Capítulo 68
Não demorou muito para eu correr pro lado do corpo e rolar ele pra ver se era quem eu tava pensando.
Deus, não, por favor não deixa isso ser real.
Um soluço saiu de mim quando eu vi a cara dele antes de correr pra checar o pulso. Tava fraco, mas eu conseguia sentir a batida que tava diminuindo a cada segundo. Sangue encharcava as lâminas da grama embaixo da cabeça dele.
Não, eu não vou deixar ele morrer na minha frente. Eu prometi pra Carla que ia cuidar da família dela. Eu não vou deixar isso acontecer. Não depois do que acabou de acontecer com a Carla.
Preston, sua vaca. Não ouse morrer agora, seu idiota insensível.
Uma lágrima escorreu do canto do meu olho e não demorou nem um segundo pra eu discar pro hospital. Eu não podia nem pensar em boas maneiras agora. Não quando o irmão do cara que eu amo tava gravemente ferido.
"Por favor, mandem uma ambulância pro Cemitério de Santo André o mais rápido possível. Tem um corte na testa dele, o batimento cardíaco tá fraco e ele tá desacordado. Por favor, sejam rápidos."
Eu desliguei o telefone, olhando em volta pra procurar uma certa morena. Tentei forçar a audição pra ver se pegava algum barulho suspeito. Todas as outras pessoas que foram no enterro foram embora faz meia hora, quando o enterro acabou, então não tinha ninguém à vista.
Onde será que o Adam tava?
"Atrás das árvores", uma voz disse atrás de mim e minha cabeça virou pro lado, tentando ver quem tava falando, ainda segurando a cabeça do Preston no meu colo.
"Como?"
"Seu namorado, o que tem um cabelo parecido com esse homem. Eu vi ele com um homem atrás daquelas árvores", o velhinho apontou. Eu sorri em agradecimento pra ele antes de colocar a cabeça do Preston no chão.
"Vem, deixa comigo. Eu cuido dele, vai procurar seu namorado." Eu não podia dizer que não tava desconfiada dele, mas não era como se eu tivesse muita escolha, então eu relutantemente me levantei do lugar que eu tava ajoelhada e deixei o velho cuidar do Preston.
"Eu liguei pra ambulância. Eles vão chegar em breve", eu falei pra ele, já em pé.
Enquanto eu corria pras árvores, parei por um segundo e dei uma olhada rápida pro Preston e pro velho que tava procurando outros ferimentos.
"E senhor?"
Ele esticou o pescoço pra me olhar enquanto apoiava metade do corpo do Preston pra encostar no dele. Eu dei um sorrisinho pra ele. Ele podia ser um conhecido do cara que tava brigando com o Adam ou também podia ser o cara que tava brigando com o Preston um minuto antes, mas se não fosse, isso significava que ele era gente boa.
Então eu foquei na possibilidade de que ele era sincero ao invés de ficar preocupada que ele possivelmente era um inimigo e colocar isso na lista de coisas com as quais eu deveria me preocupar. Além disso, julgando pela forquilha que ele trouxe com ele e o saco de folhas do lado dele, ele provavelmente era o jardineiro do cemitério.
"Obrigada", eu falei baixo, ganhando um aceno simples e um sorrisinho.
"Vá, criança. Ajude aquele rapaz", eu virei, obedecendo as palavras dele e corri em direção às árvores. Quanto mais perto eu chegava, mais altas as vozes soavam. Eu tinha certeza de que uma delas era a do Adam.
"Você não sabe?" Uma voz estranha perguntou e nem um segundo depois, a voz confusa do Adam foi ouvida. Não demorou muito pra eu entender pra onde a conversa deles possivelmente tava indo.
Não, o Adam não podia descobrir assim.
Com esse pensamento, eu bati minhas pernas mais rápido, correndo pelas árvores e pulei em um tronco.
"Adam?" Eu gritei de longe quando finalmente o vi. A atenção dele virou pra mim e o homem que ele tava enfrentando seguiu o olhar dele que, é claro, pousou em mim.
"Quem é você?" Eu perguntei pra ele friamente, instantaneamente me protegendo. Eu nunca tinha visto ele antes, então eu não sabia se isso era bom ou ruim.
"Só a pessoa que eu tava procurando; doce e inocente Pixie", as palavras dele praticamente gotejavam sarcasmo e eu não pude deixar de olhar pra ele como se ele tivesse perdido o juízo. O Adam continuou olhando entre nós dois. Meu olhar desconfiado, no entanto, ficou no convidado não convidado. Ele obviamente era da minha outra vida, já que não me chamou pelo meu nome de verdade.
Isso significava que ele não sabia da minha vida pessoal. Graças a Deus.
Mas falando sério, quem quer que administre esse negócio deveria aplicar uma nova regra no sistema que diz que o que acontecesse no ringue, ficasse no ringue. Isso tava ficando irritante.
Primeiro foi meu encontro e agora o enterro da Carla? Que tipo de piada doentia era essa? Eu já tive o suficiente dessa merda.
"Você pode não me conhecer, mas provavelmente conhece meu irmão. Lembra do homem com a perna curando que você estragou?" Eu podia sentir meus olhos se arregalando um pouco.
