Capítulo 121
Eu ia ligar pro Preston pra avisar ele do que eu descobri sobre o envolvimento do Dom com a lavagem cerebral recente do Adam, mas acho que não preciso mais fazer essa ligação, né.
Desci da minha bike e desliguei o motor, encarando os dois homens enquanto eles se levantavam. Levei minha bike pra garagem, sem falar nada. Quando saí pra cumprimentar os caras, eles pareciam estar tendo uma conversa bem acalorada.
Os dois estavam com uma cara séria. O Adam parecia que ia arrancar os cabelos da cabeça, enquanto o Preston parecia mais exasperado do que o normal.
"Então, rapazes, a que devo esse prazer?" Me certifiquei de manter distância do Adam. Duas brigas já eram o suficiente pra uma noite, três brigas seguidas numa noite ia ser foda e provavelmente ia me fazer cair duro.
"O Adam me surpreendeu hoje à noite pedindo pra eu trazer ele aqui." O Preston disse, simples, e eu levantei a sobrancelha pra mostrar minha preocupação com o QI dele.
"Deixa eu ver se entendi, ele pediu pra você e você trouxe ele aqui porque o último encontro que ele teve comigo foi tão agradável assim?" Perguntei pra ele com uma cara de 'você é burro ou se faz de burro'. Eu achei que esse cara era pra ser mais esperto; mas, pensando bem nos comentários sugestivos que ele fez quando eu conheci ele, um ano atrás, eu me corrigi. Eu sabia que ele não era nenhum gênio no momento em que ele abriu a boca.
"Na minha defesa, ele não pediu pra eu trazer ele pra te ver. Ele me deu seu endereço." O Preston afirmou. Apesar dessa revelação ter feito meu coração dar um pulo, isso não mudou muito meu espanto com o quão burro o Preston consegue ser. Ele não entende que a gente não faz isso com um amigo? O Adam não era meu aliado, não no estado de lavagem cerebral dele; porra, tudo que ele queria agora era provavelmente me estrangular.
Parabéns pra ele por não ter feito isso no momento em que me viu, no entanto.
"Case, ele se lembra." O Preston enfatizou e isso foi o suficiente pra fazer meus olhos voarem pro rosto do Adam. Ele estava me encarando o tempo todo. Eu senti os olhos dele em mim o tempo todo que eu estava falando com o Preston, mas eu estava sendo infantil e teimoso, então fingi não perceber os olhares dele.
"Obrigado por falar de mim como se eu não estivesse aqui o tempo todo." O Adam finalmente falou. Esse Adam com lavagem cerebral não significa nada mais pra mim do que um outro cara que quer me dar uma surra.
Então, me desculpa por não me importar com o que eu falo dele quando ele tá por perto.
Eu levantei a sobrancelha pra ele, "E aí? O que você se lembra?" Eu perguntei. Mais emoções estavam passando por mim do que eu gostaria de admitir pra qualquer um naquela hora. Algo mudou no Adam quando eu finalmente reconheci a presença dele direito. Era como se ele estivesse tentando se comunicar comigo através do contato visual antes de eu finalmente dar um toque nele.
"Tem sido tudo fragmentos. Desde aquela vez que eu te encontrei no beco e você me bateu na cabeça, eu tenho tido flashes de memória que não fazem sentido e são perturbadores, pra dizer o mínimo. Esses sonhos ou memórias; eles contradizem tudo o que me falaram até agora e é difícil decidir no que acreditar. Esses pedaços de sonhos são tão vívidos, é difícil acreditar que eles são só sonhos. Quer dizer, eles devem ser mais alguma coisa, certo?" Os olhos do Adam passearam pelo meu rosto, talvez pra encontrar uma afirmação ou algo assim; qualquer coisa.
Eu não podia entregar nada, eu vi a vulnerabilidade nos olhos dele e lutei contra a vontade de fechar os olhos pra me esconder. Isso podia ser uma armadilha. Ele era só um receptáculo, nada mais.
A menos que ele se lembrasse.
Eu tentei apagar aquela faísca de esperança, mas foi em vão. Droga de esperanças idiotas.
"Você tem visto o Dom." Eu disse, tentando manter minha voz firme.
