Capítulo 71
Era sexta e eu tava suando pra caramba. Não tava conseguindo ter um tempo pra respirar. Nem na escola; principalmente na escola. Era surreal.
"Senhorita Johnson, por favor, compareça imediatamente à sala da diretoria", a voz do interfone anunciou. Eu engoli em seco, bem sutilmente. Não era bom.
Vamos lá, Johnson. Respira. Se você não fez nada de errado, não tem por que ter medo. Eu tava ajudando o Adam naquela briga e só tava tentando impedir aqueles caras de espancarem ele até a morte.
Ok, eu posso ter colocado um colega de escola em uma gravata, mas ah, ele que pediu.
Sério, vamos encarar, ele tava batendo no Adam! Vocês sabem quantas garotas teriam matado eles, mesmo se eu não tivesse corrido para salvar ele? Eu tava fazendo um favor pra elas, resolvendo a parada sozinha e impedindo que fossem pisoteadas por 'fangirls' furiosas.
Ok, eu posso ter inventado isso. Eu não sabia realmente se o cara tinha fangirls, mas eu podia imaginar, então deve ser verdade. Eu sei, lógica estranha, mas eu nunca disse que eu era normal também.
Levantei da minha carteira, dezenas de pares de olhos seguiram cada movimento meu enquanto eu juntava minhas coisas e saía da sala de aula. Não tava nem aí para o que estavam pensando de mim agora. Fiz questão de mostrar que os olhares julgadores não estavam me incomodando, levantando o queixo e deixando a máscara estoica tomar seu lugar, dando um dedo do meio invisível que eu mentalmente levantei bem alto no ar.
Depois que a porta da sala fechou, deixei a máscara e a atuação que eu tava fazendo escorrer. A caminhada até a sala da diretoria tava me dando nos nervos. Apesar de eu não ter feito nada de errado, a diretora era uma senhora feroz que tinha aquela carranca permanente na cara 24 horas por dia.
Quando finalmente cheguei em frente à sala dela, tentei me recompor antes de bater e ouvir uma voz feminina um pouco rouca soltar um "entre".
Dêi um pequeno empurrão na porta e escorreguei pela pequena abertura para ficar em frente à mesa da diretora. Comecei a mexer nas pontas da manga.
A diretora nem tava olhando pra mim, mas eu podia sentir que tava começando a tremer. Ser expulsa não tava nos meus planos. Ela nem tava franzindo a testa pra mim com aquele olhar de julgamento e eu já tava suando como se tivesse corrido até lá.
"Hum, me chamou?" perguntei timidamente. Eu podia ser uma lutadora de rua, mas ainda era a pequena Case nerd na escola e eu preferia que continuasse assim.
"Sim", engoli em seco, puxando sutilmente minha camisa da gola. Era só impressão minha ou essa camisa tinha diminuído um tamanho?
"Então, tô em apuros, Sra. Zhang?" Me preparei para o pior, puxando o ar quando os olhos dela finalmente pousaram em mim.
Mas, em vez de me dar aqueles olhares severos e repreendedores que ela sempre dava aos outros, ela me ofereceu um sorriso raro e fez sinal para eu sentar.
"Eu quero conversar com você e peço desculpas por te tirar dos seus estudos. Este é um assunto extremamente importante", ela juntou as mãos em cima da mesa, onde pilhas de papéis estavam e algumas molduras, retratando o marido e a filha dela, anos atrás.
A foto com uma jovem mulher com um chapéu de formatura e traje familiar tava na outra moldura e me ajudou a confirmar o fato de que a filha dela se formou há alguns anos e era ex-aluna desta escola.
"Recentemente recebi uma ligação de uma universidade famosa que recebeu seu histórico escolar e eles ficaram muito impressionados com seus registros e te ofereceram uma bolsa de estudos", a diretora juntou as mãos e sorriu pra mim, o orgulho evidente nos olhos dela.
Enquanto isso, eu tava boquiaberta com as coisas que ela acabou de dizer. Tenho certeza que ela acabou de me dizer que eu ganhei uma bolsa, a única coisa que eu sempre quis na minha vida e que meus pais ou qualquer outra pessoa não podiam me dar.
"Parabéns, Senhorita Johnson", ela anunciou sobre o som do fax apitando. Um papel foi impresso e ela pegou. Ela me entregou depois de dar uma última olhada para ter certeza de que eram os documentos certos.
"Você merece, Cassandra", eu ouvi essa frase da Maddison várias vezes e, com o passar dos anos, desenvolvi um certo ódio por ela. Mas então, tudo que eu podia sentir era o calor crescendo em mim ao ouvir essas palavras.
