Capítulo 36
Eu escutei hesitante, tipo uma aluna levando bronca do professor.
"...o uso de objetos cortantes." Ele terminou, virando pra me encarar e gemeu quando viu minha expressão provavelmente chapada e meu olhar distante.
"Você escutou alguma coisa do que eu falei, Pix?" Ele reclamou e eu revirei os olhos.
"Pix, isso é sério! Você precisa saber o que pode e não pode fazer naquele ringue! Tem que prestar atenção."
Eu suspirei e dei pra ele um olhar envergonhado antes de pedir pra ele repetir tudo de novo, dessa vez prestando atenção na ladainha dele.
"Ok, basicamente, tudo o que você tem que fazer é prender o cara por 8 segundos ou nocautear ele. Qualquer um dos dois serve."
Eu balancei a cabeça, toda minha postura mudando pra séria num piscar de olhos.
"Nenhum de vocês vai poder levar objetos cortantes pra aquela arena, então você vai ficar bem, contanto que se concentre. Lembra, Pix, se concentra." Ele repetiu e eu dei pra ele um sorriso sincero.
"Aí, eu vou ficar de boa. Você sabe que eu não vou deixar eles encostarem um soco em mim. Não se preocupa muito, você vai pegar rugas e logo logo, vai ter dor nas costas." Eu sorri maliciosamente e ele abriu um sorriso.
"Vai levar mais do que umas simples dores nas costas pra derrubar esse cara," Ele se gabou, estufando o peito ridículamente e flexionando os braços.
Eu revirei os olhos, "Beleza, Lev. Quando você vai lutar?" Eu virei as costas pra ele quando vi que ele tava quase tirando a camisa e me ocupei tirando minha garrafa d'água e dando um gole pequeno. Eu lambi meus lábios, umedecendo eles um pouco antes de tomar outro gole e colocar a tampa de volta.
Não é que eu ache que ele tem um físico horrível, é meio impossível quando você é lutador de rua, é só que eu nunca fiquei confortável em olhar pro torso nu de um cara se não for necessário.
Eu sei que eu vejo caras mostrando seus torsos o tempo todo enquanto luto com eles e acabo com eles no soco, mas isso porque eu não tenho outra escolha. Não é como se eu pudesse jogar uma camisa pra eles e exigir que eles se cubram, quem sou eu pra mandar neles?
Eu provavelmente ia virar motivo de risada, então tudo o que eu posso fazer é aguentar e colocar minhas calças de menina grandona, mas agora, eu não vou ficar encarando o Lev. Isso é errado, em todos os sentidos da palavra.
"Logo depois que você terminar, você acha que vai conseguir assistir?" Esperança coloriu a voz dele e eu devia ser sem coração se eu falasse pra ele que eu não ia assistir, então eu só balancei a cabeça, concordando em estar lá pra dar um apoio moral.
Eu podia ouvir o sorriso dele mesmo sem olhar pra trás e um sorriso puxou os cantos dos meus lábios enquanto eu tentava suprimir ele.
Eu me virei de volta depois de colocar minha garrafa de volta na minha bolsa. Uma batida na porta chamou a atenção dos dois e uma mulher com cara de tédio e um piercing no lábio colocou a cabeça pra dentro.
"Você entra em 5 minutos. Me sigam," ela informou em tom monótono e fez um sinal pra gente sair. Eu peguei minha bolsa e segui, andando atrás dela como um cachorrinho perdido.
Como não tinha como eu levar mais ninguém como acompanhante, eu trouxe o Levy e ele vai ficar esperando na beira do ringue, tendo uma visão VIP.
A moça nos deixou no fim de uma escada que ia levar pro ringue que, julgando pelas lutas anteriores que eu assisti, eu vou ter que subir. Tinha um cara do lado da escada, parado numa posição parecida com a do cara que deixou a gente entrar pela porta dos fundos do prédio.
Só que dessa vez, ele tinha cabelo no topo da cabeça, penteado pra cima como as costas de um porco-espinho. Desculpa, eu só precisava falar isso.
Eu empurrei minha mala de mão no peito do Levy e comecei a esquentar, estralando os nós dos dedos, levantando as coxas e girando o pescoço. Acima de mim, eu consigo ouvir os gritos e as vibrações da galera. O cara, depois de um momento de silêncio, finalmente reconheceu minha presença, assentindo pra mim e fazendo um sinal pra eu subir a escada depois que os alto-falantes tocaram, uma voz me apresentando.
Eu balancei a cabeça de volta pra ele secamente antes de correr pra cima da escada, imediatamente engolida pela comoção da galera e uma onda familiar de adrenalina entrou no meu sistema instantaneamente, forçando meus sentidos a se concentrarem em tudo que eu vejo e sinto.
Mesmo que os gritos e os berros ameaçassem me ensurdecer, eu me senti grata pelo barulho alto que me deu uma sensação de familiaridade. Pelo menos eu posso fingir que era só mais uma luta no Underground Place. Eu parei de repente quando finalmente vi as cordas que delineavam o ringue. Tirando todos os pensamentos da cabeça, eu me forcei a pensar claramente e meu corpo mudou pro modo Pixie.
Com meu rosto sem nenhuma expressão e um olhar cauteloso cobrindo minhas feições, eu escorreguei pelas cordas e entrei na arena. Um holofote me recebeu, me cegando por um segundo.
As borboletas ameaçando explodir no meu estômago foram pisoteadas assim que eu lembrei minha consciência mais uma vez que eu era a Pixie; uma lutadora de rua destemida.
Você vai ficar de boa. Eu pensei comigo mesma, respirando fundo algumas vezes, me preparando. Eu olhei pra trás, pegando os olhos do Levy e ele sorriu pra mim, seus olhos me incentivando a manter a cabeça erguida.
Eu balancei a cabeça pra ele, me virando de volta quando meu oponente foi chamado, eu me preparei mentalmente. Eu estou pronta.
Vamos acabar com isso, que tal?