"Como você sabe disso?" Ele respondeu ao mesmo tempo que os olhos do Preston arregalaram e gritou um alto "Quê?".
Eu fuzilei o Preston com o olhar e ele olhou pros lados como se quisesse ter certeza de que não acordou o bairro inteiro. Estávamos do lado de fora, então foi uma cena bem cômica. Ele olhou de volta pra mim e decidiu repetir a pergunta, dessa vez num grito mais baixo.
"Quê?"
Eu foquei meu olhar no Adam em vez disso.
"O que ele tem te dito?" Eu perguntei pra ele. Ele franziu os olhos pra mim, meio que me acusando.
"Eu não te devo explicações. Eu vim aqui pra encontrar respostas, não pra ser interrogado." Ele cuspiu as palavras. Eu tive que cerrar os dentes pra me segurar e não pular em cima dele e sacudir ele até a cabeça dele cair do corpo.
"Você me deve cada pedacinho de explicação que existe, agora comece a falar." Eu cruzei os braços em desafio. Eu podia ver o Adam perdendo a paciência com a minha teimosia. Ele vai se acostumar, de novo.
"Olha, tudo que eu quero é esclarecer o que tem acontecido na minha vida antes e depois que eu perdi minhas memórias. Não dificulta as coisas pra nenhum de nós. Se você não pode me ajudar, então eu vou fazer um favor pra nós dois e ir embora." O Adam começou a apertar a ponte do nariz em frustração e eu senti uma pontada no meu peito ao ver como a cena era familiar.
é por isso que eu tive que sair da vida dele. Não só por ele, mas por mim também. Isso ia ser muita dor pra eu aguentar. Como tudo parecia quase normal, como se o acidente nunca tivesse acontecido, e fosse tão diferente ao mesmo tempo.
Isso ia me chatear toda vez que ele fizesse algo Adam-like e não fosse o Adam ao mesmo tempo.
Eu olhei pro Preston e vi os olhos dele implorando pra mim. No começo, eu fiquei confuso sobre o que ele queria que eu fizesse. Ele queria que eu continuasse negando as alegações do Adam ou ele queria que eu contasse a verdade pro Adam?
Eu não leio mentes, Pres.
Eu acho que ele percebeu o meu estado confuso e ele moveu os olhos repetidamente de mim pro Adam e eu finalmente entendi. Minhas palmas ficaram suadas e minha respiração começou a ficar mais rápida e superficial a cada segundo. Meu corpo inteiro estava começando a tremer um pouco e eu reconheci a familiaridade dos meus nervos me atacando.
"E aí? Você vai me ajudar?" O Adam pressionou e eu olhei pro Preston, que estava parado um pouco atrás do Adam. Ele estava balançando a cabeça freneticamente e eu fiquei preocupado com o bem-estar do pescoço dele. O cara ia torcer alguma coisa.
Eu olhei pro Adam mais uma vez e murmurei um 'okay', eu levei os dois pra dentro da minha casa pra enrolar e deixar minha respiração diminuir um pouco.
Eu esfreguei as mãos nas minhas calças e as transformei em punhos. Eu tentei inspirar e expirar profundamente pra me acalmar e, aos poucos, eu senti meu corpo parar de tremer. Eu tranquei a porta atrás deles e levei eles pra sala de estar.
A casa estava quieta, completamente vazia de qualquer sinal de vida. Mãe e Pai estavam fora em outra viagem de negócios e não voltariam até a semana que vem. Supostamente tinha jantar me esperando na cozinha, mas todos sabemos que a cozinha estava cheia de facas. Só um idiota traria esse grupo de pessoas pra um quarto cheio de facas e panelas pesadas. Então, eu optei pela sala de estar, que não exige que a gente passe pela cozinha. Se eu tiver sorte, o Adam não vai se lembrar de onde fica a cozinha, caso ele tenha outro daqueles episódios.
Eu liguei a luz da sala de estar e deixei os meninos sentarem no sofá. O Preston agarrou meu braço e deu uma apertada de leve enquanto passava por mim e sentou ao lado do Adam. Eu respirei fundo e me joguei no assento oposto ao sofá. Peguei uma almofada e cruzei as pernas. Melhor me deixar confortável; essa ia ser uma longa noite.