não com a consciência dela sobre como o Dom se sentia por ela.
Mas o que o Dom ouviu foi negação e rejeição.
Meu coração doeu por ele, pelo garotinho que tava gritando pra ser reconhecido.
Eu entendi ele, mas eu tive que manter minha posição. Minha primeira prioridade é e sempre será minha irmãzinha.
"Me desculpa, Dom."
Em retrospecto, provavelmente não foi a melhor resposta que eu poderia ter dado a um amigo que obviamente não estava muito no seu juízo perfeito.
O rosto dele se transformou em uma expressão feia e ele jogou as flores que ele tava segurando no chão entre os nossos pés antes de se virar pro lado e socar a parede ao lado dele com raiva, gritando de raiva, enquanto continuava chutando a lixeira que estava do lado dele. Eu assisti em silêncio enquanto deixava ele se descarregar agressivamente.
Eu imaginei que se eu tentasse impedir ele, ele realmente ia me socar. Eu não queria aparecer na casa da Maddy com a mandíbula machucada se eu pudesse evitar fazer isso.
O Dom se virou pra mim, o peito dele subindo e descendo enquanto ele visivelmente lutava pra se controlar. As mãos dele estavam cerradas em punhos ao lado do corpo e ele me olhou como se eu fosse seu inimigo. Uma olhada que eu nunca pensei que receberia de um amigo de longa data.
Uma parte de mim começou a duvidar se o que eu fiz tava certo, era a parte que valorizava minha amizade com o Dom, mas a outra parte de mim, a que se concentra em cumprir as responsabilidades com as quais eu nasci como irmão mais velho, sabia que eu fiz o que tinha que fazer pra proteger minha irmãzinha de um tormento emocional desnecessário.
Um dia, eu espero que o Dom entenda e veja de onde eu tava vindo. Um dia, eu espero que ele consiga superar suas inseguranças e encontrar mais autoconfiança pra si mesmo.
Depois de mais alguns segundos apenas me olhando com os olhos ainda cheios de raiva e ódio, o Dom foi embora e eu vi ele indo embora. As mãos dele ainda estavam em punhos, os pés chutando o chão, raspando e pisando com raiva enquanto ele continuava a ter um acesso de raiva enquanto caminhava pro carro dele.
Eu voltei pra frente da casa, em direção ao meu próprio carro, mantendo meus olhos no Dom enquanto ele entrava no carro dele e ligava o motor e passava por mim em disparada.
Assim que o carro dele sumiu de vista, eu me virei pra olhar pra porta da frente da casa pra ter certeza de que a Casey não ouviu nada daquilo e decidi sair pra ver o que tava acontecendo.
Felizmente, a porta da frente ainda tava fechada e não havia sinais de movimento vindo das janelas ao lado.
Eu apoiei minha mão em cima do meu carro e encostei a cabeça nele. Eu fechei os olhos e respirei fundo, tentando clarear a minha mente. Eu não queria dirigir com a mente confusa e acabar colocando minha vida e a vida de outras pessoas em perigo.
Eu entrei no carro e fiquei ali sentado por um tempo, mandando mensagem pra Maddy que eu podia me atrasar um pouco. Eu preferia ter tempo pra me acalmar e ter certeza de que minha cabeça tava funcionando direito do que correr pra casa dela e acabar arruinando todo o plano do dia levando meu mau humor junto.
Quando eu finalmente tive certeza de que me acalmei, eu coloquei o cinto de segurança, liguei o motor e coloquei a marcha no lugar antes de sair da garagem pra começar a dirigir pra casa da Maddy.