Capítulo 116
Quando eu cheguei na casa, já tava começando a escurecer lá fora, porque eu tinha parado pra comprar umas coisas no mercado. Eu tava comendo muita porcaria ultimamente e eu sabia que era porque a mãe não tinha nada pra cozinhar. Então eu decidi ser uma boa filha e pegar umas coisas pra mulher se divertir.
Ou você só quer comer outra coisa que não seja porcaria. Minha consciência me corrigiu. Eu me diverti com a ideia de ser uma filha tão boa pra minha mãe.
Eu nem me dei ao trabalho de gritar que eu cheguei, eles não iam me ouvir de qualquer jeito. Os quartos deles eram mais pro fundo da casa, enquanto o meu era mais perto da porta.
Eu joguei as sacolas de mercado na cozinha, separando tudo nos armários antes de subir pro meu quarto e trocar de roupa pra algo mais confortável.
Coloquei uma camisa velha e um short que parava no meio da coxa. Eu fui pro quarto dos meus pais e lá estavam eles, deitados na cama, os dois no celular com a TV num volume baixo no fundo.
"Mãe, eu comprei umas coisas no mercado pra você poder cozinhar o jantar hoje à noite", eu falei pra ela com um sorriso meloso que só existe pra dar diabetes nas pessoas.
Minha mãe revirou os olhos com um sorriso no rosto. "Você sabe que tem que aprender a cozinhar sozinha, querida." Eu fiz uma cara feia com isso e meu pai fez uma expressão horrível quando percebeu o que a minha mãe disse.
"A gente sabe o que aconteceu da última vez que ela tentou isso." Ele lembrou a minha mãe com firmeza. Eu balancei a cabeça em concordância, meio que torcendo pro meu pai, porque pra ser sincera com todo mundo, eu era simplesmente preguiçosa demais pra cozinhar.
A minha mãe revirou os olhos de novo, o que me fez pensar se os olhos podiam realmente ficar presos numa posição anormal por causa de tanto revirar os olhos.
"Ela vai ter que aprender um dia e você sabe disso. Como ela vai sobreviver sozinha? Quer dizer, ela já tá na faculdade, pelo amor de Deus. O mínimo que ela pode fazer é fritar um ovo pra ela mesma."
Eu abri a boca pra protestar que eu provavelmente sei fritar um ovo pra mim, mas fechei a boca quando percebi que ‘provavelmente' provavelmente não ia colar.
Eu balancei a cabeça pra discussão deles sobre se valia ou não a pena arriscar eu botar fogo na cozinha só pra aprender a cozinhar. Eu saí do quarto deles pra ligar o meu laptop e começar a fazer a lição de casa.
Eu tinha uma luta chegando e eu precisava me manter focada. Eu tava perdendo a vontade de passar por toda essa situação de briga de rua. Tudo em mim queria sair daquela parte horrível da minha vida. Mas eu sabia o quanto eu precisava continuar com isso, eu precisava manter minha família segura, manter todo mundo que eu amo seguro. Eu precisava fazer isso, mesmo que o que eu vi no parque partiu meu coração, pensando que eu podia machucar aquelas crianças se eu ganhasse do Cole.
Ou talvez ele ganhe de você e te mate por você destruir a vida do irmão dele.
Ou isso.
Eu peguei o meu celular e liguei pra casa do Jerry pra conversar com as crianças. Elas geralmente deviam estar na sala a essa hora.
O telefone tocou duas vezes antes de alguém atender. Deu pra ouvir uns barulhos e uma voz irritada flutuou pela chamada. "Eu atendi, Pres, só cuida do Pio."
Meu coração deu uma batida quando a voz grossa me cumprimentou do outro lado da chamada.
"Alô?" Ele limpou a garganta antes de repetir e dessa vez a voz dele soou mais suave, como era quando ele costumava sussurrar piadas no meu ouvido que me faziam rir.
Meu coração pulou e depois caiu uns metros. Eu não sabia o que fazer ou dizer. Eu respondo ele de volta? E se ele lembrar da minha voz?
Eu liguei pra conversar com as crianças, pra ganhar um pouco de força pra continuar, pra me lembrar por quem eu tava lutando. Aquelas crianças têm todo um futuro pela frente e eu ia infernizar a vida de quem deixasse qualquer um estragar isso pra elas.
Eu tava com saudade dele. Eu percebi quando ouvi a voz dele que não tinha nenhum ressentimento. Eu tava com saudade do garoto por quem eu tinha me apaixonado tanto. Era como se uma faca tivesse sido enfiada no meu coração quando eu finalmente percebi porque meu coração tava pesado. Doía porque eu sabia que eu não podia ir lá e abraçá-lo. Eu não podia correr pros braços dele e ter a voz reconfortante dele me dizendo que ia ficar tudo bem.
"Alô?" Ele repetiu mais uma vez e sem pensar, minha boca se abriu sozinha e minha voz saiu.
"Oi", eu respirei de repente. Eu fechei meus lábios com a mão, pensando ‘merda' várias vezes na minha cabeça quando eu percebi o que eu tinha acabado de fazer.