Como eu pude esquecer. Eu fui tão burra. O que me fez esquecer tudo sobre aquele pobre homem?
Sonia.
Filha da puta.
"Você sabe o que aconteceu com meu irmão, Pixie? Você sabe o que você reduziu ele?" Eu não tava enfrentando um rival. Eu tava enfrentando um irmão mais velho enfurecido. Isso nunca é bom. Esse cara não era um daqueles babacas do ringue. Ele era um cara que tava preocupado com o irmão. Eu entendi ele. Eu tava errada.
"Naquela noite, você não só estragou a perna dele. Você estragou a saúde mental dele. Ele teve que sentar em uma cadeira de rodas daquela noite em diante e ele vinha agindo como um psicopata. Ele ficou tão humilhado pela queda dele que se recusou a falar com ninguém. Ele ficou mudo por sua causa, sua vadia!"
A minha mão foi pra minha boca pra abafar o suspiro e o soluço ao ouvir o que aconteceu com aquele pobre homem. Eu voltei a ser a Casey, minhas barreiras desabaram ao ouvir falar daquele pobre homem. O Adam foi em minha direção, me pegando em seus braços e protegendo o homem de me ver. Eu me forcei a olhar nos olhos dele.
"Eu - Adam, eu..." Eu não sabia o que dizer. O nó enorme tava entupindo as palavras que eu queria falar pra dizer ao homem o quanto eu sentia muito. Flashs do que aconteceu naquela noite vieram à minha mente e eu apertei meus olhos.
O Adam fez shhh para os meus gritos silenciosos enquanto eu escondia meu rosto no peito dele enquanto traçava padrões nas minhas costas pra me acalmar do ataque de pânico que eu tava tendo. Eu nunca me senti tão culpada desde a morte do Bryant. Eu quebrei alguém. Eu quebrei alguém e lá no fundo, a culpa tava me afogando. Depois de um momento de silêncio com apenas meus
gritos silenciosos preenchendo a escuridão da floresta, o estranho na nossa frente falou de novo.
"Eu ouvi você desistir da competição e achei isso uma forma de covardia. Eu não me importo qual foi o seu motivo, mas eu não vou deixar você desistir da luta tão rápido assim. Você vai entrar de novo nessa competição e lutar comigo", ele exigiu.
Eu podia sentir os braços do Adam apertando em volta de mim enquanto um som incoerente escapava da parte de trás da garganta dele. Eu fiquei tensa com o pedido do homem, me soltando do calor e conforto que eu ganhei do Adam.
Enfrentando ele, eu endureci minha expressão. Eu entendi a raiva e fúria dele. Eu não vou revidar se ele pedir uma luta agora. Eu deixaria ele me bater ali mesmo, na hora, mas entrar de novo naquela competição? Isso era absurdo. Eu desisti. Não tinha mais motivo pra participar daquela competição. Ele não precisava esperar até a competição pra me bater ou até mesmo me matar. A menos que...
"Sim, a competição. Eu quero te ver sofrer antes de lutar comigo. Eu quero te enfrentar quando você estiver toda ensanguentada e espancada por todos aqueles oponentes. Se você não sobreviver até me enfrentar, eu vou matar cada um dos seus preciosos familiares", ele me deu um sorriso sinistro.
"Eu vou te fazer sentir o quão devastador é ver alguém que você ama sofrer traumas e deficiências físicas. Eu vou ver essa culpa te comer e te matar lentamente."
Eu estremeeci com as palavras dele, mas reuni coragem suficiente pra cuspir a única pergunta que importa aqui.
"E se eu não entrar de novo?"
Ele me olhou com olhos vazios, "Isso é simples. Eu torturo seus entes queridos; um por um. Eu posso até começar com seus pais, ou talvez até com os pequeninos."
Eu desviei o olhar, "Como eu sei que você não tá blefando?" Eu desafiei fracamente.
Quando você vê um irmão mais velho determinado tentando vingar o irmão mais novo, as chances dele estar blefando são quase zero.
"Eu pareço estar blefando pra você?!" Ele gritou alto, com os olhos arregalados com um toque de olhar maluco. Eu me encolhi, um pequeno medo crescendo em mim. Aquele olhar, era o mesmo olhar que o Dom tinha quando ele confessou que fez parte do assassinato do Bryant.
Não, eu não tava com medo por mim. Eu tava com medo pela minha família. Esse cara não era são. Ele tava além da sanidade, ele tava além de ser racional. Ele tava sedento por vingança. Seja qual for o homem que residiu naquele corpo, já se foi. Ele tava morto.
No lugar dele, tinha um monstro. Um monstro que era digno do medo de todos.
E essa pequena revelação me quebrou por dentro porque isso significava que eu não quebrei apenas um homem. Eu quebrei dois homens; e um deles dolorosamente se parece com o Bryant quando ele tava me protegendo.
O homem, tendo dito a parte dele, fugiu do lugar e me deixou pra explicar tudo pro meu namorado muito confuso.
Deus, o que eu ia fazer?
Não só eu quebrei a sanidade de dois homens, como coloquei minha família e a família que eu prometi proteger em perigo.