Maddison sempre cuspia isso como se fosse bile, mas o jeito que a Sra. Zhang disse era diferente; cheio de tanta felicidade que quase me trouxe lágrimas aos olhos.
Refleti o sorriso dela educadamente e peguei os papéis.
"Obrigada, Sra. Zhang, por tudo. Eu realmente agradeço sua ajuda", despejei cada grama de gratidão do meu ser naquela frase e dei a ela outro sorriso suave antes de sair da sala.
A trava fechou com um clique suave e eu soltei uma respiração que não sabia que estava segurando.
Eu consegui. Eu disse pra mim mesma em silêncio, deixando a ficha cair.
Você conseguiu. Eu podia ver minha consciência radiante pra mim.
Fiz uma oração silenciosa de agradecimento, bem ali no meio dos corredores, com lágrimas transbordando por trás das minhas pálpebras.
É isso que Bryant e eu sonhávamos e, depois que ele se foi, fiz disso meu objetivo conseguir uma bolsa, pelos dois, e finalmente consegui. Olhei pro teto, um sorriso finalmente rachou minha fachada e se fixou em meus lábios quando as lágrimas começaram a escapar pelas minhas pálpebras fechadas e escorrer pelas minhas bochechas, enquanto meus ombros tremiam levemente a cada soluço que eu tentava segurar.
Tudo o que eu fiz no ano passado finalmente valeu a pena. Foi por isso que eu não deixei me vingar dos meus valentões. Essa foi a razão pela qual eu continuei, deixando que eles me abusassem e, no entanto, eu continuei indo em frente.
Se eu deixasse até mesmo um pouco de autocontrole escapar e deixasse minha mão voar para encontrar seus rostos, eu não teria conseguido parar. Eu teria continuado batendo e batendo e o monstro dentro de mim finalmente seria libertado. Eu seria pior do que todos eles juntos.
Eu não era completamente sã. Todos nós não éramos. Havia botões que as pessoas apertavam que podiam nos quebrar se não nos segurássemos com força suficiente. Nenhum de nós era completamente são. Estávamos todos lutando para conseguir um pouco de sanidade; apenas o suficiente para nos manter indo por mais um dia, uma semana, um mês, um ano.
Fiquei no meio do corredor e continuei chorando por tudo que eu valia. Mas desta vez, não foi de tristeza, não tava de luto ou sofrendo. Desta vez, eu só tava feliz.
Depois que as aulas terminaram, encontrei o Adam do lado de fora do prédio da escola, encostado em uma árvore sem folhas devido à estação. Corri em direção a ele e não pensei duas vezes antes de me jogar em sua direção, confiando que ele me pegaria antes que eu caísse no chão.
"Eu consegui!" Eu gritei em voz alta, recebendo olhares irritados dos outros alunos, mas eu não ia deixar eles estragarem meu humor. Eu tô nas nuvens e essas pessoas estavam lá embaixo na Terra.
"Eu consegui!" repeti mais uma vez sem fôlego, tentando me convencer de que realmente aconteceu. Tudo parecia muito mais brilhante pra mim.
Ele sorriu pra mim, mas havia um olhar de interrogação em seu rosto, "Você fez o quê?"
"Eu ganhei uma bolsa de estudos!" contei pra ele com um sorriso enorme, não conseguindo mais me conter. Adam me abraçou forte; tão forte que começou a doer, mas decidi não reclamar e simplesmente abraçá-lo de volta.
"Case, que demais!" ele exclamou e eu balancei a cabeça furiosamente, sentindo o sangue subir na minha cabeça e ganhando uma gargalhada estrondosa do Adam. Dei um tapa no peito dele brincando com o sorriso ainda intacto e recebi outra risada, junto com um beijo na minha bochecha.
"Mano!" gritei em horror falso com os olhos arregalados, "cuzinho!" Ele riu suavemente, mas me deixou depois de um beijo na minha testa.
Franzi o nariz com as leves sensações. Era uma sensação tão estranha ter alguém ao meu lado, não importa o quê, mas era do bom tipo. Sorri fracamente pra mim mesma.
Se ao menos eu pudesse gostar de sentir essa felicidade avassaladora todos os dias pelo resto da minha vida, não me importaria em enfrentar todo o drama e a dor de cabeça porque agora, ficar aqui com essa pessoa parece que nada poderia me derrubar.
Parecia um sonho e eu tava grata. Em meio a todo esse caos que tava acontecendo na minha vida, ainda havia coisas que são capazes de me fazer sorrir, rir e lembrar da beleza deste mundo.
Enquanto eu puder me sentir assim novamente, não me importarei em enfrentar o mundo inteiro, se tiver que fazer isso.